
Vanessa Diffenbaugh  

A linguagem das flores




Victoria Jones sempre foi uma menina arredia, temperamental e carrancuda. Por
causa de sua personalidade difcil, passou a vida sendo jogada de um abrigo para
outro, de uma famlia para outra, at ser considerada inapta para adoo. Ainda
criana, se apaixonou pelas flores e por suas mensagens secretas. Quem lhe ensinou
tudo sobre o assunto foi Elizabeth, uma de suas mes adotivas, a nica que a
menina amou e com quem quis ficar... at pr tudo a perder. Agora, aos 18 anos e
emancipada, ela no tem para onde ir nem com quem contar. Sozinha, passa as
noites numa praa pblica, onde cultiva um pequeno jardim particular. Quando
uma florista local lhe d um emprego e descobre seu talento, a vida de Victoria
parece prestes a entrar nos eixos. Mas ento ela conhece um misterioso vendedor
do mercado de flores e esse encontro a obriga a enfrentar os fantasmas que a
assombram. Em seu livro de estreia, Vanessa Diffenbaugh cria uma herona intensa
e inesquecvel. Misturando passado e presente num intricado quebra-cabea, A
linguagem das flores  essencialmente uma histria de amor  entre me e filha,
entre homem e mulher e, sobretudo, de amor-prprio.
     DURANTE OITO ANOS, sonhei com fogo. rvores se
incendiavam quando eu passava por elas, oceanos ardiam em
chamas. A fumaa adocicada impregnava meus cabelos
enquanto eu dormia e, quando eu despertava, o aroma
permanecia em meu travesseiro como uma nuvem. Porm, no
instante em que meu colcho comeou a queimar, acordei
sobressaltada. O cheiro forte em nada se parecia com o vapor
doce dos meus sonhos; os dois eram to diferentes quanto o
jasmim-neve   e   o   jasmim-carolina,   separao   e   unio.
Inconfundveis.
     Parada no meio do quarto, localizei a origem do fogo.
Uma fileira bem ordenada de fsforos se estendia no p da
cama. Eles se acenderam, um aps o outro, formando uma
cerca de estacas flamejantes  beira do colcho. Quando vi o
fogo, senti um terror incompatvel com o tamanho das
chamas e, por um momento paralisante, voltei a ter 10 anos,
com uma sensao de desespero e esperana que nunca
antes experimentara e que jamais viria a ter de novo.

     Mas o colcho sinttico sem lenol no se incendiou
como aconteceu com o cardo naquele final de outubro.
Apenas chamuscou-se antes que o fogo se apagasse.

     Era meu aniversrio de 18 anos.

     Na sala de estar, uma fileira de garotas inquietas estava
sentada no sof. Elas me olharam de alto a baixo, parando
em meus ps descalos, sem queimaduras. Uma delas
pareceu aliviada; outra, decepcionada. Se eu fosse ficar mais
uma semana, teria memorizado cada expresso. Ento me
vingaria colocando pregos enferrujados em solas de sapatos
ou pedrinhas em tigelas de cereais. Certa vez, cravei a ponta
de um cabide de metal no ombro de uma colega de quarto
enquanto ela dormia por causa de uma ofensa bem menos
grave do que um incndio premeditado.

     Porm, em uma hora eu no estaria mais ali. Todas as
garotas sabiam disso.

     Uma delas se levantou do meio do sof. Parecia jovem 
uns 15, no mximo 16 anos  e era bonita de um jeito que eu
no via sempre: boa postura, pele clara, roupas novas. No a
reconheci de imediato, mas, quando atravessou a sala, notei
algo de familiar no modo como se movia, com os braos
arqueados, um tanto agressiva. Embora ela tivesse acabado
de se mudar para l, no me era estranha. Ento me dei
conta de que j havia morado com ela, nos anos que
precederam a vida com Elizabeth, quando eu estava mais
revoltada e agressiva do que nunca.

     Ela parou a poucos centmetros do meu corpo, seu
queixo erguido projetando-se no espao entre ns duas.

      O fogo  disse, com a voz tranquila  foi presente de
todas ns. Feliz aniversrio.

     Atrs dela, as garotas se agitaram no sof. Uma cobriu a
cabea com um capuz, outra se enrolou um pouco mais num
cobertor. A luz da manh cintilou naquela fileira de olhos
baixos e, de repente, elas me pareceram jovens aprisionadas.
As nicas maneiras de sair de um abrigo como aquele eram
fugir, ser expulsa por causa da idade ou ser internada numa
clnica   psiquitrica.   Crianas   daquele   tipo   no   eram
adotadas; raramente, quase nunca, iam para casa. Aquelas
garotas sabiam quais eram suas chances. Em seus olhos,
no havia nada alm de medo: de mim, de suas colegas, da
vida que haviam arranjado para si mesmas ou que o destino
lhes reservara. Senti uma inesperada onda de compaixo. Eu
estava partindo. Elas no tinham escolha, precisavam ficar.

     Tentei forar minha passagem em direo  porta, mas a
garota deu um passo para o lado, bloqueando meu caminho.
        Sai da frente  falei.

       Uma moa que trabalhava no turno da noite colocou a
cabea para fora da cozinha. No devia ter nem 20 anos e
estava com mais medo de mim do que qualquer uma das
garotas na sala.

        Por favor  disse, em tom de splica.   a ltima
manh dela. Deixe-a passar.

       Esperei preparada, enquanto a garota na minha frente
encolhia a barriga, com os punhos cerrados. Mas logo em
seguida ela balanou a cabea e virou as costas. Passei por
ela.

       Ainda faltava uma hora para Meredith vir me buscar.
Abri a porta da frente e sa. So Francisco amanhecera em
meio  neblina, eu sentia o frio piso de concreto da varanda
sob    meus    ps    descalos.   Detive-me,   pensativa.   Tinha
considerado dar o troco s garotas, algo mordaz e rancoroso,
porm me senti estranhamente indulgente. Talvez por ter
completado 18 anos e de repente aquilo estar acabado para
mim, eu tenha sido capaz de olhar para a ofensa delas com
ternura. Antes de ir embora, senti vontade de dizer algo que
tirasse o medo de seus olhos.

       Desci a Fell Street e dobrei na esquina com a Market.
Diminu o ritmo ao me aproximar de um cruzamento
movimentado, sem saber ao certo aonde ir. Em um dia
comum, eu teria colhido plantas no Duboce Park, vasculhado
o matagal do terreno baldio da Page Street com a Buchanan
ou roubado ervas do mercado do bairro. Por mais de uma
dcada, passei cada momento livre decorando os significados
e descries cientficas das flores, embora quase nunca tenha
usado a maior parte desse conhecimento. Utilizava sempre as
mesmas: um buqu de calndulas, luto; um vaso de cardos,
misantropia; um pouco de manjerico seco, dio. Minha
mensagem raramente variava: um monte de cravos vermelhos
para a juza quando percebi que jamais voltaria para o
vinhedo e uma penia para Meredith, sempre que conseguia
encontr-las. Agora, enquanto procurava uma floricultura na
Market Street, eu vasculhava meu dicionrio mental.

     Trs quarteires depois, cheguei a uma loja de bebidas,
onde buqus embalados em papel murchavam em baldes
debaixo das janelas gradeadas. Parei em frente  loja. Os
arranjos   eram   quase   todos   de   flores   variadas,   com
mensagens conflitantes. Havia poucas opes de buqus
coerentes: rosas vermelhas e cor-de-rosa, um buqu murcho
de cravos e, explodindo de seu cone de papel, uma profuso
de dlias roxas. Dignidade. Soube no mesmo instante que
essa era a mensagem que queria transmitir. Virando as
costas para o espelho inclinado em cima da porta, enfiei as
flores dentro do meu casaco e sa correndo.

     Estava sem flego quando cheguei de volta ao abrigo.
Encontrei a sala de estar vazia e entrei para desembrulhar as
dlias. As flores tinham um formato perfeito, com camadas de
ptalas roxas de pontas brancas se abrindo a partir dos
miolos espremidos no centro, o que lembrava os raios de uma
estrela. Arrebentei com os dentes o elstico que as prendia e
desembaracei os caules. As garotas jamais entenderiam o
significado das dlias (que era por si s uma declarao
ambgua de encorajamento), mesmo assim, senti uma leveza
incomum enquanto seguia pelo longo corredor, enfiando um
caule na fresta de cada uma das portas fechadas.

     Dei as flores restantes para a moa que trabalhava no
turno da noite. Ela estava parada  janela da cozinha,
esperando sua colega chegar para substitu-la.

      Obrigada  falou confusa, quando lhe entreguei o
buqu.

     Ela girou os caules rgidos entre as palmas das mos.

     Meredith chegou s 10 horas, como prometera. Eu
estava esperando na varanda, com uma caixa de papelo
equilibrada sobre as coxas. Em 18 anos, o que eu mais havia
juntado eram livros: o Dicionrio de Flores e o Peterson Field
Guide to Pacific States Wildflowers, meu guia de flores
silvestres (Elizabeth os enviara para mim um ms depois de
eu sair de sua casa); livros de botnica de vrias bibliotecas
de East Bay, a regio ao leste da baa de So Francisco;
edies de bolso de poesia vitoriana roubadas de livrarias
pouco movimentadas. Pilhas de roupas dobradas cobriam os
livros, uma coleo de peas encontradas e roubadas,
algumas cabiam em mim, outras no. Meredith estava me
levando para um lar provisrio chamado The Gathering
House, no bairro de Outer Sunset. Eu estava na lista de
espera desde os 10 anos.
      Feliz aniversrio  disse Meredith enquanto eu
colocava minha caixa no banco de trs de seu carro.

     Fiquei em silncio. Ns duas sabamos que aquele podia
ou no ser o dia do meu aniversrio. O primeiro relatrio de
meu dossi registrava minha idade como aproximadamente
trs semanas. A data e o local de meu nascimento eram
desconhecidos, assim como meus pais biolgicos. O dia 1 de
agosto tinha sido escolhido para fins de emancipao, e no
para comemoraes.

     Eu me afundei no banco do carona ao lado de Meredith,
fechei a porta e esperei que ela se afastasse do acostamento.
Suas unhas postias tamborilavam no volante. Afivelei o cinto
de segurana. Mesmo assim, o carro continuou parado. Virei-
me para encarar Meredith. No havia tirado o pijama, ento
levantei meus joelhos vestidos de flanela at o peito e cobri as
pernas com minha jaqueta. Corri os olhos pelo teto do carro
enquanto esperava que ela dissesse alguma coisa.

      Bem, voc est pronta?  perguntou.

     Dei de ombros.

      Ento  isso  comeou Meredith.  Sua vida comea
agora. Daqui pra frente, no pode culpar mais ningum alm
de si mesma.

     Meredith Combs, a assistente social responsvel por
selecionar as inmeras famlias adotivas que me devolveram,
queria me falar sobre culpa.
     PRESSIONEI      A   TESTA   contra   a   janela   e   fiquei
observando as colinas passarem, secas por conta do vero. O
carro de Meredith cheirava a fumaa de cigarro e, no cinto de
segurana, havia mofo de algo que uma criana tivera
permisso de comer ali. Eu tinha 9 anos. Estava no banco de
trs, de camisola, com meu cabelo curto desgrenhado. As
coisas no estavam saindo como Meredith queria. Ela havia
comprado um vestido para a ocasio, azul-claro, com timo
caimento, enfeitado com bordados e renda, mas eu me
recusara a us-lo.

     Meredith olhava para a estrada  sua frente. Ela no me
viu destravar o cinto de segurana, baixar a janela e colocar a
cabea para fora at pressionar minha clavcula contra a
porta. Erguendo meu queixo contra o vento, fiquei esperando
que ela mandasse eu me sentar. Ela olhou para trs, mas
no disse nada. Sua boca permaneceu uma linha cerrada e
eu no conseguia ver sua expresso por trs dos culos
escuros.

     Continuei assim at Meredith pressionar um boto na
sua porta que fez a janela subir alguns centmetros sem
aviso. O vidro grosso se apertou contra meu pescoo esticado.
Saltei para trs, quicando no banco e caindo no cho.
Meredith continuou a fechar as janelas at o barulho do
vento ser substitudo pelo silncio de dentro do carro. No
olhou para trs. Enroscando-me no carpete sujo, peguei uma
mamadeira com leite ranoso debaixo do banco do carona e a
atirei contra Meredith. O objeto atingiu seu ombro e
ricocheteou de volta para mim, derramando um lquido azedo
nos meus joelhos. Ela nem se mexeu.

      Voc quer pssego?  perguntou.

     Eu nunca recusava comida e Meredith sabia disso.

      Quero.

      Ento volte para o seu lugar, coloque o cinto que
comprarei o que voc quiser na prxima barraca de frutas
que aparecer.

     Subi no banco e passei o cinto de segurana em torno
da cintura.
     Quinze minutos depois, Meredith parou no acostamento
e comprou dois pssegos e uns 200 gramas de cerejas, que
contei enquanto comia.

      Eu no deveria lhe dizer isto  comeou ela enquanto
voltvamos para a estrada.

     Meredith falava devagar, prolongando a frase para dar
mais efeito. Ento fez uma pausa e olhou para mim. Sem
desviar o olhar da janela, descansei a bochecha contra o
vidro, impassvel. Ento ela prosseguiu:

      Mas acho que voc merece saber. Esta  sua ltima
chance. A ltima mesmo, Victoria... est me ouvindo?  No
respondi.  Quando voc completar 10 anos, o juizado vai
declar-la inapta para adoo e nem mesmo eu vou continuar
tentando convencer as famlias a aceit-la. Se no der certo
desta vez, voc ir para um abrigo atrs de outro at a sua
emancipao. Apenas me prometa que vai pensar nisso.

     Baixei o vidro e cuspi caroos de cereja ao vento. Fazia
apenas uma hora que Meredith tinha me buscado e me
levado embora de minha primeira estadia em um abrigo. Foi
ento que percebi que devia ter sido mandada para l por um
motivo  para me preparar para aquele exato momento. No
tinha feito nada para ser expulsa do meu lar adotivo e fiquei
no abrigo apenas uma semana at que Meredith foi me
buscar a fim de me levar para Elizabeth.

     Seria tpico de Meredith, pensei, me fazer sofrer para
provar que tem razo. A equipe do abrigo tinha sido cruel.
Todas as manhs, o cozinheiro fazia uma garota gorda e
negra comer com a blusa levantada at o pescoo, com a
barriga saliente exposta, para que no se esquecesse de que
no deveria comer demais. Depois, a responsvel pelas
crianas, Srta. Gayle, escolhia uma de ns para ficar de p 
cabeceira de uma longa mesa e explicar por que nossa famlia
no nos queria. Ela s me escolheu uma vez e, como fui
abandonada ao nascer, pude simplesmente dizer: "Minha
me no queria um beb." Outras garotas contavam histrias
sobre as coisas terrveis que haviam feito com seus irmos ou
sobre como eram responsveis por seus pais terem se
tornado dependentes qumicos e quase sempre choravam.

     Porm, se o plano de Meredith ao me colocar no abrigo
era que eu ficasse assustada e me comportasse, no tinha
dado certo. Apesar da equipe, gostei de l. As refeies eram
servidas em horrios fixos, eu dormia com dois cobertores e
ningum fingia que me amava.

     Comi a ltima cereja e cuspi o caroo na nuca de
Meredith.

      Apenas pense nisso  repetiu ela.

     Como se quisesse me subornar para que eu refletisse
sobre o assunto, ela entrou num drive-thru e comprou uma
poro de peixe com batatas fritas fumegantes e um milk-
shake   de   chocolate.   Comi   depressa,   fazendo   sujeira,
enquanto observava a paisagem rida de East Bay se
transformar no caos superpovoado de So Francisco e, em
seguida, se abrir em uma grande extenso de gua. Quando
atravessamos a ponte Golden Gate, minha camisola j estava
coberta de pssego, cerejas, ketchup e sorvete.

     Passamos por campos secos, por uma fazenda de flores
e por um estacionamento vazio at enfim chegarmos a um
vinhedo, com as plantas organizadamente enfileiradas sobre
as colinas ondulantes. Meredith freou de modo brusco e
dobrou  esquerda, pegando uma longa estrada de terra
batida e acelerando pelo caminho acidentado como se no
pudesse esperar nem mais um instante para me tirar de
dentro do carro. Passamos a toda por mesas de piquenique e
por carreiras de videiras bem cuidadas, com troncos grossos
e os ramos crescendo sobre grades de arame baixas. Meredith
diminuiu um pouco a velocidade em uma curva antes de
acelerar de novo, levantando poeira, e seguir em direo a um
aglomerado de rvores altas no centro da propriedade.

     Quando parou e a poeira baixou, vi uma casa de fazenda
branca. Tinha dois andares e um telhado pontiagudo, uma
varanda envidraada e cortinas de renda nas janelas. 
direita, havia um pequeno trailer e mais de um barraco
caindo aos pedaos, com brinquedos, ferramentas e bicicletas
espalhados entre eles. Como j havia morado num trailer
antes, perguntei-me imediatamente se Elizabeth teria um
sof-cama ou se eu seria obrigada a dividir o quarto com ela.
No gostava de ouvir as pessoas respirando.

     Meredith no esperou para ver se eu iria sair do carro
espontaneamente. Desafivelou meu cinto de segurana, me
agarrou por baixo dos braos e me arrastou at a entrada do
casaro, enquanto eu chutava o ar. Esperava que Elizabeth
fosse sair do trailer, ento estava de costas para a varanda e
no a vi antes de sentir seus dedos ossudos no meu ombro.
Com um grito, sa correndo, descala, at o outro lado do
carro e me agachei atrs dele.

      Ela no gosta de ser tocada  ouvi Meredith dizer para
Elizabeth com evidente irritao.  Eu avisei. Voc precisa
esperar que ela se aproxime.

     Fiquei com raiva por ela saber disso. Esfreguei a pele
onde Elizabeth tinha me agarrado, como se tentasse apagar
suas impresses digitais, e continuei atrs do carro, fora de
vista.

      Vou esperar  disse Elizabeth.  Falei que iria e no
pretendo faltar com minha palavra.

     Meredith comeou a listar os motivos pelos quais no
poderia ficar para nos ajudar a nos conhecermos melhor: um
av doente, um marido preocupado e seu medo de dirigir 
noite. Elizabeth ouvia com impacincia, batendo o p perto do
pneu traseiro. Em instantes Meredith iria embora, deixando-
me       exposta   no   caminho   de   cascalho.   Eu   recuei,
engatinhando. Depois de disparar para trs de uma nogueira,
levantei-me e sa correndo.

     Assim que as rvores acabaram, agachei-me na primeira
fila de videiras, escondendo-me no meio de uma delas,
especialmente densa. Puxei os galhos soltos para baixo e
envolvi meu corpo magro com eles. Do meu esconderijo, ouvia
Elizabeth vindo na minha direo e, ajustando os ramos,
pude v-la andando por um dos corredores. Quando ela
passou pelo lugar onde eu estava, senti-me aliviada e deixei
cair a mo com a qual cobria a boca.

     Erguendo o brao, apanhei uma uva do cacho mais
prximo e mordi sua casca grossa. Estava amarga. Eu a
cuspi e, uma a uma, peguei as outras uvas do cacho e as
esmaguei com o p, o suco jorrando entre meus dedos.

     No vi nem escutei Elizabeth voltar na minha direo.
Mas, assim que comecei a esmagar um segundo cacho de
uvas, ela enfiou as duas mos no meio dos galhos e me
agarrou pelos ombros, arrancando-me de meu esconderijo.
Ento, me segurou  sua frente com os braos estendidos.
Meus ps balanavam a um centmetro do cho enquanto ela
me analisava.

      Eu cresci aqui  falou.  Conheo todos os bons
esconderijos.

     Tentei me libertar, mas Elizabeth me segurava firme
pelos dois braos. Ela colocou meus ps nos cho, mas
continuou me prendendo com a mesma fora. Chutei terra
para cima de suas canelas e, como ela no me soltou, dei
pontaps em seus tornozelos. Ela no recuou.

     Rosnei e tentei morder seu brao esticado, mas ela
previu o que eu faria e agarrou meu rosto. Apertou minhas
bochechas at minha mandbula afrouxar e meus lbios
formarem um bico. Doeu e respirei fundo, sugando o ar pela
boca.

      Nada de morder  disse, inclinando-se para a frente
como se fosse beijar meus lbios rosados e franzidos, mas
parou a poucos centmetros do meu rosto, seus olhos escuros
perfurando os meus.  Eu gosto de ser tocada. Voc vai ter
que se acostumar com isso.

     Em seguida, abriu um sorriso alegre e soltou meu rosto.

      No vou me acostumar  jurei.  Nunca.

     No entanto, parei de lutar e deixei que ela me arrastasse
at a varanda e para dentro da casa fria e escura.
    MEREDITH      FEZ UMA CURVA,        saindo   da Sunset
Boulevard e seguindo muito devagar pela Noriega Street,
lendo cada uma das placas da rua. Um motorista impaciente
buzinou atrs de ns.

    Ela vinha falando sem parar desde a Fell Street e a lista
de motivos que tornavam minha sobrevivncia improvvel
poderia se estender por metade de So Francisco: no tinha
diploma, motivao, ningum para me apoiar ou o mnimo de
competncia social. Ela perguntava quais eram os meus
planos, exigindo que eu pensasse em minha autossuficincia.

    Eu a ignorava.
     Sempre tinha sido assim entre ns duas. Quando
pequena, eu absorvia seu otimismo tagarela, sentada na
beira da cama enquanto ela escovava e tranava meus
cabelos castanhos e finos, prendendo-os com uma fita antes
de me apresentar como um presente para uma nova me ou
um novo pai. Mas, com o passar dos anos,  medida que as
famlias me devolviam, uma aps outra, Meredith parecia
perder as esperanas. A maneira carinhosa como costumava
pentear meus cabelos se tornou bruta, oscilando ao ritmo dos
seus sermes. As recomendaes sobre como eu deveria agir
se   tornavam     mais   longas   a   cada   troca   de   lar   e    o
comportamento esperado ficava cada vez mais distante da
criana que eu realmente era. Meredith mantinha uma lista
de meus defeitos em sua agenda e os lia  juza como se
fossem condenaes. "Distante. Temperamental. Carrancuda.
Sem remorsos." Eu me lembro de cada uma de suas palavras.

     Porm, apesar das frustraes, Meredith no desistiu do
meu caso. Recusou-se a transferi-lo da unidade de adoes
mesmo quando a juza, cansada de mim, sugeriu, no vero
em que completei 8 anos, que talvez ela j tivesse feito tudo o
que podia. Meredith negou sem titubear. Por um instante de
surpresa   e     animao,   acreditei   que   sua    reao        era
consequncia de algum afeto oculto por mim, mas, quando
olhei em sua direo, vi sua pele clara corar de vergonha. Ela
era minha assistente social desde que eu tinha sido
abandonada; se eu fosse considerada um fracasso, seria o
fracasso dela.
     Ns paramos em frente  Gathering House, uma casa de
estuque cor de pssego com telhado plano, em uma rua cheia
de outras casas de estuque cor de pssego com telhado
plano.

      Trs meses  falou Meredith.  Quero ouvir voc dizer
isso. Quero ter certeza de que entendeu. Trs meses de
aluguel grtis. Depois disso, ou paga ou vai embora.

     Fiquei calada. Meredith saiu do carro e bateu a porta
atrs de si.

     Minha caixa tinha virado no banco de trs durante a
viagem, espalhando minhas roupas sobre o assento. Eu as
empilhei de novo em cima dos livros e subi os degraus da
entrada atrs de Meredith. Ela tocou a campainha.

     Esperamos mais de um minuto at a porta se abrir,
revelando um grupo de meninas paradas no hall. Apertei
minha caixa contra o peito.

     Uma garota baixa, de pernas rolias, com cabelos loiros
e longos, abriu a tela de metal e estendeu a mo.

      Eu sou Eve.

     Meredith pisou no meu p, mas no estendi minha mo
para cumprimentar a garota.

      Esta  Victoria Jones  falou, empurrando-me para a
frente.  Ela faz 18 anos hoje.

     O grupo murmurou os parabns e duas garotas
trocaram olhares com as sobrancelhas arqueadas.
      Alexis foi despejada na semana passada  disse Eve. 
Voc vai ficar no quarto dela.

     Ela se virou para me levar at l e eu a segui por um
corredor escuro e acarpetado at uma porta aberta. Depois de
entrar, fechei a porta e girei a chave.

     O quarto era de um branco ofuscante. Cheirava a tinta
fresca e, quando toquei as paredes, elas estavam grudentas.
O pintor tinha sido descuidado. O carpete, que um dia fora
branco como as paredes, mas tinha se encardido com o uso,
estava respingado de tinta junto ao rodap. Desejei que ele
tivesse ido em frente, pintando o carpete todo, o colcho de
solteiro e o criado-mudo de madeira escura. O branco era
limpo e novo e gostei da ideia de aquelas coisas no terem
pertencido a ningum antes de mim.

     Meredith me chamou do corredor. Ela bateu  porta.
Depois bateu outra vez. Larguei minha caixa pesada no meio
do quarto. Tirei minhas roupas de dentro dela e as empilhei
no cho do armrio, colocando meus livros sobre o criado-
mudo. Quando a caixa estava vazia, rasguei-a em tiras para
cobrir o colcho sem lenol e me deitei. A luz se derramava
por uma pequena janela e refletia nas paredes, aquecendo a
pele de meu rosto, meu pescoo e minhas mos. Notei que a
janela era voltada para o sul, o que favorecia orqudeas e
bulbos em geral.

      Victoria?  insistiu Meredith.  Preciso saber quais so
os seus planos. Apenas me diga isso e deixo voc em paz.
     Ignorando o som dos ns de seus dedos contra a
madeira, fechei os olhos, at que ela parou de bater. Quando
tornei a abri-los, havia um envelope no cho, perto da porta.
Dentro dele, havia uma nota de 20 dlares e um bilhete que
dizia: Compre comida e procure um emprego.

     Com a nota de 20 dlares de Meredith, comprei sete
gales de leite integral. Todas as manhs, durante uma
semana, eu ia  venda da esquina, comprava o leite e bebia
aquele lquido encorpado devagar ao longo do dia enquanto
andava pelos parques municipais e pelos ptios das escolas,
identificando as plantas da regio. Como jamais tinha
morado to perto do mar, esperava estranhar a paisagem.
Imaginei que a espessa neblina matinal, que pairava a poucos
centmetros do solo, cultivasse uma espcie de vegetao que
eu nunca tinha visto. Mas, exceto pelos montes volumosos de
babosas perto da orla, com suas flores altas e vermelhas que
apontavam     para   o   cu,   o   que   encontrei   foi   uma
surpreendente ausncia de novidades. As mesmas plantas
estrangeiras que tinha visto em jardins e viveiros por toda a
baa de So Francisco  cambars, buganviles, jasmineiros-
bastardos, capuchinhas  dominavam a regio. A nica
diferena era o tamanho. Envolvidas pela umidade opaca da
costa, as plantas se tornavam maiores, mais vivas e mais
selvagens, escondendo as cercas baixas e os barraces de
jardinagem.

     Quando eu acabava de tomar meu galo de leite, voltava
para casa, cortava-o ao meio com uma faca de cozinha e
esperava a noite chegar. A terra no canteiro do vizinho era
escura e frtil, por isso a transferi para meus vasos de flores
improvisados com uma colher de sopa. Depois de fazer
buracos no fundo dos gales, eu os deixava no cho, no meio
do quarto, onde podiam receber luz do sol por algumas horas
no final das manhs.

     Eu iria procurar trabalho; sabia que precisava fazer isso.
Mas, pela primeira vez na vida, tinha meu prprio quarto com
uma porta que podia trancar e ningum para me dizer aonde
ir ou o que fazer. Antes de comear a procurar emprego,
decidi que iria cultivar um jardim.

     Ao fim da primeira semana, eu j tinha 14 vasos e
vasculhara um raio de 16 quadras para saber quais eram
minhas opes. Priorizando flores que desabrochavam no
outono, arranquei plantas inteiras de quintais, jardins
comunitrios e pracinhas. Geralmente voltava para casa a p,
com bolas de razes lamacentas aninhadas nas mos, porm
mais de uma vez acabei me perdendo ou indo parar longe
demais da Gathering House. Quando isso acontecia, eu
entrava escondida em um nibus pela porta de trs,
procurava um banco vazio e seguia nele at a vizinhana me
parecer familiar. De volta ao meu quarto, separava as razes
arrancadas com cuidado, depois as cobria com terra adubada
e as regava abundantemente. A gua dos gales era escoada
direto no carpete, que a absorvia. Com o passar dos dias,
ervas daninhas comearam a brotar em meio  fibra gasta.
Eu observava com ateno e arrancava as espcies invasivas
quase antes de elas conseguirem irromper da escurido.

     Uma vez por semana, Meredith aparecia para ver como
eu estava. A juza a havia designado como meu contato
permanente, pois a lei de emancipao exigia que eu tivesse
algum tipo de vnculo e no havia mais ningum na minha
vida. Eu me esforava ao mximo para evit-la. Ao voltar das
minhas caminhadas, observava a Gathering House da
esquina e s subia os degraus da frente se seu carro branco
no estivesse parado na entrada. Com o tempo, Meredith
percebeu minha ttica e um dia, no comeo de setembro, abri
a porta e deparei com ela sentada  mesa da sala de jantar.

      Onde est seu carro?  perguntei.

      Estacionado do outro lado do quarteiro. No vejo voc
h um ms, ento deduzi que estivesse me evitando. Tem
algum motivo para isso?

      Nenhum.

     Andei at a mesa e afastei os pratos sujos que algum
deixara ali. Ao me sentar, coloquei punhados de lavanda 
que havia arrancado de um quintal no bairro de Pacific
Heights  sobre a madeira riscada entre ns.

        Lavanda      falei,   entregando-lhe   um   ramo.   
Desconfiana.

     Meredith girou o ramo entre o polegar e o indicador e o
largou sobre a mesa, desinteressada.
      E o emprego?  perguntou.

      Que emprego?

      Voc tem algum?

      Por que teria?

     Meredith suspirou. Pegou a lavanda que eu tinha lhe
dado e a atirou, com a ponta para frente, na minha direo. A
flor caiu de bico como um avio de papel malfeito.
Apanhando-a da mesa, alisei suas ptalas amarrotadas com o
polegar.

      Voc teria um emprego  disse Meredith , porque
procurou, se candidatou e foi contratada. Porque, se no fizer
isso, ser despejada em seis semanas e ningum vai abrir a
porta para voc em uma noite fria.

     Olhei para a porta da frente, perguntando-me por
quanto tempo ela ainda ficaria ali.

      Voc tem que querer  disse Meredith.  S posso
ajudar at certo ponto. No fim das contas, voc tem que
querer.

     Querer o qu? Era o que eu sempre me perguntava
quando ela dizia isso. Eu queria que Meredith fosse embora.
Queria beber o leite que ficava na prateleira superior da
geladeira e que tinha uma etiqueta onde se lia LORRAINE e
acrescentar o galo vazio  coleo no meu quarto. Queria
plantar a lavanda perto do meu travesseiro e adormecer
sentindo seu aroma refrescante.
     Meredith se levantou.

      Voltarei na prxima semana quando voc menos
esperar e quero ver um monte de formulrios de solicitao
de emprego na sua mochila.  Ela parou  porta.  Vai ser
muito difcil para mim despejar voc, mas saiba que 
exatamente isso que farei.

     No acreditei que fosse ser difcil.

     Fui at a cozinha e abri o freezer. Fiquei revirando
rolinhos primavera e croquetes de salsicha congelados at
ouvir a porta da frente se fechar.

     Passei minhas ltimas semanas na Gathering House
transferindo o jardim de meu quarto para a McKinley Square,
um pequeno parque municipal na parte mais alta do bairro
de Potrero Hill. Descobri aquele lugar enquanto andava pelas
ruas em busca de cartazes de oferta de emprego e fui
distrada pela perfeita combinao de sol, sombra, solido e
segurana do parque. Havia um pequeno playground com
cho de areia e um trepa-trepa no meio de um gramado
quadrangular bem cuidado, mas, depois dele, o terreno era
ngreme e arborizado, com vista para o Hospital Geral de So
Francisco e uma fbrica de cerveja. Em vez de continuar
procurando emprego, transportei meus gales um por um at
aquele local isolado. Escolhi cuidadosamente a disposio de
cada planta: as que gostavam de sombra, debaixo de rvores
altas; as que precisavam de sol, uns 10 metros colina abaixo,
longe da penumbra.
      Na manh do meu despejo, acordei antes do amanhecer
em meu quarto vazio. O cho ainda estava mido e sujo nas
partes em que os gales de leite tinham ficado. Minha
iminente condio de sem-teto no tinha sido uma deciso
consciente. No entanto, quando levantei da cama para me
vestir, fiquei surpresa ao descobrir que no estava com medo.
Em vez do temor e da raiva que esperava, eu estava tomada
de uma ansiedade nervosa, uma sensao parecida com a
que experimentava na infncia sempre que ia para um novo
lar adotivo. Agora, adulta, minhas esperanas para o futuro
eram simples: queria ficar sozinha, cercada de flores. Parecia
que, enfim, iria conseguir exatamente o que desejava.

      Meu quarto estava vazio exceto por trs mudas de
roupa, minha mochila, uma escova de dentes, gel para cabelo
e os livros que Elizabeth tinha me dado. Na noite anterior, eu
ficara deitada na cama, ouvindo as meninas que moravam
comigo revirarem o restante das minhas coisas como animais
famintos devorando os mortos. Este era o procedimento-
padro em lares provisrios ou abrigos: fazer a limpa nas
coisas deixadas para trs por crianas expulsas s pressas,
aos   prantos.   Minhas    colegas,   embora    emancipadas,
mantinham a tradio.

      Fazia anos  quase 10  que eu no participava desse
ritual, mas ainda me lembrava da emoo de encontrar algo
comestvel, algo que pudesse vender na escola por um
trocado, algo misterioso ou pessoal. Quando estava no ensino
fundamental, comecei a colecionar esses pequenos objetos
esquecidos como se fossem tesouros  um pingente de prata
com a letra M gravada; uma pulseira de relgio azul, imitando
couro de cobra; um porta-remdio do tamanho de uma
moeda de 25 centavos contendo um molar manchado de
sangue. Eu os enfiava numa bolsa de tela com zper que
havia roubado de uma lavanderia. Os objetos despontavam
dos buracos minsculos do tecido  medida que a bolsa
ficava cheia e pesada.

     Durante algum tempo, tentei me convencer de que
estava guardando aqueles objetos para seus verdadeiros
donos  no para devolv-los, mas para us-los em troca de
comida ou favores se por acaso voltssemos a nos encontrar
em outro abrigo. Porm,  medida que fui crescendo, comecei
a me tornar possessiva com a coleo, contando para mim
mesma as histrias de cada objeto vrias vezes: a poca em
que morei com Molly, a garota que adorava gatos; a colega de
beliche que tivera o brao quebrado ao roubarem seu relgio;
o apartamento de poro no qual Sarah descobriu a verdade
sobre a Fada dos Dentes. Meu apego quelas coisas no se
baseava em nenhum vnculo com as pessoas. Na maioria das
vezes eu as evitara, ignorando seus nomes, sua situao e
suas esperanas para o futuro. Mas, com o tempo, os objetos
comearam a parecer uma srie de pistas do meu passado,
uma trilha de migalhas de po e eu tinha a vaga sensao de
querer   percorr-la   de   volta   at   a   origem   de   minhas
lembranas. Ento, numa apressada e catica mudana de
lar, fui obrigada a deixar a bolsa para trs. Depois disso,
passei anos recusando-me a fazer malas, chegando a cada
nova casa de mos teimosamente vazias.

     Comecei a me vestir depressa: duas camisetas, seguidas
por trs blusas e um bluso com capuz, cala de stretch
marrom, meias e sapatos. Meu cobertor de l marrom no
caberia na mochila, ento dobrei-o ao meio, amarrei-o em
volta da cintura e fiz pregas com alfinetes de segurana mais
ou menos a cada 2 centmetros. Juntei a parte de baixo e a
prendi em camadas, como um saiote. Por cima de tudo isso,
vesti duas saias de comprimentos diferentes, a primeira
longa, rendada e laranja; a segunda, de corte evas e cor de
vinho. Analisei meu reflexo no espelho do banheiro enquanto
escovava os dentes e lavava o rosto, satisfeita ao ver que no
parecia atraente nem repulsiva. Minhas curvas estavam bem
escondidas debaixo das roupas e o corte de cabelo extracurto
que eu mesma fizera na noite anterior ressaltava de maneira
quase assustadora meus olhos azuis brilhantes  o nico
trao marcante num rosto que, em todos os outros aspectos,
 bastante comum. Sorri para o espelho. No parecia uma
sem-teto. Pelo menos, ainda no.

     Detive-me no vo da porta de meu quarto vazio. A luz do
sol se refletia nas paredes brancas. Perguntei-me quem o
ocuparia em seguida e o que as pessoas iam pensar das ervas
que brotavam do carpete prximo ao p da cama. Se tivesse
pensado antes, teria deixado um galo cheio de erva-doce
para a prxima garota. A planta sedosa e seu cheiro
adocicado seriam reconfortantes. Mas agora era tarde.
Balancei a cabea para me despedir do quarto que no seria
mais meu, sentindo uma repentina gratido pela maneira
como o sol batia ali, pela porta com chave, pelo breve
privilgio do tempo e do espao.

     Caminhei, apressada, para a sala de estar. Pela janela,
vi o carro de Meredith j parado na entrada, com o motor
desligado. Ela estava observando seu reflexo no retrovisor,
com as duas mos agarradas ao volante. Dei meia-volta, sa
escondida pela porta dos fundos e peguei o primeiro nibus
que passou.

     Nunca mais vi Meredith.
     AO P DA COLINA, A FBRICA de cerveja soltava uma
fumaa em direo ao cu dia e noite. Eu observava a
brancura se espalhar enquanto arrancava as ervas daninhas
e aquela imagem contaminava minha alegria com uma
pontada de desespero.

     O ms de novembro em So Francisco era ameno e a
McKinley Square ficava tranquila. Meu jardim, exceto por
uma papoula arbrea sensvel, sobreviveu ao replantio e, pela
primeira vez em 24 horas, imaginei que poderia ser feliz com
uma vida annima, escondida em meio  segurana das
rvores.   Trabalhei   o   tempo   todo   de   ouvidos   atentos,
preparada para correr se escutasse passos, mas ningum se
afastou do gramado bem cuidado, ningum bisbilhotou o
matagal onde eu estava agachada. At mesmo o parquinho
ficava vazio, exceto por uns 15 minutos antes das aulas,
quando crianas muito bem monitoradas vinham brincar no
balano antes de continuarem a descer a colina. No terceiro
dia, eu j conseguia identificar as vozes das crianas. Sabia
quem sempre escutava a me (Genna), quem era a favorita da
professora (Chloe) e quem preferiria ser enterrada viva na
caixa de areia a aturar mais um dia de aula (a pequena
Greta; se meus steres j tivessem florescido, eu teria deixado
um balde cheio deles na caixa de areia para ela, tamanha a
desolao de sua voz ao implorar para que a me a deixasse
ficar ali). As famlias no conseguiam me ver, assim como eu
no as via, mas, com o passar dos dias, comecei a esperar
ansiosamente suas visitas. Passava o incio das manhs
imaginando com qual daquelas crianas eu teria sido mais
parecida se houvesse tido me para me levar  escola todos
os   dias.   Imaginava-me    obediente   em   vez   de   rebelde,
sorridente em vez de emburrada. Perguntava-me se ainda
amaria as flores, se ainda teria vontade de ficar sozinha.
Essas questes sem resposta giravam em minha cabea como
a gua nas razes dos meus gernios silvestres, que eu regava
generosa e frequentemente.

     Quando a fome apertava a ponto de me distrair, eu
pegava um nibus e seguia para o Marina District, para a
Fillmore Street ou para o bairro de Pacific Heights. Ali, fazia
um tour pelos restaurantes chiques, em cujos balces de
mrmore eu me demorava, beliscando uma azeitona, uma
fatia de bacon canadense ou uma lasca de queijo Havarti.
Fazia as perguntas que Elizabeth teria feito: quais azeites de
oliva no eram filtrados; quo "frescos" estavam o atum, o
salmo e o linguado; se as primeiras laranjas da estao
estavam doces. Eu aceitava as pores extras de tira-gosto,
fingindo estar indecisa. Ento, quando o garom se virava
para atender outro cliente, eu ia embora.

       Depois, com minha fome mal saciada, eu andava pelas
colinas, procurando plantas que pudesse adicionar ao meu
jardim em expanso. Vasculhava tanto jardins particulares
quanto parques pblicos, esgueirando-me por baixo de
dossis de glrias-da-manh e flores-da-paixo. Nas raras
vezes em que deparava com uma planta que no conseguia
identificar, arrancava um ramo e o carregava depressa at
um restaurante cheio, onde esperava algum cliente ir embora
para me sentar  sua mesa. Diante dos pratos de lasanha ou
risoto deixados pela metade, colocava a pobre planta em um
copo    d'gua   gelada,   com   a   haste   verde   enfraquecida
pendendo contra a borda. Enquanto comia os restos, cheios
de molho, folheava meu guia de flores, analisando as partes
da planta e respondendo metodicamente s questes: Ptalas
numerosas ou no aparentes? Folhas em forma de espada, de
corao ou brotando umas das outras? A amostra tem seiva
leitosa abundante, com ovrio pendendo para um dos lados
da flor, ou sem seiva leitosa, com ovrio ereto? Aps deduzir a
famlia da planta e memorizar seus nomes comum e
cientfico, eu guardava a flor entre as pginas e olhava 
minha volta, em busca de outro prato deixado pela metade.
       Na terceira noite, no consegui dormir. Meu estmago
vazio roncava e, pela primeira vez, minhas flores no me
serviram de consolo. Em vez disso, suas silhuetas na
escurido me lembravam do tempo que eu tivera para
procurar um emprego, para comear uma nova vida. Apertei
o cobertor contra a minha cabea e fechei os olhos,
cochilando e acordando em seguida, recusando-me a pensar
sobre o que faria quando os dias seguintes chegassem.

       No meio da noite, acordei sobressaltada, sentindo um
cheiro forte de tequila. Meus olhos se abriram bruscamente.
Uma urze que eu havia transplantado de um beco transversal
 Divisadero Street estendia suas folhas pontudas sobre
minha cabea. Por entre os tenros botes em forma de sino,
vi a silhueta de um homem se inclinar e arrancar um caule
do meu helenium. Ao fazer isso, virou sua garrafa de tequila,
derramando a bebida sobre o arbusto que me escondia. Uma
garota atrs dele estendeu a mo para pegar a garrafa. Ela se
sentou no cho de costas para mim e ergueu a cabea para o
cu.

       O homem estendeu a flor e, sob a luz do luar, percebi
que era jovem demais para beber e at para estar na rua 
noite. Ele passou as ptalas pela cabea e pela lateral do
rosto da garota.

        Uma margarida para o meu amor  disse. Estava
bbado.

        Isso  um girassol, seu idiota  respondeu ela, rindo.
     Seu rabo de cavalo, amarrado com um lao que
combinava com sua blusa e com sua saia plissada, balanou
de um lado para o outro. Ela pegou a flor e a cheirou. O
pequeno boto cor de laranja estava sem a metade das
ptalas; ela arrancou as poucas que restavam at o centro se
curvar sob o prprio peso, abandonado no ar noturno, e
ento o atirou em direo ao mato.

     O menino se sentou perto dela. Cheirava a suor
disfarado por perfume barato. Ela jogou a garrafa vazia nos
arbustos e se virou para ele.

     No mesmo instante, o garoto comeou a devorar o rosto
dela com um beijo barulhento, enfiando as mos debaixo de
sua blusa. Com a lngua, ele a forou a abrir a boca e pensei
que ela fosse engasgar, mas, em vez disso, fingiu gemer e
agarrou o cabelo oleoso dele. Senti meu estmago embrulhar,
uma fatia de salame subiu at minha garganta. Tapei a boca
com uma das mos e os olhos com a outra, mas continuava a
ouvi-los. Os rudos dos dois se beijando eram molhados e
grosseiros e chegavam at onde eu estava com tanta preciso
que pareciam dedos vorazes, apertando meus lbios, meu
pescoo e meus seios.

     Eu me enrosquei em posio fetal, com a cama de folhas
estalando sob meu corpo. O casal continuou a se beijar.

     Na manh seguinte, enquanto estava parada no ponto
de nibus, observei uma mulher alta, segurando um vaso
cheio de tulipas brancas, pegar uma chave e abrir a porta da
floricultura do bairro. Ela acendeu as luzes e a palavra
BLOOM, escrita com gravetos, surgiu iluminada por trs na
vitrine ampla. Atravessei a rua e me aproximei dela.

      Esto fora de estao  falei, inclinando a cabea para
as tulipas.

     A mulher ergueu as sobrancelhas.

      Noivas.

     Ela largou o vaso e me encarou como se esperasse que
eu dissesse alguma coisa.

     Pensei nos namorados enroscados debaixo de minha
urze. Eles tinham dormido mais perto de mim do que eu
imaginara e, ao acordar, pisei no ombro do rapaz antes de
conseguir localiz-los no meio das plantas. Nenhum dos dois
se mexeu. Os lbios da garota estavam sobre o pescoo dele
como se ela tivesse desmaiado no meio de um beijo. O queixo
dele estava apontado para cima, a cabea recostada em
ramos de helenium, como se ele estivesse gostando daquela
sensao. Num piscar de olhos, minha iluso de segurana e
solido havia desaparecido.

      Em que posso ajud-la?  perguntou a mulher. Ela
corria os dedos com impacincia por seus cabelos grisalhos e
repicados.

     S ento percebi que tinha me esquecido de passar gel
no cabelo e torci para que no houvesse folhas presas nele.
Balancei a cabea, constrangida, antes de falar:

      Precisa de uma ajudante?
     Ela me olhou dos ps  cabea.

      Voc tem experincia?

     Correndo o dedo do p por uma linha funda no cho de
cimento, refleti sobre minha experincia. Potes de geleia
cheios de cardo e espigas de babosa presas com fita adesiva
no contavam muito no mundo dos arranjos florais. Eu
poderia citar um monte de nomes cientficos e desfiar as
histrias das famlias botnicas, mas duvidei que isso fosse
impression-la. Balancei a cabea.

      No.

      Ento, no.

     Ela me encarou novamente e seu olhar era to firme
quanto o de Elizabeth costumava ser. Senti um n na
garganta e agarrei o cobertor marrom que usava como saiote,
com medo de que ele se soltasse e casse aos meus ps.

      Posso lhe dar 5 dlares para descarregar minha
caminhonete  ofereceu ela.

     Mordi o lbio e assenti.

     Devem ser as folhas no meu cabelo, pensei.
     OBANHO J ESTAVA PREPARADO. Fiquei sem graa ao
pensar que Elizabeth sabia que eu ia chegar suja.

      Voc precisa da minha ajuda?  perguntou ela.

      No.  A banheira era de um branco impecvel, com o
sabonete aninhado entre duas conchas numa bandeja de
metal espelhado.

      Ento, desa quando estiver pronta. E no demore.

     Havia roupas limpas separadas para mim sobre uma
penteadeira branca de madeira.

     Esperei at ela sair, tentei trancar a porta e notei que o
trinco havia sido removido. Empurrei a cadeira pequena da
penteadeira e a apoiei debaixo da maaneta, assim poderia ao
menos ouvi-la chegar. Tirei minhas roupas o mais rpido que
pude e entrei na gua quente.

     Quando voltei para o andar de baixo, Elizabeth estava
sentada  mesa da cozinha, diante da comida intocada e com
o guardanapo no colo. Eu estava vestida com as roupas que
ela havia comprado para mim: cala amarela e blusa branca.
Elizabeth me olhou dos ps  cabea, certamente percebendo
como tinham ficado enormes. Eu havia enrolado a cintura e
as bainhas da cala, mas ainda assim elas estavam to
frouxas que, se a blusa no fosse to grande, deixariam 
mostra minha calcinha. Eu era bem mais baixa do que a
maioria das garotas do terceiro ano e tinha perdido quase 2,5
quilos no comeo do vero.

     Quando contei para Meredith o motivo de minha perda
de peso ela me chamou de mentirosa, mas me levou embora
assim mesmo, dando incio a uma investigao formal. A
juza ouviu minha verso e depois a da Sra. Tapley. No vou
ser tratada como uma criminosa por me recusar a satisfazer
as exigncias de uma criana enjoada para comer, dissera ela
em seu testemunho. A juza declarou que a verdade deveria
estar em algum lugar entre as duas verses, encarando-me
com um olhar duro e acusador. Mas ela estava errada. A Sra.
Tapley havia mentido. Eu tinha mais defeitos do que
Meredith poderia listar em seus relatrios para o juizado, mas
no era enjoada para comer.

     Durante todo o ms de junho, a Sra. Tapley ps minha
fome  prova. Comeou assim que cheguei  sua casa, um
dia depois do incio das frias escolares. Ela me ajudou a
desfazer as malas no meu novo quarto e me perguntou qual
era minha comida favorita e a de que eu menos gostava. Sua
voz era to gentil que me deixou desconfiada. No entanto,
como estava com fome, respondi: pizza e ervilhas congeladas.
No jantar daquela noite, ela me serviu uma tigela de ervilhas
ainda congeladas. Disse que, se eu estivesse mesmo como
fome, comeria. Virei-lhe as costas e me afastei. A Sra. Tapley
trancou a geladeira e todos os armrios da cozinha.

     Durante dois dias, s sa do meu quarto para ir ao
banheiro. O aroma da comida sendo preparada entrava por
baixo de minha porta regularmente, o telefone tocava e o
volume da tev aumentava e diminua. A Sra. Tapley no foi
falar comigo. Depois de 24 horas, telefonei para Meredith,
mas era to comum eu falar que estava passando fome que
ela no retornou minha ligao. Quando voltei  cozinha na
terceira noite, estava suando e tremendo. A Sra. Tapley ficou
me observando enquanto eu tentava afastar a cadeira pesada
da mesa com meus braos enfraquecidos. Desisti e deslizei
meu corpo magrelo pela fresta que as separava, sentando-me
no vo entre a mesa e as costas da cadeira. As ervilhas na
tigela estavam enrugadas e duras. A Sra. Tapley me fuzilava
com o olhar enquanto a gordura estalava no fogo, dando-me
um sermo sobre crianas adotadas que comiam demais
porque eram traumatizadas. Comida no  consolo, disse ela
enquanto eu colocava a primeira ervilha na boca. Ela rolou
pela minha lngua e parou na minha garganta como uma
pedra. Comi outra, fazendo fora para engolir.  medida que
as ervilhas desciam pela minha garganta, eu as contava uma
a uma. O cheiro de gordura e de algo fritando me deu foras
para continuar. Trinta e seis. Trinta e sete. Depois da 38
ervilha, vomitei na tigela. Tente outra vez, disse ela,
gesticulando para as ervilhas semidigeridas. Ento, sentou-se
em uma banqueta e tirou um bife fumegante da frigideira,
abocanhando pedaos quentes e me observando. Tentei outra
vez. As semanas seguiram dessa forma at a visita mensal de
Meredith. quela altura, eu j havia perdido peso.

     Elizabeth sorriu quando entrei na cozinha.

      Voc  bonita  disse ela, sem tentar disfarar a
surpresa em sua voz.  Era difcil saber debaixo de todo
aquele ketchup. Est se sentindo melhor?

      No  falei, embora no fosse verdade.

     No conseguia lembrar qual tinha sido a ltima casa em
que me haviam deixado usar a banheira. Jackie tinha uma
no andar de cima, mas as crianas eram proibidas de subir.
Antes disso, houve uma longa srie de apartamentos
pequenos, os boxes estreitos entulhados de produtos de
beleza e crostas de mofo. O banho quente tinha sido gostoso,
mas agora, olhando para Elizabeth, eu me perguntava quanto
ele me custaria.

     Subindo em uma cadeira, eu me sentei  mesa da
cozinha. Havia comida suficiente para uma famlia de seis
pessoas. Travessas grandes de macarro, fatias grossas de
presunto, tomates-cereja, mas verdes, queijo processado
em embalagens de plstico transparentes e at uma colher
cheia de pasta de amendoim sobre um guardanapo de pano
branco. Era tanta coisa que nem dava para contar. Meu
corao batia to forte que eu at podia ouvi-lo. Meus lbios
se curvaram para dentro da boca e os cerrei com uma
mordida. Elizabeth me foraria a comer tudo o que estava na
mesa. E, pela primeira vez em meses, no senti fome. Olhei
para ela, esperando a ordem.

      Comida de criana  disse, gesticulando para a mesa,
meio sem jeito.  Como eu me sa?

     No falei nada.

      Duvido que esteja com fome  prosseguiu ela, ao
perceber que eu no ia responder.  Pelo menos a julgar pelo
aspecto da sua camisola.

     Balancei a cabea.

      Coma s o que quiser  falou.  Mas me faa
companhia at eu terminar.

     Soltei   a   respirao,   momentaneamente     aliviada.
Baixando os olhos para a mesa, notei um pequeno buqu de
flores brancas. Estava amarrado com uma fita lils e
posicionado em cima da minha tigela de macarro. Analisei
as ptalas delicadas antes de tir-lo de cima da comida com
um tapa. Minha mente se encheu de histrias que ouvira de
outras crianas, sobre envenenamentos e internaes. Olhei
 minha volta para ver se as janelas estavam abertas, caso eu
precisasse fugir. Havia apenas uma na cozinha cheia de
armrios de madeira branca e utenslios antigos: um
quadrado pequeno sobre a pia, com miniaturas de garrafas
de vidro azul enfileiradas no peitoril. Estava trancada.

        Apontei para as flores.

         Voc no pode me envenenar, nem me dar remdios
que eu no queira tomar, nem me bater, mesmo que eu
merea. Essas so as regras.

        Enquanto falava, olhei com raiva para o outro lado da
mesa, esperando que ela tivesse compreendido minha
ameaa.      J   havia   acusado     mais   de   uma   pessoa   de
espancamento.

         Se estivesse tentando envenenar voc, lhe daria
dedaleiras ou hortnsias, ou talvez anmonas, dependendo de
quanta dor gostaria que sentisse e qual mensagem quisesse
transmitir.

        A curiosidade venceu minha averso por conversas.

         Do que voc est falando?

         Essas flores se chamam morrio-dos-passarinhos.
Elas significam seja bem-vindo. Ao lhe oferecer um buqu
delas, estou lhe dando as boas-vindas  minha casa,  minha
vida.

        Ela enrolou um bocado de macarro na manteiga em
seu garfo e fitou meus olhos sem o menor vestgio de
deboche.
        Para mim, parecem margaridas  falei.  E ainda acho
que so venenosas.

        No so venenosas e no so margaridas. Est vendo
como elas s tm cinco ptalas, mas parecem ter 10? Cada
par de ptalas est conectado ao centro.

       Pegando o ramalhete, examinei o pequeno arranjo
branco. As ptalas se uniam antes de chegar  haste, o que
lhes conferia formato de corao.

        Essa  uma caracterstica do gnero Stellaria 
prosseguiu Elizabeth ao perceber que eu estava entendendo.
 Margarida  um nome comum e engloba vrias famlias
diferentes, mas as flores que costumamos chamar de
margaridas tm mais ptalas, que crescem separadas umas
das outras.  importante saber a diferena, ou ento voc
pode    confundir   os   significados.   Margaridas    significam
inocncia, que  bem diferente de seja bem-vindo.

        Ainda no entendo do que voc est falando.

        J acabou de comer?  perguntou Elizabeth, pousando
o garfo. Eu tinha apenas beliscado as fatias de presunto, mas
assenti.  Ento venha comigo que vou lhe explicar.

       Levantando-se, Elizabeth se virou para atravessar a
cozinha. Eu enfiei um punhado de macarro em um bolso e
despejei uma tigela de tomates no outro. Elizabeth parou
diante da porta dos fundos, mas no olhou para trs. Puxei
minhas meias para cima e escondi o queijo processado dentro
delas. Antes de sair da cadeira, peguei a colher com pasta de
amendoim, que fui lambendo devagar enquanto seguia
Elizabeth. Descendo quatro degraus de madeira, chegamos a
um amplo jardim de flores.

      Estou falando da linguagem das flores  disse
Elizabeth.  Ela surgiu na era vitoriana, quando as pessoas
ainda se comunicavam por meio das flores. Ao receber um
buqu de um rapaz, as moas corriam para casa a fim de
tentar decifrar sua mensagem secreta. Rosas vermelhas
significam amor; as amarelas, infidelidade. Ento os homens
precisavam escolher as flores com cuidado.

        O   que      infidelidade?      perguntei   enquanto
dobrvamos para um caminho em que rosas amarelas nos
cercavam por todos os lados.

     Elizabeth parou de andar. Quando ergui os olhos, vi que
sua expresso tinha se tornado triste. Por um instante,
pensei que algo que eu dissera a havia perturbado, mas ento
percebi que seus olhos estavam voltados para as rosas, no
para mim. Perguntei-me quem as teria plantado.

      Significa ter amigos... amigos secretos  disse ela por
fim.  Amigos que voc no deveria ter.

     No entendi a definio, mas Elizabeth j havia seguido
em frente, pegando minha colher de pasta de amendoim para
me arrastar junto. Puxei a colher de volta e a segui quando
ela fez outra curva.

      Este  o alecrim, que significa lembrana. Estou
citando Shakespeare. Voc vai ler sua obra no ensino mdio.
Temos    tambm     a    arquilgia,   abandono;    azevinho,
previdncia; lavanda, desconfiana.

     Chegamos a uma bifurcao e Elizabeth se agachou
para passar sob um galho baixo. Acabei de comer a pasta de
amendoim com uma lambida lenta e atirei a colher nos
arbustos. Pulei para me pendurar no galho e me balanar. A
rvore nem se mexeu.

      Esta  uma amendoeira. Suas flores de primavera
simbolizam indiscrio... mas voc no precisa saber disso.
De todo modo,  uma bela rvore  acrescentou ela.  Faz
tempo que acho que este seria um timo lugar para uma casa
na rvore. Vou pedir para Carlos construir uma.

      Quem  Carlos?  perguntei, saltando de volta para o
cho.

     Elizabeth estava  minha frente e corri para alcan-la.

      O caseiro. Ele mora no trailer entre os galpes de
ferramentas, mas voc no vai conhec-lo esta semana,
porque ele foi acampar com a filha. Perla tem 9 anos,  da
sua idade. Ela vai cuidar de voc na escola, quando as aulas
comearem.

      No vou para a escola  falei, me esforando para
acompanhar seu ritmo.

     Elizabeth tinha chegado ao centro do jardim e estava
voltando para a casa. Continuava apontando plantas e
dizendo seus significados, mas andava rpido demais para
que eu pudesse acompanh-la. Comecei a correr e a alcancei
assim que ela chegou aos degraus da varanda dos fundos.
Ela se agachou para ficarmos cara a cara.

       Voc comea na escola sem ser nessa segunda-feira,
na prxima  falou.  Quarta srie. E s vai entrar em casa
depois que trouxer minha colher de volta.

      Ento ela se virou e entrou, trancando a porta atrs de
si.
     ENFIEI A NOTA DE 5 DLARES que a florista me deu
no vo entre as taas do meu suti e fui andar pela regio.
Ainda era cedo e havia mais bares do que cafs abertos
enquanto eu caminhava pelo Mission District. Na esquina da
Rua 24 com a Alabama, entrei em um caf e passei duas
horas sentada comendo donuts e esperando as lojinhas da
Valencia Street abrirem. s 10 horas, contei o dinheiro que
me restava  1 dlar e 87 centavos  e andei at encontrar
uma loja de tecidos. Comprei meio metro de fita de cetim
branca e um alfinete com cabea de prola.

     Quando voltei  McKinley Square, a manh j estava no
fim e segui furtivamente at meu jardim. Tive medo de que o
casal ainda estivesse esparramado sobre minhas flores, mas
eles haviam ido embora. Restavam apenas a marca das
costas do rapaz em meu helenium e a garrafa de tequila que
despontava de um arbusto cerrado.

     Eu s tinha uma chance. Estava claro que a florista
precisava de ajuda; seu rosto estava plido e abatido como o
de Elizabeth costumava ficar nas semanas antes da colheita.
Se eu conseguisse convenc-la de que era capaz, ela me
contrataria. Com o dinheiro que iria ganhar, poderia alugar
um quarto com chave e cuidar do meu jardim somente
durante   o     dia,   quando   pudesse   ouvir   estranhos   se
aproximando.

     Sentada debaixo de uma rvore, avaliei minhas opes.
As flores de outono haviam desabrochado completamente:
verbenas, tangos, crisntemos e uma rosa tempor. Os
canteiros bem cuidados ao redor do parque eram cobertos de
sempre-verdes de vrias texturas, mas com pouca cor.

     Comecei       a   trabalhar,   levando   em     conta    as
caractersticas das flores: altura, densidade, textura e
gradaes de perfume. Com todo o cuidado, arranquei as
ptalas danificadas. Quando terminei, crisntemos brancos
brotavam em espiral de um leito de verbenas cor de neve,
enquanto cachos de rosas trepadeiras claras pendiam em
volta do ramalhete amarrado com firmeza. Tirei todos os
espinhos. O buqu era branco como o de uma noiva e remetia
a preces, sinceridade e um corao inocente. Ningum jamais
desconfiaria.
     A mulher estava fechando a loja quando cheguei. Ainda
no era meio-dia.

      Se veio atrs de mais 5 dlares, chegou tarde  disse
ela, indicando a caminhonete com a cabea. Ela estava cheia
de arranjos pesados.  Bem que eu teria gostado de sua
ajuda.

     Estendi o buqu.

      O que  isso?

      Experincia  respondi, entregando-lhe as flores.

     Ela cheirou os crisntemos e as rosas, ento cutucou a
verbena, examinando a ponta do seu dedo. Estava limpa.
Subindo a ladeira em direo  caminhonete, fez um gesto
para que eu a seguisse.

     Pegou de dentro do veculo um ramalhete de rosas
brancas, muito unidas e amarradas com uma fita de cetim
cor-de-rosa. Segurou os dois buqus lado a lado. No havia
comparao. Ela jogou as rosas brancas para mim e eu as
apanhei com uma das mos.

      Leve isso ao Spirati's, um restaurante no alto da
ladeira. Procure Andrew e diga que fui eu que mandei voc.
Ele vai aceitar as flores e lhe dar um almoo em troca.

     Assenti e ela subiu na caminhonete.

      Meu nome  Renata  disse, dando a partida no motor.
 Se quiser trabalhar no sbado que vem, esteja aqui s cinco
da manh. Se chegar um minuto atrasada, irei embora sem
voc.

        Tive vontade de descer a ladeira correndo, tomada por
uma sensao de alvio. No importava que ela tivesse me
prometido apenas um dia de trabalho ou que o dinheiro
provavelmente s fosse suficiente para alugar um quarto por
algumas noites. J era alguma coisa. E, se eu provasse meu
valor, ela me chamaria outra vez. Sorri na calada, meus
dedos danando dentro dos sapatos.

        Renata afastou a caminhonete do acostamento, ento
desacelerou at parar e abriu a janela.

         Qual  o seu nome?  perguntou.

         Victoria  respondi, erguendo os olhos e contendo um
sorriso.  Victoria Jones.

        Ela assentiu e foi embora.

        No sbado seguinte, cheguei  Bloom pouco depois da
meia-noite. Havia adormecido no meu jardim, recostada
numa sequoia, enquanto tentava me manter alerta, e acordei
sobressaltada ao som de risadas se aproximando. Dessa vez,
era um bando de jovens bbados. O que estava mais perto,
um rapaz alto com cabelos que iam at abaixo do queixo,
sorriu     para   mim   como    se   fssemos   namorados   nos
encontrando em um local previamente combinado. Evitei seu
olhar e andei a passos rpidos at o poste mais prximo e
depois desci a ladeira at a floricultura.
     Enquanto esperava, passei desodorante e apliquei gel no
cabelo. Em seguida fiquei andando pelo quarteiro, para me
manter      acordada.   Quando   a   caminhonete   de   Renata
apareceu na rua, eu j havia conferido meu reflexo nos
retrovisores dos carros estacionados duas vezes e rearrumado
minhas roupas outras trs. Mesmo assim, sabia que estava
comeando a parecer e a cheirar como uma mendiga.

     Renata estacionou, abriu a porta do carona e fez um
gesto para que eu entrasse. Sentei-me o mais longe possvel
dela e, quando fechei a porta, ela bateu em meu quadril
magro.

      Bom dia  falou.  Voc chegou na hora.

     Ela fez um retorno e comeou a descer a rua vazia.

      Cedo demais para me dar bom-dia?  perguntou.

     Assenti, esfregando os olhos e fingindo que tinha
acabado de acordar. Contornamos em silncio uma rotatria.
Renata pegou a sada errada e teve que dar outra volta.

      Acho que est um pouco cedo para mim tambm 
declarou.

     Ela subiu e desceu as ruas de mo nica ao sul da
Market Street at parar em um estacionamento cheio.

      No se afaste de mim  recomendou, saindo da
caminhonete e me entregando uma pilha de baldes vazios. 
Est cheio l dentro e no tenho tempo para ficar procurando
voc. Tenho um casamento s duas da tarde; as flores devem
ser entregues s 10. Por sorte so girassis, no vou demorar
muito para fazer os arranjos.

      Girassis?  perguntei, surpresa.

     Falsa riqueza. No seria a flor que eu escolheria para o
meu casamento, pensei e em seguida revirei os olhos diante
do absurdo da expresso meu casamento.

      Fora de estao, eu sei  disse ela.  Mas pode-se
encontrar de tudo, em qualquer poca, no mercado de flores.
E quando os casais soltam a grana na minha mo, no
reclamo.

     Ela   abriu   caminho      aos   empurres   pela   entrada
apinhada. Eu a segui de perto, encolhendo-me  medida que
baldes, cotovelos e ombros roavam meu corpo.

     Do lado de dentro, o mercado de flores era como uma
caverna, profunda e sem janelas, com um teto de metal e
cho de cimento. A artificialidade daquele mar de flores, to
longe da terra e da luz do sol, me deixou aflita. Barracas
estavam repletas de flores sazonais, as mesmas que brotavam
no meu jardim, mas cortadas e dispostas em buqus. Outros
vendedores ofereciam flores tropicais, orqudeas, hibiscos e
plantas exticas cujos nomes eu no sabia, vindas de estufas
a centenas de quilmetros dali. Eu arranquei uma flor-da-
paixo e a prendi na minha cintura enquanto seguamos s
pressas.

     Renata passou as mos por alguns girassis como se
eles fossem pginas de um livro. Pechinchava os preos, ia
embora, voltava. Fiquei imaginando se ela era americana ou
se tinha sido criada em algum pas onde pechinchar era um
estilo de vida. Tinha um leve sotaque que eu no conseguia
identificar. Outras pessoas apareciam, entregavam maos de
dinheiro e cartes de crdito e iam embora com seus baldes
de   flores.   Mas   Renata     continuava   barganhando.    Os
vendedores pareciam estar acostumados a ela e negociavam
sem muita determinao. Era como se soubessem que, no fim
das contas, ela iria vencer  o que de fato acontecia. Ela ento
encheu meus baldes com montes de girassis cor de laranja
com caules de meio metro de altura e correu at a barraca
seguinte.

     Quando a alcancei, ela estava segurando dezenas de
copos-de-leite gotejantes, com suas ptalas rosadas e cor de
laranja bem enroladas. A gua das hastes encharcava as
mangas finas de sua blusa de algodo e ela jogou as flores
para mim quando me aproximei. Apenas metade delas foi
parar dentro do balde vazio. Curvei-me devagar para pegar as
que haviam cado no cho.

       o primeiro dia dela  explicou Renata para o
vendedor.  Ainda no entende a pressa. Daqui a 15 minutos
seus lrios j tero acabado.

     Enfiei a ltima flor no vaso e me levantei. O vendedor
tinha dezenas de lrios diferentes para oferecer: asitico,
stargazer, imperial e casablancas brancos como a neve.
Limpei um pouco de plen que havia cado na ptala de um
stargazer aberto enquanto ouvia Renata negociar o preo de
suas compras. Ela metralhava o vendedor com valores muito
abaixo do que os clientes ao redor haviam pagado, mal
esperando sua resposta, e parou de repente quando ele
concordou. Ergui os olhos.

     Renata pegou sua carteira e balanou um mao fino de
notas diante do rosto do vendedor, mas ele no pegou o
dinheiro. Estava olhando para mim. Seus olhos desceram do
meu cabelo endurecido at meu rosto, passando rapidamente
pela minha clavcula e queimando meus braos cobertos
antes de se deterem no plen marrom e grudento nas pontas
dos meus dedos. Seu olhar fez com que eu me sentisse
invadida. Apertei a borda do balde que estava segurando com
tanta fora que os ns de meus dedos ficaram brancos.

     Com     o     brao      estendido,        Renata   balanou
impacientemente      as   notas    na    cara    do   homem,   que
continuava calado.

      Com licena.

     Ele   pegou   as     notas,   mas    sem    interromper   sua
explorao atrevida do meu corpo. Continuando pelas minhas
camadas de saias, analisou o pedao de perna visvel entre
minhas meias e a cala stretch.

      Esta  Victoria  disse Renata, apontando para mim.

     Ento fez uma pausa, como se esperasse o florista se
apresentar, mas ele ficou calado.
     Seus olhos voltaram depressa para o meu rosto. Eu o
encarei. Havia algo de perturbador em seu olhar  um
lampejo de reconhecimento  que chamou minha ateno. Ao
analis-lo, minha primeira impresso foi a de que se tratava
de um homem que havia lutado tanto quanto eu, ainda que
de maneira diferente. Conclu que era pelo menos cinco anos
mais velho. Seu rosto tinha a aparncia desgastada e
marcada de um trabalhador braal. Imaginei que ele mesmo
tivesse plantado aquelas flores, cuidado delas e as colhido.
Consequentemente, seu corpo era magro e musculoso  e ele
no desviou os olhos nem sorriu enquanto eu o examinava.
Sua pele morena devia estar salgada. Esse pensamento fez
meu corao acelerar por conta de algo que no era apenas
raiva, uma emoo que eu no conhecia, mas que aquecia o
centro do meu corpo. Mordi o lbio e forcei meus olhos a
voltarem para seu rosto.

     Ele retirou um lrio asitico cor de laranja de um vaso.

      Fique com um  disse ele, entregando-o para mim.

      No  falei.  No gosto de lrios.  E no sou uma
rainha, pensei.

      Pois deveria. Combinam com voc.

      Como sabe o que combina ou no comigo?

     Sem pensar, dei um tapa no lrio que ele segurava. Seis
ptalas pontiagudas caram, o miolo da flor ficou virado para
o cho. Renata levou um susto.
      Eu no sei  disse ele.

      No sabe mesmo  respondi.

     Balancei o vaso de flores que carregava, dispersando o
calor que irradiava do meu corpo. O movimento chamou
ateno para os meus braos trmulos.

     Virei-me para Renata.

      L fora  disse ela, indicando a entrada do mercado.

     Fiquei esperando que ela dissesse algo mais, apavorada
diante da ideia de ser demitida menos de uma hora aps
comear no meu primeiro emprego. Mas o olhar de Renata
estava fixo na fila que crescia na barraca seguinte. Quando
olhou de volta e viu que eu continuava parada, arqueou as
sobrancelhas, confusa.

      O que foi?  perguntou.  V esperar na caminhonete.

     Abrindo caminho pela multido, segui para a sada. O
peso do balde cheio fazia meus braos doerem, mas
carreguei-o por todo o estacionamento sem descansar.
Quando cheguei  caminhonete de Renata, pousei o balde no
cho e me sentei, exausta, no concreto duro.
     POR TRS DAS JANELAS APAGADAS, Elizabeth me
espiava. Eu tinha certeza disso, mesmo que no pudesse
distinguir sua silhueta atravs do vidro. A porta dos fundos
continuava trancada. Tremendo, eu observava o sol sumir no
horizonte. Restavam-me no mximo 10 minutos, se no
quisesse ter que procurar a colher no escuro.

     J haviam me trancado do lado de fora antes. Na
primeira vez, eu tinha 5 anos, e vivia com minha barriga
saliente vazia, numa casa com crianas e garrafas de cerveja
de mais. Sentada no cho da cozinha, eu ficara observando
um minsculo chihuahua branco comer seu jantar de uma
tigela de cermica. Cheguei um pouco mais perto, dominada
pela inveja. Eu no tinha a inteno de comer a comida do
cachorro, mas quando meu pai adotivo me viu com o rosto a
poucos centmetros da tigela, me apanhou pela parte de trs
do meu suter de gola rol e me ps para fora. Se agir como
um animal, vai ser tratada como um animal, disse ele.
Pressionando o corpo contra a porta de vidro de correr, fiquei
absorvendo o calor da casa e vendo a famlia se preparar para
dormir, sem jamais imaginar que eles me deixariam ali fora a
noite inteira. Mas foi o que fizeram. Meu corpo tremia, de frio
e de medo, e eu no conseguia parar de pensar na maneira
como o cachorrinho tiritava quando estava assustado, suas
orelhas triangulares vibrando. Minha me adotiva desceu s
escondidas no meio da noite e jogou um cobertor para mim
por uma janela alta da cozinha, mas s abriu a porta pela
manh.

     Sentada nos degraus, comi o macarro e os tomates que
estavam no meu bolso e pensei se deveria ou no procurar a
colher. Talvez Elizabeth me obrigasse a dormir do lado de fora
mesmo que eu encontrasse e lhe entregasse a colher. Fazer o
que me mandavam nunca fora garantia de que eu receberia o
que havia sido prometido. Mas eu tinha visto meu quarto de
relance enquanto me encaminhava para o andar de baixo,
depois do banho, e ele parecia mais confortvel do que os
degraus de madeira lascados. Decidi arriscar.



     Segui lentamente pelo jardim at chegar ao local em que
havia    atirado   a    colher.    Ajoelhando-me   debaixo   da
amendoeira,    tateei   o   cho    com   as   mos,   espinhos
arranhavam meus dedos enquanto eu vasculhava o matagal.
Separei caules altos e            arranquei ptalas de arbustos
cerrados. Rasguei folhas, quebrei galhos. Ainda assim, no
consegui encontr-la.

         Elizabeth!  gritei, comeando a me sentir frustrada.

        A casa estava silenciosa.

        A escurido estava ficando mais densa, pesada. O
vinhedo parecia se estender em todas as direes, um mar de
onde      no    era   possvel   sair,   e   de   repente   senti-me
aterrorizada. Agarrei o tronco de um arbusto denso com as
duas     mos,    espinhos    furando     minhas    palmas    macias
enquanto eu puxava com toda a fora. A raiz da planta se
soltou. Continuei arrancando tudo o que podia, at a terra
ficar nua. A colher jazia sozinha no solo revolvido, refletindo o
luar.

        Limpando na cala as mos ensanguentadas, peguei a
colher e corri em direo  casa, aos tropeos, caindo e me
levantando sem jamais largar meu trofu. Subi os degraus
aos pulos, batendo a colher de metal pesada contra a porta
de madeira sem parar. O trinco girou e Elizabeth surgiu 
minha frente.

        Por um curto instante, ficamos olhando uma para a
outra em silncio  dois pares de olhos arregalados, sem
piscar , ento joguei a colher para dentro da casa com toda a
fora que pude reunir em meu brao fino. Mirei a janela em
cima da pia da cozinha. A colher passou zunindo a
centmetros da orelha de Elizabeth, descreveu um arco em
direo ao teto e ricocheteou na janela antes de cair retinindo
dentro da pia de porcelana. Uma das garrafinhas azuis
oscilou no parapeito antes de cair e se despedaar.

      A est sua colher  falei.

     Elizabeth respirou fundo, mal contendo a raiva, antes de
partir para cima de mim. Seus dedos se afundaram na parte
de baixo da minha caixa torcica e ela me carregou at a pia
da cozinha, praticamente me jogando dentro dela. Os ossos
do meu quadril estavam pressionados contra o balco de
azulejo e meu rosto pairava to perto do vidro quebrado que,
por um instante, o mundo inteiro ficou azul.

      Isso  disse Elizabeth, baixando meu rosto para ainda
mais perto do vidro  foi da minha me.  Ela me segurava,
totalmente imvel, mas eu podia sentir a raiva nas pontas de
seus dedos, ameaando me empurrar at os cacos.

     Com um puxo, ela me tirou de cima da pia e me largou
antes de meus ps tocarem o cho. Ca para trs. Ela parou
em cima de mim e esperei sua mo atingir meu rosto.
Bastava apenas um tapa. Meredith voltaria antes mesmo de a
marca sumir e aquela ltima tentativa chegaria ao fim. Eu
seria declarada inapta para adoo e Meredith pararia de
buscar uma famlia para mim. Eu estava mais do que
preparada para isso.

     Mas Elizabeth deixou sua mo cair e se empertigou.
Ento, se afastou de mim, dando um passo para trs.
      Minha me no teria gostado de voc  disse ela,
cutucando-me com o p at eu me levantar.  Agora suba e
v para a cama.

     Quer dizer que no acabou ainda, pensei, desapontada.
Meu corpo foi invadido por um terror palpvel, opressivo e
sufocante. Mas vai acabar. No acreditava que houvesse a
menor possibilidade de minha estadia na casa de Elizabeth
ser outra coisa seno curta e queria que ela terminasse
naquele exato momento, antes mesmo de passar uma noite
ali. Dei um passo na direo dela com o queixo erguido,
desafiando-a, esperando que minha proximidade a tirasse do
srio.

     Mas o momento tinha passado. Elizabeth olhou por
cima da minha cabea, com a respirao controlada.

     Pisando firme, dei as costas para ela. Peguei uma fatia
de presunto sobre a mesa e subi as escadas. A porta do meu
quarto estava aberta. Recostei-me por alguns instantes no
batente, absorvendo tudo o que seria temporariamente meu:
a moblia de madeira escura, o tapete redondo feito de
retalhos cor-de-rosa e o abajur com cpula de vitral perolado.
Tudo parecia novo  o edredom branco e fofo que combinava
com as cortinas, as roupas penduradas em fileiras bem-
arrumadas no armrio e dobradas em pilhas em cada gaveta
da cmoda. Subindo na cama, mordisquei o presunto,
salgado e com gosto de ferro nas partes em que minhas mos
ensanguentadas o haviam segurado. Entre mordidas, eu
parava e escutava.
     At onde conseguia me lembrar, tinha morado em 32
casas. A nica coisa que todas tinham em comum era o fato
de serem barulhentas: nibus, freios de carros, o chacoalhar
de um trem de carga passando. Do lado de dentro, vrias
televises competindo entre si, apitos de micro-ondas e
aquecedores     de     mamadeiras,     campainhas      tocando,
xingamentos, o estalo de um trinco girando. E, para
completar,    havia   os   sons das   outras   crianas:   bebs
chorando, irmos sendo separados aos berros, um grito
agudo por causa de um banho gelado demais e o gemido de
uma colega de quarto durante um pesadelo.

     Mas a casa de Elizabeth era diferente. Assim como o
vinhedo ao cair da noite, o interior da casa tambm era
silencioso. Apenas um zumbido distante e agudo entrava pela
janela aberta. Ele me lembrava o rudo de eletricidade em
cabos de energia, mas, como estvamos no campo, imaginei
que viesse de algo natural  uma cachoeira, talvez, ou um
enxame de abelhas.

     Por fim, ouvi Elizabeth subindo as escadas. Escondi
minha cabea e orelhas com as cobertas para no ouvir seus
passos. Com um susto, senti que ela se sentava  beira da
cama. Afastei o cobertor um centmetro das minhas orelhas,
mas no descobri o rosto.

      Minha me tambm no gostava de mim  sussurrou
Elizabeth, num tom gentil, como se pedisse desculpas.
     Tive vontade de espiar por baixo das cobertas. Aquela
voz era to diferente da que havia me segurado sobre a pia
que, por um instante, achei que no pertencia  Elizabeth.

      Pelo menos isso ns temos em comum  concluiu ela.

     Ao falar isso, ela pousou a mo na base das minhas
costas e me afastei do seu toque, arqueando o corpo e
colando-o  parede ao lado da cama. Pressionei o rosto contra
a fatia de presunto. Elizabeth continuou a falar, contando-me
sobre o nascimento de Catherine, sua irm mais velha, e
sobre os sete anos de abortos espontneos que se seguiram:
quatro bebs, todos meninos.

      Quando nasci, minha me pediu aos mdicos que me
levassem embora. No me lembro disso, mas meu pai me
contou que foi minha irm, que tinha apenas 7 anos, que me
alimentou, me deu banho e trocou minhas roupas at eu ter
idade suficiente para fazer essas coisas sozinha.

     Elizabeth prosseguiu, descrevendo a depresso da me e
a devoo com que o pai cuidou dela. Antes mesmo de saber
falar, ela j tinha aprendido os lugares exatos onde devia
pisar enquanto atravessava os corredores nas pontas dos ps,
para evitar que os pisos de madeira antigos rangessem. Sua
me no gostava de barulho, por menor que fosse.

     Fiquei ouvindo Elizabeth. A emoo em sua voz
despertou meu interesse  raras vezes as pessoas tinham
falado comigo como se eu fosse capaz de entender as suas
experincias. Engoli um pedao de presunto.
      A culpa foi minha  continuou Elizabeth.  A doena
da minha me. Ningum se preocupou em esconder isso de
mim. Meus pais no queriam outra filha: as pessoas achavam
que garotas no tinham as papilas gustativas necessrias
para reconhecer uma uva madura para fazer vinho. Mas
provei que elas estavam erradas.

     Elizabeth afagou minhas costas e percebi que ela havia
terminado. Comi meu ltimo pedao de presunto.

      Que tal essa histria de ninar?  perguntou.

     Sua voz era alta demais na casa silenciosa, fingindo um
otimismo que eu sabia no ser sincero.

     Tirando meu nariz de baixo das cobertas, respirei fundo
e disse:

      Decepcionante.

     Elizabeth soltou uma risada, expirando com fora.

      Acredito que voc tambm pode provar que todos esto
errados, Victoria. Seu comportamento  uma escolha, no
quem voc  de verdade.

     Se Elizabeth acreditava mesmo nisso, pensei, a nica
coisa que ela poderia esperar do futuro era frustrao.
     RENATA E EU TRABALHAMOS a maior parte da manh
em silncio. A Bloom tinha uma fachada minscula, mas
uma rea til maior nos fundos, com uma mesa de madeira
longa e uma cmara frigorfica. Havia seis cadeiras em volta
da mesa. Escolhi a que estava mais perto da sada.

     Ela   colocou   na   minha   frente   um   livro   chamado
Casamentos    com    girassis.   Pensei   em   um      subttulo
apropriado: Como iniciar um casamento com base nos
valores da mentira e do materialismo. Ignorando o livro,
montei 16 arranjos de mesa com os girassis, lrios e ramos
bem finos de aspargo-samambaia. Renata trabalhou nos
buqus das madrinhas e, quando os terminou, comeou um
arranjo em um balde de metal corrugado mais alto do que
suas pernas. Sempre que a porta da frente se abria com um
rangido, Renata corria para a loja. Ela conhecia seus clientes
pelo nome e escolhia flores para cada um deles sem precisar
de instrues.

     Quando acabei, parei na frente dela, esperando que
levantasse os olhos. Ela virou-se para a mesa em que os
vasos cheios estavam enfileirados.

      Bom  disse, assentindo com aprovao.  Mais do que
bom, na verdade. Surpreendente.  difcil acreditar que voc
nunca teve aulas.

      Nunca tive  falei.

      Sei disso.  Ela me olhou de alto a baixo de um jeito
que no gostei.  Carregue a caminhonete. J estou
terminando aqui.

     Levei os arranjos ladeira acima de dois em dois. Quando
Renata acabou, carregamos o vaso alto juntas, depositando-o
com cuidado na caamba da caminhonete, que j estava
cheia. Quando voltamos  loja, ela tirou todo o dinheiro da
registradora, fechando a gaveta  chave. Esperei que fosse me
pagar, mas em vez disso ela me entregou papel e lpis.

      Pagarei na volta  disse ela.  O casamento  do outro
lado da colina. Mantenha a loja aberta e diga a meus clientes
que podem acertar outro dia.

     Renata esperou que eu assentisse e ento saiu.
     Sozinha na floricultura, no soube o que fazer. Fiquei
parada     atrs   da    registradora   por   alguns    instantes,
analisando a tinta verde descascada. Do lado de fora, a rua
estava silenciosa. Uma famlia passou sem parar ou olhar
para a vitrine. Pensei em abrir a porta e arrastar alguns
baldes de orqudeas para a frente da loja, mas me lembrei dos
anos que havia passado roubando arranjos expostos do lado
de fora. Renata no aprovaria.

     Em vez disso, fui at a rea de trabalho, catei os talos
soltos em cima da mesa e os joguei na lata de lixo. Limpei a
mesa com um pano mido e varri o cho. Quando no
consegui pensar em mais nada para fazer, abri a pesada
porta de metal da cmara frigorfica e espiei l dentro. Era
escura e fria, com as paredes cobertas de flores. O espao me
atraiu e tudo que eu queria era soltar o cobertor marrom da
cintura e dormir entre os baldes. Estava cansada. Passara
uma semana inteira tirando apenas cochilos de meia hora,
sendo despertada por vozes, pesadelos ou os dois. O cu era
sempre uma massa ondulante de vapor branco da fbrica de
cerveja. Todas as manhs, eu levava muitos minutos para me
libertar   de   sonhos   apavorantes,    esfumaados,    que   se
dispersavam no cu noturno como o vapor. Deitada ao
relento, imvel, eu lembrava a mim mesma que tinha 18 anos
e estava sozinha: j no era uma criana, no tinha mais
nada a perder.
     Agora, na segurana da floricultura vazia, eu queria
dormir. A porta se fechou atrs de mim com um clique e me
sentei no cho, apoiando a tmpora na borda de um balde.

     Tinha acabado de encontrar uma posio confortvel
quando uma voz abafada atravessou a porta da cmara.

      Renata?

     Eu me levantei com um salto. Correndo os dedos pelo
cabelo, sa de l de dentro apertando os olhos contra a luz
forte.

     Um homem de cabelos brancos estava apoiado no
balco, tamborilando os dedos com impacincia.

      Renata?  perguntou ele outra vez quando me viu.

     Balancei a cabea.

      Ela foi entregar as flores de um casamento. O senhor
quer alguma coisa?

      Flores. Por que outro motivo estaria aqui?  respondeu
ele, indicando a loja  sua volta como se quisesse me lembrar
qual era minha funo.  Renata nunca me pergunta o que
quero. Eu no saberia diferenciar uma rosa de um rabanete.

      Qual  a ocasio?  perguntei.

      Aniversrio de 16 anos da minha neta. Tenho certeza
de que ela no queria passar o dia conosco, mas a me est
insistindo.  Ele puxou uma rosa branca de um vaso azul e a
cheirou.  No estou nem um pouco ansioso. Aquela garota
virou a chatice em pessoa.

     Avaliei as opes de flores na cmara frigorfica e olhei
ao redor da loja. Um presente para uma adolescente mal-
humorada: as palavras do velho eram um quebra-cabea, um
desafio.

      Rosas brancas so uma boa escolha para uma
adolescente  falei.  E alguns lrios-do-vale, talvez? 
acrescentei, sacando uma haste longa com sinos cor de
marfim balanando na ponta.

      Voc que sabe.

     Enquanto arrumava as flores e as embalava em papel
pardo como tinha visto Renata fazer, senti uma alegria
parecida com a de quando passara as dlias por baixo das
portas dos quartos de minhas colegas de abrigo na manh
em que completei 18 anos. Era uma sensao estranha: o
entusiasmo de um segredo misturado  satisfao de ser til.
Era algo to diferente e to decididamente prazeroso que tive
uma vontade repentina de lhe falar sobre as flores, de lhe
explicar seus significados ocultos.

      Sabe  comecei, tentando usar um tom casual,
amigvel, mas sentindo as palavras presas em minha
garganta, por causa da emoo , h quem diga que os lrios-
do-vale trazem a felicidade de volta.

     O homem torceu o nariz. Sua expresso era uma
mistura de impacincia e desconfiana.
      Isso seria um milagre  falou, balanando a cabea. Eu
lhe entreguei as flores.  Acho que no ouo aquela garota rir
desde que tinha 12 anos... e vou lhe dizer uma coisa, sinto
muita falta de sua risada.

     Ele fez meno de pegar a carteira, mas levantei a mo.

      Renata disse para os fregueses pagarem outro dia.

      O.k.  concordou ele, virando-se para ir embora.  Diga
a ela que Earl esteve aqui. Ela sabe onde me encontrar.

     Quando ele bateu a porta, as flores se sacudiram em
seus baldes.

     Quando Renata voltou uma hora mais tarde, eu j havia
atendido meia dzia de pessoas. No pedao de papel que ela
me dera, constava um registro completo das vendas: nomes
dos clientes, flores e quantidades. Renata correu os olhos
pela lista e assentiu, como se soubesse exatamente quem iria
 loja e o que pediriam. Ela enfiou o papel na registradora e
tirou um mao de notas de 20 dlares, separando trs delas.

      Sessenta dlares  falou.  Por seis horas de trabalho.
Est bom?

     Fiz que sim com a cabea, mas no me movi. Renata me
encarou como se estivesse esperando que eu dissesse alguma
coisa.

      Voc vai me perguntar se precisarei de ajuda no
prximo sbado?

      Vai precisar?
      Sim, s cinco da manh. E no domingo, tambm. No
sei por que algum iria querer se casar em um domingo de
novembro, mas no importa. Geralmente esta  uma poca
com pouco movimento, s que estou mais atarefada do que
nunca.

      At semana que vem, ento  falei, fechando a porta
com cuidado ao sair.

     Com dinheiro na mochila, aquela parecia uma nova
cidade. Desci a ladeira, olhando as vitrines das lojas com
interesse, lendo menus e pesquisando preos de quarto em
motis   baratos   ao   sul   da   Market   Street.   Enquanto
caminhava, pensei em meu primeiro dia de trabalho: uma
cmara frigorfica cheia de flores, uma vitrine praticamente
vazia e uma chefe com um estilo direto, quase frio. Era o
emprego perfeito para mim. S uma situao havia me
deixado constrangida: a breve conversa que tivera com o
vendedor de flores. A ideia de rev-lo no sbado seguinte me
deixava nervosa. Decidi que precisaria estar preparada.

     Depois de pegar um nibus, desci no bairro de North
Beach. Estava anoitecendo e a neblina apenas comeava a se
espalhar por Russian Hill, transformando os faris e as
lanternas dos carros em globos opacos amarelos e vermelhos.
Andei at encontrar um albergue, sujo e barato. Mostrei o
dinheiro para uma mulher atrs do balco e esperei.

      Quantas noites?  perguntou ela.

     Meneei a cabea para as notas.
      Quantas posso pagar com isso?

      Vou deixar que fique quatro  disse ela , mas s
porque  baixa temporada.  Ela preencheu um recibo e
apontou para o fim do corredor.  O dormitrio feminino fica
 direita.

     Durante quatro dias, dormi, tomei banho e comi os
restos dos almoos dos turistas na Columbus Avenue.
Quando minhas noites no albergue terminaram, voltei para o
parque, com medo do rapaz alto e das dezenas de outros
como ele, mas consciente de que no tinha muitas opes.
Cuidei do meu jardim e esperei o fim de semana.

     Na sexta-feira, no dormi, com medo de perder a hora.
Vaguei pelas ruas a noite inteira. Quando me cansei, fiquei
zanzando em frente  boate ao p da colina, a msica
vibrando contra minhas plpebras pesadas. Quando a
caminhonete de Renata chegou, eu esperava encostada na
porta de vidro da Bloom.

     Ela desacelerou apenas o suficiente para eu entrar,
comeando a fazer o retorno antes mesmo que eu fechasse a
porta.

      Eu devia ter pedido que voc chegasse s quatro. No
conferi minha agenda. Vamos precisar de flores para 40
mesas hoje. E os noivos tm 12 madrinhas. Quem  que faz
um casamento desses?  No consegui saber se devia
responder ou se era uma pergunta retrica. Fiquei calada. 
Se eu fosse me casar, no teria nem 12 convidados 
acrescentou , pelo menos no neste pas.

     Eu no teria nenhum, pensei, neste pas ou em
qualquer outro. Ela desacelerou ao chegar  rotatria e, desta
vez, acertou a sada.

      Earl apareceu na loja  disse ela.  Pediu que eu lhe
dissesse que a neta dele ficou feliz. Falou que era importante
eu usar a palavra "feliz" e no outra qualquer. Segundo ele,
voc fez alguma coisa com as flores para que ela tivesse essa
reao.

     Sorri e me virei para a janela, desviando os olhos de
Renata. Ento ele tinha se lembrado. Para minha surpresa,
no me arrependi de ter compartilhado meu segredo. Mas
no queria cont-lo para ela.

      No sei do que ele est falando  respondi.

     Ela olhou da estrada para o meu rosto e ento de volta
para a estrada, uma de suas sobrancelhas erguida, intrigada.
Depois de alguns instantes de silncio, prosseguiu:

      Bem, Earl  um senhor engraado. Rabugento na
maior parte do tempo, mas, s vezes, surpreendentemente
doce. Ontem ele me falou que est velho demais para voltar
atrs depois de ter desistido de Deus.

      O que ele quis dizer com isso?

      Imagino que acredite que voc se consultou com Ele
antes de escolher as flores no fim de semana passado.
      Humpf. At parece  debochei.

      , eu sei. Mas ele me disse que vai voltar hoje e quer
que voc escolha algo para a esposa dele.

     Senti um entusiasmo repentino por receber uma nova
tarefa.

      Como ela ?  perguntei.

      Reservada  disse Renata, balanando a cabea.  No
sei muito mais que isso. Certa vez Earl me disse que ela era
poeta, mas quase no fala e no escreve mais. Ele compra
flores para ela quase toda semana... acho que sente falta da
maneira como ela costumava ser.

     Pervinca, pensei, boas lembranas. Seria difcil fazer um
buqu com elas, mas no impossvel. Teria que prend-las
com alguma coisa alta e de haste forte.

     O mercado de flores no estava to cheio quanto na
semana anterior, mas Renata ainda corria como se o ltimo
buqu de rosas estivesse em leilo. Precisvamos de 15
dzias de rosas cor de laranja e mais lrios stargazer do que
caberia nos meus baldes. Carreguei as flores para fora e
voltei para buscar uma segunda leva. Quando tudo j estava
guardado na caminhonete, voltei para o galpo movimentado
a fim de procurar Renata.

     Ela   estava   na   barraca   que    eu   vinha   evitando,
pechinchando o preo de um mao de rannculos cor-de-
rosa. O preo por atacado, escrito a giz em um pequeno
quadro negro com uma caligrafia quase ilegvel, era 4 dlares.
Ela balanou uma nota de 1 dlar sobre os baldes de flores.
O vendedor no respondeu nem olhou para ela. Ele me
observou descer o corredor at parar na sua frente.

     Nossa       interao   na    semana     anterior    tinha    me
atormentado e vasculhei a McKinley Square inteira at
encontrar    a    flor   certa   para   desencorajar     seu   assdio
indesejado. Tirei minha mochila dos ombros e peguei um
ramalhete cheio de folhas de dentro dela.

      Rododendro  falei, depositando os ramos cortados
sobre o balco de compensado.

     As flores roxas ainda no estavam abertas e os botes
apontavam em sua direo, muito enrolados e venenosos.
Cuidado.

     Ele analisou primeiro a planta, depois meu olhar de
advertncia. Quando desviou os olhos, tive certeza de que
havia entendido que as flores no eram um presente. Ele as
pegou entre o polegar e o indicador e jogou-as na lata de lixo.

     Renata ainda barganhava e, com um movimento rpido,
o vendedor a interrompeu. Ela podia levar as flores, disse ele,
com um gesto impaciente, enxotando-a dali.

     Renata se virou para ir embora e eu a segui.

      O que foi aquilo, Victoria?  perguntou ela quando j
estvamos longe demais para sermos ouvidas.
        Renata olhou de volta para a barraca, depois para mim e
ento outra vez para a barraca com uma expresso intrigada.

         Preciso de pervinca  falei, mudando de assunto.  Ela
no  vendida cortada.  uma planta rasteira.

         Sei o que  pervinca  disse ela, indicando com a
cabea uma parede nos fundos, onde plantas estavam
dispostas em baldes com suas razes intactas. Ento, me
entregou um mao de dinheiro e no fez mais perguntas.

        Renata e eu trabalhamos freneticamente durante toda a
manh. O casamento era em Palo Alto, um bairro de gente
rica ao sul da cidade, a cerca de 60 quilmetros da
floricultura. Para entregar todas as flores, Renata teve que
fazer duas viagens. Enquanto levava a primeira metade dos
arranjos, eu trabalhava na segunda. Durante o tempo em que
ela esteve fora, mantive a loja fechada e com as luzes
apagadas. Os clientes faziam fila do lado de fora, esperando
que ela voltasse. Sozinha no escuro, eu me sentia feliz.

        Quando ela chegou, eu estava ocupada examinando
meu trabalho  limpando gros de plen e podando uma ou
outra folha torta com uma tesoura afiada. Renata olhou para
os buqus e inclinou a cabea para a fila de pessoas atrs
dela.

         Vou comear os buqus das madrinhas. Voc assume
a loja.  Ela me entregou uma lista de preos plastificada e a
chave da registradora, pequena e dourada.  E nem ouse
pensar que no sei quanto dinheiro tem l dentro.
     Earl j estava diante do balco, acenando para mim.
Aproximei-me dele.

      Para a minha mulher  disse ele.  Renata no lhe
disse? S tenho alguns minutos e quero que voc escolha
algo para deix-la feliz.

      Feliz?  perguntei, olhando as flores disponveis na
loja. Fiquei desapontada.  O senhor no pode ser mais
especfico?

     Earl inclinou a cabea para o lado e pensou por alguns
instantes.

      Sabe, pensando bem, ela nunca foi uma mulher
realmente feliz  disse ele, rindo para si mesmo.  Mas era
apaixonada, inteligente e se interessava pelas coisas. Sempre
tinha uma opinio, mesmo sobre assuntos que desconhecia.
Sinto falta disso.

     Era esse o pedido para o qual eu havia me preparado.

      Entendo  falei, comeando a trabalhar.

     Arranquei caules finos de pervinca pelas razes at eles
penderem em fios longos e moles, apanhando em seguida
uma dzia de crisntemos-agulha vistosos. Fiz um buqu
com vrias camadas de crisntemos. Enrolei a pervinca na
base deles, como uma fita, e, usando arame, criei arabescos
com a planta rasteira. O efeito era como o de uma queima de
fogos de artifcio, estonteante e grandioso.
      Bem, isso vai merecer algum tipo de reao  disse
Earl enquanto eu lhe entregava as flores. Ele me deu uma
nota de 20 dlares.  Fique com o troco, querida.  Consultei
a lista de preos que Renata tinha me dado e coloquei a nota
de 20 na gaveta, pegando uma de 5 para mim.

      Obrigada.

      At semana que vem  disse Earl.

      Talvez  respondi, mas ele j havia atravessado a
porta, batendo-a ao sair.

     A loja estava em polvorosa e voltei minha ateno para o
prximo     cliente   da   fila.   Embrulhei    rosas,   orqudeas,
crisntemos de todas as cores e preparei buqus para casais,
senhoras idosas e entregadores adolescentes. Enquanto
trabalhava, fiquei pensando na esposa de Earl, tentando
evocar a imagem de uma mulher que havia perdido a paixo:
seu rosto cansado, introspectivo, sem malcia. Ser que ela
esboaria    alguma    reao      ao   buqu   de   crisntemos e
pervincas, sinceridade e boas lembranas? Tinha certeza de
que sim e imaginei o alvio e a gratido no rosto de Earl
enquanto ele fervia gua para o ch, tentando fazer a mulher
obstinada de quem sentia falta embarcar numa discusso
sobre poltica ou poesia. Essa imagem acelerou meus dedos e
deixou meus passos mais leves enquanto eu trabalhava.

     Assim que a loja ficou vazia, Renata terminou os
buqus.

      Carregue a caminhonete  ordenou ela.
     Transportei as braadas de flores o mais rpido que
pude. Eram quase duas da tarde. Renata foi para trs do
volante, pedindo-me para manter a loja aberta at que ela
voltasse, em uma hora.

     A entrega demorou muito mais do que Renata havia
imaginado. s cinco e meia, ela entrou como um furaco na
Bloom, furiosa, praguejando sobre flores de lapela e gravatas-
borboleta. Fiquei calada, esperando que ela me pagasse para
eu poder ir embora. Tinha trabalhado 12 horas e meia sem
descanso e estava ansiosa por um quarto com chave e talvez
at um banho. Mas Renata no fez meno de pegar a
carteira.

     Quando acabou seu monlogo frustrado, abriu a
registradora, correndo os dedos por notas amassadas,
cheques e recibos.

      No tenho dinheiro suficiente  declarou.  Vou passar
no banco antes de jantar. Venha comigo e falaremos sobre
negcios.

     Eu preferiria ter pegado o dinheiro e fugido noite
adentro,    mas     sa   com   ela   assim   mesmo,   ciente   da
precariedade da minha situao.

      Comida mexicana?  perguntou ela.

      Pode ser.

     Entramos na caminhonete e ela seguiu em direo ao
Mission District.
      Voc no fala muito, hein?  comentou.

     Balancei a cabea.

      A princpio, achei que fosse s uma dessas pessoas
que no funcionam pela manh  disse ela.  Como meus
sobrinhos e sobrinhas, por exemplo,  melhor nem tentar
conversar antes do meio-dia, mas depois disso  preciso rezar
por um minuto de silncio.

     Ela me olhou como se esperasse uma resposta.

      Humm  murmurei.

     Ela riu.

      Tenho 12 sobrinhos e sobrinhas, mas quase nunca os
vejo. Sei que deveria fazer um esforo, mas no fao.

      No?

      No  repetiu.  Eu os adoro, mas s consigo lidar com
eles em doses homeopticas. Minha me sempre brinca
dizendo que no herdei seu gene maternal.

      O que  isso?  perguntei.

      Bem,  aquele trao biolgico que faz as mulheres se
derreterem quando veem um beb na rua. Nunca tive isso.

     Renata     estacionou   em     frente   a   um   restaurante
mexicano. Como se quisessem provar o que ela tinha dito,
duas mulheres faziam a maior festa diante de um carrinho de
beb na entrada.
      Entra e pea o que quiser  disse ela.  Pagarei quando
voltar do banco.

     Renata e eu comemos at as oito da noite. Foi tempo
suficiente para ela saborear um taco e beber trs Cocas Light,
enquanto eu comia um burrito de frango, duas enchiladas de
queijo, uma poro pequena de guacamole e trs cestos de
batatas fritas. Ela me observou comer e de vez em quando
um sorriso satisfeito iluminava seu rosto. Ela preencheu o
silncio com histrias sobre sua infncia na Rssia, contando
como um bando de irmos atravessou o oceano at os
Estados Unidos.

     Quando terminei, me recostei na cadeira, sentindo o
peso da comida em meu corpo. Tinha me esquecido de
quanto podia comer e tambm da moleza que tomava conta
de mim depois que eu exagerava.

      Ento, qual  o seu segredo?  perguntou Renata.

     Ao ouvir a pergunta, apertei os olhos e encolhi os
ombros.

      Para continuar magra?  prosseguiu ela.  Comendo
desse jeito?

     No tem mistrio, pensei.  s estar sem grana, sem
amigos e sem ter onde morar. Passar semanas comendo as
sobras de outras pessoas ou nada.

      Coca Light  disse ela, como se no quisesse ouvir
minha resposta ou como se j soubesse qual seria.  Esse  o
meu segredo. Cafena e zero caloria. Mais um motivo pelo
qual nunca quis ter filhos. Que tipo de beb se desenvolveria
com uma alimentao dessas?

      Um beb faminto  respondi.

     Renata sorriu.

      Vi voc na loja hoje, atendendo Earl. Ele foi embora
satisfeito.   E   vai   voltar,   imagino,   todas   as   semanas,
procurando voc.

     Eu estarei l?, perguntei-me. Seria essa a maneira de
Renata me oferecer um emprego?

      Foi assim que constru meu negcio  disse ela. 
Sabendo o que meus clientes queriam antes deles mesmos.
Prevendo seus desejos. Embrulhando as flores antes de eles
entrarem, adivinhando os dias em que estariam com pressa e
os dias em que queriam ficar olhando as flores, conversando.
Acho que voc tem o mesmo talento, esse tipo de intuio...
isto , se quiser o emprego.

      Eu quero  respondi depressa.  Quero, sim.

     Lembrei-me das palavras que Meredith me dissera na
Gathering House e outras centenas de vezes antes: Voc tem
que querer. Voc tem que querer ser uma filha, uma irm,
uma amiga, uma estudante, repetira ela  exausto. Eu
nunca quisera nenhuma dessas coisas e as promessas,
ameaas ou os subornos de Meredith nunca haviam mudado
minha convico. Mas, de repente, eu soube que queria ser
florista. Queria passar minha vida escolhendo flores para
desconhecidos, meus dias oscilando entre o frio da cmara
frigorfica e o barulho da gaveta da registradora.

      Mas vou pagar voc de modo informal  disse Renata. 
Todos os domingos. Duzentos dlares por 20 horas de
trabalho e voc tem que ir sempre que eu precisar.
Combinado?

     Assenti. Renata estendeu a mo e eu a apertei.

     Na manh seguinte, encontrei Renata encostada nas
portas de vidro do mercado de flores, me esperando. Conferi
as horas. Estvamos as duas adiantadas. O casamento
daquele dia era pequeno, sem madrinhas e com menos de 50
convidados em duas mesas longas. Andamos pelo galpo,
procurando flores em tons de amarelo. Esse tinha sido o
nico pedido da noiva, disse-me Renata. Ela queria que as
flores lembrassem a luz do sol, para o caso de chover. O cu
estava seco, mas nublado; seria melhor se ela tivesse se
casado em junho.

      A barraca dele no abre aos domingos  disse Renata
enquanto   andvamos,      indicando   o   ponto     do   vendedor
misterioso com um gesto.

     Mas, quando nos aproximamos de sua barraca vazia,
deparamos com um vulto encapuzado, empoleirado em um
banco e recostado na parede. Ele se levantou quando me viu,
inclinando-se sobre os baldes sem flores, sua imagem
refletida nos crculos de gua parada. Do bolso do seu
bluso, retirou algo verde e fino, erguendo-o no ar.

     Renata o cumprimentou quando passamos. S no
ignorei completamente sua presena porque estiquei o brao
para pegar o que ele havia me trazido, sem desgrudar os
olhos do cho. Depois de fazer uma curva, quando j estava
segura e fora de vista, olhei para minha mo.

     Folhas ovais, verde-acinzentadas, brotavam de um
emaranhado de ramos verde-limo, com esferas translcidas
presas aos galhos como gotas de chuva. O ramalhete cabia
exatamente na palma da minha mo e as folhas macias
mordiscavam minha pele onde a tocavam.

     Visco.

     Eu supero todos os obstculos.
     MINHAS FERIDAS CRIARAM cascas durante a noite e se
grudaram aos lenis de algodo. Ao despertar, demorei um
pouco para localizar de onde vinha a ardncia em meu corpo
e mais ainda para lembrar o que havia causado aquilo.
Fechei os olhos com fora e ento recordei tudo de uma s
vez: os espinhos, a colher, a longa viagem de carro e
Elizabeth. Tirei minhas mos de baixo das cobertas com um
puxo rpido e analisei as palmas. As casquinhas tinham
sado e sangue fresco brotava dos cortes.

     Era cedo e ainda estava escuro. Desci o corredor at o
banheiro tateando as paredes e deixando rastros de sangue
onde tocava. L dentro, Elizabeth j estava acordada e
vestida. Sentada  penteadeira, olhava para o espelho como
se fosse se maquiar, mas no havia nada sobre o mvel,
apenas um pote de creme pela metade. Ela mergulhou o
anular dentro dele. Percebi que suas unhas eram retas e
curtas. Em seguida, Elizabeth espalhou o creme embaixo dos
olhos castanhos, ao longo das mas do rosto bem definidas
e pelo topo do nariz reto. Sua pele no tinha rugas e brilhava
sob o calor de vero. Imaginei que fosse muito mais jovem do
que sua blusa de gola alta e seu cabelo preso, repartido ao
meio, sugeriam.

     Ela se virou ao me ver e seu perfil anguloso se refletiu
no espelho.

      Dormiu bem?

     Dei um passo  frente, erguendo minhas mos to perto
de seu rosto que ela precisou se afastar para enxergar direito.

     Em seguida, inspirou o ar com fora.

      Por que no me contou ontem  noite?

     Dei de ombros e Elizabeth suspirou.

      Bem, deixe eu ver suas mos. No quero que
infeccionem.

     Ela deu um tapinha em seu colo, convidando-me a
sentar, mas recuei um passo. Retirando uma pequena bacia
de baixo da pia, Elizabeth a encheu de gua oxigenada e
pegou minhas mos, uma de cada vez, mergulhando-as no
lquido. Observou meu rosto,  espera de uma careta de dor,
mas cerrei os dentes e mantive minha expresso impassvel.
Minhas feridas ficaram brancas e espumantes. Ela esvaziou a
bacia, tornou a ench-la e mergulhou minhas mos outra
vez.

        No que eu v mimar voc e deix-la sem punio por
seus erros  comeou Elizabeth.  Mas, se no conseguisse
encontrar a colher depois de procurar de verdade, eu teria
aceitado um pedido sincero de desculpas.

       Ela falava sem rodeios, num tom de voz severo. Ainda
sonolenta    por   causa   da   hora,   perguntei-me   se   teria
imaginado seu tom gentil da noite anterior.

       Ela mergulhou minhas mos na bacia novamente,
observando as bolhas brancas minsculas se formarem uma
terceira vez. Depois de enxagu-las em gua fria, secou-as de
leve com uma toalha branca limpa. Os pequenos furos
pareciam profundos e vazios, como se a gua oxigenada
tivesse corrodo a carne, formando crculos perfeitos. Com
uma gaze, ela comeou a enfaixar meu punho, subindo
lentamente em direo aos meus dedos.

        Sabe  disse Elizabeth , quando eu tinha 6 anos,
descobri que a nica maneira de tirar minha me da cama
era aprontando. Eu me comportava de maneira terrvel, s
para ela levantar e me punir. Quando fiz 10 anos, ela se
cansou e me mandou para um internato. Isso no vai
acontecer com voc. Nada que aprontar ser capaz de me
fazer mand-la embora. Nada. Ento pode me testar quanto
quiser, pode at jogar a prataria da minha me pela cozinha,
se  o que precisa fazer. Mas saiba que minha resposta ser
sempre a mesma: eu te amo e vou ficar com voc. O.k.?

     Olhei para Elizabeth, meu corpo tenso de desconfiana,
minha respirao presa no banheiro cheio de vapor. Eu no a
entendia. Com os ombros retesados e usando frases rspidas,
ela falava com uma formalidade que eu nunca tinha visto.
Ainda assim, por trs de suas palavras havia uma ternura
inexplicvel. Seu toque tambm era diferente: havia limpado
minhas mos com todo o cuidado, enquanto todas as minhas
outras mes adotivas agiam como se estivessem cumprindo
uma obrigao, caladas e tensas. No confiei nem um pouco
naquilo.

     O silncio pairou entre ns. Elizabeth prendeu uma
mecha de cabelo atrs da minha orelha e olhou no fundo dos
meus olhos, querendo uma resposta.

      O.k.  falei por fim, pois sabia que essa era a melhor
maneira de terminar a conversa e sair do calor daquele
banheiro pequeno.

     Os cantos da boca de Elizabeth se ergueram.

      Est bem, ento venha  disse ela.  Hoje  domingo.
Dia de irmos ao mercado dos fazendeiros.

     Ela girou meu corpo e me conduziu de volta ao quarto,
onde me ajudou a trocar a camisola por um vestido bordado.
Quando descemos, preparou ovos mexidos e me deu a comida
na boca, em pequenos pedaos, numa colher idntica  que
eu havia atirado pela cozinha na noite anterior. Mastiguei e
engoli, seguindo suas ordens, ainda tentando me conformar
com os tons de voz contrastantes e com as reaes
imprevisveis de Elizabeth. Ela no tentou conversar durante
o caf da manh, apenas observou os ovos viajarem da colher
at minha boca e descerem pela minha garganta. Quando
terminei, ela comeu um pequeno prato de ovos e depois
lavou, secou e guardou a loua.

      Pronta?  perguntou ela.

     Dei de ombros.

     Saindo de casa, atravessamos o caminho de cascalho e
ela me ajudou a subir em sua velha caminhonete cinza. O
estofado de plstico azul-piscina estava solto nas beiradas e
no havia cintos de segurana. A caminhonete sacolejou pela
entrada da garagem. Poeira, vento e fumaa invadiam a
cabine. Elizabeth dirigiu por menos de um minuto antes de
entrar num estacionamento que estava vazio quando passei
por ele no carro de Meredith. Agora, porm, encontrava-se
repleto de caminhes e barracas de frutas, com famlias
subindo e descendo as alas.

     Elizabeth andou de barraca em barraca como se eu no
estivesse ali, trocando dinheiro por sacolas pesadas de
produtos: feijo-rajado, abboras de formato alongado e
curvo,   batatas-roxas   misturadas   com   outras,   doces   e
inglesas. Enquanto ela estava ocupada pagando por um saco
de nectarinas, abocanhei uma uva verde de uma mesa repleta
delas.
      Por favor!  exclamou um homem baixinho e barbudo
que eu no tinha notado.  Prove  vontade! Esto deliciosas,
bem maduras.

     Ele arrancou um cacho e o ps em minhas mos
enfaixadas.

      Diga obrigado  falou Elizabeth, mas eu estava de boca
cheia.

     Elizabeth comprou quase 1,5 quilo de uvas, seis
nectarinas e um saco de damascos secos. Em um banco de
frente para um campo amplo e coberto de grama, nos
sentamos juntas e ela segurou uma ameixa amarela a poucos
centmetros dos meus lbios. Eu me inclinei para a frente e
comi a fruta em sua mo, o suco escorrendo pelo meu queixo
at o vestido.

     Quando s restou o caroo, Elizabeth o jogou no campo
e olhou para o outro extremo da feira.

      Est vendo aquela barraca de flores ali, a ltima da
fileira?  perguntou-me.

     Assenti. Um adolescente estava sentado na caamba
descoberta de uma picape, suas botas pesadas pendendo
sobre o asfalto. Na mesa  sua frente, havia rosas amarradas
em buqus bem apertados.

      Aquela  a barraca da minha irm  prosseguiu
Elizabeth.  Est vendo o menino? A esta altura j  quase
um   rapaz.        meu     sobrinho,   Grant.   Nunca   fomos
apresentados.

      O qu?  perguntei, surpresa. Depois de ouvir a
histria de ninar de Elizabeth, imaginava que ela e a irm
fossem prximas.  Por que no?

       uma longa histria. H 15 anos no nos falamos,
com exceo de quando fizemos a partilha dos bens de
nossos pais depois que eles morreram. Catherine ficou com
as plantaes de flores e eu, com o vinhedo.

     O garoto saltou da traseira da picape e deu o troco para
um cliente. Seu cabelo castanho longo caiu sobre o rosto e ele
o tirou da frente dos olhos antes de apertar a mo de um
velho. Suas calas estavam um pouco curtas e, dali de onde
estvamos sentadas, seus membros longos e magros eram
sua nica semelhana com Elizabeth. Ele parecia estar
cuidando da barraca de flores sozinho e me perguntei por que
Catherine no estava ali.

      O mais estranho  disse Elizabeth, seguindo os
movimentos do rapaz com os olhos   que hoje, pela primeira
vez em 15 anos, estou sentindo falta dela.

     O menino jogou o ltimo buqu de rosas para um casal
que passava por ali e Elizabeth se virou para mim, passando
os braos pelas minhas costas e puxando-me para mais perto
dela no banco. Eu me inclinei para o outro lado, mas ela
enterrou os dedos na lateral do meu corpo, segurando-me
com fora.
     O   VISCO    REPOUSAVA SOBRE         meu     peito. Eu o
observava subir e descer num movimento irregular. Meu
corao e minha respirao ainda no haviam voltado ao
ritmo normal desde que eu interpretara a resposta que aquele
estranho pusera na palma da minha mo.

     No me lembrava do que tinha feito com os baldes de
flores amarelas. No entanto, devia ter feito alguma coisa, pois
ao   meio-dia   elas   estavam   arrumadas   na    traseira   da
caminhonete de Renata  buqus de luz do sol descendo a
autoestrada para iluminar um casamento quase no inverno 
e eu tinha me deitado sozinha em cima da mesa de trabalho.
Renata me pedira para manter a loja aberta, mas nenhum
cliente apareceu. Geralmente ela no abria aos domingos,
ento deixei a porta destrancada, mas as luzes apagadas.
Tecnicamente, no estava descumprindo sua ordem, mas
tambm no estava atraindo os clientes.

     Embora a manh tivesse sido fria, minha testa estava
molhada de suor e eu me encontrava gelada, num estado de
fascinao   semelhante    ao   terror.   Durante   anos,   as
mensagens que eu enviara por meio das flores haviam sido
sistematicamente ignoradas, um trao do meu estilo de
comunicao    que    eu   achava     reconfortante.   Paixo,
intimidade, desavena ou rejeio: nada disso era possvel em
uma linguagem que no provocava reaes. No entanto,
aquele simples ramalhete de visco, se a pessoa que o dera
para mim de fato entendesse seu significado, mudou tudo.

     Tentei me acalmar, pensando que poderia ser apenas
uma coincidncia. Viscos eram considerados uma planta
romntica. Ele tinha me imaginado amarrando-o com uma
fita vermelha  armao de madeira de sua barraca e
parando debaixo do ramalhete para receber um beijo. No me
conhecia bem o suficiente para saber que eu jamais
permitiria tanta intimidade. Mas, embora s tivssemos
trocado poucas palavras, no conseguia me livrar da
sensao de que, de alguma forma, ele me conhecia bem o
bastante para compreender que um beijo estava fora de
cogitao.

     Eu teria que dar uma resposta. Se ele me presenteasse
com uma segunda flor e o significado se encaixasse
perfeitamente, eu j no teria como ignorar o fato de que ele
entendia.

     Minhas pernas tremiam quando desci da mesa e
cambaleei rumo  cmara frigorfica. Acomodando-me entre
as flores frias, pensei em minha resposta.

     Renata voltou e comeou a me dar ordens na cmara.
Havia outro trabalho, pequeno desta vez, que deveria ser
entregue mais abaixo na ladeira. Ela pegou um vaso de
cermica azul enquanto eu reunia as flores amarelas
restantes.

      Quanto?  perguntei, porque o preo servia de
parmetro para os arranjos.

      No importa. Mas diga a ela que no pode ficar com o
vaso. Vou passar l para busc-lo na semana que vem.

     Enquanto eu terminava o arranjo, Renata deslizou um
pedao de papel com um endereo anotado na minha direo.

      Voc leva  disse.

     Quando eu saa da loja, com os braos em volta do vaso,
senti Renata enfiar algo na minha mochila. Virei-me para
olhar. Ela havia sado e trancado a porta atrs de si e seguia
para a caminhonete.

      S vou precisar de voc de novo no sbado, s quatro
da manh  falou, acenando para mim.  Prepare-se para um
dia longo, sem folga.
       Assenti, observando-a subir no veculo e sair dirigindo.
Quando fez a curva, pousei o vaso no cho e abri minha
mochila. L dentro, havia um envelope com quatro notas de
100 dlares. Um bilhete dizia: Seu salrio para as duas
primeiras semanas. No me decepcione. Dobrei o dinheiro e o
guardei no suti.

       O endereo me levou at o que parecia um prdio
comercial, a apenas dois quarteires da Bloom. As janelas de
vidro da fachada estavam escuras. No dava para saber se
havia uma loja dentro, fechada aos domingos, ou se o lugar
estava vazio. Quando bati, as portas chacoalharam em suas
dobradias de metal.

       Uma janela se abriu no segundo andar e uma voz se fez
ouvir l de cima.

        J estou descendo. No v embora.

       Sentei-me no meio-fio, depositando as flores aos meus
ps.

       Dez minutos depois, a porta se abriu lentamente,
revelando uma mulher que no aparentava ter tido a menor
pressa de descer. Ela estendeu as mos para pegar as flores.

        Victoria  disse ela.  Eu sou Natalya.

       Ela lembrava Renata, com sua pele branca como leite e
olhos azul-claros, mas seu cabelo era cor-de-rosa e estava
encharcado.

       Eu lhe entreguei o vaso e me virei para ir embora.
      Mudou de ideia?  perguntou ela.

      Como?

     Natalya se afastou, como se me convidasse a entrar.

      Sobre o quarto. Falei para Renata lhe dizer que 
literalmente um closet, mas ela achou que voc no se
importaria.

     Um quarto. O dinheiro na minha mochila. Renata tinha
armado tudo aquilo sem deixar transparecer que entendia
minha situao. Meu instinto foi fugir, mas a realidade de
no ter para onde ir no podia ser ignorada.

      Quanto?  perguntei, dando um passo para trs.

      Duzentos por ms. Voc vai ver por qu.

     Olhei de um lado para o outro da rua, sem saber o que
dizer. Quando me virei de novo, Natalya j havia atravessado
a fachada vazia da loja e subia a escada ngreme.

      Voc pode entrar ou no, mas feche a porta  disse ela.

     Respirei fundo, soltando o ar por entre os lbios frouxos,
e entrei.

     O apartamento de um quarto em cima da loja parecia
projetado para ser um escritrio, com carpete fino sobre um
piso de cimento e uma cozinha com um balco longo e um
frigobar. A janela estava aberta e tinha vista para um telhado
plano.
      Legalmente, eu nem poderia alugar este quarto  falou
Natalya, indicando uma portinhola na parede perto do sof
da sala, que parecia dar acesso a um entrepiso ou a um
pequeno aquecedor de gua. Natalya me entregou um
chaveiro com seis chaves numeradas e disse:  Nmero um.

     Ajoelhando, abri a porta baixa e entrei engatinhando. O
quarto era escuro demais para que eu pudesse examin-lo.

      Levante-se  falou Natalya.  Tem uma cordinha
pendurada na lmpada do teto.

     Tateei na escurido at sentir a corda na altura do meu
rosto. Ento a puxei.

     Uma lmpada nua iluminou um quarto vazio, azul como
a palheta de um pintor no meio do mar, claro como a gua
sob a luz do sol. O carpete era felpudo e branco e parecia
quase vivo. No havia janelas. O quarto era grande o bastante
para caber uma pessoa deitada, mas no para uma cama ou
uma penteadeira, mesmo que eu conseguisse encontrar uma
que passasse por aquela porta. Uma das paredes tinha uma
fileira de trincos de metal e, quando olhei mais de perto, vi
que eles uniam o vo entre a parede e uma porta de tamanho
normal e que, por aquela fresta, entrava luz. Natalya tinha
razo: o quarto era literalmente um closet.

      A ltima pessoa que morou comigo era esquizofrnica
 disse Natalya, indicando os cadeados.  A porta d para o
meu quarto. Essas so as chaves para todos os cadeados. 
Ela apontou para o chaveiro na minha mo.
      Vou ficar com ele  falei.

     Estendi o brao para fora e coloquei duas notas de 100
dlares no brao do sof. Ento fechei a meia-porta, girei o
trinco e me deitei no meio do cmodo azul.
     O CU PARECIA MAIOR ONDE Elizabeth morava. Ele
descrevia um arco acima da linha do horizonte, o azul
infiltrando-se nas colinas secas e embotando o amarelo do
vero. A cor se refletia no telhado corrugado do galpo de
ferramentas, no trailer de metal de formato arredondado e
nas pupilas de Elizabeth. Parecia inescapvel e to pesada
quanto os silncios repentinos dela.

     Eu   estava   sentada   em   uma   cadeira   no   jardim,
esperando Elizabeth voltar da cozinha. Mais cedo naquela
manh, ela havia feito panquecas de banana com pssego,
que comi at precisar me debruar sobre a mesa da cozinha,
incapaz de me mexer. Mas, em vez de sua habitual srie de
perguntas  algumas eu respondia; outras, ignorava , ela
passara o tempo todo estranhamente calada. Tinha apenas
beliscado sua comida, catando os pssegos grelhados e
deixando o resto de sua panqueca boiar em uma poa de
calda.

     De olhos fechados, ouvi Elizabeth empurrar sua cadeira
para trs, fazendo-a ranger, atravessar s de meias o cho de
madeira e empilhar nossa loua na pia da cozinha. Porm,
em vez do som de gua corrente que geralmente vinha em
seguida, escutei um clique inesperado e, quando levantei a
cabea, Elizabeth estava encostada nos armrios, com a
ateno voltada para um telefone antigo. Ela desembolou o fio
espiralado que conectava o fone  base e ento ficou olhando
para o disco como se tivesse esquecido o nmero para o qual
pretendia ligar. Depois de um tempo, comeou a girar o disco,
mas parou quando chegou ao sexto nmero, mordeu os
lbios e bateu o telefone com fora. O barulho fez meu
estmago cheio embrulhar e respirei fundo.

     Elizabeth levou um susto e, quando se virou, pareceu
surpresa ao me ver ali, como se toda a concentrao na
ligao que no conseguira completar a tivesse feito se
esquecer completamente da minha existncia. Bufando, ela
me puxou da cadeira da cozinha e me levou at o jardim,
onde fiquei esperando.

     Ento ela surgiu da porta dos fundos, com uma p
enlameada em uma das mos e uma xcara fumegante na
outra.

      Beba  disse ela, entregando-me a xcara.  Vai ajudar
na digesto.
     Segurei a xcara entre minhas mos enfaixadas. J fazia
uma semana que Elizabeth havia limpado e coberto minhas
feridas e eu tinha me acostumado a no poder fazer nada por
causa da gaze. Elizabeth cozinhava e limpava, enquanto eu
ficava  toa dia aps dia. Quando ela me perguntava se
minhas mos estavam sarando, eu lhe dizia que pareciam
piores.

     Depois de soprar o ch, tomei um gole, desconfiada, e
ento o cuspi.

      No gostei  disse, inclinando a xcara para a frente e
deixando o lquido cair no cho diante de minha cadeira.

      Tente outra vez  falou Elizabeth.  Voc vai se
acostumar com o sabor. Hortel significa sensao de
ternura.

     Tomei outro gole. Dessa vez, mantive o lquido um pouco
mais na boca antes de cuspi-lo por sobre o brao da cadeira.

      Sensao de gosto ruim, voc quer dizer.

      No, sensao de ternura  corrigiu-me Elizabeth. 
Aquele arrepio que voc sente quando v uma pessoa amada,
sabe?

     No conhecia esse sentimento.

      Sensao de vmito  falei.

      A linguagem das flores  incontestvel, Victoria  disse
Elizabeth, virando-se e colocando suas luvas de jardinagem.
     Ela pegou a p e comeou a cuidar do solo onde eu
havia   desenraizado    uma    dzia   de   plantas   enquanto
procurava a colher.

      O que voc quer dizer com "incontestvel"? 
perguntei.

     Tomei um gole do ch de hortel, engoli e fiz uma
careta, esperando meu estmago sossegar.

      Significa que s existe uma definio, um nico
significado para cada flor. Como o alecrim, que significa...

      Recordao  falei.  Segundo Shakespeare, seja l
quem ele for.

      Isso mesmo  disse Elizabeth, parecendo surpresa.  E
a arquilgia...

      Abandono.

      Azevinho?

      Previdncia.

      Lavanda?

      Desconfiana.

     Elizabeth largou suas ferramentas de jardinagem, tirou
as luvas e se ajoelhou perto de mim. Seus olhos eram to
penetrantes que me recostei at minha cadeira comear a se
inclinar para trs e Elizabeth esticar a mo para segurar meu
tornozelo.
      Por que Meredith me disse que voc no conseguia
aprender?

      Porque no consigo  respondi.

     Ela segurou meu queixo e virou meu rosto at poder
olhar dentro dos meus olhos.

      No  verdade  disse simplesmente.  Ela me alertou
que em quatro anos de escola voc no tinha aprendido nem
os fonemas bsicos. Disse que iriam colocar voc na
educao especial se conseguisse vaga em alguma escola
pblica.

     Nessas quatro tentativas, eu tinha feito o jardim de
infncia duas vezes e a segunda srie outras duas. No
estava fingindo que era incapaz; s que ningum nunca tinha
me perguntado qual era o problema. Depois do primeiro ano,
minha reputao de instvel e dada a rompantes imprevistos
era to grande que eu era expulsa de cada turma em que
entrava. Pilhas de exerccios me ensinaram o alfabeto, os
nmeros e as operaes matemticas bsicas. Aprendi a ler a
partir dos livros ilustrados que pegava s escondidas das
mochilas dos meus colegas ou roubava das estantes nas
salas de aula.

     Houve uma poca em que acreditei que a escola poderia
ser diferente. No meu primeiro dia de aula, sentada em uma
mesa em miniatura numa fileira bem-ordenada, percebi que o
abismo que me separava das outras crianas no era visvel.
Minha professora do jardim de infncia, a Sra. Ellis, falou
meu nome com brandura, dando nfase  slaba do meio, e
me tratou como uma criana igual s outras. Ela me colocou
junto de uma menina menor que eu. Seus punhos magros
roavam nos meus enquanto andvamos lado a lado, da sala
para o ptio e depois de volta. A Sra. Ellis acreditava em
alimentar a mente, ento todos os dias depois do recreio
colocava um copo de papel com uma sardinha em cima de
cada mesa. Depois que comamos o peixe, devamos virar o
copo de cabea para baixo para ver a letra escrita no fundo.
Se consegussemos falar uma palavra que comeasse com
ela, podamos comer uma segunda sardinha. Decorei todas
as letras e palavras na primeira semana e sempre consegui a
comida extra.

     Mas depois de cinco semanas na escola, Meredith me
colocou em outra famlia, que vivia em outro bairro de ricos, e
sempre que me lembrava do peixe escorregadio eu ficava
furiosa. Minha raiva me fazia virar mesas, rasgar cortinas e
roubar merendeiras. Fui suspensa, transferida e suspensa
novamente.      Ao    final    daquele   primeiro   ano,   todos   j
esperavam que eu me comportasse de forma violenta e minha
educao foi deixada de lado.

     Elizabeth       apertou    minhas    bochechas,   seus   olhos
exigindo uma resposta.

      Eu sei ler  falei.

     Elizabeth continuou a vasculhar meu rosto, como se
estivesse determinada a desencavar cada mentira que eu j
tivesse contado na vida. Fechei os olhos at ela me soltar.
       bom saber disso  falou.

     Ento balanou a cabea e voltou a cuidar do jardim,
calando suas luvas antes de depositar em buracos rasos as
plantas    que   eu    havia   arrancado.    Fiquei     observando-a
trabalhar, repondo a camada superficial do solo e dando
tapinhas delicados ao redor de cada caule. Quando terminou,
levantou a cabea para me olhar.

      Chamei Perla para vir aqui brincar. Preciso descansar
e seria bom voc fazer uma amiga antes de as aulas
comearem amanh.

      Perla no vai ser minha amiga  retruquei.

      Voc ainda nem a conheceu!  disse Elizabeth,
exasperada.  Como pode saber se ela vai ou no ser sua
amiga?

     Sabia que Perla no seria minha amiga porque, em nove
anos,     eu   nunca     havia    tido    uma   amiga.      Meredith
provavelmente dissera isso a Elizabeth. Ela contara para
todas     as   minhas    outras    mes     adotivas,    que   ento
aconselhavam as outras crianas da casa a comerem
depressa e dormirem com seus doces de Dia das Bruxas bem
guardados dentro de seus travesseiros.

      Agora venha comigo. Ela j deve estar esperando no
porto.

     Elizabeth me conduziu pelo jardim at a pequena cerca
de madeira branca que ficava do outro lado. Perla estava
apoiada nela, esperando. Estava perto o suficiente para ter
escutado cada palavra que dissemos, mas no parecia
chateada,    somente       esperanosa.    Era    apenas    poucos
centmetros mais alta do que eu e seu corpo era macio e
arredondado. Sua blusa estava muito curta e apertada. O
tecido verde-limo se esticava sobre sua barriga e terminava
antes do cs da cala. Linhas vermelhas fundas marcavam
seus braos onde o elstico das mangas havia estado antes
de subirem e se perderem em suas axilas.

      Bom dia  cumprimentou Elizabeth.  Esta  minha
filha, Victoria. Victoria, esta  Perla.

     O som da palavra filha fez meu estmago embrulhar de
novo. Chutei poeira contra Elizabeth at ela pisar nos meus
dois ps com seu sapato direito, os dedos de sua mo
apertando minha nuca. Minha pele queimava ao seu toque.

      Oi, Victoria  disse Perla, tmida.

     Ento pegou uma trana preta pesada de cima do ombro
e mastigou as pontas j molhadas.

      timo  falou Elizabeth, como se as palavras
acanhadas     de   Perla   e   meu   silncio    teimoso   tivessem
estabelecido algum tipo de vnculo entre ns.  Vou para casa
descansar. Victoria, fique aqui fora brincando com Perla at
eu chamar voc.

     Sem esperar resposta, ela entrou em casa. Perla e eu
ficamos sozinhas, olhando para o cho. Depois de um tempo,
ela estendeu o brao de modo hesitante e tocou uma das
minhas mos enfaixadas com um dedo gordo.

       O que aconteceu?

      Puxei a gaze com os dentes, subitamente louca para
voltar a usar as mos.

       Espinhos  falei.  Tire isso para mim.

      Perla puxou as beiradas da fita e eu me livrei da gaze
sacudindo os braos. Minha pele estava plida e enrugada, as
cascas dos furos formavam crculos pequenos e secos.
Cutuquei a ponta de uma casca com a unha e ela se soltou
na mesma hora, caindo no cho.

       A gente vai estar na mesma turma amanh na escola 
disse Perla.  S tem uma turma de quarta srie.

      No respondi. Elizabeth achava que eu iria para a
escola. Mas ela tambm achava que eu seria sua filha e que
poderia me obrigar a ter uma amiga. Estava redondamente
enganada. Fui andando at o galpo de ferramentas. Perla me
seguiu com seus passos pesados. No sabia o que ia fazer,
mas    de   repente   quis   que   Elizabeth   entendesse   quo
enganada estava a meu respeito. Peguei uma faca e uma
tesoura de jardinagem numa das prateleiras e dei a volta
furtivamente at um dos lados do jardim.

      Contornando uma amendoeira, segui uma fileira de
suculentas verde-acinzentadas at elas cederem lugar ao
cascalho. Ali, no lugar onde a estrada de terra se encontrava
com o jardim vioso, havia um cacto grande e intricado. Era
maior do que o carro de Meredith, tinha o tronco marrom e
coberto de cicatrizes, como se tivesse sido ferido vrias vezes
por seus prprios espinhos. Cada ramo era estruturado como
uma srie de mos espalmadas, que cresciam uma a partir
da outra: direita, depois esquerda, ento direita outra vez.
Assim, cada um deles mantinha equilbrio suficiente para se
manter reto e alto.

     Eu j sabia o que fazer.

      Tabaibeira  disse Perla, quando apontei para o cacto.
 Figueira-da-ndia.

      O qu?

       uma figueira-da-ndia. Est vendo a fruta no topo?
No Mxico, eles a vendem no mercado. So gostosas, se voc
souber descascar direito.

      Corte a planta  ordenei.

     Perla ficou parada.

      Como assim? Inteira?

     Fiz que no com a cabea.

      S o ramo mais alto, o que tem as frutas. Quero lev-lo
para Elizabeth. Mas voc tem que cortar, seno vou
machucar minhas mos.

     Perla continuou parada, mas ergueu os olhos para o
cacto, que era duas vezes mais alto do que ela. Frutas de um
vermelho flamejante cresciam como dedos inchados no topo
de cada mo espalmada. Empurrei a faca para ela, a lmina
cega apontando para baixo, para sua barriga.

     Perla estendeu a mo, testou a ponta da lmina com seu
dedo macio, ento chegou mais perto e pegou a faca pelo
cabo.

      Onde?  perguntou baixinho.

     Apontei um ponto logo acima do tronco marrom, onde
comeava um ramo verde e longo. Perla encostou a lmina no
cacto e fechou os olhos antes de se inclinar para a frente com
todo o peso de seu corpo. A casca era resistente, mas, assim
que ela rompeu a camada externa, a faca deslizou com
facilidade e o galho caiu no cho. Apontei para as frutas e
Perla as cortou uma por uma. Elas ficaram cadas no cho,
sangrando sumo vermelho.

      Espere aqui  mandei e atravessei correndo o jardim
at onde eu tinha largado a gaze suja.

     Quando voltei, Perla estava exatamente onde eu a
deixara. Segurei um dos figos-da-ndia com a gaze, peguei a
faca e removi seus espinhos com cuidado, como se estivesse
esfolando um animal morto. Ento estendi o fruto maduro,
comestvel, para Perla.

      Aqui  falei. Ela me encarou, confusa.

      Voc no queria essas frutas?  perguntou ela.  Para
Elizabeth?
      Se quiser, leve voc mesma para ela  falei.  Eu s
preciso desta parte.  Embrulhei as tiras de pele espinhosa
com a gaze.  Agora v para casa.

     Perla   pegou   as   frutas   e   foi   embora   lentamente,
suspirando, como se esperasse algo mais de mim por seu
gesto de lealdade.

     Eu no tinha nada para lhe oferecer.
     NATALYA ERA A IRM CAULA de Renata. Ao todo
eram seis, todas mulheres. Renata era a segunda mais velha.
Demorei a semana inteira para reunir essa informao e me
senti grata por isso. Na maioria dos dias, Natalya dormia at
o fim da tarde e, quando estava acordada, no fazia barulho.
Ela me disse certa vez que no gostava de desperdiar sua
voz e o fato de considerar conversar comigo um desperdcio
no me ofendia nem um pouco.

     Natalya era vocalista de uma banda punk que, em suas
palavras, s tinha "estourado" num raio de 20 quarteires de
seu apartamento. A banda tinha uma legio de seguidores
fervorosos no Mission District e alguns outros fs perto do
Dolores Park, mas era desconhecida em qualquer outro
bairro ou cidade. Eles ensaiavam no andar de baixo. O
restante do quarteiro era composto de salas comerciais,
algumas alugadas e outras vazias, mas todas fechadas depois
das cinco da tarde. Natalya me deu uma caixa de tampes de
ouvido e uma pilha de travesseiros. Usando os dois recursos,
eu conseguia reduzir a msica a apenas uma vibrao no
carpete felpudo, o que o fazia parecer ainda mais vivo. Em
geral, a banda no comeava a ensaiar antes da meia-noite,
ento eu tinha apenas algumas horas para tentar dormir
antes de despertar.

     No trabalhei at o sbado seguinte, mas todas as
manhs daquela semana eu me vi caminhando pelas ruas
perto do mercado de flores, observando os atacadistas
entrarem   de      r   no   estacionamento   cheio,   com   seus
caminhes abarrotados de produtos. No estava procurando
o florista misterioso; pelo menos foi isso que disse a mim
mesma. Quando o vi, me esgueirei para uma viela e corri at
perder o flego.

     No sbado, j havia escolhido minha resposta. Boca-de-
leo. Presuno. Cheguei ao mercado de flores antes das
quatro da manh, a hora combinada com Renata, com uma
nota de 5 dlares e um chapu de tric novo, cor de
mostarda, enterrado at minha testa.

     O florista estava curvado, descarregando cestas de lrios,
rosas e rannculos em baldes de plstico brancos. Ele no
me viu chegar. Aproveitei a oportunidade para retribuir o
olhar despudorado que ele havia lanado sobre meu corpo no
primeiro dia em que nos vimos, avaliando-o desde a nuca at
as botas enlameadas. Ele usava o mesmo bluso preto com
capuz de quando nos conhecemos, s que mais sujo desta
vez, e sua cala estava respingada de tinta branca. Elas eram
do tipo que tem um ala para segurar um martelo, mas a ala
estava vazia. Quando ele se levantou, eu estava parada bem
na sua frente, com os braos repletos de bocas-de-leo. Tinha
gastado 5 dlares naquelas flores e, a preo de atacado, isso
dava seis maos  buqus sortidos de flores roxas, cor-de-
rosa e amarelas. Segurei as flores bem no alto, fazendo com
que suas pontas chegassem at a aba do meu chapu,
escondendo completamente meu rosto.

     Senti as mos dele se fecharem em torno da base dos
caules; seus dedos tocaram os meus e tinham a temperatura
do cu matinal de novembro. Por um instante, senti vontade
de aquec-los: no com minhas prprias mos, que no
estavam nem um pouco mais quentes, mas com meu chapu
ou minhas meias, algo que eu pudesse deixar para trs. O
vendedor pegou as flores e fiquei exposta diante dele, o calor
subindo para o meu rosto, formando manchas rosadas. Virei-
me depressa e fui embora dali.

     Renata estava me esperando na entrada, agitada e
furiosa. Tinha outro casamento grande para fazer e a noiva,
que acabara de estrelar um grande sucesso de Hollywood, era
exigente e insensata. Ela dera a Renata uma lista com vrias
pginas de flores, dizendo de quais gostava ou no,
especificando os tons com paletas de cores e o tamanho em
centmetros. Renata rasgou a lista ao meio e me entregou
uma parte, junto com um envelope de dinheiro.

      No compre sem desconto!  gritou enquanto eu me
afastava correndo.  Diga que so para mim!

     Na manh seguinte, Renata me mandou para o mercado
de flores sozinha. Tnhamos feito arranjos e amarrado buqus
at as cinco da tarde, para um casamento que comeava s
seis, e o estresse a obrigou a ficar na cama descansando. Dali
para a frente, a Bloom abriria todos os domingos; ela havia
feito uma placa nova e informado a todos os clientes assduos
que eu estaria em seu lugar. Ela me deu dinheiro, seu carto
para compras em atacado e uma chave. Prendeu um pedao
de papel com o nmero do telefone de sua casa  registradora
com fita adesiva, mas avisou-me para no incomod-la em
hiptese alguma.

     Quando cheguei ao mercado de flores, o cu ainda
estava escuro e eu quase no o enxerguei parado  entrada.
Ele estava imvel e no carregava nenhuma flor, tinha a
cabea inclinada para o cho, mas os olhos erguidos,
esperando. Caminhei at a porta com passos decididos, os
olhos colados  maaneta de metal. O mercado estaria cheio e
barulhento, mas l fora o silncio era quase absoluto.
Quando passei, ele ergueu a mo, revelando um tubo de
papel amarrado com uma fita amarela. Eu o peguei como
uma corredora agarrando um basto numa prova de
revezamento, sem desacelerar, e abri a porta. O barulho me
recebeu como o rugido de uma multido. Quando espiei por
sobre o ombro, ele no estava mais l.

     Dentro do mercado, sua barraca estava vazia. Agachei-
me atrs da madeira branca, desatei o lao e desenrolei o
tubo. O papel era velho, amarelado e esfarelava nas beiradas.
Resistia a ser aberto. Segurei os dois cantos de baixo com os
dedes do p e os de cima com meus polegares.

     O papel continha um desenho feito a lpis, desbotado,
no de uma flor, mas do tronco de uma rvore, com a
superfcie texturizada e descascada. Corri a ponta do dedo ao
longo do tronco; por mais liso que fosse o papel, o desenho
era to realista que eu quase conseguia sentir os ns speros
da madeira. No canto inferior direito, escrita em letras
curvilneas, estava a palavra lamo-branco.

     lamo-branco. No era uma planta que eu conhecesse
de cor. Tirei minha mochila das costas e peguei o dicionrio
de flores. Procurei na letra A, mas o verbete no existia. Se
houvesse um significado, eu no conseguiria descobri-lo ali.
Enrolei o tubo de papel de novo e comecei a amarr-lo com a
fita, mas parei no meio do n.

     Na parte debaixo dela, em um garrancho que reconheci
ser o mesmo dos preos das flores no quadro negro, havia as
palavras: Segunda-feira, cinco da tarde, esquina da Rua 16
com a Mission. Donuts para o jantar. A tinta preta havia
borrado a seda e as palavras estavam quase ilegveis, mas a
hora e o local estavam claros.
     Naquela manh, comprei as flores sem pensar, sem
pechinchar. Quando abri a loja, uma hora depois, me
surpreendi ao ver o que estava carregando.

     O movimento foi fraco pela manh e fiquei feliz por isso.
Sentei-me em um banco alto atrs da registradora e folheei
uma lista telefnica pesada. O nmero listado como sendo da
Biblioteca Pblica de So Francisco tinha uma longa
mensagem gravada. Eu a ouvi duas vezes, anotando os
horrios e endereos nas costas da mo. A Biblioteca Central
fechava s cinco da tarde aos domingos, como a Bloom. Eu
teria que esperar at segunda-feira. Ento, dependendo do
significado que descobrisse, decidiria se iria ou no ao
encontro.

     Ao final do dia, assim que acabei de guardar as flores da
vitrine na cmara frigorfica, a porta da frente se abriu. Uma
mulher entrou sozinha e ficou parada ali, parecendo confusa
no espao vazio.

      Posso ajud-la?  perguntei, impaciente e pronta para
ir embora.

      Voc  Victoria?

     Assenti.

      Earl me mandou aqui. Pediu-me que lhe dissesse que
precisa de mais do mesmo, exatamente o mesmo.  Ela me
deu 30 dlares.  Disse para voc ficar com o troco.
     Coloquei o dinheiro em cima do balco e fui at a
cmara frigorfica, sem saber ao certo se tinha crisntemos-
agulha suficientes. Soltei uma gargalhada quando vi que
tinha comprado um monte deles pela manh. O que restava
das pervincas estava esquecido no cho, onde eu havia
deixado na semana anterior. Renata no tinha regado a
planta, que estava seca, mas no morta.

      Por que Earl no veio?  perguntei enquanto comeava
o arranjo.

     Os olhos da mulher oscilavam rapidamente entre meu
trabalho e a janela. Ela tinha a energia de um pssaro
engaiolado.

      Ele queria que eu conhecesse voc.

     Fiquei calada e no levantei a cabea. Pelo canto do
olho, pude v-la puxar as razes de seu cabelo castanho-
avermelhado, a cor cobrindo o que provavelmente eram fios
grisalhos.

      Ele achou que voc poderia fazer um buqu para
mim... algo especial.

      Qual o motivo?  perguntei.

     Ela fez uma pausa, tornando a olhar pela janela.

      Sou solteira, mas quero um namorado.

     Olhei  minha volta. Meu sucesso com Earl havia me
deixado confiante. Ela precisava de lilases e rosas vermelhas,
decidi, mas eu no tinha comprado nenhum dos dois.
Costumava evit-los.

      Voc pode voltar depois?  perguntei.  No prximo
sbado?

     Ela assentiu.

      Deus sabe que sei esperar  falou, revirando os olhos.

     Ela observou meus dedos se moverem em crculos ao
redor dos crisntemos, silenciosos. Quando saiu, 10 minutos
depois, parecia mais leve, subindo a passos lpidos o
quarteiro rumo  casa de Earl, como se fosse muito mais
jovem do que de fato era.

     Na manh seguinte, fui de nibus at a Biblioteca
Central e esperei nos degraus de entrada at ela abrir. No
demorei muito para encontrar o que estava procurando. Os
livros sobre a linguagem das flores estavam no ltimo andar,
espremidos entre os poetas vitorianos e uma ampla coleo
sobre jardinagem. Havia mais deles do que eu esperava. Iam
desde exemplares de capa dura muito velhos, caindo aos
pedaos, como o que eu carregava, at edies brochura que
pareciam sadas de mesinhas de centro antigas. Todos os
volumes tinham uma coisa em comum: pareciam que no
eram tocados havia anos. Elizabeth tinha me dito que no
passado todos conheciam a linguagem das flores, por isso, o
fato de ela ter cado num esquecimento quase absoluto me
impressionava. Empilhei o mximo de livros que consegui
carregar em meus braos trmulos.
       Na mesa mais prxima, abri uma edio encadernada
em couro. Seu ttulo, antes todo dourado, fora reduzido a um
ou outro pontinho dessa cor. O carto de locao tinha sido
carimbado pela ltima vez antes de eu nascer. O livro
continha toda histria da linguagem das flores. Comeava
com o dicionrio de flores original, publicado na Frana do
sculo XIX, e inclua uma longa lista de nobres que haviam
flertado valendo-se dessa linguagem, oferecendo descries
minuciosas dos buqus que haviam trocado. Folheei o livro
at o final, onde havia um pequeno glossrio. O lamo-branco
no estava listado.

       Vasculhei outra meia dzia de livros, minha ansiedade
aumentando a cada volume. Estava com medo de decifrar a
resposta do vendedor, mas sentia ainda mais medo de no
encontrar a definio e nunca saber o que ele estava tentando
me dizer. Depois de 20 minutos de pesquisa, finalmente
encontrei o que estava procurando, uma nica linha entre
dois    outros   verbetes.   lamo-branco.   Tempo.   Soltei   a
respirao, aliviada, mas tambm confusa.

       Fechei o livro e apoiei a cabea em sua capa fria. Tempo,
como resposta para presuno, era mais abstrato do que eu
esperava. O tempo dir? Me d tempo? A resposta dele era
muito vaga; estava claro que no tinha aprendido com
Elizabeth. Abri mais um livro e depois outro, na esperana de
encontrar uma definio mais abrangente para aquela planta,
mas, embora tenha procurado na coleo inteira, no
encontrei mais nada. No me surpreendi. O lamo-branco 
uma rvore, por isso no devia ser popular para mensagens
romnticas. No havia nada de desejvel em galhos morrendo
nem em longas tiras de casca de rvore.

     Eu estava prestes a devolver os livros para as prateleiras
quando uma edio de bolso chamou minha ateno. A capa
continha desenhos de flores em uma grade de quadrados
pequenos, com o significado de cada uma delas em letras
midas   embaixo    da   imagem.   Na   ltima   fileira,   havia
desenhos delicados de rosas de todas as tonalidades. Debaixo
da rosa amarelo-clara estava a palavra cime.

     Se fosse qualquer outra flor, talvez eu no tivesse
percebido a discrepncia. Mas eu jamais esquecera a tristeza
que atravessou o rosto de Elizabeth quando ela indicou com
um gesto suas roseiras amarelas, ou a maneira como ela
cortava minuciosamente cada boto na primavera, deixando-
os murchar em uma pilha diante da cerca do jardim. Trocar
infidelidade por cime mudava completamente o sentido. Um
era uma atitude, o outro, apenas uma emoo. Abri o livro
pequeno, folheei as pginas, ento o larguei e abri outro.

     Horas se passaram enquanto eu assimilava centenas de
pginas de informaes novas. Fiquei sentada ali, imvel,
apenas as pginas dos livros se virando. Consultando as
flores uma de cada vez, cruzei todos os dados que havia
decorado com o que constava nos dicionrios empilhados na
mesa.
     No demorei muito a descobrir: Elizabeth havia estado
to enganada sobre a linguagem das flores quanto a meu
respeito.
     ELIZABETH ESTAVA SENTADA nos degraus da frente,
com os ps de molho em uma panela cheia d'gua. De onde
eu estava, no ponto de nibus, ela parecia pequena e seus
tornozelos expostos, plidos.

     Ela ergueu os olhos enquanto eu me aproximava e senti
uma onda de nervosismo  eu sabia que ela ainda no havia
terminado comigo. Naquela manh, o grito de Elizabeth,
seguido do baque alto de um salto de madeira contra o piso
de linleo, anunciara que ela havia descoberto os espinhos de
cacto. Ento eu me levantei, me vesti e desci as escadas
correndo, mas, quando entrei na cozinha, ela j estava
sentada  mesa, comendo tranquilamente seu mingau de
aveia. No levantou a cabea para me olhar quando entrei
nem falou nada quando me sentei.

     Fiquei furiosa com sua falta de reao.

      O que voc vai fazer comigo?  gritei e a resposta de
Elizabeth me desconcertou.

     Com um olhar sarcstico, ela me disse que cactos
significavam    amor   ardente     e,   embora   talvez      nunca
conseguisse    consertar   os    sapatos,   estava   grata    pelo
sentimento. Balancei a cabea com violncia, mas Elizabeth
me lembrou o que havia explicado no jardim outro dia: cada
flor tinha apenas um significado, para evitar confuses.
Peguei minha mochila e sa andando em direo  porta, mas
Elizabeth veio atrs de mim, pressionando um buqu contra
a minha nuca.

      No quer ver minha resposta?  perguntou. Dei meia-
volta e deparei com ptalas roxas minsculas.  Baunilha-
dos-jardins  disse ela.  Amor devoto.

     Eu no tinha parado para recuperar o flego, ento o
que disse em seguida saiu como um sussurro feroz.

      Cactos significam odeio voc  falei, batendo a porta na
sua cara.

     Agora, um dia inteiro de aula havia passado e minha
raiva tinha se reduzido a algo parecido com arrependimento.
Mas Elizabeth sorriu ao me ver, sua expresso transmitindo
boas-vindas, como     se    tivesse esquecido   completamente
minha declarao de dio de poucas horas antes.

      Como foi o primeiro dia de aula?

      Pssimo  respondi.

     Subi os degraus de dois em dois, minhas pernas se
esticando ao mximo em minha tentativa de passar por
Elizabeth, mas ela estendeu depressa seus dedos finos e os
fechou em volta do meu tornozelo.

      Sente-se  ordenou, segurando-me com firmeza e
impedindo que eu fugisse.

     Virei-me e me sentei no degrau logo abaixo de Elizabeth
para evitar seu olhar, mas ela me puxou para cima pela gola
da blusa at ficarmos cara a cara.

      Assim est melhor  falou, dando-me um prato com
uma pera cortada e um muffin.  Agora coma. Vou lhe dar
uma tarefa que pode levar a tarde inteira, ento voc vai
comear assim que terminar de comer isso.

     Eu odiava o fato de Elizabeth cozinhar to bem. Ela me
mantinha to bem alimentada que eu nem havia recorrido ao
queijo processado que escondera na gaveta da minha mesa.
As peras no prato estavam descascadas e descaroadas; o
muffin, cheio de pedaos quentes de banana e lascas de
pasta de amendoim derretida. Comi at o ltimo pedao.
Quando terminei, troquei o prato por um copo de leite.
      Pronto  disse ela.  Agora voc j pode passar o tempo
que for preciso tirando cada espinho de dentro dos meus
sapatos.  Elizabeth me entregou um par de luvas de couro
grandes demais para as minhas mos, uma tesoura e uma
lanterna.  Quando terminar, calce-os e suba e desa estes
degraus trs vezes, para me provar que conseguiu.

     Joguei as luvas escada abaixo e elas aterrissaram como
mos esquecidas no cho de terra. Enfiando minhas mos
nuas dentro da escurido do sapato, vasculhei o couro macio
com os dedos em busca de espinhos. Encontrei um e o prendi
entre as unhas, arrancando-o e jogando-o no cho.

     Elizabeth ficou me observando trabalhar com uma
concentrao silenciosa: primeiro o revestimento interno,
depois as laterais e, por fim, a ponta dos dedos. O sapato com
o qual Elizabeth tinha pisado foi o mais difcil, pois seu peso
cravara os espinhos at o fundo do couro. Arranquei um por
um com a tesoura, como uma cirurgi desleixada.

      Se no  amor ardente, ento o que ?  perguntou
Elizabeth quando eu j estava quase terminando a tarefa.  O
que significa, se no sua devoo eterna e compromisso
apaixonado para comigo?

      J falei antes de ir para a escola  respondi.  Cactos
significam odeio voc.

      No, no significam  disse Elizabeth com firmeza.  Se
quiser, posso lhe ensinar a flor que significa dio, mas essa 
uma palavra vaga. O dio pode ser passional ou desdenhoso;
pode nascer da antipatia, mas tambm do medo. Se voc me
disser exatamente o que est sentindo, poderei ajud-la a
encontrar a flor certa para transmitir sua mensagem.

      No gosto de voc  falei.  No gosto que me tranque
do lado de fora da casa ou me jogue em cima da pia da
cozinha. No gosto que fique tocando minhas costas,
apertando meu rosto ou me forando a brincar com Perla.
No gosto das suas flores, das suas mensagens nem dos seus
dedos finos. No gosto de nada a seu respeito. E tambm no
gosto de nada no mundo.

      Muito melhor!  Elizabeth parecia sinceramente
impressionada por meu monlogo repleto de dio.  Sem
dvida, a flor que voc est procurando  o cardo, que
simboliza a misantropia. Misantropia significa dio pela
humanidade ou falta de confiana nela.

      Humanidade significa todo mundo?

      Sim.

     Pensei naquilo. Misantropia. Ningum nunca tinha
resumido meus sentimentos numa nica palavra. Repeti-a
mentalmente at me certificar de que no a esqueceria.

      Voc tem essa flor aqui?

      Tenho  disse ela.  Termine sua tarefa e vamos
procurar juntas. Tenho que fazer uma ligao e s vou sair da
cozinha depois disso. Quando ns duas tivermos terminado,
podemos sair em busca de cardo.
        Elizabeth entrou em casa mancando e, quando a porta
de tela se fechou com um baque, subi correndo os degraus,
agachando-me debaixo da janela. Esfreguei minha mo
contra o couro macio dos sapatos para ver se havia deixado
escapar algum espinho. Se ela iria finalmente dar o
telefonema que vinha tentando havia dias, eu queria ouvir. A
ideia de que Elizabeth  que nunca parecia tropear nas
palavras  tivesse dificuldade de dizer alguma coisa era
intrigante. Bisbilhotando pela janela, eu a vi se sentar diante
do balco da cozinha. Ela discou sete nmeros depressa,
talvez tenha escutado o primeiro toque, mas ento desligou.
Tornou a discar, lentamente dessa vez. Manteve o telefone
colado  orelha. Mesmo de onde eu estava sentada, pude ver
que ela estava prendendo a respirao. Elizabeth ficou
ouvindo por um bom tempo.

        Por fim, falou:

         Catherine.  Ela tapou o fone com uma das mos e
emitiu um som entre um engasgo e um soluo. Observei-a
secar os cantos dos olhos. Ento, levou o fone de volta 
boca.  Aqui  Elizabeth.  Ela fez mais uma pausa e agucei a
audio, tentando escutar a voz que vinha do outro lado da
linha, mas no consegui. Elizabeth prosseguiu em tom frgil.
 Sei que j se passaram 15 anos e que voc provavelmente
achou que nunca mais teria notcias minhas. Para ser franca,
eu achei que voc nunca mais teria notcias minhas. Mas eu
tenho uma filha agora e no consigo parar de pensar em
voc.
     Percebi que ela estava falando com uma secretria
eletrnica,   no   com   uma   pessoa.   Suas   palavras   se
atropelavam, cada vez mais rpidas.

      Sabe  disse ela , a primeira coisa que todas as
mulheres que conheo que tiveram bebs fizeram foi ligar
para as mes. Querem sua companhia, mesmo que as
odeiem.  Ento Elizabeth soltou uma risada, relaxando os
ombros, que at esse momento estavam erguidos quase at
as orelhas. Ela brincou com o fio espiralado em seu dedo. 
Entendo isso agora, sabe? De uma forma totalmente
diferente. Como nossos pais esto mortos, voc  tudo o que
me resta, e penso em voc o tempo todo: quase no consigo
pensar em outra coisa.  Elizabeth fez uma pausa, talvez
pensando no que dizer em seguida ou em como diz-lo.  Eu
no tive um beb... pretendia ter, quer dizer, pretendia adotar
um... mas acabei arranjando uma menina de 9 anos. Um dia,
quando nos encontrarmos, vou lhe contar essa histria
direito. Espero que isso acontea. Enfim, quando voc
conhecer Victoria, vai entender... ela tem olhos selvagens,
iguais aos que eu tinha quando era pequena, depois que
descobri que a nica maneira de tirar nossa me do quarto
era tacar fogo na cozinha ou quebrar todas as conservas de
pssego da estao.  Elizabeth voltou a rir, secando os olhos.
Embora ela estivesse chorando, no parecia.  Lembra?
Ento, s estou ligando para dizer que perdoo voc pelo que
aconteceu. Faz tanto tempo, uma vida, na verdade. Eu
deveria ter telefonado h anos e sinto muito por no ter feito
isso. Espero que voc me ligue ou venha me ver. Sinto sua
falta. E quero conhecer Grant. Por favor.  Elizabeth
aguardou, esperando, ento colocou o telefone no gancho
com tanta suavidade que mal pude ouvir o clique.

     Desci correndo os degraus e fiquei olhando atentamente
para os sapatos de Elizabeth, torcendo para ela no ter
notado que eu estava ouvindo. Por fim, ela saiu da cozinha e
desceu mancando a escada. Seus olhos estavam secos, mas
ainda brilhavam. Ela parecia mais leve do que nunca, at
mais feliz.

      Bem, vamos ver se voc conseguiu  disse ela. 
Experimente-os.

     Calcei os sapatos, ento tornei a tir-los, arrancando do
meu dedo um espinho que tinha deixado escapar. Em
seguida calcei-me de novo. Subi e desci os degraus trs vezes.

      Obrigada  disse ela, calando um sapato no seu p
ileso e suspirando de prazer.  Ah, muito melhor.  Ela se
levantou devagar.  Agora v at a cozinha e pegue um pote
de geleia vazio no armrio dos copos, um pano de pratos e a
tesoura que est em cima da mesa.

     Fiz o que ela pediu e, quando voltei, ela estava parada
sobre o ltimo degrau, tentando se apoiar no p machucado.
Olhou da estrada para o jardim e do jardim para a estrada,
como se no soubesse bem para onde ir.

      O cardo cresce em qualquer lugar  falou.  Talvez por
isso os seres humanos sejam sempre to cruis uns com os
outros.  Ela deu o primeiro passo em direo  estrada e fez
uma careta.  Voc vai ter que me ajudar ou no vamos
chegar nunca  disse, segurando meu ombro.

      Voc no tem uma bengala ou coisa parecida? 
perguntei, afastando-me do seu toque.

     Elizabeth riu.

      No, voc tem? No sou uma velha, embora voc possa
pensar que sim.

     Ela estendeu o brao na minha direo e, dessa vez, no
recuei. Elizabeth era to alta que teve que se curvar para se
apoiar no meu ombro. Seguimos at a estrada a passos
lentos. Ela parou uma vez para ajeitar o sapato antes de
prosseguirmos. Meu ombro queimava debaixo de sua mo.

      Aqui  falou Elizabeth quando chegamos  estrada. Ela
se sentou no cascalho, recostando-se contra a haste da caixa
de correio.  Est vendo? Est em toda a parte.  Ela indicou
com um gesto a vala que separava a rodovia das fileiras de
vinhas. Sua profundidade equivalia  minha altura, era cheia
de plantas duras e secas, sem uma s flor.

      No estou vendo nada  falei, decepcionada.

      Entre na vala  ordenou ela.

     Eu me virei e deslizei pela parede de terra ngreme. Ela
me estendeu o pote de geleia e a tesoura.

      Procure flores do tamanho de moedas que j foram
roxas, embora a esta poca do ano provavelmente j tenham
ficado marrons, como tudo no Norte da Califrnia. Elas so
afiadas, por isso, quando as encontrar, corte-as com cuidado.

     Peguei o pote e a tesoura, agachando-me em meio s
plantas. A vegetao era espessa, dourada e cheirava a final
de vero. Cortei uma planta seca na altura da raiz. Ela ficou
em p onde estava, sustentada por todos os lados pelas
outras plantas. Desembaraando-a, eu a atirei no colo de
Elizabeth.

       essa?

      Sim, mas esta aqui no tem flores. Continue
procurando.

     Escalei alguns centmetros pelo lado da vala para ter
uma viso melhor, mas ainda assim no achei nada roxo.
Frustrada, peguei uma pedra e a atirei com toda a minha
fora. Ela atingiu a parede oposta, ricocheteando de volta na
minha direo e me obrigando a saltar para no ser atingida.
Elizabeth deu uma gargalhada.

     Pulando de volta para o meio do mato, separei as
plantas com as mos e examinei cada talo seco.

      Achei!  disse finalmente, arrancando um boto do
tamanho de um trevo e jogando-o dentro do pote.

     A flor parecia um pequeno baiacu dourado com um tufo
desbotado de cabelo roxo. Subi at onde estava Elizabeth
para lhe mostrar a flor, que saltitava dentro do pote como se
tivesse vida prpria. Tapei-o com a mo para que ela no
escapasse.

      Cardo!  falei, entregando-lhe o pote.  Para voc 
acrescentei.

     Estendi meu brao desajeitadamente e toquei seu
ombro. Talvez aquela fosse a primeira vez na vida que eu
tomava a iniciativa do contato fsico com outro ser humano;
pelo menos era a primeira de que me lembrava. Segundo
Meredith, quando beb eu gostava de pegar as coisas, sempre
esticando as mos para agarrar cabelos, orelhas ou dedos
quando conseguia encontr-los  ou, quando no conseguia,
as tiras da minha cadeirinha de beb dentro do carro  com
meus punhos arroxeados e pulsantes. Mas no me lembrava
de nada disso, ento meu gesto  o breve contato da palma de
minha mo com a omoplata de Elizabeth  me surpreendeu.
Recuei um passo, fuzilando-a com o olhar como se tivesse
sido obrigada a fazer aquilo.

     No entanto, ela apenas sorriu.

      Se eu no soubesse o que significa, estaria encantada
 falou.  Acho que essa  a maior gentileza que voc j fez
para mim e tudo isso para expressar seu dio e desconfiana
em relao  humanidade.

     Pela segunda vez naquela tarde, seus olhos se encheram
de lgrimas, mas, como antes, ela no parecia triste.
     Elizabeth estendeu os braos para me abraar, mas
antes que pudesse me puxar para junto de si, eu me
desvencilhei, saltando de novo para dentro da vala.
     A FORMA SLIDA DA CADEIRA em que eu estava
sentada comeou a se desmanchar. Sem saber como tinha
chegado quela posio, deitei-me de barriga para baixo no
cho da biblioteca, com livros espalhados em um semicrculo
ao meu redor. Quanto mais eu lia, mais sentia minha
compreenso do universo me escapar. Arquilgia significava
tanto abandono quanto insensatez; papoula, imaginao e
extravagncia. A flor de amendoeira, listada como indiscrio
no dicionrio de Elizabeth, aparecia em outros como
esperana e, s vezes, imprudncia. As definies no eram
apenas diferentes, mas muitas vezes contraditrias. Mesmo o
cardo  o elemento bsico da minha comunicao  s
aparecia como misantropia quando no estava definido como
austeridade.

     A temperatura na biblioteca subiu com o sol. No meio da
tarde, eu j estava suada, passando minha mo molhada pela
testa como se tentasse apagar memrias de uma mente
saturada. Eu tinha dado penias para Meredith: raiva, mas
tambm vergonha. Admitir vergonha estava mais perto de
pedir desculpas do que jamais tinha sido minha inteno.
Era ela quem deveria me dar buqus e mais buqus de
penias, costurar colchas cheias delas, fazer bolos com
cobertura    dessas   flores.   Se   a   penia   podia   ser   mal
interpretada, quantas vezes  e para quantas pessoas  eu
teria enviado a mensagem errada? A ideia fez meu estmago
embrulhar.

     As escolhas que eu fizera para o florista eram uma
incgnita ameaadora. Em todos os dicionrios  minha
frente, a definio de rododendro era cuidado  mas
provavelmente havia centenas, talvez milhares, de outros
dicionrios em circulao. Era impossvel saber como ele
havia interpretado minhas mensagens ou no que estava
pensando enquanto aguardava na loja de donuts. J passava
das cinco. Ele estaria l, me esperando, com os olhos
grudados na porta.

     Eu tinha que ir. Deixando os livros espalhados no cho
da biblioteca, desci os quatro lances de escada aos saltos e
sa para a luz do fim da tarde de So Francisco.
     J eram quase seis horas quando cheguei  lanchonete.
Abri as portas de vidro duplas e o encontrei sentado sozinho
diante de uma mesa, com meia dzia de donuts em uma
caixa cor-de-rosa  sua frente.

     Andei at l, mas no me sentei.

      Rododendro  falei, interrogando-o como Elizabeth um
dia fizera comigo.

      Cuidado.

      Visco.

      Eu supero todos os obstculos.

     Assenti e continuei.

      Boca-de-leo?

      Presuno.

      lamo-branco?

      Tempo.

     Tornei a assentir, espalhando diante dele alguns cardos
que havia colhido enquanto cruzava a cidade a p.

      Cardo. Misantropia  disse ele.

     Eu me sentei. Tinha sido um teste e ele havia passado.
Meu alvio era desproporcional s suas cinco respostas
corretas. Subitamente faminta, peguei um donut da caixa.
No tinha comido nada o dia inteiro.
      Por que o cardo?  perguntou ele, servindo-se de um
donut clssico de chocolate.

      Porque sim  falei entre mordidas vorazes.  E isso 
tudo que voc precisa saber a meu respeito.

     Ele terminou seu donut e comeou a comer outro.

      No  possvel  falou, balanando a cabea.

     Peguei um donut com glac e outro confeitado da caixa e
os coloquei em cima de um guardanapo. Ele estava comendo
to depressa que tive medo de que a caixa acabasse antes
que eu comesse o primeiro.

      O que mais haveria para saber?  perguntei com a
boca cheia.

     Ele fez uma pausa e ento olhou nos meus olhos.

      Por onde voc andou nos ltimos oito anos?

     Aquela pergunta me surpreendeu.

     Parei de mastigar e tentei engolir, mas tinha colocado
comida de mais na boca. Cuspi uma bola marrom em um
guardanapo branco e levantei os olhos.

     De repente, entendi tudo. A obviedade daquilo era to
chocante quanto o fato de termos nos reencontrado. Eu no
conseguia acreditar que no o reconhecera de imediato. O
menino que ele havia sido estava escondido dentro do homem
que se tornara, mas seus olhos ainda eram profundos e
medrosos, seu corpo, plenamente desenvolvido agora, ainda
tinha os ombros curvados, como se estivesse se defendendo.
Lembrei-me da primeira vez que o vi, um adolescente
desengonado sentado na caamba de um caminho, jogando
rosas para os fregueses.

      Grant.

     Ele assentiu.

     Meu instinto foi sair correndo. Eu tinha passado anos
de mais tentando no pensar no que fizera, tentando no me
lembrar de tudo o que havia perdido. No entanto, por mais
que quisesse fugir, meu desejo de saber que fim teriam levado
Elizabeth e o vinhedo era mais forte.

     Cobri o rosto com as mos. Elas estavam com cheiro de
acar. Sussurrei minha pergunta, sem saber ao certo se ele
a responderia:

      Elizabeth?

     Grant ficou calado. Espiei por entre os espaos de meus
dedos. Ele no parecia irritado como eu temia, apenas
angustiado. Puxou uma mecha de cabelo para cima da
orelha, a pele do seu couro cabeludo se esticando.

      No sei  disse.  No a vejo desde...

     Grant se deteve, olhando pela janela e depois para mim.
Tirei as mos do rosto, procurando sua raiva. Ele ainda
parecia somente aflito. O silncio entre ns era pesado.
      No sei por que voc me chamou aqui  falei por fim. 
No sei por que voc quer me ver depois de tudo o que
aconteceu.

     Ele respirou fundo, liberando a tenso em suas
sobrancelhas.

      Eu estava com medo de que voc no quisesse me ver.

     Grant lambeu um dedo. A luz fluorescente iluminou
seus olhos e se refletiu na sua barba por fazer. Eu no estava
acostumada a homens de modo geral  tendo passado minha
adolescncia em abrigos s para meninas nos quais havia
apenas um ou outro terapeuta ou professor do sexo
masculino  e no conseguia me lembrar de ter estado to
perto de um que fosse ao mesmo tempo jovem e bonito. Grant
era muito diferente de tudo a que eu estava habituada: desde
o tamanho de suas mos, pesadas sobre a mesa, at a voz
grave e tranquila que ecoava no silncio entre ns.

      Foi sua me quem lhe ensinou?  perguntei, indicando
o cardo espalhado na mesa.

     Ele assentiu.

      Mas ela morreu h sete anos. Seu rododendro foi a
primeira flor com uma mensagem que recebi desde ento.
Fiquei surpreso por ainda me lembrar do significado.

      Sinto muito  falei.  Pela sua me.

     Minhas palavras no soaram sinceras, mas Grant no
pareceu notar. Ele deu de ombros.
      Voc aprendeu com Elizabeth?

     Foi a minha vez de assentir.

      Ela me ensinou o que sabia  falei , mas no sabia
tudo.

      O que voc quer dizer?

      "A linguagem das flores  incontestvel, Victoria" 
falei, imitando o tom de voz austero de Elizabeth.  E hoje, na
biblioteca, descobri que existem trs definies contraditrias
para flor de amendoeira.

      Indiscrio.

      Sim. E no.

     Contei a Grant que o lamo-branco no estava listado
no meu dicionrio e por isso tinha ido  biblioteca, onde
encontrei o livro com a rosa amarela.

      Cime  disse Grant quando descrevi a pequena
ilustrao na capa do livro.

      Era exatamente isso que estava escrito  falei.  Mas
no foi o que aprendi.

     Acabei de comer o ltimo donut, lambi os dedos e peguei
meu dicionrio surrado da mochila. Abri na letra R e procurei
por rosa, amarela na pgina. Apontei o verbete.

      Infidelidade.  Os olhos dele se arregalaram.  Nossa!

      Muda tudo, no ?
        concordou ele.  Muda tudo.

     Ele enfiou a mo em sua mochila e retirou um livro com
capa de tecido vermelho e quarta capa verde. Folheou-o at a
pgina com o verbete rosa amarela e colocou os dicionrios
lado a lado. Cime, infidelidade. Essa simples discrepncia e
os modos como a rosa amarela tinha alterado nossas vidas
pairavam entre ns. Grant talvez soubesse os detalhes, mas
eu no sabia e no perguntei. Estar com ele j era o
suficiente; eu no tinha vontade de descobrir mais nada
sobre o passado.

     Grant tampouco parecia disposto a perder tempo com
isso. Ele fechou a caixa de donuts vazia.

      Est com fome?

     Eu sempre estava com fome. Mas, acima de tudo, no
me sentia pronta para me despedir. Grant no estava com
raiva. A sensao que eu tinha em sua companhia era a de
estar sendo perdoada. Queria sugar todo aquele perdo, lev-
lo comigo, enfrentar o dia seguinte um pouco menos
assombrada, com um pouco menos de rancor.

     Respirei fundo.

      Faminta.

      Eu tambm.  Ele fechou os dois dicionrios e deslizou
o meu pela mesa em direo  minha mochila.  Vamos
jantar e comparar os dois.  o nico jeito.
     Grant e eu decidimos jantar no Mary's Diner, porque
ficava aberto a noite toda. Tnhamos centenas de pginas de
flores para comparar e, para cada discrepncia, debateramos
qual seria a melhor definio. Concordamos que o perdedor
riscaria o significado antigo do seu dicionrio e o substituiria
pelo novo.

     Chegamos a um impasse logo no comeo. O dicionrio
de Grant definia accia como amizade, enquanto o meu dizia
amor secreto.

      Amor secreto  falei.  Prxima.

      Prxima? Assim, sem mais nem menos? Voc nem
sequer deu uma justificativa.

      Ela  espinhosa e d vagens. Basta o modo como a
rvore balana para voc pensar em homens  espreita em
lojas de convenincia, indignos de confiana.

      Como indigno de confiana pode estar relacionado a
amor secreto?  perguntou ele.

      Como pode no estar?  retruquei.

     Grant pareceu no saber como responder, ento tentou
uma ttica diferente.

      Accia. Subfamlia: Mimosoideae. Famlia: Fabaceae.
Leguminosa. Legumes nos alimentam, nos do energia e
satisfazem o corpo humano. Um bom amigo faz o mesmo.
      Besteira  falei.  Cinco ptalas. To pequenas que
ficam quase escondidas por um estame longo. Escondidas 
repeti.  Secreto. Estame: amor.

     Meu rosto ficou vermelho quando falei isso, mas no
desviei o olhar. Grant tambm no.

      Voc venceu  disse ele por fim, apanhando a caneta
preta na mesa entre ns.

     Passamos horas comendo e discutindo. Grant era a
nica pessoa que eu conhecia capaz de acompanhar meu
ritmo na hora de comer e, assim como eu, nunca parecia ficar
satisfeito.   Quando    amanheceu,   tnhamos   comido    trs
refeies cada e estvamos apenas na metade da letra C.

     Depois de ceder quanto ao significado do crcus, Grant
fechou seu dicionrio. Eu no o havia deixado ganhar
nenhuma vez.

      Acho que no vou ao mercado hoje  disse ele, olhando
para mim com uma expresso culpada.

     Conferi meu relgio. Seis da manh. Renata j estaria
l, lanando um olhar surpreso para a barraca vazia de
Grant.

      Novembro  um ms fraco, as quintas-feiras tambm
so. Tire o dia de folga.

      Para fazer o qu?

      Eu que sei?
    De repente me senti cansada, pronta para ficar sozinha.

    Eu me levantei, espreguicei-me e guardei meu dicionrio
na mochila. Deslizando a conta pela mesa na direo de
Grant, sa do restaurante sem me despedir.
     ASSIM COMO ELIZABETH, Grant era uma pessoa difcil
de se esquecer. Era mais do que o fato de nossos passados
terem se cruzado, mais do que o desenho do lamo-branco,
que, com seu mistrio, me levou a descobrir a verdade sobre
a linguagem das flores. Era algo no prprio Grant, no modo
como levava as flores a srio ou no tom de sua voz quando
discutia   sobre   elas,   ao   mesmo   tempo   suplicante   e
contundente. Ele dera de ombros quando exprimi meus
sentimentos pela morte de sua me, o que tambm me
pareceu intrigante. Seu passado, com exceo dos momentos
que eu havia testemunhado quando criana, era um mistrio
para mim. As garotas dos abrigos nunca se cansavam de
relatar sua infncia e, nas raras ocasies em que eu
encontrava algum avesso a expor os detalhes de sua vida,
me sentia aliviada. Mas com Grant era diferente. Depois de
apenas uma noite, eu queria saber mais.

     Durante uma semana, acordei cedo e passei todo o
horrio   de     funcionamento    da   biblioteca    comparando
definies. Enchi meus bolsos de seixos que peguei em frente
 casa de ch japonesa do Golden Gate Park e os usei como
peso de papel. Enfileirando dicionrios em duas mesas, abria
todos eles na mesma letra e colocava as pedras sobre as
beiradas das pginas. Passando de um livro para outro,
comparava os verbetes um a um. Sempre que encontrava
definies     conflitantes,   imaginava   debates    longos   e
acalorados com Grant. De vez em quando eu o deixava
ganhar.

     No sbado, cheguei ao mercado de flores antes de
Renata. Entreguei a Grant o rascunho que havia criado, uma
compilao de definies at a letra J, incluindo revises que
tinha feito na lista que tnhamos criado juntos. Quando
Renata e eu voltamos  barraca de Grant uma hora depois,
ele ainda estava lendo o papel. Levantou a cabea para
observar Renata analisar suas rosas.

      Algum casamento hoje?  perguntou.

     Renata assentiu.

      Dois. Mas so pequenos. Um  da minha sobrinha
mais velha. Ela est casando escondida, mas me contou
porque queria que eu lhe desse as flores.  Renata revirou os
olhos.  Est me usando, a espertinha.
      O expediente vai ser curto, ento?  perguntou Grant,
olhando para mim.

      Provavelmente, do jeito que Victoria trabalha 
respondeu ela.  Pretendo fechar a loja s trs.

     Grant embrulhou as rosas de Renata e lhe deu mais
troco do que devia. Ela j no pechinchava mais com ele; no
precisava. Viramos as costas para ir embora.

      At logo  disse ele enquanto nos afastvamos.

     Dei meia-volta, lanando-lhe um olhar inquisidor. Ele
ergueu trs dedos.

     De repente, senti como se meus pulmes estivessem
saturados. O galpo pareceu muito claro e com excesso de
oxignio, de um jeito nada natural. Concentrei-me em
expirar, seguindo automaticamente as ordens de Renata. S
depois de j termos colocado tudo na caminhonete, me
lembrei da promessa que fizera na semana anterior.

      Espere  falei, batendo a porta do veculo e deixando
Renata dentro da cabine.

     Atravessei correndo o mercado, procurando lilases e
rosas vermelhas. Grant tinha baldes cheios das duas, mas
passei por ele sem erguer os olhos. No caminho de volta para
a caminhonete, passei por ele outra vez. Protegendo meu
rosto com o caule de um lils branco, espiei em sua direo.
Ele ergueu trs dedos novamente e abriu um sorriso tmido.
Meu rosto estava quente, envergonhado. Torci para que ele
no pensasse que as flores em meus braos eram para ele.

     Trabalhei o dia inteiro atordoada pelo nervosismo. A
porta se abria e se fechava e os clientes entravam e saam,
mas eu nem sequer erguia os olhos.

      uma e meia da tarde, Renata tirou o cabelo de cima da
minha testa e, quando levantei a cabea, seus olhos estavam
a poucos centmetros dos meus.

      Al? Chamei voc trs vezes  disse ela.  Tem uma
cliente  espera.

     Peguei as rosas e os lilases da cmara frigorfica e fui at
 loja. A mulher encarava a porta como se estivesse prestes a
sair, com os ombros encurvados.

      No me esqueci da senhora  falei quando a vi.

     Ela se virou.

      Earl me disse que voc no esqueceria.

     Ela me observou trabalhar, arranjando os lilases
brancos em volta das rosas at o vermelho sumir. Passei
ramos de alecrim  que, segundo descobri na biblioteca, alm
de lembranas podiam significar compromisso  em volta das
hastes, como uma fita. O alecrim era jovem e malevel e no
se partiu quando o amarrei em um n. Acrescentei uma fita
branca para deixar o arranjo mais firme e embrulhei tudo
com papel pardo.
      Primeiros sentimentos amorosos, amor verdadeiro e
compromisso  falei, entregando-lhe as flores.

     Ela me deu 40 dlares. Fui  registradora pegar o troco,
mas quando tornei a levantar a cabea, ela j tinha ido
embora.

     Quando voltei para a mesa de trabalho, Renata me
examinou com um meio sorriso.

      O que voc estava fazendo l fora?

      S estava dando s pessoas o que elas querem 
respondi, revirando os olhos como Renata tinha feito no dia
em que nos conhecemos, quando ela estava parada na
calada com dzias de tulipas fora de poca.

      Seja l o que for  concordou Renata, cortando uma
fileira de espinhos afiados de uma rosa amarela.

     Uma rosa amarela para o casamento de sua sobrinha
fugitiva e aproveitadora. Cime, infidelidade. A definio
exata no importava muito neste caso, pensei. O resultado
no era muito promissor. Terminei meu ltimo arranjo e
conferi as horas. Duas e quinze.

      Vou s levar esses aqui para a caminhonete  falei
para Renata, apanhando o mximo de vasos que conseguia
carregar. Eles estavam cheios demais e a gua transbordou,
molhando minha blusa.

      No se preocupe  disse ela.  Grant est esperando na
porta h duas horas. Eu lhe disse que, se queria ficar
sentado ali, era melhor no espantar meus clientes e que, em
troca, iria carregar os arranjos pesados.

       Ele topou?

      Ela assentiu e larguei os vasos. Colocando minha
mochila nas costas, acenei para Renata, evitando seu olhar.
Grant estava sentado na calada, encostado no muro de
tijolos   aquecido   pelo   sol.   Ele   se   agitou   quando   sa,
levantando-se com um salto.

       O que voc est fazendo aqui?  O tom de acusao em
minha voz me surpreendeu.

       Queria levar voc at minha fazenda. Discordo de
algumas de suas definies e acho que voc vai entender
melhor se tiver as flores nas mos. Sabe que sou pssimo
para argumentar.

      Olhei para cima e para baixo da ladeira. Queria ir com
Grant, mas estar com ele me deixava nervosa. Parecia algo
ilcito. No sei se a sensao era um vestgio do tempo que eu
havia passado com Elizabeth ou se aquilo era simplesmente
prximo demais de um romance ou de uma amizade: duas
coisas que evitara minha vida inteira. Sentei-me no meio-fio,
pensativa.

       timo  disse ele, como se o fato de eu ter me sentado
fosse um sim. Ele me estendeu as chaves do seu carro e
apontou com a cabea para o outro lado da rua.  Se quiser,
pode esperar l dentro enquanto carrego as flores da Renata.
Eu trouxe nosso almoo.
     Ao ouvir aquela palavra, superei minha relutncia e
aceitei as chaves. No caminho, havia um saco de papel
branco sobre o banco do carona. Eu o peguei e subi na
cabine. O caminho estava cheio de restos de flores: pedaos
cortados de caules cobriam o cho e ptalas murchas se
enfiavam no estofado. Eu me afundei no banco e abri o saco.
Um sanduche grosso feito com po francs, peru, bacon,
tomate e abacate com maionese. Dei uma mordida.

     Do outro lado da rua, Grant carregava vasos de dois em
dois ladeira acima. Ele parou apenas uma vez no alto,
olhando para o caminho estacionado em que eu estava
sentada. Ento sorriu e perguntou "Est gostoso?", de modo
que eu pudesse ler seus lbios.

     Escondi o rosto atrs do sanduche.
     O MOTORISTA SE RETRAIU quando entrei no nibus
escolar. Reconheci a expresso em seu rosto: pena, desprezo
e uma quantidade considervel de medo. Ao me sentar, atirei
minha mochila com fora no banco vazio. O nico motivo pelo
qual ele deveria sentir pena de mim, pensei com raiva, era o
fato de eu ter que ficar olhando para sua careca feia at a
escola.

     Perla se sentou do outro lado do corredor e me deu seu
sanduche de presunto antes mesmo que eu mandasse.
Estvamos no segundo ms de aula e ela j conhecia a rotina.
Mordi pedaos grandes e os empurrei para dentro da boca,
pensando na maneira como Elizabeth sara correndo de casa
naquela manh, deixando-me sozinha para colocar o lanche
na mochila e encontrar meus sapatos. No queria ir para a
escola: tinha implorado para ficar em casa para o primeiro
dia da colheita. Mas ela havia ignorado meus apelos, mesmo
depois que eles se tornaram violentos. Se voc me amasse,
iria me querer aqui, falei, jogando meu livro de matemtica
na sua cabea enquanto ela cruzava a porta, apressada. No
fui rpida o bastante. Ela desapareceu pelo vo e desceu os
degraus da entrada, sem nem ao menos se virar quando o
livro se chocou contra o batente. Pela maneira como
Elizabeth andava, eu percebia que ela no estava pensando
em mim. No havia pensado a manh inteira. O estresse da
colheita a consumia por completo e ela me queria longe. Era
a primeira vez que eu sentia que entendia Elizabeth e, em
minha raiva, gritei que ela no era diferente de todas as
minhas outras mes adotivas. Batendo os ps desde a casa
at o ponto de nibus, ignorei os olhares dos trabalhadores
que chegavam nos caminhes.

     O   motorista    me    olhava   feio   pelo   retrovisor,
acompanhando cada mordida que eu dava no sanduche com
os mesmos olhos que deveriam estar atentos  estrada. Abri a
boca enquanto mastigava e ele franziu o rosto de nojo.

      Ento, no olhe!  gritei, pondo-me de p.  Se  to
nojento, no olhe.

     Peguei minha mochila com a vaga ideia de saltar do
nibus em movimento e seguir a p pelo resto do caminho at
a escola, mas em vez disso a levantei bem alto, balanando-a
no ar, e golpeei a cabea reluzente do motorista. Ouvi um
baque gratificante quando a minha garrafa trmica de metal
se chocou contra o seu crnio. O nibus deu uma guinada, o
motorista xingou e as crianas berraram em um tom agudo,
quase ensurdecedor. Em meio  barulheira, ouvi a vozinha de
Perla implorando para que eu parasse e comeando a chorar
em seguida. O nibus derrapou at o acostamento e o
motorista desligou o motor; os soluos de Perla eram os
nicos sons restantes.

      Desa  falou o motorista.

     Um grande galo j estava se formando em sua cabea e
ele o apertou com a palma da mo enquanto pegava o rdio
com outra. Botei a mochila nas costas e saltei do nibus.
Poeira da estrada girava o meu redor enquanto eu olhava
para cima, atravs das portas abertas.

      Qual  o nome da sua me?  exigiu saber o motorista,
apontando para mim.

      No tenho me  respondi.

      Sua tutora, ento.

      O estado da Califrnia.

      Ento com quem voc vive, porra?

     As palavras rspidas fizeram o rdio estalar e o motorista
o desligou. O silncio no nibus era completo. At Perla tinha
parado de chorar e estava imvel.

      Elizabeth Anderson  respondi.  No sei o nmero de
telefone nem o endereo dela.
     Tinha passado toda a infncia me recusando a decorar
nmeros de telefone para no ser capaz de responder a
perguntas como essa.

     O motorista atirou o rdio no cho com raiva. Ele me
fuzilou com o olhar e eu o encarei, desafiando-o. Torci para
que ele fosse embora e me deixasse sozinha no acostamento.
Preferia ser deixada ali a seguir no nibus at a escola. Alm
do mais, gostava da ideia de que me abandonar no meio do
caminho provavelmente custaria ao motorista seu emprego.
Ele tamborilou com os dedos na buzina enquanto minha
expectativa se estendia ao longo da estrada vazia.

     Foi ento que Perla se levantou e parou na frente do
motorista.

      O senhor pode ligar para o meu pai. Ele vir busc-la.

     Eu a fitei com os olhos apertados. Perla desviou o olhar.

     Carlos foi mesmo me buscar. Ele me colocou no seu
caminho, ouviu a verso do motorista e ento me levou de
volta ao vinhedo, em silncio. Fiquei olhando pela janela
enquanto     ele   dirigia,   prestando   ateno   aos   mnimos
detalhes, como se estivesse vendo aquela paisagem pela
ltima vez. Elizabeth no ficaria comigo depois disso. Senti
um embrulho no estmago.

     Mas quando Carlos contou a Elizabeth o que eu tinha
feito, com sua mo spera segurando firme minha nuca,
forando-me a encar-la, ela riu. O som foi to inesperado e
breve que, no instante em que ela parou de rir, achei que
tinha sido minha imaginao.

      Obrigada, Carlos  disse ela, seu rosto ficando srio.
Estendeu a mo para apertar a dele, soltando-a logo em
seguida num gesto ao mesmo tempo de gratido e desdm.
Carlos se virou depressa para ir embora.  Os trabalhadores
precisam de alguma coisa?  perguntou Elizabeth enquanto
ele se afastava. Carlos balanou a cabea.  Ento, estarei de
volta em uma hora, talvez um pouco mais. Cuide da colheita
enquanto eu estiver fora, por favor.

      Fique tranquila  respondeu ele, desaparecendo atrs
dos barraces.

     Elizabeth foi direto para seu caminho. Quando se virou
e viu que eu no a seguia, andou de volta at onde eu estava.

      Voc vem comigo  falou.  Agora.

     Ela deu um passo na minha direo e me lembrei da
maneira como havia me carregado para dentro de casa,
apenas dois meses antes. Eu tinha crescido desde ento,
recuperado o peso que perdera, mas no duvidava que ela
ainda conseguisse me jogar dentro do caminho se quisesse.
Enquanto a seguia at a cabine, imaginei o que me
aguardava: a viagem at a sede do juizado, a sala de espera
de paredes brancas, Elizabeth indo embora antes mesmo de a
assistente social de planto poder conferir meus dados no
sistema. Tudo isso j havia acontecido antes. Cerrando os
punhos com fora, olhei pela janela.
      Mas, quando comeamos a descer a entrada de veculos,
as palavras de Elizabeth me surpreenderam.

       Vamos visitar minha irm. Essa briga j durou mais
tempo do que devia, voc no acha?

      Meu corpo ficou rgido. Elizabeth me encarou como se
esperasse uma resposta, ento assenti, tensa, assimilando a
realidade do que ela tinha me dito.

      Ela iria ficar comigo.

      Meus olhos se encheram de lgrimas. A raiva que
sentira   de    Elizabeth      naquela   manh     se   dissolveu,
imediatamente substituda por um estado de choque. Eu no
havia acreditado em Elizabeth, nem por um instante sequer,
quando ela me dissera que nada do que eu aprontasse faria
com que ela me devolvesse. Mas l estava eu, minutos depois
de ser mandada de volta para casa da escola  e prestes a ser
suspensa, se no expulsa , ouvindo Elizabeth falar sobre
sua   irm.    Dentro   de     mim,   havia   um   turbilho   de
pensamentos confusos e inesperados  alvio, talvez, ou at
alegria. Mordi os lbios, tentando no sorrir.

       Catherine no vai acreditar que voc deu uma pancada
na cabea do motorista enquanto ele dirigia  falou Elizabeth.
 Quero dizer, ela no vai acreditar porque tambm fiz isso:
exatamente a mesma coisa! Mas acho que estava na segunda
srie. No me lembro. Enfim, num instante ele estava
dirigindo e no outro estava me encarando pelo retrovisor e,
antes que eu pudesse me controlar, j estava fora do banco,
gritando: "Preste ateno na estrada, seu gordo desgraado!"
E, srio, ele era mesmo gordo.

     Comecei a rir e no consegui mais parar. Inclinada para
a frente e com a testa pressionada contra o painel, meu riso
saa em uma srie de barulhos guturais que pareciam
soluos. Cobri o rosto com as mos.

      O motorista do meu nibus no  gordo  falei, quando
consegui me acalmar o suficiente , mas  feio.

     Voltei a rir, mas o silncio de Elizabeth me calou.

      No quero que pense que estou incentivando voc. 
claro que o que fez foi errado. Mas estou me sentindo mal por
ter ignorado sua raiva, por ter mandado voc para escola
naquele estado. Deveria ter me explicado melhor, deveria ter
includo voc.

     Elizabeth entendia.

     Afastei minha testa do painel e descansei a cabea em
seu colo, sentindo-me de repente menos sozinha do que me
sentira em toda a vida. O volante estava a poucos centmetros
do meu nariz e aninhei minha cabea na barriga de
Elizabeth. Se ela ficou surpresa com minha repentina
demonstrao de afeto, no demonstrou. Em vez disso, tirou
a mo da alavanca de cmbio e a colocou sobre a minha
testa, bem onde comeavam meus cabelos, acariciando
minha tmpora.
      Espero que ela esteja em casa  falou e eu soube que
seus pensamentos tinham voltado para Catherine.

     Ela ligou a seta, esperando uma fileira de veculos
passar antes de pegar a estrada.

     Elizabeth no tinha parado de pensar na irm nas
semanas anteriores  colheita. Eu sabia disso por causa dos
telefonemas, dezenas deles: todas mensagens deixadas na
secretria eletrnica de Catherine. Os primeiros foram
parecidos com o que eu tinha ouvido da varanda: momentos
de lembranas dispersas seguidos por declaraes de perdo.
Mas, ultimamente, as mensagens tinham mudado, ficaram
mais longas, pareciam conversas. s vezes eram to longas
que a secretria eletrnica desligava e Elizabeth precisava
telefonar novamente. Ela tagarelava sobre os mnimos
detalhes do nosso cotidiano, descrevendo as interminveis
degustaes de uvas e a limpeza das bacias que os catadores
usavam. Muitas vezes descrevia o que estava preparando
para o jantar enquanto cozinhava, enrolando-se no longo fio
espiralado ao sair do fogo para buscar o porta-temperos e
voltar.

     Quanto mais tempo Elizabeth passava falando com
Catherine   ou,    mais    precisamente,    com   sua    secretria
eletrnica, mais me impressionava como ela falava pouco com
qualquer outra pessoa. Ela s saa de casa para ir ao
mercado dos fazendeiros,  mercearia,  loja de ferragens e,
de vez em quando,  agncia dos correios. Essas ltimas
visitas   eram    apenas    para   buscar   plantas     que   havia
encomendado de algum catlogo de jardinagem, nunca para
enviar ou receber cartas. Era bvio que ela conhecia todo
mundo daquela pequena comunidade  mandava lembranas
para a esposa do aougueiro e, quando se aproximava dos
vendedores atrs das barracas no mercado dos fazendeiros,
cumprimentava      cada    um    deles    pelo   nome.      Mas    no
conversava com essas pessoas. Na verdade, pensei, eu no a
vira ter uma s conversa com ningum desde que chegara a
sua casa. Ela falava com Carlos sempre que necessrio, mas
apenas sobre aspectos especficos do cultivo e da colheita das
uvas, sem jamais se desviar do assunto.

     Enquanto seguamos para a casa de Catherine, com
minha cabea no colo de Elizabeth, comparei minha estada
tranquila ao seu lado a todas as coisas que antes havia
entendido   como    componentes          de   uma   vida:    famlias
numerosas, lares barulhentos, conselhos tutelares, cidades
agitadas, exploses de violncia. No queria voltar. Gostava
de Elizabeth. Gostava de suas flores, de suas uvas, de sua
concentrao    inabalvel.     Por   fim,    percebi    que      tinha
encontrado um lugar onde queria ficar.

     Saindo da estrada, Elizabeth estacionou o caminho e
respirou fundo, nervosa.

      O que ela fez com voc?  perguntei, interessada como
nunca antes estivera.

     Elizabeth no pareceu surpresa com minha pergunta,
mas no respondeu de imediato. Acariciou minha testa,
minha bochecha e meu ombro. Quando finalmente falou,
suas palavras saram na forma de um sussurro.

     Ela plantou as rosas amarelas.

    Ento ela puxou o freio de mo e segurou na maaneta.

     Venha  disse.  Est na hora de voc conhecer
Catherine.
    GRANT GUIAVA SEU caminho pela cidade, o veculo
imenso   desacelerando para fazer curvas    fechadas nos
cruzamentos mais movimentados.

     Grant?

     Sim?

    Vasculhei o saco de papel branco em busca de migalhas,
mas no encontrei nenhuma.

     No quero ver Elizabeth.

     E da?

    Como o lamo-branco, sua resposta era vaga.
      E da o qu?

      Se no quer ver Elizabeth, no v v-la.

      Ela no vai  fazenda?

      No me visita desde o dia em que voc foi com ela e
isso faz... o qu... quase 10 anos?  Grant olhou pela janela
em direo  gua e eu no conseguia ver seu rosto, mas,
quando voltou a falar, sua voz beirava a raiva.  Elizabeth
no foi nem ao enterro de minha me, mas voc acha que ela
vai aparecer hoje s porque voc est aqui?

     Ele baixou a janela e o vento se tornou um muro entre
ns dois.

     Grant e Elizabeth no tinham contato. Ele me dissera
isso quando nos encontramos na lanchonete, mas no
acreditei que fosse possvel. Ele devia saber a verdade e, se
sabia, o que o impediria de cont-la a Elizabeth? Tentei
pensar em uma explicao durante o resto da viagem, mas
quando ele parou diante do porto de metal trancado, ainda
no tinha encontrado nenhuma. Ele saiu para abrir o porto,
ento voltou para o veculo e entramos.

     A viso das flores interrompeu minhas reflexes. Saltei
do caminho e me ajoelhei no cho. Deveria haver uma cerca
delimitando a propriedade em algum lugar, mas ela no
estava visvel e as flores pareciam se estender a perder de
vista. Uma placa de jardim com um nome cientfico que no
reconheci indicava o gnero e a espcie da planta mais
prxima. Levei punhados das pequenas flores amarelas ao
rosto como se descobrisse gua depois de muitos dias no
deserto. O plen se grudou nas minhas bochechas e ptalas
caam pelo meu peito, pela barriga e pelas coxas. Grant riu.

      Vou deixar voc sozinha por um tempo  falou,
subindo no caminho.  Quando tiver terminado, v para trs
da casa.  O veculo levantou poeira enquanto sacolejava pela
entrada.

     Eu me deitei no cho entre as fileiras de plantas,
sumindo de vista.

     Encontrei Grant atrs da casa, sentado em uma mesa
de piquenique castigada pelo tempo. Em cima da mesa havia
uma caixa de bombons, dois copos de leite e a lista de
definies que eu lhe dera pela manh. Sentei-me de frente
para ele e indiquei a folha de papel com a cabea.

      Ento, qual o problema?

     Pegando a caixa de bombons, analisei as opes.
Chocolate preto, em sua maioria, com nozes e caramelo.
Exatamente o que eu teria escolhido.

     Grant correu o dedo pelo papel, parando em uma linha e
cutucando uma palavra que eu no conseguia ler de cabea
para baixo.

      Avel  declarou.  Reconciliao. Por que no paz?

      Por causa da histria da famlia Betulaceae, por
sculos dividida em duas, Betulaceae e Corylaceae. Faz pouco
tempo que foram reunidas como subgrupos de uma mesma
famlia  expliquei.  Reconciliao.

     Grant baixou os olhos para a mesa e eu conseguia notar
pela sua expresso que ele j conhecia a histria.

      Nunca vou vencer voc, no ?

      Voc sabe que no  falei.  Foi para isso mesmo que
me trouxe aqui, para tentar?

     Ele olhou para a casa e depois para as plantaes ao
longe.

      No  admitiu.  No foi para isso.  Ento pegou um
punhado de chocolates e se levantou.  Coma o chocolate.
Volto num instante. E depois vamos dar um passeio.

     Tomei meu leite. Quando Grant voltou, trazia uma velha
cmera fotogrfica em volta do pescoo, preta e pesada, com
uma ala bordada. Parecia pertencer  era vitoriana, como a
linguagem das flores.

     Ele tirou a cmera do pescoo e a entregou para mim.

      Para seu dicionrio  falou e entendi na mesma hora.
Eu criaria meu prprio dicionrio e as flores dele ilustrariam
as pginas.  Faa uma cpia para mim. Assim nunca haver
um mal-entendido entre ns.

     Isso tudo j  um mal-entendido, pensei, pegando a
cmera. Eu no ando de caminho com rapazes nem me
sento com eles em mesas de piquenique para comer
chocolate. No tomo leite enquanto converso sobre famlias,
seja de flores ou de gente.

      Grant saiu andando e eu o segui. Ele me conduziu at
uma estrada de terra que se estendia para o oeste. O sol
estava se pondo atrs dos morros mais adiante. O cu estava
indeciso, alternando-se entre cor de laranja e azul atrs das
nuvens carregadas que se aproximavam, trazendo uma
promessa nervosa de chuva. Abracei meu prprio corpo com
fora e me mantive um passo atrs dele. Grant apontou para
a esquerda, em direo a uma longa fileira de galpes de
madeira, todos fechados a cadeado. Tinham um negcio de
flores secas ali, explicou-me, mas ele o havia fechado depois
que   sua   me     ficara    doente.   Grant   no   dava   muita
importncia para as coisas que j no estavam vivas. 
direita, havia uma vasta extenso de estufas iluminadas,
longas mangueiras saindo de portas entreabertas. Grant se
aproximou de uma delas e a abriu para que eu passasse.
Entrei na estufa.

       Orqudeas  disse ele, gesticulando para prateleiras de
vasos com estacas de madeira.  Ainda no esto prontas
para venda.

      No havia um s boto  vista.

      Samos dali e continuamos seguindo o caminho, que
subia um morro e descia do outro lado. Em algum lugar
depois das plantaes de flores comeava o vinhedo, mas a
linha que separava as propriedades estava longe demais para
ser divisada. Mais adiante, a trilha contornava as estufas e
voltava por campos no cultivados at nos deixar outra vez
em frente  casa.

     Grant me conduziu por um declive at um jardim de
rosas. Era pequeno, bem cuidado e parecia pertencer  casa e
no  fazenda. A mo de Grant roou a minha enquanto
caminhvamos e me afastei um passo.

      Voc j deu uma rosa vermelha para algum? 
perguntou ele. Eu o encarei como se ele estivesse tentando
me forar a engolir um monte de dedaleiras.  Rosa
marroquina? Murta? Cravina?  insistiu ele.

      Confisso de amor? Amor? Amor puro?  perguntei,
para me certificar de que concordvamos com as definies.
Ele assentiu.  No.

     Peguei um boto cor-de-rosa claro e arranquei as
ptalas uma de cada vez.

      Fao mais o tipo cardo-penia-manjerico  falei.

      Misantropia-raiva-dio  disse Grant.

     Virei as costas para ele.

      Voc perguntou  retruquei.

       um pouco irnico, no acha?  indagou ele, olhando
para as rosas  nossa volta. Estavam todas abertas e
nenhuma era amarela.  Voc estar obcecada com uma
linguagem romntica, inventada para que amantes pudessem
se comunicar, e us-la para espalhar a hostilidade.
      Por que todas as roseiras esto em flor?  perguntei,
ignorando sua observao.

     J estava tarde para rosas naquela estao.

      Minha me me ensinou a podar todas elas na segunda
semana de outubro, assim sempre teramos rosas para o Dia
de Ao de Graas.

      Voc faz o jantar de Ao de Graas?  perguntei,
olhando na direo da casa.

     Mesmo depois de todos aqueles anos, a janela do fronto
ainda estava quebrada. Algum tinha posto uma chapa de
compensado atrs dela.

      No  admitiu ele.  Minha me costumava fazer
quando eu era mais novo, antes de comear a passar a maior
parte dos dias na cama. Mas eu sempre podava as rosas
como ela tinha me ensinado, na esperana de que, ao v-las
da janela do quarto, ela tivesse vontade de voltar para a
cozinha. S funcionou uma vez, no Dia de Ao de Graas
antes de ela morrer. Agora que ela se foi, continuo, por
hbito.

     Tentei lembrar se o Dia de Ao de Graas j havia
passado ou se seria na semana seguinte. No prestava muita
ateno aos feriados, embora trabalhando com flores fosse
difcil ignor-los. Ainda devia estar por vir, pensei. Quando
levantei os olhos, Grant estava me encarando como se
esperasse uma resposta.
      O que foi?  perguntei.

      Voc conhece sua me biolgica?

     Balancei a cabea. Ele comeou a fazer outra pergunta,
mas eu o interrompi.

      Srio. No perca seu tempo perguntando: sei tanto a
respeito dela quanto voc.

     Eu me afastei e me ajoelhei no cho, levando o visor da
cmera ao olho. Tirei uma foto desfocada de um tronco velho
e nodoso e da superfcie de razes profundas.

      Ela  manual. Voc sabe usar?

     Fiz que no com a cabea. Ele indicou os botes e
mostrou o seletor, usando termos de fotografia que eu jamais
ouvira. Eu s estava prestando ateno  distncia dos seus
dedos em relao  cmera pendurada em meu pescoo.
Sempre que ele chegava perto demais do meu peito, eu
recuava um passo.

      Tente  disse Grant quando terminou de explicar.

     Ergui a cmera novamente e girei o anel de foco para a
esquerda. Uma flor cor-de-rosa deixou de ficar borrada para
se tornar irreconhecvel.

      Para o outro lado  corrigiu-me ele.

     Voltei a girar o anel para a esquerda. O som de sua voz,
perto demais da minha orelha, fez com que eu me arrepiasse.
     Sua mo se fechou sobre a minha e ns giramos o anel
juntos para a direita. As mos dele eram macias e eu no
sentia minha pele queimar onde ele me tocava.

      Isso  falou.  Agora sim.

     Grant levou minha outra mo at a parte de cima da
mquina e pressionou meu indicador sobre um boto de
metal redondo. Meu corao parou e voltou a bater em
seguida. A lente abriu e fechou com um clique.

     Grant recolheu as mos, mas no baixei a cmera. No
confiava em meu prprio rosto. No sabia se ele veria alegria
ou dio em meus olhos, medo ou prazer escrito nas minhas
faces vermelhas. No sabia o que estava sentindo, apenas
que estava sem flego.

      Gire o filme para tirar outra foto  disse ele, mas no
me mexi.  Quer que eu lhe mostre como ?

     Recuei um passo.

      No  falei.  J chega.

      Muita informao para um dia s?  perguntou Grant.

      Sim  concordei. Tirei a cmera e a entreguei para ele.
 Muita informao.

     Fomos andando de volta para a casa. Grant no me
convidou a entrar. Foi direto para o caminho e abriu a porta
do carona, estendendo a mo para mim. Depois de hesitar
por um instante, eu a agarrei. Ele me ajudou a subir e fechou
a porta.
     Seguimos de volta para a cidade em silncio. Comeou a
chover, fraco a princpio, mas depois de forma to violenta e
inesperada que no era possvel enxergar nada. Carros
paravam no acostamento para esperar a tempestade amainar,
mas ela s piorava. Era a primeira chuva forte daquele
outono e a terra se abriu para ser regada depois de uma
longa espera, liberando o aroma caracterstico. Grant dirigia
devagar, guiado mais por sua memria do que pela viso da
estrada. A ponte Golden Gate estava deserta. gua espirrava
da baa e caa do cu com a mesma intensidade. Imaginei-a
invadindo o veculo, o nvel subindo acima dos nossos ps,
joelhos, barrigas e pescoos enquanto seguamos viagem.

     Nervosa   com   a    ideia   de   revelar   onde   ficava   o
apartamento de Natalya, pedi que Grant me deixasse em
frente a Bloom. Ainda estava chovendo quando ele parou
diante da loja. No sei se acenou para mim; no conseguia
enxerg-lo atravs da gua que escorria pelo para-brisa.

     Quando abri a porta, Natalya e sua banda estavam
montando os instrumentos. Eles me cumprimentaram com
acenos de cabea enquanto eu subia as escadas. Tirando as
chaves   da    mochila,    abri   minha     portinhola,    entrei
engatinhando no quarto e me enrosquei no cho. O carpete
felpudo absorvia a gua das minhas roupas encharcadas e o
mundo inteiro estava molhado, azul e frio. Eu tremia com os
olhos arregalados. Naquela noite, no conseguiria dormir.
     ELIZABETH PERGUNTOU se eu estava preparada.

     Fiquei surpresa ao notar como a viagem havia sido
curta. Elizabeth tinha estacionado em frente a um porto de
metal trancado, em uma entrada para veculos.  esquerda,
ficava o estacionamento que abrigava o mercado dos
fazendeiros e, logo depois dele, o vinhedo. Percebi que, em
algum lugar alm da vasta extenso de asfalto, as duas
propriedades deviam se interligar.

     Saindo do caminho, Elizabeth sacou uma chave-mestra
do bolso. Enfiou-a na fechadura e o porto se abriu. Esperei
que ela voltasse, mas em vez disso acenou para que eu
sasse.
      Vamos andando  falou, quando a alcancei.  Faz
muito tempo que no piso nesta terra.

     Ela subiu lentamente em direo  casa, parando para
arrancar flores murchas e enfiar o polegar uns dois
centmetros no solo. Cercada de flores, fiquei impressionada
ao finalmente compreender a magnitude da briga entre as
duas irms. Eu no podia imaginar nada capaz de deixar
Elizabeth to furiosa a ponto de abrir mo por tanto tempo
no s de sua irm, mas tambm daquela imensido de
flores. Ela s podia ter sofrido o pior tipo de traio possvel.

     Elizabeth acelerou o passo ao se aproximar da casa,
menor do que a nossa e amarela, mas com o mesmo tipo de
telhado pontiagudo. Enquanto subamos os degraus de
entrada, notei que a madeira estava frgil, como se no
tivesse secado bem desde as chuvas da ltima primavera. Ao
redor da porta da frente, grandes trechos da pintura amarela
comeavam a descascar, enquanto a calha, que estava solta,
pendia acentuadamente sobre o ltimo degrau. Elizabeth se
abaixou para passar por ela.

     Uma vez na varanda, ela se aproximou da porta. Havia
uma janela retangular estreita na madeira pintada de azul e
ela se inclinou para a frente. Fiquei na ponta dos ps e
encaixei minha cabea no espao logo abaixo do queixo de
Elizabeth. Espiamos o interior da casa. O vidro, turvo e sujo,
dava a impresso de estarmos observando uma cena debaixo
d'gua. As quinas da moblia se embaavam; fotografias
emolduradas pareciam flutuar sobre uma lareira. Um tapete,
fino e florido, desaparecia sob nossa respirao, que se
condensava no vidro. Notei o despojamento daquela sala: no
havia pessoas, pratos, jornais nem qualquer outro sinal de
atividade humana.

     Mas Elizabeth bateu  porta mesmo assim: primeiro de
leve, depois com mais fora. Ela esperou e, quando ningum
apareceu, comeou a bater sem parar. A intensidade com que
batia aumentava na mesma medida de sua frustrao.
Mesmo assim, ningum veio atender.

     Elizabeth se virou e desceu os degraus pisando firme.
Com medo de que a escada cedesse sob meu peso, eu a segui
na ponta dos ps. Dez passos depois, ela se virou e apontou
para um fronto: a janela estava fechada, mas a cortina, no.

      Est vendo aquela janela?  perguntou Elizabeth.  L
dentro era o sto, onde brincvamos quando ramos
pequenas. Quando fui mandada para o internato eu tinha 10
anos, ento Catherine, que devia ter 17, o transformou em
um ateli. Minha irm era muito talentosa. Poderia ter ido
para qualquer escola de arte do pas, mas no quis
abandonar nossa me.

     Elizabeth parou de falar e ns duas erguemos os olhos
para a janela. Manchas d'gua e poeira no vidro refletiam a
luz do sol. Eu no conseguia enxergar l dentro.

      Ela est l agora  disse Elizabeth.  Sei que est. Voc
acha que ela pode no ter ouvido as batidas?
     Se ela estivesse l dentro, teria ouvido. Embora tivesse
dois andares, a casa no era grande. Mas os olhos de
Elizabeth estavam cheios de esperana; eu no podia lhe
dizer a verdade.

      No sei  respondi.  Talvez no.

      Catherine?  chamou Elizabeth. A janela no se abriu
e no vi movimento algum atrs dela.  Ela pode estar
dormindo.

      Vamos embora  falei, puxando a manga de sua blusa.

      S depois de termos certeza de que ela nos viu. Se nos
vir e mesmo assim no descer, ento vai ter deixado seus
sentimentos bem claros.

     Elizabeth se virou, chutando a terra diante da fileira
mais prxima de flores. Inclinou-se para pegar uma pedra,
spera e redonda, do tamanho de uma noz. Mirou a janela e
atirou-a sem fora. A pedra ricochetou nas telhas do fronto e
caiu de volta no solo, a poucos passos de onde estvamos.
Ela a apanhou e tentou de novo, e de novo e de novo. Sua
pontaria no melhorava com a prtica.

     Perdendo a pacincia, peguei uma pedra e a atirei na
janela. Ela atingiu o alvo e o atravessou, produzindo um som
como o de uma bala estilhaando vidro, formando um crculo
perfeito no centro da janela. Elizabeth tapou os ouvidos com
as mos, trincando os dentes e fechando os olhos.
      Ai, Victoria  disse ela, com a voz aflita.  Foi muito
forte. Forte demais.

     Ela abriu os olhos e levantou o rosto para a janela.
Segui seu olhar. L dentro, a mo magra e plida de uma
mulher se esticou, os dedos se fechando ao redor de um
conjunto de cordes. Uma persiana desceu atrs do vidro
quebrado. Ao meu lado, Elizabeth suspirou, com os olhos
ainda fixos no local onde a mo havia aparecido.

      Vamos  falei, agarrando-a pelo cotovelo.

     Seus ps se moveram devagar, como se estivessem
andando em areia e eu a puxei com delicadeza at a estrada.
Depois de ajud-la a entrar no caminho, voltei para fechar o
porto de metal.
    PASSEI UMA SEMANA INTEIRA com insnia e me
sentindo intil. Meu cho felpudo demorou dias para secar e,
todas as vezes que eu me deitava nele, a umidade penetrava
em minha blusa como as mos de Grant, um lembrete
constante de seu toque. Quando conseguia dormir, sonhava
que a cmera estava voltada para meu corpo nu, tirando
fotos dos meus pulsos, da parte de baixo de meu queixo e,
uma vez, dos meus mamilos. Quando andava por ruas
desertas, ouvia o clique do obturador e me virava para trs,
esperando que Grant estivesse a poucos passos de mim. Mas
nunca havia ningum.
     Renata no deixou de notar minha incapacidade de
formar frases coerentes e de trabalhar no caixa. Era a
semana do Dia de Ao de Graas e a loja estava sempre
lotada, mas ela me relegou  rea dos fundos junto com
baldes transbordando de flores cor de laranja e amarelas e
longas hastes de folhas secas em tons fortes de outono.
Entregou-me um livro com fotos de arranjos para datas
comemorativas,      mas   eu   no   o   abri.   No   estava
completamente desperta, mas, quela altura, poderia fazer
arranjos de flores dormindo. Ela me trazia pedidos anotados
s pressas e voltava para peg-los quando estavam prontos.

     Na sexta, passada a correria do feriado, Renata me
mandou para a rea de trabalho para varrer o cho e lixar a
bancada, que estava comeando a empenar e ficar cheia de
farpas depois de anos de gua e trabalho. Uma hora depois,
quando voltou para verificar meu progresso, eu estava
dormindo sobre a mesa, de barriga para baixo, com a
bochecha colada  madeira spera.

     Ela me sacudiu. Eu ainda tinha a lixa na mo e as
pontas dos meus dedos estavam marcadas onde eu a havia
segurado.

      Se voc no fosse to requisitada, estaria no olho da
rua  falou Renata, mas com a voz bem-humorada e no em
tom de irritao.

     Perguntei-me se ela achava que eu estava apaixonada. A
verdade era muito mais complexa do que isso.
      Levante da  ordenou.  Aquela mesma senhora est
procurando voc.

     Suspirei. As rosas vermelhas tinham acabado.

     A mulher estava curvada, com os cotovelos apoiados no
balco. Usava uma capa de chuva verde-ma com cinto e ao
seu lado havia uma segunda mulher, mais jovem e mais
bonita, com uma capa vermelha do mesmo modelo. Suas
galochas pretas estavam molhadas. Olhei para fora. Tinha
voltado a chover, logo agora que minhas roupas e meu quarto
tinham secado da semana anterior. Aquilo me fez estremecer.

      Esta  a famosa Victoria  disse a senhora, inclinando
a cabea na minha direo.  Victoria, esta  a minha irm,
Annemarie. A propsito, meu nome  Bethany.

     Ela estendeu a mo para mim e eu a cumprimentei.
Meus ossos se derreteram sob o seu aperto de mo forte.

      Como vai?  perguntei.

      Nunca estive melhor  respondeu Bethany.  Passei o
feriado na casa do Ray. Nenhum de ns dois tinha feito um
jantar de Ao de Graas antes, ento acabamos jogando fora
um peru que no deu certo e esquentando sopa de tomate
enlatada. Estava uma delcia.

     Pela maneira como disse aquilo, era bvio que no
estava se referindo apenas  sopa. Sua irm resmungou.

      Quem  Ray?  perguntei.
     Renata apareceu no vo da porta com a vassoura e evitei
seu olhar curioso.

      Um cara do trabalho. Nunca tnhamos feito nada alm
de trocar reclamaes sobre ergonomia, mas, ento, na
quarta-feira, l estava ele em frente  minha mesa, me
convidando para ir  casa dele.

     Bethany tinha planos de sair novamente com Ray na
noite seguinte e queria algo para seu apartamento, algo
sedutor, falou, corando, mas que no fosse muito bvio.

      Nada de orqudeas  decretou, como se essa fosse uma
flor sensual e no um smbolo de beleza refinada.

      E para a sua irm?  perguntei.

     Annemarie parecia desconfortvel, mas no protestou
quando Bethany comeou a descrever os detalhes de sua vida
amorosa.

      Ela  casada  falou, frisando a palavra como se a
origem dos problemas de Annemarie estivesse na prpria
definio do termo.  Tem medo de que seu marido no se
sinta mais atrado por ela. O que  ridculo: olhe s para essa
mulher. Mas eles no... bem, voc sabe. E j faz muito tempo.

     Annemarie olhou pela janela e no defendeu seu marido
e seu casamento.

      O.k.  falei, processando tudo aquilo.  Amanh?

      Ao meio-dia  respondeu Bethany.  Vou precisar da
tarde inteira para limpar meu apartamento.
      Annemarie?  perguntei.  Meio-dia est bom?

     Ela no respondeu imediatamente. Cheirou as rosas e
as dlias, as flores cor de laranja e amarelas que restavam.
Quando levantou a cabea, seus olhos estavam vazios de
uma maneira que eu compreendia muito bem. Ela assentiu.

      Sim  concordou.  Por favor.

      Nos vemos amanh  falei enquanto elas se viravam
para ir embora.

     Quando a porta se fechou, ergui os olhos para encarar
Renata, que ainda estava no vo da porta com a vassoura.

      A famosa Victoria  caoou.  Dando s pessoas o que
elas querem.

     Dei de ombros e passei direto por ela. Pegando meu
casaco do gancho, virei-me para ir embora.

      Amanh?  perguntei.

     Renata nunca tinha me dado uma escala de trabalho.
Eu ia quando ela pedia.

      s quatro da manh  respondeu ela.  Casamento no
comeo da tarde, 200 convidados.

     Passei a noite sentada no quarto azul, refletindo sobre o
pedido de Annemarie. Conhecia muito bem o oposto das
relaes ntimas: havia tempos que a hortnsia, apatia, era
uma de minhas flores favoritas. Ela crescia nos jardins bem
cuidados de So Francisco durante seis meses do ano e era
til para manter colegas e funcionrios dos abrigos afastados.
Mas intimidade, proximidade e prazer sexual, essas eram
coisas sobre as quais eu nunca tivera necessidade de
pesquisar. Passei horas sentada debaixo da lmpada nua, a
luz amarelando as pginas manchadas d'gua do meu
dicionrio, buscando as flores adequadas.

     Havia a tlia, que significava amor conjugal, mas no
parecia o caso. Sua definio remetia mais a uma descrio
do passado do que a uma sugesto para o futuro. Isso sem
contar a dificuldade de encontrar uma tlia, arrancar um
galho pequeno e explicar a Annemarie por que ela deveria
expor aquilo na mesa da sala de jantar em vez de um buqu
de flores. No, decidi, a tlia no serviria.

     No andar de baixo, a banda de Natalya comeou a
ensaiar e procurei um par de tampes de ouvido. As pginas
do livro vibravam em meu colo. Encontrei flores para afeto,
sensualidade e prazer, mas nenhuma me parecia, por si s,
capaz de combater o olhar vazio de Annemarie. Cada vez mais
frustrada, cheguei  ltima flor do livro e voltei ao comeo.
Grant saberia, pensei, mas eu no podia perguntar a ele.
Seria intimidade de mais.

     Enquanto      procurava,     me    ocorreu   que,   se   no
conseguisse encontrar a flor certa, poderia dar a Annemarie
um buqu de alguma coisa ousada e chamativa e mentir
sobre o significado. Afinal, as flores em si no eram capazes
de transformar definies abstratas em realidade concreta.
Na verdade, o mais provvel era que Earl e, depois, Bethany
tivessem chegado em casa com um buqu esperando uma
mudana e a prpria crena nessa possibilidade houvesse
causado uma transformao. Resolvi que seria melhor
embrulhar um buqu de grberas em papel pardo e dizer que
significavam satisfao sexual do que pedir a opinio de
Grant sobre o assunto.

     Fechei primeiro o livro, em seguida meus olhos, e tentei
dormir.

     Duas horas depois, levantei-me e me vesti para ir ao
mercado. Estava frio e, antes mesmo de acabar de trocar de
roupa e vestir minha jaqueta, eu j sabia que no poderia dar
grberas para Annemarie. A linguagem das flores era a nica
coisa  qual eu era leal. Se comeasse a mentir sobre ela, no
restaria nada de belo ou de verdadeiro em minha vida. Sa
correndo do apartamento e atravessei 12 quarteires frios a
passos rpidos, torcendo para chegar antes de Renata.

     Grant ainda estava no estacionamento, descarregando
seu caminho. Esperei que ele me entregasse os baldes e
ento os levei para dentro. Havia apenas um banco em sua
barraca; eu me sentei nele e Grant se recostou na parede de
compensado.

      Voc chegou cedo  comentou.

     Conferi meu relgio. Passava pouco das trs horas.

      Voc tambm.

      No conseguia dormir.
     Eu tambm no, mas fiquei calada.

      Conheci uma mulher  falei.

     Para no encarar Grant, virei o banco para o outro lado,
como se fosse atender um cliente, mas o mercado estava
praticamente vazio.

      Ah, ? Quem?  perguntou ele.

      Uma mulher. Ela esteve na floricultura ontem. Ajudei
a irm dela na semana passada. Enfim, ela disse que seu
marido no est mais interessado nela. Voc sabe, em... 
parei de falar, incapaz de concluir a frase.

      Hum...  murmurou Grant. Eu sentia seus olhos nas
minhas    costas,   mas    no   me   virei    para   encar-lo.   
Complicado.  uma linguagem da era vitoriana, entende? No
se falava muito de sexo.

     Eu no tinha pensado nisso. Ficamos em silncio,
observando o mercado comear a encher. Renata chegaria a
qualquer momento e eu passaria horas sem poder pensar em
nada alm das flores do casamento de outra pessoa.

      Desejo  falou Grant por fim.  Seria minha escolha.
Acho que  o mais prximo que voc vai conseguir chegar.

     Mas eu no conhecia o desejo.

      Como?
      Junquilho  respondeu ele.   uma espcie de
narciso, uma planta silvestre dos estados do Sul. Tenho
alguns, mas os bulbos s vo florescer na primavera.

     Ainda faltavam meses. Annemarie no parecia poder
esperar tanto assim.

      No tem outro jeito?

      Poderamos forar os bulbos a desabrocharem na
estufa. Geralmente no fao isso. Essas flores so to
associadas  primavera que no h muita procura por elas
antes do final de fevereiro. Mas, se quiser, podemos tentar.

      Quanto tempo demoraria?

      No muito. Aposto que j teramos as flores em
meados de janeiro.

      Vou perguntar a ela  falei.  Obrigada.

     Fiz meno de ir embora, mas Grant colocou a mo
sobre o meu ombro para me deter. Eu me virei.

      Hoje  tarde?  perguntou ele.

     Pensei nas flores, na cmera dele e no meu dicionrio.

      Devo estar liberada s duas  respondi.

      Pego voc na loja.

      Vou estar com fome  falei ao me afastar.

     Grant riu.

      Eu sei.
     Annemarie    me    pareceu    mais    aliviada   do   que
desapontada quando lhe dei a notcia. Janeiro estava bom,
disse ela, estava timo. O perodo das festas era uma correria
e o ms de dezembro passaria voando. Ela anotou seu
telefone para mim, apertou o cinto da capa vermelha em volta
do corpo e saiu da loja atrs de Bethany, que j estava a meio
quarteiro de distncia. Eu havia lhe dado rannculos: voc
irradia charme.

     Grant chegou adiantado, como na semana anterior.
Renata o convidou a entrar. Ele se sentou  mesa e nos
observou trabalhar enquanto comia um fumegante frango ao
curry de uma embalagem de isopor. Ao seu lado, havia uma
segunda embalagem, fechada. Quando terminei os arranjos
de mesa, Renata disse que eu podia ir embora.

      E as flores de lapela?  perguntei, olhando para a caixa
em que ela estava dispondo os buqus das madrinhas.

      Pode deixar que eu termino  disse ela.  Tenho tempo
de sobra. Pode ir.  Ela me despachou, acenando para a
porta.

      Voc quer comer aqui?  perguntou Grant, me
entregando um garfo de plstico e um guardanapo.

      No carro. No quero desperdiar a luz.

     Renata nos olhou com curiosidade, mas no fez
perguntas. Ela era a pessoa menos intrometida que eu j
havia conhecido e senti uma ponta de afeio por ela
enquanto saa da loja atrs de Grant.
     O fumegante frango ao curry e nossa respirao
embaaram as janelas durante a longa viagem at a fazenda.
Seguimos em silncio e o nico som que ouvamos era o
zumbido constante do desembaador. Estava chovendo, mas
o tempo comeava a clarear. Quando Grant abriu o porto e
passamos de carro pela casa, o cu j estava azul. Ele foi
pegar a cmera e fiquei surpresa ao v-lo entrar em uma
construo de trs andares, e no na casa.

      O que  aquilo?  perguntei quando ele voltou,
gesticulando para o prdio do qual acabara de sair.

      A torre de gua. Eu a transformei num apartamento.
Quer ver por dentro?

      A luz  respondi, olhando para o sol, que j comeava
a se pr.

      Certo.

      Talvez depois.

      Tudo bem. Quer outra aula?  perguntou Grant.

     Ele deu um passo na minha direo e colocou a ala da
cmera em volta do meu pescoo. Suas mos roaram minha
nuca.

     Fiz que no com a cabea.

      Velocidade do obturador, abertura do diafragma, foco 
falei, girando o seletor e os anis e repetindo o vocabulrio
que ele me ensinara na semana anterior.  Posso aprender
sozinha.
       Est certo. Estarei l dentro.

      Ele se virou e andou de volta at a torre de gua.
Esperei at ver uma luz se acender na janela do terceiro
andar antes de me encaminhar para o jardim de rosas.

      A primeira seria a rosa branca; parecia-me um bom
comeo. Sentando-me em frente a uma roseira em flor,
desencavei um bloco de anotaes novo da minha mochila.
Aprenderia a fotografar sozinha, registrando meus sucessos e
fracassos. Se, ao revelar o filme, visse que s uma foto ficou
boa, precisaria saber exatamente o que tinha feito para
produzir aquela imagem. Numerei uma folha de papel de 1 a
36.

      Sob a luz fraca, fotografei vrias vezes o mesmo boto
semiaberto de rosa branca, anotando em termos descritivos e
no tcnicos as leituras do fotmetro e as posies exatas dos
diversos anis, seletores e botes. Registrei o foco, a posio
do sol e os ngulos das sombras. Com uma de minhas mos,
medi em palmos a distncia entre a cmera e a rosa. Quando
a luz e o filme acabaram, parei.

      A porta da torre de gua estava aberta e, quando entrei,
Grant estava sentado  mesa da cozinha. L dentro estava
to frio quanto do lado de fora. O sol havia desaparecido e,
com ele, todo o calor. Esfreguei minhas mos uma na outra.

       Ch?  ofereceu-me ele, estendendo uma caneca
fumegante.

      Fechei a porta atrs de mim.
      Por favor.

     Sentei-me de frente para ele numa mesa de piquenique
de madeira surrada, idntica  que ficava do lado de fora. Ela
estava encostada numa pequena janela com vista para a
propriedade: fileiras inclinadas de flores, os galpes e estufas
e a casa abandonada. Grant se levantou para ajeitar a tampa
de uma panela de arroz que estava transbordando gua por
uma abertura. Ento abriu um armrio e pegou um frasco de
molho de soja e o pousou sobre a superfcie irregular da
mesa.

      O jantar est quase pronto  declarou. Olhei para o
fogo e vi que a nica coisa cozinhando era o arroz.  Quer
ver o apartamento?

     Dei de ombros, mas me levantei.

      Esta  a cozinha.

     Os armrios eram pintados de verde-claro e os balces
eram de frmica cinza com acabamento prateado. Grant
parecia no ter uma tbua de corte, pois os balces estavam
lascados e arranhados. O fogo a gs era antigo, branco e
cromado, com uma prateleira dobrvel. Nela, havia uma
fileira de copos de vidro verde vazios e uma colher de pau,
com uma etiqueta branca com o preo apagado na ponta, o
que me fez pensar que ela nunca tinha sido usada ou lavada.
De todo modo, eu no estava nem um pouco ansiosa para
provar seus dotes culinrios.
     No canto da cozinha, havia uma escada caracol de metal
preto, que acabava num pequeno buraco quadrado. Grant
comeou a subi-la e eu o segui. O segundo andar era
composto de uma sala de estar na qual cabiam apenas um
sof de dois lugares de veludo laranja e uma estante de livros
que ia do cho ao teto. Uma porta levava a um banheiro de
azulejos brancos com uma banheira vitoriana. No havia
televiso nem aparelho de som. No vi nem mesmo um
telefone.

     Grant voltou  escada e me levou at o terceiro andar,
no qual um colcho de espuma grosso ocupava todo o
espao, de uma parede a outra. Dava para ver a espuma
esfarelada nas beiradas em que o lenol havia se soltado.
Roupas estavam amontoadas em dois dos cantos, algumas
dobradas, outras no. No lugar dos travesseiros, havia pilhas
de livros.

      Meu quarto  disse Grant.

      Onde voc dorme?  perguntei.

      No meio. Geralmente mais perto dos livros que das
roupas.

     Ele engatinhou pelo colcho e apagou a luminria.
Agarrei-me ao corrimo e desci de volta para a cozinha.

      Legal  falei.  Silencioso.

       assim que eu gosto. Consigo me esquecer de onde
estou, entende?
     Eu entendia. Na torre de gua, sem nada automtico ou
digital, era fcil esquecer no s onde, mas tambm em que
dcada se estava.

      A banda da garota que mora comigo ensaia todas as
noites no andar de baixo do nosso apartamento  falei.

      Parece terrvel.

      E  mesmo.

     Ele foi at o balco e serviu colheradas de arroz quente e
empapado em grandes tigelas de cermica. Entregou-me uma
delas e uma colher. Comeamos a comer. O arroz aqueceu
minha boca, garganta e estmago. Estava muito mais gostoso
do que eu esperava.

      Voc no tem telefone?  perguntei, olhando ao meu
redor.

     Eu achava que era a nica jovem no mundo moderno
que no tinha algum tipo de aparelho para me comunicar.
Grant fez que no com a cabea.

      Nenhum outro parente?  prossegui.

     Ele repetiu o gesto.

      Meu pai foi embora antes que eu nascesse. Voltou
para Londres. Nunca o conheci. Quando minha me morreu,
ela me deixou a terra e as flores, nada mais.

     Ele comeu outra colherada de arroz.

      Voc sente falta dela?  perguntei.
        Grant despejou mais molho em sua tigela.

         s vezes. Sinto falta de como ela era na minha
infncia, quando fazia o jantar todas as noites e preparava
meu lanche com sanduches e flores comestveis. Mas, no
final da vida, ela comeou a me confundir com meu pai.
Tinha ataques de raiva e me expulsava de casa. Ento,
quando percebia o que tinha feito, se desculpava com flores.

          por isso que voc mora aqui?

        Grant assentiu.

         E sempre gostei de ficar sozinho. Ningum entende
isso.

        Eu entendia.

        Ele terminou seu arroz e se serviu de outra tigela, ento
pegou a minha e a encheu tambm. Ficamos em silncio at
terminarmos a refeio.

        Grant se levantou para lavar sua loua e a colocou
emborcada em um escorredor de metal. Lavei a minha e fiz o
mesmo.

         Pronta para ir?  perguntou ele.

         O filme?  Peguei a cmera do gancho em que ele a
havia pendurado e a entreguei para ele.  No sei tir-lo da
mquina.

        Ele rebobinou o rolo e descarregou a cmera. Guardei o
tubo no bolso.
      Obrigada.

     Subimos no caminho de Grant e pegamos a estrada. J
estvamos a meio caminho da cidade quando me lembrei do
pedido de Annemarie. Soltei um arquejo.

      O que foi?  perguntou ele.

      O junquilho. Esqueci.

      Eu os plantei enquanto voc estava no roseiral. Esto
em uma caixa de papel na estufa: os bulbos precisam de
escurido at a folhagem comear a crescer. Voc pode dar
uma olhada neles no sbado que vem.

     Sbado que vem. Como se j tivssemos um encontro
marcado. Fiquei observando Grant dirigir, seu perfil duro e
srio. Eu poderia dar uma olhada neles no sbado que vem.
Era uma frase simples, mas que mudava tudo, exatamente
como a descoberta do significado da rosa amarela.

     Cime, infidelidade. Solido, amizade.
     J ESTAVA ESCURO QUANDO entrei para jantar. A
casa estava iluminada e vi Elizabeth sentada sozinha  mesa
da cozinha, emoldurada pelo vo da porta. Ela tinha feito
canja de galinha  o cheiro me alcanara no vinhedo,
atraindo-me como um m  e estava curvada diante de sua
tigela, como se analisasse seu reflexo na sopa.

      Por que voc no tem nenhum amigo?  perguntei.

     As palavras saram sem eu pensar. Havia uma semana
que eu observava Elizabeth administrar a colheita sem
nimo, com um semblante carregado, e sua imagem sentada
 mesa da cozinha, claramente solitria, arrancou a pergunta
de dentro de mim.
        Elizabeth olhou na minha direo. Ela se levantou em
silncio e derramou o contedo de sua tigela de volta na
panela. Com um fsforo, acendeu o anel de fogo azul debaixo
dela.

        Ento, virou-se para mim.

         Bem, por que voc no tem?

         Porque no quero  respondi.

        Alm de Perla, as nicas crianas que eu conhecia eram
meus colegas de turma, que me chamavam de a rf. O
apelido pegou de tal forma que eu achava que nem minha
professora se lembrava do meu verdadeiro nome.

         Por que no?  insistiu Elizabeth.

         No sei  respondi, assumindo um tom defensivo. Mas
eu sabia.

        Havia ganhado cinco dias de suspenso por ter atacado
o motorista do nibus e, pela primeira vez na vida, no me
sentia triste. Em casa com Elizabeth, eu no precisava de
mais ningum. Todos os dias eu a seguia enquanto ela
cuidava da colheita, direcionando os catadores para as frutas
maduras e afastando-os daquelas que precisavam de mais
um ou dois dias de sol. Ela colocava uvas em sua boca e
depois na minha, falando nmeros que correspondiam ao
grau de maturao: 74/6, 73/7 e 75/6. Isto, dizia quando
localizvamos um cacho maduro,  o que voc precisa ter em
mente. Este exato sabor  acar 75 e tanino 7. Essa  uma
uva perfeitamente madura, algo que nem uma mquina nem
um amador conseguem identificar. Ao final da semana, eu
tinha mastigado e cuspido uvas de quase todas as videiras e
os nmeros comearam a se revelar para mim quase antes de
elas entrarem na minha boca, como se a minha lngua
simplesmente os lesse como o nmero em um selo postal.

     A sopa comeou a ferver e Elizabeth a mexeu com uma
colher de pau.

      Tire os sapatos  ordenou.  E lave as mos. O jantar
est quente.

     Elizabeth disps sobre a mesa duas tigelas e duas broas
enormes, do tamanho de meles. Parti o po ao meio,
arrancando     o   miolo   branco   e   macio   com   a   mo   e
mergulhando-o na canja fumegante.

      J tive uma amiga  falou Elizabeth.  Minha irm era
minha amiga. Eu tinha minha irm, meu trabalho e meu
primeiro amor e no queria mais nada no mundo. Ento, de
repente, tudo o que me restou foi o meu trabalho. O que eu
havia perdido me parecia insubstituvel. Ento passei a
dedicar cada instante da minha vida a construir um negcio
de sucesso, a cultivar as uvas mais cobiadas da regio. A
meta que estabeleci era to ambiciosa e consumia tanto
tempo que no tive um s minuto para pensar em tudo o que
havia perdido.

     Compreendi que o fato de ela ter me acolhido havia
mudado aquilo. Minha presena era um lembrete constante
da famlia, do amor e me perguntei se ela teria se arrependido
de sua deciso.

      Victoria  perguntou Elizabeth sem rodeios , voc 
feliz aqui?

     Assenti, com meu corao subitamente disparado.
Ningum nunca havia me feito uma pergunta dessas sem
depois acrescentar algo como: porque, se estivesse feliz, se
tivesse o bom senso de saber que tem sorte de estar aqui, no
agiria como uma pirralha ingrata. Mas, quando o sorriso de
Elizabeth finalmente surgiu, transmitia apenas alvio.

      timo  falou.  Porque estou feliz por ter voc aqui.
Na verdade, nem estou ansiosa para que volte  escola
amanh. Tem sido bom t-la em casa. Voc se abriu um
pouco. Pela primeira vez, parece interessada em alguma coisa
e, embora eu admita sentir um pouco de cime das uvas, fico
alegre em ver voc se relacionando com o mundo.

      Odeio a escola  falei.

     O simples fato de pronunciar aquela palavra fez a canja
subir   e     voltar   at   minha   garganta,   uma   sensao
desagradvel, nauseante.

      Odeia de verdade? Porque sei que voc no odeia
aprender.

      Odeio de verdade.

     Engoli em seco, ento lhe contei do que eles me
chamavam, contei como era igual a todas as outras escolas
que tinha frequentado na vida, que eu era isolada, rotulada,
observada e que ningum nunca me ensinava nada.

     Elizabeth comeu seu ltimo pedao de po e em seguida
levou a tigela para a pia.

      Ento vamos tirar voc de l amanh. Posso lhe
ensinar mais coisas do que voc jamais aprenderia naquele
colgio. E, se quer saber, acho que voc j sofreu o suficiente
para uma vida inteira.

     Ela voltou  mesa, recolheu minha tigela e a encheu de
novo at a borda.

     Meu alvio foi to grande que esvaziei a segunda tigela e
depois uma terceira. Ainda assim, uma sensao de leveza
ameaava me arrancar da cadeira e me atirar, rodopiando,
pelas escadas acima, at a cama.
     MINHAS FOTOGRAFIAS FICARAM horrveis, to ruins
que joguei a culpa no laboratrio de revelao em uma hora e
levei os negativos para uma loja especializada. O cartaz na
porta alardeava que eles s aceitavam filmes de profissionais.
Levaram trs dias para revelar as fotos e, quando as peguei,
estavam to ruins quanto antes. At piores. Meus erros
estavam mais evidentes, as manchas verdes e brancas mais
definidas contra o fundo turvo. Joguei as fotos na sarjeta e
me sentei no meio-fio em frente  loja, derrotada.

      Fazendo experincias com abstrao?

     Eu me virei. Uma moa estava parada atrs de mim,
olhando para as fotografias espalhadas na rua. Usava um
avental e fumava um cigarro. A cinza caa ao redor das fotos.
Desejei que elas pegassem fogo.

        No  respondi.  Fazendo experincias com o
fracasso.

        Cmera nova?  perguntou ela.

        Fotgrafa nova.

        O que voc precisa saber?

       Peguei uma das fotografias do cho e a entreguei para
ela.

        Tudo  falei.

       Ela jogou o cigarro no cho, pisou sobre ele e analisou a
revelao.

        Acho que o problema  a velocidade do filme  disse
ela, gesticulando para que eu a seguisse at a loja.

       Ela me levou at a vitrine de filmes, apontando os
nmeros nos cantos das caixas que eu nem sequer havia
notado. A velocidade do obturador estava muito baixa,
explicou-me ela, e a velocidade do filme no combinava com a
luz fraca de fim de tarde. Anotei tudo o que ela disse no verso
das fotos e as guardei no bolso de trs da cala.

       No sbado seguinte, esperei ansiosa o fim do expediente.
A loja estava vazia; no tnhamos nenhum casamento.
Renata estava cuidando de uma papelada e passou a manh
inteira sem desgrudar os olhos da mesa. Quando me cansei
de esperar que ela me liberasse, parei perto dela e fiquei
batendo com o p no cho de concreto.

      Est bem, pode ir  disse ela, gesticulando para que eu
sasse. Eu me virei e j estava a meio caminho da porta
quando a ouvi acrescentar:  E no venha amanh, nem na
semana que vem ou na outra.

     Parei de andar.

      O qu?

      Voc trabalhou o dobro de horas pelas quais recebeu.
 justo que saiba disso.

     Eu no vinha fazendo as contas. Afinal, mesmo se
quisesse, no poderia arranjar outro trabalho. No tinha
diploma de nvel superior, no havia nem concludo o ensino
mdio e no sabia fazer nada. Imaginava que Renata
soubesse disso e me colocasse para trabalhar quanto
quisesse. Eu no me ressentia dela.

      E da?

      Tire umas semanas de folga. Venha daqui a duas
semanas, no domingo, e lhe pagarei como se tivesse
trabalhado: estou lhe devendo dinheiro. Voltarei a precisar de
voc perto do Natal e tenho dois casamentos no dia de Ano-
novo.

     Ela me entregou um envelope com dinheiro, o que
deveria me dar no dia seguinte. Eu o guardei na mochila.
      Est bem  falei.  Obrigada. At daqui a duas
semanas.

     Grant estava no estacionamento do mercado quando
cheguei, carregando um balde de flores no vendidas. Eu me
aproximei e estendi as fotos desfocadas para ele, segurando-
as em um leque.

      Quer uma aula agora?  perguntou ele, achando graa.

      No  respondi, entrando em seu caminho.

     Ele balanou a cabea.

      Comida chinesa ou tailandesa?

     Eu estava lendo as anotaes que fizera no verso das
fotos constrangedoras e no respondi. Quando ele parou para
comprar comida tailandesa, fiquei esperando no veculo.

      Alguma coisa picante  gritei pela janela aberta.  Com
camaro.

     Eu tinha comprado 10 rolos de filme colorido, cada um
com uma velocidade diferente. Comearia com o de asa 100,
para a luz forte da tarde, e ento iria subindo at o de 800,
que usaria logo depois do pr do sol. Grant se sentou  mesa
de piquenique com um livro e de vez em quando parava a
leitura e olhava para mim. Eu mal saa da minha posio
agachada entre dois arbustos de rosas brancas. Todas as
flores estavam abertas; dentro de sete dias no haveria mais
rosas. Como na semana anterior, numerei todas as minhas
fotografias e anotei cada ngulo e ajuste. Dessa vez, estava
determinada a acertar.

     Quando a escurido era quase total, guardei a cmera.
Grant j no estava sentado  mesa de piquenique. A luz
brilhava nas janelas da torre de gua em meio a uma nuvem
espessa de vapor. Grant estava cozinhando; eu me sentia
faminta. Coloquei os 10 rolos de filme na mochila e entrei na
cozinha.

      Est com fome?

     Ele me observou fechar o zper da mochila e respirar
fundo.

      Voc est falando srio?

     Grant sorriu. Fui at a geladeira e a abri. Estava vazia,
exceto por um pouco de iogurte e um galo de suco de
laranja. Peguei o suco e bebi direto do gargalo.

      Fique  vontade.

      Obrigada.  Tomei outro gole e me sentei  mesa.  O
que voc est fazendo?

     Ele apontou para seis latas vazias de ravili de carne.
Fiz uma careta.

      Quer cozinhar?  perguntou ele.

      Eu no cozinho. Os abrigos tm cozinheiros e, desde
que sa do ltimo, como na rua.

      Voc sempre viveu em abrigos?
         Desde que sa da casa de Elizabeth. Antes morei com
um monte de pessoas diferentes. Algumas cozinhavam bem,
outras no.

        Ele me analisou como se quisesse saber mais, porm
no me estendi no assunto. Ns dois nos sentamos  mesa
com as tigelas de ravili. Do lado de fora, caa uma chuva
torrencial, que ameaava transformar as estradas de terra em
rios.

        Quando terminamos de comer, Grant lavou sua loua e
foi para o andar de cima. Fiquei sentada  mesa da cozinha,
esperando que ele voltasse para me levar embora, mas ele
no voltou. Bebi mais suco de laranja e olhei pela janela.
Quando voltei a sentir fome, vasculhei o armrio at
encontrar uma embalagem fechada de biscoitos, que comi
inteira. Grant continuou l em cima. Coloquei uma chaleira
para ferver e fiquei parada diante dela, aquecendo minhas
mos com a chama do fogo. A chaleira comeou a chiar.

        Enchi duas canecas, peguei saquinhos de ch de uma
caixa sobre o balco e subi as escadas.

        Grant estava sentado no sof do segundo andar, com
um livro aberto no colo. Entreguei-lhe uma caneca e me
sentei no cho em frente  estante. A sala era to pequena
que, mesmo eu tendo me sentado o mais longe possvel dele,
Grant poderia tocar meu joelho com os dedos dos ps se
esticasse as pernas. Eu me virei para a estante. Na prateleira
mais baixa, havia uma pilha de livros maiores do que o
normal  a maioria manuais de jardinagem, misturados com
livros de biologia e botnica.

      Biologia?  perguntei, pegando um dos livros e
abrindo-o em um desenho cientfico de um corao.

      Comecei um curso de dois anos numa faculdade
pblica. Depois que minha me morreu, passei algum tempo
pensando em vender a fazenda e ir para a universidade. Mas
abandonei o curso na metade. No gostava dos auditrios.
Muita gente e poucas flores.

     Uma veia azul grossa saa do corao, fazendo uma
curva. Corri meu dedo por ela e ergui os olhos para Grant.

      O que voc est lendo?

      Gertrude Stein.

     Balancei a cabea. Nunca tinha ouvido falar dela.

      A poeta?  perguntou ele.  "Uma rosa  uma rosa 
uma rosa"?

     Tornei a balanar a cabea.

      Durante seu ltimo ano de vida, minha me ficou
obcecada por ela. Passou quase a vida toda lendo os poetas
vitorianos e, quando descobriu Gertrude Stein, disse que foi
um alvio.

      O que ela quer dizer com isso, "uma rosa  uma rosa 
uma rosa"?  perguntei.
     Fechando o livro de biologia com fora, deparei com o
esqueleto de um corpo humano. Cutuquei a rbita vazia com
o dedo.

      Que as coisas so apenas o que so  respondeu ele.

      "Uma rosa  uma rosa."

      " uma rosa"  acrescentou ele, com um sorriso
tmido.

     Pensei em todas as rosas no jardim l embaixo, com
seus vrios tons e idades diferentes.

      Exceto quando ela  amarela  falei.  Ou vermelha, ou
cor-de-rosa, ou quando est fechada ou morrendo.

      Foi o que sempre pensei  disse Grant.  Mas estou
dando  Sra. Stein uma chance de me convencer.  Ele voltou
ao seu livro.

     Peguei outro volume de uma prateleira mais alta. Era
um livro de poesia fino. Elizabeth Barrett Browning. Tinha
lido sua obra quase completa no incio da adolescncia,
quando descobri que os poetas romnticos muitas vezes
faziam referncias  linguagem das flores, e devorei tudo o
que pude encontrar. As pginas do livro estavam dobradas
nas pontas, com anotaes nas margens. O poema em que
abri tinha 11 versos, todos comeando com a expresso Ama-
me. Fiquei surpresa. Sem dvida j o tinha lido, mas no me
lembrava de todas aquelas referncias ao amor, somente das
referncias s flores. Guardei o livro de volta e peguei outro,
depois outro. Durante todo o tempo, Grant ficou sentado ali,
virando as pginas em silncio. Conferi meu relgio. Dez e
dez.

       Grant levantou a cabea. Olhou seu prprio relgio e
depois pela janela. Ainda estava chovendo.

        Voc quer ir para casa?

       As estradas estavam molhadas e a viagem seria lenta.
Eu ficaria ensopada nos dois quarteires entre a Bloom e
meu quarto azul e a banda de Natalya estaria ensaiando.
Renata no me esperava para trabalhar no dia seguinte.
Ento percebi que eu no estava com muita vontade de voltar
para casa.

        Eu tenho escolha?  perguntei.  No vou dormir aqui
com voc.

        No vou ficar aqui. Voc pode dormir na minha cama.
Ou no sof. Ou onde quiser.

        Como vou saber que voc no vai voltar no meio da
noite?

       Grant pegou seu chaveiro no bolso, separou a chave da
torre de gua, entregou-a para mim e desceu para o andar de
baixo. Eu o segui.

       Na cozinha, pegou uma lanterna dentro de uma gaveta e
um casaco de flanela pendurado num gancho. Abri a porta e
ele saiu, parando debaixo da cobertura da varanda. A gua
da chuva corria como um lenol d'gua em volta do alpendre
coberto.

      Boa noite  disse ele.

      Voc tem uma cpia da chave?  perguntei.

     Grant bufou e balanou a cabea, mas estava sorrindo.
Ele se agachou e pegou um regador enferrujado, cheio at a
metade de gua da chuva. Despejou a gua pelo bico, como
se estivesse regando o cascalho encharcado. No fundo do
recipiente, havia uma chave.

      Est to enferrujada que nem deve funcionar mais. De
todo modo, aqui est.  Ele me entregou a chave e nossas
mos se fecharam em volta do metal molhado.

      Obrigada  falei.  Boa noite.  Ele ficou parado
enquanto eu fechava e trancava a porta.

     Respirei fundo no vazio da torre de gua e subi as
escadas. No terceiro piso, tirei o lenol da cama de Grant e
voltei para a cozinha, enroscando-me debaixo da mesa de
piquenique. Se a porta se abrisse, eu escutaria.

     Mas tudo o que ouvi a noite inteira foi o barulho da
chuva.

     Na manh seguinte, Grant bateu  porta por volta das
dez e meia. Eu ainda estava dormindo debaixo da mesa.
Tinha passado 12 horas ali, por isso estava com o corpo
rgido e demorei a me levantar. Parei diante da porta,
recostando-me contra a madeira firme e esfregando os olhos,
as mas do rosto e a nuca. Ento a abri.

     Grant estava parado do lado de fora com as mesmas
roupas que usara na noite anterior. Parecia apenas um pouco
mais desperto do que eu. Depois de cambalear para dentro da
cozinha, ele se sentou  mesa.

     A tempestade tinha passado. Do outro lado da janela,
sob um cu sem nuvens, as flores cintilavam. Um dia perfeito
para fotografar.

      Mercado dos fazendeiros?  perguntou ele.  Aos
domingos vendo as flores l em vez de na cidade. Quer vir
comigo?

     Eu me lembrava de que dezembro era uma poca ruim
para frutas, legumes e verduras. Laranjas, mas, brcolis,
couve. Mas, mesmo que estivssemos no meio do vero, eu
no iria querer visitar o mercado dos fazendeiros. No queria
me arriscar a ver Elizabeth.

      Para ser sincera, no. Mas preciso de filme.

      Ento venha comigo. Pode esperar no caminho
enquanto vendo o que sobrou de ontem. Depois levo voc 
farmcia.

     Grant subiu para trocar de roupa enquanto eu escovava
os dentes com o dedo. Aps jogar uma gua no rosto e no
cabelo, fui esperar no caminho. Minutos depois, quando ele
chegou, tinha feito a barba, vestido um bluso cinza limpo e
uma cala jeans apenas um pouco suja. Ainda parecia
cansado e puxou o capuz do bluso sobre a cabea enquanto
trancava a porta.

     A estrada havia alagado em alguns trechos e Grant
dirigiu devagar, seu caminho balanando como um barco
em alto-mar. Fechei os olhos.

     Menos de cinco minutos depois ele parou e, quando abri
os olhos, estvamos em um estacionamento lotado. Grant
saltou e eu me afundei no banco. Baixando seu capuz sobre a
testa, ele arrastou os baldes para fora da caamba. Tornei a
fechar os olhos e pressionei a orelha contra a porta trancada,
tentando no ouvir os barulhos do mercado agitado ou me
lembrar de quantas vezes estivera ali quando criana. Aps
um tempo, Grant finalmente voltou.

      Pronta?  perguntou.

     Ele seguiu at a loja mais prxima, uma drogaria que
vendia equipamentos de pesca e produtos farmacuticos. O
fato de estar exposta, to perto de Elizabeth, me deixou
nervosa.

     Eu me detive, agarrando a porta do caminho.

      Elizabeth?

      Ela no vai estar l dentro. No sei onde ela faz
compras, mas frequento esta loja h mais de 20 anos e nunca
a vi aqui.
     Aliviada, entrei na farmcia e fui direto para o balco de
revelaes, colocando meus rolos de filme num envelope e
entregando-os num guich.

      Uma hora?  perguntei a uma atendente de avental
azul que parecia entediada.

      Menos  disse ela.  H dias no tenho nenhum filme
para revelar.

     Segui de cabea baixa at o corredor mais prximo. A
loja estava com uma promoo de camisetas: trs por 5
dlares. Peguei as primeiras trs de uma pilha alta e as
coloquei numa cesta junto com filmes novos, uma escova de
dentes e um desodorante. Grant estava parado na frente do
caixa, comendo uma barra de chocolate e me observando
subir e descer os corredores. Estiquei a cabea para fora e, ao
ver que a loja estava vazia, me juntei a ele.

      Caf da manh?  perguntei.

     Ele assentiu. Peguei uma barra de caramelo coberta de
amendoim e comi toda a cobertura at sobrar apenas uma
tira de recheio grudento.

      A melhor parte  disse Grant, indicando o caramelo
com a cabea. Eu lhe dei o recheio, que ele comeu rpido,
como se eu fosse mudar de ideia e peg-lo de volta.  Voc
deve gostar mais de mim do que demonstra  falou, com um
sorriso.
     A porta se abriu e um casal de idosos caminhou em
nossa direo de mos dadas. A mulher tinha as costas
arqueadas para a frente e o homem mancava da perna
esquerda; parecia que ela o estava arrastando para dentro da
loja. O velho me olhou dos ps  cabea com um sorriso
juvenil que parecia deslocado em sua pele manchada pela
idade.

      Grant  disse ele, piscando e meneando a cabea para
mim.  Bom trabalho, filho, bom trabalho.

      Obrigado, senhor  respondeu Grant, olhando para o
cho.

     O homem se afastou cambaleando e, alguns passos
depois, parou e deu um tapa no traseiro da esposa. Ento se
virou e piscou para Grant outra vez.

     Ele olhou para mim e depois para o velho, balanando a
cabea.

      Ele era amigo da minha me  falou, quando o casal j
estava longe demais para ouvir.  Acha que, daqui a 60 anos,
seremos como eles.

     Revirei os olhos, peguei uma segunda barra de caramelo
com amendoim e fui at o balco esperar minhas fotos. Nada
tinha menos probabilidade de acontecer do que Grant e eu
andarmos de mos dadas dali a 60 anos. A atendente me
entregou o primeiro rolo, que j havia sido revelado, os
negativos   cortados   e   depositados   em   um   envelope
transparente. Enfileirei as fotografias sobre o balco amarelo-
vivo.

        As primeiras 10 estavam desfocadas. No manchas
brancas      irreconhecveis,     como    as     da     minha   primeira
tentativa,      apenas     desfocadas.    A    partir   da   11,   eram
passveis, mas nada de que eu pudesse me orgulhar. A moa
continuou me entregando um rolo de cada vez e continuei a
enfileirar as fotos sobre o balco, tomando cuidado para no
tir-las da ordem.

        Grant    ficou     por   perto,   abanando-se        com    cinco
embalagens de chocolate vazias. Eu me aproximei dele e
mostrei-lhe uma foto. Era a 16 fotografia do oitavo rolo 
uma rosa branca perfeita, luminosa e ntida, o contraste com
o fundo escuro criando uma moldura natural. Grant se
inclinou para a frente como se quisesse cheir-la e assentiu.

         Muito bem.

         Vamos  falei.

        Paguei pelos produtos de minha cesta e pelas barras de
chocolate de Grant e fui andando em direo  sada.

         E as fotos?  perguntou ele, detendo-se e olhando para
o mar de impresses que eu havia deixado em cima do
balco.

         S preciso desta aqui  respondi, erguendo aquela
nica fotografia.
    COM A COLUNA PRESSIONADA contra o tronco de uma
videira grossa, eu ouvia o barulho do esfrego de Elizabeth.
Deveria estar dando minha caminhada matinal, mas no
tinha vontade de andar. Elizabeth abrira todas as janelas
para deixar entrar o primeiro ar quente da primavera e, de
onde eu estava, na fileira de vinhas mais prxima da casa,
podia escutar cada movimento seu.

    J estava na casa dela havia seis meses e tinha me
acostumado ao seu conceito de educao domiciliar. Eu no
tinha uma mesa. Elizabeth no comprou um quadro-negro,
um livro didtico nem cartilhas. Em vez disso, colou uma
programao  porta da geladeira  uma folha fina de papel
de arroz com uma letra delicada, as beiradas se enrolando em
volta de ms redondos e prateados  e eu era responsvel
pelas atividades e tarefas descritas nela.

     A lista de Elizabeth era detalhada, exaustiva e precisa,
mas nunca aumentava nem mudava. Todos os dias, depois
do caf da manh e da minha caminhada matinal, eu
escrevia no dirio encadernado em couro preto que ela havia
comprado para mim. Sabia escrever bem e minha ortografia
era excelente, mas cometia erros de propsito para que
Elizabeth ficasse do meu lado, soletrando e corrigindo as
palavras. Quando terminava, eu a ajudava a preparar o
almoo e calculvamos as medidas das receitas, dobrando ou
reduzindo    pela    metade   os    ingredientes.        A    prataria
cuidadosamente enfileirada se tornava fraes e xcaras de
gros de feijo complicavam problemas de aritmtica. Com o
calendrio   que    usava   para   acompanhar       as       mudanas
climticas, ela me ensinou a calcular mdias, porcentagens e
probabilidades.

     Ao final de cada dia, Elizabeth lia para mim. Em sua
casa, havia diversas prateleiras de clssicos infanto juvenis,
edies de capa dura empoeiradas com ttulos estampados
em dourado: O jardim secreto, Poliana e Laos humanos. Mas
eu preferia os livros sobre viticultura, com ilustraes de
plantas e equaes qumicas que davam pistas sobre o
mundo que me cercava. Eu decorava os termos tcnicos 
lixiviao de nitrato, sequestro de carbono, controle integrado
de pragas  e os usava em conversas casuais, com uma
seriedade que fazia Elizabeth rir.

     Antes de dormir, riscvamos aquele dia no calendrio do
meu quarto. Durante o ms de janeiro, simplesmente fiz um
pequeno X vermelho na caixa que havia abaixo da data, mas,
no final de maro, j anotava as temperaturas mnima e
mxima (como Elizabeth fazia em seu prprio calendrio), o
que tnhamos comido no jantar e uma lista das atividades do
dia. Elizabeth cortou um bloco de Post-its do tamanho dos
quadrados das datas e muitas noites eu preenchia cinco ou
seis deles antes de me deitar.

     Mais do que um ritual noturno, o calendrio era uma
contagem regressiva. O dia 2 de agosto  um aps meu
suposto aniversrio  estava destacado, o quadrado inteiro
pintado de cor-de-rosa. Com um hidrocor preto, Elizabeth
escrevera 11h, 3 andar, sala 305. Por lei, eu deveria morar
com Elizabeth um ano antes que minha adoo pudesse ser
formalizada. Meredith havia marcado nossa audincia com a
juza para um ano depois de minha chegada.

     Conferi as horas no relgio que Elizabeth me dera. Ainda
faltavam 10 minutos para ela me deixar voltar para casa.
Encostei a cabea nos galhos nus da videira. Analisei as
primeiras folhas verdes que j haviam brotado de gomos
cerrados,   perfeitas   verses   em   miniatura   do   que   se
tornariam. Cheirando uma delas, mordisquei uma beirada,
pensando em escrever no meu dirio sobre o gosto de uma
videira antes de ela dar frutos. Conferi as horas outra vez.
Cinco minutos.

     Ento, em meio ao silncio, ouvi a voz de Elizabeth.
Soava clara, confiante, e por um instante achei que ela
estivesse me chamando. Corri de volta para casa, mas me
detive quando percebi que ela estava ao telefone. Embora no
tivesse voltado a falar sobre a irm desde nossa visita 
fazenda de flores, soube na mesma hora que ela havia
telefonado para Catherine. Chocada, sentei-me no cho de
terra debaixo da janela da cozinha.

      Outra safra garantida  disse ela.  No sou de beber,
mas hoje em dia entendo melhor o papai. Compreendo a
tentao de comear o dia com uma dose de usque, "para
espantar o medo do frio", como ele dizia.  Ela fez uma pausa
breve e percebi que, mais uma vez, estava falando com a
secretria eletrnica da irm.  Enfim... Sei que voc me viu
naquele dia em outubro. Viu a Victoria? Ela no  linda? 
claro que voc no quis me receber e preferi respeitar isso,
lhe dar mais tempo. Por isso no tenho telefonado. Mas no
posso esperar mais. Decidi voltar a ligar, todos os dias. Mais
de uma vez por dia, provavelmente, at voc aceitar falar
comigo. Preciso de voc, Catherine. No entende isso? Voc 
a nica famlia que me resta.

     Fechei os olhos ao ouvir aquelas palavras. Voc  a
nica famlia que me resta. Havia oito meses que estvamos
juntas, fazendo trs refeies por dia  mesa da cozinha,
trabalhando lado a lado. Faltavam menos de quatro meses
para     minha   adoo.     Ainda    assim,   Elizabeth   no   me
considerava sua famlia. Em vez de tristeza, senti raiva e,
quando ouvi o clique do telefone, seguido pelo barulho de
gua suja sendo despejada por um ralo, subi os degraus da
frente pisando firme. Esmurrei a porta com os punhos
cerrados, como se quisesse arromb-la. O que eu sou, ento?
Tive vontade de gritar. Por que estamos fingindo?

        Mas quando Elizabeth abriu a porta e olhei seu rosto
surpreso, comecei a chorar. No me lembrava de ter chorado
antes e as lgrimas pareciam uma traio  minha raiva.
Estapeei meu rosto, por onde elas corriam. A pontada de dor
que sentia a cada tapa me fazia chorar ainda mais.

        Elizabeth no perguntou por que eu estava chorando,
apenas me puxou para dentro da cozinha. Sentando-se numa
cadeira de madeira, me aninhou desajeitadamente em seu
colo. Dentro de poucos meses eu teria 10 anos. Estava velha
demais para me sentar no seu colo, para ser aninhada
daquele jeito e consolada. Tambm j era velha demais para
ser     devolvida.   De    repente,   fiquei   ao   mesmo    tempo
aterrorizada diante da ideia de ser mandada para um abrigo e
surpresa pelo fato de a ttica de Meredith para me assustar
ter funcionado. Com o rosto enterrado no pescoo de
Elizabeth, eu soluava sem parar. Ela me abraou apertado.
Esperei que dissesse para eu me acalmar, mas ela no fez
isso.

        Minutos se passaram. Um cronmetro de cozinha apitou
no fogo, mas Elizabeth no se levantou. Quando finalmente
ergui a cabea, a cozinha recendia a chocolate. Elizabeth
havia feito um sufl para comemorar a virada do tempo e o
aroma era forte e doce. Sequei os olhos no ombro da sua
blusa e me endireitei, afastando-me para encar-la. Quando
nossos olhares se cruzaram, pude ver que ela tambm tinha
chorado. Lgrimas pendiam da sua mandbula para cair em
seguida.

      Eu amo voc  disse Elizabeth, fazendo-me voltar a
chorar.

     No forno, o sufl de chocolate comeou a queimar.
     NA MANH DE SEGUNDA-FEIRA, Grant saiu bem cedo
para o mercado de flores, mas no fui com ele. Quando
acordei, horas depois, fiquei surpresa ao descobrir que no
estava sozinha na fazenda. Homens gritavam uns para os
outros entre as fileiras de flores e mulheres se ajoelhavam no
solo molhado, arrancando ervas daninhas. Observei tudo
aquilo pelas janelas: a poda, o cultivo, a fertilizao e a
colheita.

     Nunca tinha me passado pela cabea que outras
pessoas alm de Grant cuidassem daqueles vrios acres de
flores, mas, assim que vi os trabalhadores em ao, me
pareceu ridculo que eu pudesse ter imaginado algo diferente.
Havia muito trabalho; inmeras tarefas. E, embora no
gostasse da ideia de dividir a fazenda com mais ningum,
especialmente no primeiro dia em que Grant me deixava
sozinha   ali,   me   senti   grata   pelos   trabalhadores   que
persuadiam as centenas de tipos de flores a desabrocharem.

     Troquei de roupa, vestindo uma camiseta branca limpa,
e escovei os dentes. Peguei um pedao de po, a cmera e sa
da torre de gua. Os trabalhadores me cumprimentaram
meneando a cabea e sorrindo, mas no puxaram conversa.

     Entrei na estufa mais prxima. Era a que Grant havia
me mostrado em nosso primeiro passeio por ali, quase toda
composta de orqudeas, com uma s parede de vrios tipos de
hibisco e aucenas. Estava mais quente l dentro e me senti
confortvel com minha camiseta fina. Comecei pela prateleira
mais alta da parede esquerda. Numerando meu bloco de
notas, tirei duas fotos de cada flor e escrevi seus nomes
cientficos em vez dos ajustes da cmera. Mais tarde, usaria
os livros de jardinagem de Grant para determinar o nome
comum de cada uma, escrevendo-o nas margens da folha e
abrindo meu dicionrio para colocar um X ao lado das que
havia fotografado. Gastei quatro rolos de filme e fiz 16
marcaes em meu dicionrio. Levaria a semana inteira para
fotografar todas as flores desabrochadas e toda a primavera
para esperar as outras abrirem. Mesmo assim, provavelmente
no conseguiria fotografar tudo.

     A poucos passos da parede dos fundos, com o olho
colado ao visor da cmera, tropecei em um objeto grande no
meio do corredor. Quando olhei para baixo vi uma caixa de
papelo fechada. A palavra junquilho estava escrita no topo
com hidrocor preto grosso.

     Espiei   dentro   da   caixa.   Seis   vasos   de   cermica
encontravam-se dispostos lado a lado, a terra arenosa dentro
deles estava mida, como se tivessem sido regados naquela
manh. Enfiei meu dedo uns dois centmetros na terra,
esperando sentir um broto prestes a emergir, mas no havia
nada. Fechando a caixa, segui adiante, a cmera clicando e o
filme avanando sempre que eu encontrava uma nova planta
com um boto aberto.

     Os dias se seguiram dessa forma. Grant saa antes que
eu acordasse. Eu passava longas tardes sozinha nas estufas,
cruzando com trabalhadores gentis no trajeto entre meu
trabalho e a torre de gua. Quase todas as noites, Grant
trazia comida da rua, mas s vezes jantvamos pizza
congelada ou sopa enlatada com pacotes inteiros de po de
frma.

     Depois do jantar, lamos juntos no segundo andar e s
vezes at dividamos o sof. Nessas noites, eu esperava a
necessidade atordoante de solido tomar conta de mim, mas
assim que o clima comeava a ficar pesado, Grant se
levantava, me dava boa-noite e desaparecia pela escada em
espiral. s vezes, voltava uma hora depois, outras, s na
noite seguinte. Eu no sabia para onde ele ia nem onde
dormia, mas no perguntava.
     J estava em sua casa havia quase duas semanas
quando ele chegou um fim de tarde com um frango. Cru.

      O que vamos fazer com isso?  perguntei, erguendo a
ave fria em sua embalagem de plstico.

      Cozinhar  respondeu ele.

      Como assim "cozinhar"? Nem sabemos limpar esse
bicho.

     Grant me mostrou uma tira comprida de papel, a nota
fiscal das compras. No verso, havia anotado instrues de
preparo e as leu em voz alta para mim. Comeavam com
preaquecer o forno e terminavam com algo sobre alecrim e
batatas.

     Acendi o forno.

      Pronto, j dei minha contribuio  falei.  Daqui pra
frente  com voc.  Sentei-me  mesa.

     Ele pegou um tabuleiro e lavou as batatas, cortando-as
em cubos e salpicando-as com alecrim. Depois de coloc-las
no tabuleiro com o frango, regou tudo com azeite de oliva, sal
e temperos de um pequeno jarro. Por fim, lavou as mos e
colocou o tabuleiro no forno.

      Pedi ao aougueiro a receita mais simples possvel e foi
essa que ele me passou. Nada mal, no ?

     Dei de ombros.
      O nico problema  acrescentou ele   que leva mais
de uma hora para assar.

      Mais de uma hora!

     A ideia de esperar me deu dor de cabea. No tinha
comido nada desde o caf da manh e meu estmago estava
vazio a ponto de eu ficar enjoada.

     Grant acendeu uma vela e pegou um baralho.

      Para passar o tempo  falou.

     Ento programou um cronmetro de cozinha e se sentou
 minha frente.

     Jogamos cartas  luz de velas. Isso nos manteve
entretidos o suficiente para que no desmaissemos. Quando
o cronmetro apitou, coloquei os pratos na mesa e Grant
cortou o peito do frango em fatias finas. Arranquei uma coxa
da ave dourada e comecei a comer.

     Estava delicioso  o sabor era inversamente proporcional
ao trabalho que Grant tivera para preparar. A carne estava
quente e macia. Mastiguei e engoli pedaos enormes, ento
arranquei a outra coxa antes que Grant pudesse peg-la,
comendo primeiro a pele bem temperada.

     Na minha frente, Grant comia uma fatia de peito com
garfo e faca, cortando um pedao de cada vez e mastigando
devagar. Seu rosto demonstrava tanto o prazer de saborear o
prato quanto o orgulho por seu feito. Ele largou os talheres e,
quando olhou para mim, pude notar que estava gostando de
ver meu apetite voraz. Seu olhar atento me deixou sem graa.

     Larguei a segunda coxa, da qual s restava o osso.

      Voc sabe que no vamos ficar daquele jeito, certo? 
perguntei.  Como aqueles dois?

     Grant olhou para mim, confuso.

      Na farmcia, aquele casal de velhos, o tapinha e as
piscadelas. No vamos ficar daquele jeito. Voc provavelmente
nem vai mais me conhecer daqui a 60 anos  falei.

     O sorriso dele se desfez.

      Por que voc tem essa certeza?

     Refleti sobre a pergunta dele. Eu tinha certeza e Grant
sabia disso. Mas era difcil explicar por qu.

      O mximo de tempo que j convivi com uma pessoa,
com exceo da minha assistente social, que no conta,
foram 15 meses.

      O que aconteceu depois desses 15 meses?

     Eu o encarei com olhos suplicantes. Quando percebeu
qual era a resposta, ele desviou o olhar, constrangido.

      Mas por que no agora?

     Essa era a pergunta mais apropriada e, quando ele a fez,
eu soube qual era a resposta.
        No confio em mim mesma  declarei.  Seja qual for a
vida que voc imagine para ns dois juntos, no vai
acontecer. Eu estragaria tudo.

       Eu podia ver que Grant estava pensando no que falei,
tentando vislumbrar o abismo entre meu tom categrico e
sua viso do nosso futuro, e construindo uma ponte entre os
dois extremos, com uma combinao de esperana e
mentiras. Diante de suas fantasias desesperadas, senti uma
mistura de pena e vergonha.

        Por favor, no perca seu tempo  pedi.  Tentando,
quero dizer. J tentei uma vez e fracassei. No  possvel para
mim.

       Quando Grant voltou a me olhar, a expresso em seu
rosto havia mudado. Seu maxilar estava contrado, as
narinas ligeiramente dilatadas.

        Voc est mentindo  disse ele.

        O qu?  perguntei. Aquela no era a resposta que eu
estava esperando.

       Grant pressionou os dedos contra a testa e, quando
falou, suas palavras saram lentas e cautelosas:

        No minta. Pode dizer que nunca vai me perdoar pelo
que minha me fez ou que tem nojo de olhar para mim. Mas
no minta dizendo que  por sua culpa que ns nunca
poderemos ficar juntos.
     Peguei os ossos do frango, limpando a gordura dos
tendes. No conseguia encar-lo. Precisava de tempo para
processar o que ele estava dizendo. Pelo que minha me fez.
S havia uma explicao. Quando reencontrei Grant, procurei
raiva em seu rosto. Como no a encontrei, imaginei estar
sendo perdoada. Mas a realidade era bem diferente. Grant
no estava com raiva de mim porque no conhecia a verdade.
Eu no sabia como era possvel que ele morasse com sua me
na poca e ainda assim no soubesse, mas no perguntei.

      No estou mentindo  foi tudo o que consegui dizer.

     Grant largou o garfo, o metal retinindo contra o prato de
cermica, e se levantou.

      Voc no foi nica que teve a vida arruinada por ela 
disse, saindo da cozinha e desaparecendo na noite.

     Tranquei a porta atrs dele.
    OMERCADO DOS FAZENDEIROS ficava cheio em julho.
Carrinhos de beb abarrotados de compras e carregando
crianas sujas de frutas bloqueavam os corredores, enquanto
velhos com carrinhos de mo agitavam impacientemente os
braos para as mes distradas. Ao caminhar, eu esmagava
cascas de pistache descartadas. Apertei o passo para
acompanhar Elizabeth, que estava indo comprar amoras.

    Ela me disse que, depois do almoo, faramos bolo de
amoras e sorvete. Era um suborno para me manter dentro de
casa, longe do calor sem precedentes e de suas uvas que
amadureciam depressa. Relutei, mas acabei concordando.
Durante      toda   a   primavera,   Elizabeth     e   eu   havamos
trabalhado lado a lado no vinhedo e, agora que no havia
quase mais nada a fazer alm de esperar, eu no queria me
afastar   das   plantas.    Sentia   falta   das   longas    manhs
chupando as uvas, podando brotos que surgiam na base dos
troncos para que as videiras concentrassem suas foras onde
deveriam. Sentia falta de pegar uma faca de cozinha e seguir
o pequeno trator que Elizabeth usava para sulcar a terra,
arrancando as ervas daninhas restantes  mo, como ela me
ensinara: primeiro afrouxando as razes com a ponta afiada
da faca e depois puxando as plantas do solo. J estava
usando a faca havia mais de trs meses quando falei para
Elizabeth que deixar crianas ainda no legalmente adotadas
usarem facas era contra o cdigo de bem-estar infantil. No
entanto, ela no a tirou de mim. Voc j foi adotada, limitou-
se a dizer. E, embora eu realmente me sentisse assim (sentia-
me to diferente da garota que havia chegado ali quase um
ano antes que quase todas as manhs ficava olhando meu
rosto no espelho do banheiro, procurando sinais fsicos da
mudana que eu sabia que tinha ocorrido), aquilo no era
exatamente a verdade. Eu ainda no tinha sido oficialmente
adotada e no o seria at comparecer diante da juza, em
agosto.

     Abrindo caminho pela multido, cheguei ao lado de
Elizabeth.

      Amoras?  ofereceu-me ela, passando-me uma bandeja
de papel verde.
     Sobre uma mesa coberta por um pano vermelho, o
vendedor havia disposto pilhas de vrios tipos de amoras.
Peguei uma da bandeja e a coloquei na boca. Era rolia e
doce e manchou meus dedos de roxo.

     Elizabeth colocou seis bandejas de papel em uma bolsa
de plstico, pagou e foi para a barraca seguinte. Eu a
acompanhava pelo mercado quente, carregando as sacolas
que no cabiam em sua bolsa de lona abarrotada. Em um
caminho de laticnios, ela me entregou um garrafo de leite,
o recipiente de vidro suava.

      J acabou?  perguntei.

      Quase. Venha  disse ela, chamando-me para o outro
lado do mercado.

     Antes mesmo de ela passar pela barraca de damascos, o
ltimo vendedor que conhecamos naquele corredor, entendi
aonde estvamos indo. Enfiando o garrafo escorregadio
debaixo do brao, corri at Elizabeth, agarrei a manga de sua
blusa e a puxei. Mas isso fez apenas com que ela andasse
mais rpido. Ela no parou at chegar  barraca de flores.

     A mesa estava coberta de buqus de rosas. De perto, a
perfeio das flores era surpreendente: cada ptala firme e
lisa, colada uma sobre a outra, as bordas se enrolando
lindamente. Elizabeth ficou parada; assim como eu, analisava
as flores. Apontei para um buqu misto, na esperana de que
ela escolhesse um arranjo, pagasse e se virasse para ir
embora sem falar nada. Mas, antes que ela pudesse comprar
qualquer coisa, o rapaz arrebatou as flores que restavam em
cima da mesa e as jogou na caamba do caminho. Meus
olhos se arregalaram. Ele no ia vender nada para Elizabeth.
Observei o rosto dela em busca de uma reao, mas sua
expresso era indecifrvel.

      Grant?  falou Elizabeth. Ele no respondeu; nem
sequer olhou em sua direo. Ela tentou novamente.  Sou
sua tia. Elizabeth. Voc precisa saber disso.

     Ele estendeu uma lona sobre as flores. Continuou
olhando fixamente para as rosas, mas suas orelhas recuaram
um pouco e ele ergueu o queixo. De perto, parecia mais velho.
Havia pelos finos sobre seu lbio superior e seus braos, que
eu imaginara magros, eram definidos. Ele usava apenas uma
camiseta branca e a curva de suas omoplatas fazia o tecido
fino subir e descer de uma maneira que me parecia
hipnotizante.

      Voc vai me ignorar?  insistiu Elizabeth. Quando ele
no respondeu, a voz dela mudou, assumindo o mesmo tom
que eu recordava de minhas primeiras semanas em sua casa:
austero, paciente e inesperadamente irritado.  Voc poderia
ao menos olhar para mim? Olhe para mim quando eu estiver
falando com voc.

     Ele no olhou.

      Isso no tem nada a ver com voc. Nunca teve. Passei
anos observando voc crescer de longe e tudo que mais
queria era correr at aqui e segur-lo em meus braos.
     Grant prendeu a lona com uma corda, os msculos de
seus braos retesados. Era difcil imaginar algum o pegando
nos braos, difcil imaginar que no tivesse sido sempre to
forte. Depois de apertar um ltimo n, ele se virou.

      Ento deveria ter feito isso, se era o que queria.  Sua
voz era fria, sem emoo.  Ningum a impediu.

      No  disse Elizabeth, balanando a cabea.  Voc
no sabe do que est falando.

     Suas palavras saram num tom baixo, frisadas por uma
vibrao grave que, em outros lares adotivos nos quais eu
morara, era um indcio de um ataque. Mas Elizabeth no
partiu para cima dele, como eu imaginei que faria. Em vez
disso, falou algo to surpreendente que Grant girou o rosto
na minha direo, seus olhos encontrando os meus pela
primeira vez.

      Victoria vai fazer um bolo de amora  sussurrou ela. 
Voc deveria aparecer l em casa.
     A IMAGEM DO ROSTO DE GRANT, desapontado e
desesperado,   me   manteve   acordada.   Antes   mesmo   do
amanhecer, desisti de tentar dormir e me sentei  mesa da
cozinha, esperando o som do motor do caminho. Em vez
disso, fui assustada por uma batida leve na porta. Quando a
abri, Grant passou sonolento por mim e subiu as escadas. L
em cima, ouvi o chuveiro ser aberto. Foi ento que me dei
conta de que era domingo.

     Queria voltar ao quarto azul,  loja de Renata, aos
pagamentos e  correria dos arranjos para as festas de fim de
ano. Tinha ficado tempo de mais na casa de Grant. Mas ele
no iria  cidade. Sentei-me no ltimo degrau da escada e
pensei em como convenc-lo a fazer uma viagem de ida e
volta de trs horas no seu dia de folga.

     Ainda estava pensando quando senti seu p contra as
minhas costas. A presso inesperada me fez escorregar do
degrau e cair no cho da cozinha.

      Levante-se  disse ele.  Vou lev-la de volta.

     Suas palavras no me eram estranhas. Lembrei-me das
diversas variaes daquela frase que tinha escutado ao longo
dos anos: Faa suas malas. Alexis no quer mais dividir o
quarto dela. Voc j est velha demais para passar por isso
outra vez. O mais normal era que dissessem simplesmente
Meredith est vindo, s vezes seguido por um Sinto muito.

     Para Grant, repeti minha resposta de sempre:

      Estou pronta.

     Peguei minha mochila, pesada por causa da cmera e de
dezenas de rolos de filme, e subi no caminho. Grant dirigiu
depressa pelas estradas ainda escuras, pegando a contramo
para ultrapassar caminhes que transportavam produtos
agrcolas. Ele enveredou pela primeira sada ao sul da ponte e
ento   parou    no    acostamento    da   rampa     de   acesso
movimentada. No havia um s ponto de nibus  vista. Sem
sair do lugar, olhei para os dois lados da rua.

      Tenho que voltar para o mercado dos fazendeiros 
disse ele, sem olhar para mim.
     Grant desligou o motor e deu a volta pela frente do
caminho. Abriu a porta do carona e estendeu o brao para
pegar a mochila que estava sobre meus ps. Seu peito roou
meus joelhos e, quando ele recuou, o calor entre nossos
corpos se dispersou em uma lufada de vento frio de
dezembro. Saltei e peguei minha mochila.

     Ento  assim que termina, pensei, com uma cmera
cheia de imagens de uma fazenda de flores  qual eu nunca
mais voltaria. J sentia falta delas, mas no me permitiria
sentir falta de Grant.

     Tive que pegar quatro condues para voltar a Potrero
Hill, mas s porque peguei o 38 na direo errada e acabei
parando na regio de Point Lobos. J era metade da manh
quando cheguei  Bloom e Renata ainda estava abrindo a
loja. Ela sorriu ao me ver.

      Duas semanas sem trabalho e sem ajudante  disse
ela.  Quase enlouqueci de tdio.

      Por que as pessoas no se casam em dezembro? 
perguntei.

      O que tem de romntico em rvores sem folhas e cu
cinzento? Os casais esperam a primavera e o vero: cu azul,
flores, frias, essas coisas.

     Para    mim,   azul   e    cinza   eram   igualmente   pouco
romnticos e luz forte no favorecia ningum nas fotografias.
Mas noivas eram irracionais; pelo menos isso eu tinha
aprendido com Renata.
      Quando voc precisa que eu volte a trabalhar? 
perguntei.

      Tenho um casamento grande no Natal. Depois vou
precisar de voc todos os dias at a primeira semana de
janeiro.

     Concordei e perguntei a que horas deveria chegar.

      No Natal? Ah, no se preocupe em acordar cedo. O
casamento  tarde e vou comprar as flores na vspera. Mas
esteja aqui s nove.

     Assenti e Renata tirou um envelope de dinheiro da
registradora.

      Feliz Natal  disse ela.

     Mais tarde, no quarto azul, abri o envelope e vi que ela
me pagara o dobro do que havia prometido. Bem a tempo de
comprar os presentes de Natal, pensei com ironia, enfiando o
dinheiro na mochila.

     Gastei a maior parte do bnus em uma caixa de rolos de
filme que comprei num fornecedor de artigos fotogrficos por
atacado e o restante numa loja de materiais artsticos na
Market Street. Meu dicionrio no seria um livro. Comprei
duas caixas de fotos forradas de tecido, uma laranja e outra
azul; cartolina preta cortada em retngulos de 13 por 18
centmetros; uma lata de spray adesivo para fotografias; e
uma caneta prateada.
      Ainda faltavam 10 dias para o Natal. Exceto pelas fotos
que tirei de meu jardim negligenciado na McKinley Square  a
urze e o helenium haviam sobrevivido, apesar do clima ruim e
do abandono , parei de fotografar por um tempo. Tinha
gastado 25 rolos de filme na fazenda de Grant e levei todos
esses 10 dias para revel-los, separar as impresses, mont-
las na cartolina e identific-las. Abaixo da imagem de cada
flor, escrevi seu nome comum, seguido do nome cientfico e
anotei seu significado no verso. Fiz duas verses de cada flor
e coloquei uma em cada caixa de fotos.

      Na vspera de Natal, todos os cartes estavam prontos.
Natalya e sua banda tinham ido para algum desses lugares
aonde as pessoas vo nas festas de fim de ano e o
apartamento estava deliciosamente silencioso. Levei as caixas
para o estdio no andar de baixo, espalhei as fotos em fileiras
bem-ordenadas, com espao suficiente entre elas para que eu
pudesse andar. Dispus os cartes da caixa cor de laranja com
as flores viradas para cima e os da caixa azul com as flores
viradas para baixo. Fiquei horas andando por entre as
fileiras,   alfabetando   primeiro   as   flores   e   depois   os
significados. Quando terminei, guardei todos os cartes de
volta nas caixas e abri o dicionrio de flores de Elizabeth para
avaliar meu progresso. Estvamos no meio do inverno e eu j
havia concludo metade do meu dicionrio ilustrado.

      A pizzaria no topo da ladeira estava vazia. Pedi uma
pizza para viagem e a comi na cama de Natalya, olhando para
a rua deserta l embaixo. Mais tarde, fui me deitar no quarto
azul. Embora ele estivesse silencioso, quente e escuro, no
consegui pregar os olhos. Um feixe de luz branca e tnue de
um poste de rua invadia o quarto de Natalya e se esgueirava
pela fresta da porta do closet. O raio era da finura de um
lpis e traava uma linha na parede oposta, passando pelo
meio das minhas caixas de fotos. A caixa azul era exatamente
da mesma cor da parede, o que fazia com que a cor de
laranja, em cima dela, parecesse flutuar. Ela no deveria
estar ali.

     Seu lugar era na estante de Grant, de frente para o sof
laranja. Esse foi o motivo pelo qual escolhi aquela cor,
embora no tivesse admitido. Grant tinha ficado para trs. J
no havia mais necessidade de evitar mal-entendidos na
linguagem das flores, ainda assim, comprei uma caixa a
mais, cor de laranja, e fiz um segundo jogo de cartes.
Destranquei a portinhola que dava para a sala de estar e
coloquei a caixa cor de laranja do lado de fora.
     GRANT NO FOI COMER o bolo de amoras. Ele deveria
ter vindo, pensei, lambendo o fundo do prato na manh
seguinte. Estava uma delcia.

     Enquanto eu colocava a loua na pia, Elizabeth entrou
correndo pela porta dos fundos, sem flego. Seu cabelo estava
solto, cado sobre os ombros, e percebi que nunca, em quase
um ano, eu a vira sem um coque apertado na nuca. Ela
sorriu, com os olhos cheios de uma felicidade incontida que
eu nunca tinha visto.

      Descobri!  exclamou.   ridculo que eu no tenha
pensado nisso antes.

      O qu?  perguntei.
     A alegria dela me deixou inexplicavelmente nervosa.
Lambendo geleia de amora de uma colher, eu a observava
com ateno.

      Quando eu estava no internato, Catherine e eu
trocvamos cartas... at minha me comear a intercept-las.

      Intercept-las?

      . Ela pegava as cartas e as lia. No confiava em mim,
achava   que   de   alguma   forma   aquela   correspondncia
corromperia Catherine, embora ela j fosse quase adulta e eu
no passasse de uma criana. Por muitos anos paramos de
escrever uma para a outra. Mas pouco depois de completar
20 anos, minha irm descobriu um dicionrio de flores
vitoriano na estante do meu av. Ento comeou a me enviar
desenhos de flores, com o nome cientfico escrito com
capricho no canto inferior direito. Ela me mandou dezenas
desses desenhos junto com bilhetes que diziam apenas: "Voc
sabe o que estou lhe dizendo?"

      Voc sabia?  perguntei.

      No  respondeu Elizabeth, balanando a cabea como
se revivesse sua frustrao adolescente.  Perguntei a todos
os bibliotecrios e professores. J haviam se passado meses
quando a bisav da minha colega de quarto foi visit-la, viu
os desenhos na minha parede e me falou sobre a linguagem
das flores. Ento encontrei um dicionrio na biblioteca e
enviei um bilhete para minha irm na mesma hora, mas em
vez de desenhos, mandei flores dentro do envelope, porque eu
no tinha nenhum talento artstico.

     Elizabeth foi para a sala de estar e voltou com uma pilha
de livros, que ps sobre a mesa da cozinha.

      Durante anos, foi assim que nos comunicamos. Eu
enviava poemas e histrias ligando flores secas com pedaos
de   linha,   intercaladas   por   palavras   datilografadas   em
pedacinhos de papel: e, o/a, se, isso. Minha irm continuou
mandando desenhos, s vezes paisagens inteiras, repletas de
vrios tipos de flores, todas numeradas e com legenda, para
que eu soubesse qual ler primeiro para decodificar a
sequncia de acontecimentos e emoes em sua vida. Eu
vivia para aquelas cartas e checava a caixa de correio mil
vezes por dia.

      Mas como isso vai ajudar voc a conquistar o perdo
de sua irm?  perguntei.

     Elizabeth j estava se encaminhando para o jardim, mas
parou de repente e girou o corpo para me encarar.

      Sou eu que estou dando meu perdo a ela  falou. 
No se esquea disso.  Ela respirou fundo e prosseguiu: 
Mas vou lhe dizer como isso vai me ajudar. Catherine vai se
lembrar de como ramos prximas e de como eu a entendia
melhor do que qualquer outra pessoa no mundo. E, mesmo
que seu remorso no a deixe atender o telefone, ela vai me
responder com flores. Sei que vai.
       Elizabeth saiu. Quando voltou, trazia um ramalhete de
trs flores, uma de cada tipo. Pegou uma tbua de corte em
cima do balco e ps em cima da mesa da cozinha junto com
as flores e uma faca afiada.

        Vou lhe ensinar  disse Elizabeth.  E voc vai ser
minha ajudante.

       Eu me sentei  mesa da cozinha. Elizabeth ainda me
ensinava sobre as flores e seus significados, mas no de
maneira formal ou estruturada. No dia anterior, tnhamos
passado por uma carteira costurada  mo no mercado dos
fazendeiros,   o   tecido   estampado   com   pequenas   flores
brancas. Pobreza para uma carteira, dissera Elizabeth,
balanando a cabea. Ela apontou para as flores e explicou
as caractersticas que definiam a clemtis.

       Sentada ao seu lado, eu estava animada diante da
perspectiva de receber uma aula formal. Puxei minha cadeira
para o mais perto possvel de Elizabeth. Ela pegou uma flor
roxa do tamanho de uma noz com um centro amarelo como o
sol.

        Prmula  declarou, girando a flor com formato de
catavento entre o polegar e o indicador antes de coloc-la,
com a face para cima, sobre a palma macia e branca de sua
mo.  Infncia.

       Eu me debrucei sobre sua mo, aproximando o nariz
das ptalas. A prmula tinha um aroma forte, como lcool
adocicado misturado com perfume de me. Afastando o rosto,
expeli o ar das minhas narinas com fora.

     Elizabeth riu.

      Tambm no gosto do cheiro. Doce demais, como se
ela quisesse esconder seu verdadeiro aroma indesejvel.

     Concordei com a cabea.

      Ento, se no soubssemos que esta  uma prmula,
como poderamos descobrir?  perguntou Elizabeth, largando
a flor e pegando um livro de bolso.  Este  um guia de flores
silvestres norte-americanas, dividido por cores. A prmula
deve estar na parte das roxas e azuis.

     Ela me entregou o livro. Abri-o na seo indicada,
folheando as pginas at encontrar o desenho que combinava
com a flor em questo.

      Prmula cusickiana  li.  Famlia das primulceas,
Primulaceae.

      timo.  Ela pegou a segunda das trs flores, grande e
amarela, com seis ptalas pontudas.  Agora esta. Lrio,
majestade.

     Pesquisando as flores amarelas, encontrei o desenho
correspondente. Apontei para ele com um dedo mido e
observei a mancha d'gua se espalhar. Elizabeth assentiu.

      Agora vamos supor que voc no tenha encontrado o
desenho ou no tivesse certeza de que fosse o certo.  a que
voc precisa conhecer as partes das flores. Usar um guia
como este  um pouco como ler um daqueles livros-jogos, em
que a gente escolhe o rumo da histria. Voc deve comear
com    algumas   perguntas       simples:   a   flor   tem    ptalas?
Quantas? E cada resposta conduz voc a outra srie de
perguntas mais complexas.

      Elizabeth apanhou a faca e cortou o lrio ao meio, suas
ptalas caindo abertas sobre a tbua. Ela me mostrou o
ovrio e pressionou a ponta do meu dedo contra o topo
grudento do estigma alongado.

      Contamos    ptalas    e    descrevemos      seus      formatos.
Elizabeth me ensinou a definio de simetria, a diferena
entre os ovrios inferior e superior e as vrias maneiras como
as flores podem estar dispostas nos caules. Depois me testou,
usando a terceira flor que havia escolhido: uma violeta,
pequena e murcha.

       timo  disse, quando respondi  sua sabatina. 
Muito bem. Voc aprende rpido.  Ela puxou minha cadeira
para trs e eu desci.  Agora v se sentar no jardim enquanto
fao o jantar. Pare diante de cada planta que conhece e faa a
si mesma as mesmas perguntas que lhe fiz. Quantas ptalas,
qual a cor, qual o formato? Se souber que  uma rosa, o que
faz dela uma rosa e no um girassol?

      Elizabeth ainda estava tagarelando suas perguntas
quando sa da cozinha correndo.

       Pegue algo para Catherine!  gritou ela.

      Desapareci pelos degraus abaixo.
     AO ESTACIONAR A CAMINHONETE na rua vazia,
Renata pareceu surpresa ao me ver sentada no meio-fio s
sete da manh. Dava para notar que eu havia passado a noite
em claro. Ela ergueu as sobrancelhas e sorriu.

      Est esperando o Papai Noel?  perguntou.  Ningum
lhe contou a verdade?

      No  falei.  Nunca.

     Segui Renata at a cmara frigorfica e ajudei-a a tirar
baldes de rosas vermelhas, cravos brancos e cravos-de-amor.
Essas eram as flores de que eu menos gostava.
      Por favor, diga que esse pedido veio de uma noiva
perigosa.

      Ela ameaou me matar  disse ela.

     Ns compartilhvamos o mesmo desprezo pelas rosas
vermelhas.

     Renata saiu e, quando voltou com dois copos de caf, eu
j havia terminado trs arranjos de mesa.

      Obrigada  falei, pegando o copo de papel.

      No tem de qu. E v mais devagar. Quanto mais cedo
terminarmos, mais tempo terei para ficar na festa de Natal de
minha me.

     Peguei uma rosa e cortei os espinhos em cmera lenta,
enfileirando os tringulos afiados na mesa.

      Assim est melhor  disse ela , mas ainda poderia ser
mais devagar.

     Trabalhamos com uma lentido exagerada durante o
restante da manh, mas ainda assim terminamos ao meio-
dia. Renata apanhou o pedido e conferiu duas vezes nossos
arranjos. Por fim, baixou a lista.

      Est tudo certo?

      Sim, infelizmente.  s fazer a entrega e depois ir para
a festa de Natal. Voc vem comigo.

      No, obrigada  respondi, tomando um ltimo gole de
caf frio e colocando a mochila nas costas.
        Dei a entender que voc tinha escolha? Porque no
tem.

       Eu poderia ter discutido, mas me sentia em dvida por
causa do bnus que ela me dera e estava no clima para
comidas      de    fim   de    ano,   mesmo    que    no    para   as
comemoraes. No sabia nada sobre comida russa, mas
tinha que ser melhor do que o presunto processado que eu
pretendia comer direto da embalagem.

        Est bem  falei.  Mas tenho outro compromisso s
cinco.

       Ela   deu    uma       gargalhada.   Devia    saber   que    era
inconcebvel que eu tivesse qualquer outro compromisso no
Natal.

       A me de Renata vivia no Richmond Discrict e
atravessamos a cidade pelo caminho mais longo possvel.

        Minha me  dose  falou Renata.

        Em que sentido?  perguntei.

        Em todos os sentidos  disse ela.

       Renata estacionou em frente a uma casa rosa-shocking.
Uma bandeira de Natal tremulava em um mastro de madeira
e a varanda pequena estava entulhada de criaturas de
plstico reluzentes: anjos, uma rena, esquilos com chapus
de Papai Noel e pinguins danantes com cachecis de tric.

       Renata abriu a porta e adentramos uma muralha de
calor. Homens e mulheres estavam sentados nas almofadas,
nos braos e nas costas dos sofs; meninos e meninas
estavam deitados de barriga para baixo no tapete felpudo,
enquanto bebs passavam engatinhando por cima de suas
pernas magras. Entrei e tirei o casaco e o suter, mas o
caminho at o closet, onde Renata cumprimentou algum
mais ou menos da minha idade, estava totalmente bloqueado
por pequenos corpos.

     Fiquei parada diante da porta e uma verso mais velha e
rechonchuda de Renata abriu caminho em meio  multido.
Ela carregava uma grande travessa de madeira com rodelas
de laranja, nozes, figos e tmaras.

      Victoria!  exclamou ao me ver.

     Entregou a travessa para Natalya, que estava estirada
no sof e passou por cima das crianas que bloqueavam seu
caminho at onde eu estava. Quando me abraou, meu rosto
se afundou em sua axila e as mangas largas de seu suter de
l cinza envolveram minhas costas como se tivessem vida
prpria. A me de Renata era alta e forte. Quando finalmente
consegui me soltar, ela agarrou meus ombros e inclinou
minha cabea para cima para que eu a encarasse.

      Victoria, querida  falou, seus cabelos brancos longos
e ondulados caindo para a frente e fazendo ccegas no meu
rosto.  Minhas filhas me falaram tanto a seu respeito que eu
j amava voc antes mesmo de nos conhecermos.

     Ela cheirava a prmula e cidra. Eu me desvencilhei.
        Obrigada por me convidar, senhora...  parei de falar,
percebendo que Renata nunca tinha me dito o nome de sua
me.

        Marta Rubina  disse ela.  Mas as pessoas me
chamam de Mame Ruby.

       Ela esticou a mo como se quisesse me cumprimentar,
ento riu e me abraou outra vez. Estvamos encurraladas
num canto e eram apenas as paredes grossas atrs de mim
que me mantinham de p. Ela me puxou para a frente e, com
o brao em volta dos meus ombros, me conduziu pela sala.
As crianas saram do caminho e Renata, empoleirada em
uma cadeira dobrvel num canto, observava a cena com um
sorriso.

       Mame Ruby me levou at a cozinha, onde me fez sentar
a uma mesa diante de dois pratos cheios de comida. O
primeiro tinha um grande peixe assado, inteiro, com
especiarias e o que parecia ser algum tipo de tubrculo. O
segundo tinha feijes, ervilha e batatas com salsa. Ela me
deu um garfo, uma colher e uma tigela de sopa de cogumelos.

        Ns j comemos h horas  falou , mas guardei um
pouco para voc. Renata me disse que voc estaria com fome,
o que me deixou muito feliz. A coisa de que mais gosto no
mundo  alimentar minha famlia.

       Mame Ruby se sentou de frente para mim. Ela tirou as
espinhas do meu peixe, enfiou o dedo nas minhas ervilhas e,
constatando que estavam frias, as requentou. Ela me
apresentava a todos que passavam por ali: filhas, genros,
netos, namorados e namoradas de vrios membros da
famlia.

     Eu erguia os olhos e balanava a cabea, mas no
largava o garfo.

     Dormi na casa de Mame Ruby. No era a minha
inteno. Depois do jantar, escapei para um quarto de
hspedes vazio e, graas  combinao da comida pesada
com a insnia da noite anterior, apaguei quase antes de me
deitar.

     O cheiro de caf me arrancou da cama na manh
seguinte. Espreguicei-me e caminhei pelo corredor at
encontrar o banheiro. A porta estava aberta. L dentro,
Mame Ruby estava debaixo do chuveiro atrs de uma
cortina de plstico transparente. Quando a vi, me virei e sa
correndo.

      Entre!  gritou ela.  S tem um banheiro. Faa de
conta que no estou aqui!

     Encontrei Renata na cozinha, servindo caf. Ela me
entregou uma caneca.

      Sua me est no banho  falei.

      Com a porta aberta, aposto  disse ela, bocejando.

     Assenti.

      Desculpe por isso.
     Servi-me de caf e me recostei na pia.

      Minha me era parteira na Rssia  contou Renata. 
Est acostumada a ver mulheres nuas logo depois de
conhec-las. A dcada de 1970 nos Estados Unidos caiu
como uma luva para ela e acho que ainda no percebeu que
os tempos mudaram.

     Ento, Mame Ruby entrou na cozinha, vestindo um
roupo felpudo coral.

      O que mudou?  perguntou ela.

     Renata balanou a cabea.

      A nudez.

      No acho que a nudez tenha mudado desde o
nascimento do primeiro ser humano  disse Mame Ruby. 
O que mudou foi a sociedade.

     Renata revirou os olhos e me encarou.

      Minha me e eu temos essa mesma discusso desde
que aprendi a falar. Aos 10 anos, garanti que no teria filhos
porque nunca mais voltaria a ficar nua na frente dela. E olhe
para mim: 50 anos e sem filhos.

     Mame Ruby quebrou um ovo numa frigideira e ele
estalou na chapa quente.

      Fiz o parto de todos os meus 12 netos  disse ela, com
orgulho.

      A senhora ainda  parteira?
      No oficialmente  respondeu ela.  Mas ainda recebo
ligaes s duas da manh de todos os cantos da cidade. E
sempre vou.  Ela me deu um prato com ovos com a gema
mole.

      Obrigada  falei. Eu os comi e fui para o banheiro em
seguida, trancando a porta ao entrar.



      Seria bom me avisar da prxima vez  falei para
Renata mais tarde naquela manh, enquanto voltvamos
para a Bloom.

     Tnhamos uma semana inteira de casamentos pela
frente e nos sentamos descansadas e bem alimentadas.

      Se eu tivesse avisado  retrucou Renata , voc no
teria vindo. E precisava de um pouco de descanso e boa
comida. Nem pense em dizer que no.

     No discuti.

      Minha me  uma lenda no crculo das parteiras. J
viu de tudo e os resultados dela so melhores que os da
medicina   moderna,    embora   no     devessem   ser.   Voc
provavelmente vai aprender a gostar dela;  o que acontece
com a maioria das pessoas.

      Com a maioria das pessoas  arrisquei , mas no com
voc?

      Eu a respeito  disse Renata, fazendo uma pausa. 
Mas somos diferentes. S isso. Todo mundo imagina que
exista algum tipo de compatibilidade biolgica entre mes e
filhos, mas nem sempre  assim. Voc no conhece minhas
outras irms, mas veja s Natalya, minha me e eu.

     Ela tinha razo: as trs no poderiam ser mais
diferentes.

     Durante todo o dia, enquanto organizava pedidos e fazia
as listas das flores e suas quantidades para os casamentos
da semana, fiquei pensando na me de Grant. Lembrava-me
da mo plida saindo da escurido na tarde em que eu e
Elizabeth fomos  sua casa. Como deveria ter sido a infncia
dele? Tendo somente a companhia das flores, com uma me
que oscilava entre o passado e o presente como quem entra e
sai de dois cmodos diferentes. Decidi que iria perguntar. Se
ele voltasse a falar comigo.

     Mas ele no foi ao mercado de flores naquela semana
nem na seguinte. Sua barraca ficou vazia, o compensado
branco descascando, parecendo abandonado. Perguntei-me
se ele voltaria ou se a ideia de me ver de novo o manteria
afastado para sempre.

     Obcecada com a ausncia de Grant, a qualidade do meu
trabalho ficou comprometida. Renata comeou a se sentar ao
meu lado  mesa de trabalho e, em vez de ficar calada como
de costume, me contava histrias longas e engraadas sobre
sua me, suas irms e seus sobrinhos. Embora eu no
prestasse muita ateno, o som constante de sua voz me
mantinha concentrada nas flores.
     O   Ano-novo    chegou    e   passou,   um   turbilho   de
casamentos brancos e buqus enfeitados com halsia. Grant
ainda no tinha voltado ao mercado de flores. Renata me deu
a semana de folga e me enfurnei no quarto azul, saindo
apenas para comer e ir ao banheiro. Todas as vezes que saa
pela portinhola, dava de cara com a caixa de fotos cor de
laranja e era invadida por uma vaga sensao de perda.

     Renata dissera que s precisaria de mim no domingo
seguinte, mas na tarde de sbado ouvi algum bater  minha
porta. Coloquei a cabea para fora e vi Natalya, ainda de
pijama, claramente irritada.

      Renata ligou  falou.  Precisa da sua ajuda. Disse
para voc tomar um banho e ir o mais rpido possvel.

     Tomar um banho? Aquele me pareceu um pedido
estranho, vindo de Renata. Ela provavelmente queria que eu
a acompanhasse numa entrega e deve ter presumido, com
razo, que eu havia passado a semana quase inteira na cama
e sem tomar banho.

     Demorei no chuveiro, me ensaboando, passando xampu
e escovando os dentes com gua to quente quanto consegui
suportar. Ao me secar, vi que minha pele estava vermelha e
manchada. Vesti minha melhor roupa: cala social preta e
uma blusa branca macia, o tecido pregueado como o de uma
camisa de boto  moda antiga. Antes de sair do banheiro,
aparei meu cabelo com esmero e tirei as pontas de cima da
minha blusa com o secador.
     Quando me aproximei da Bloom, vi uma figura familiar
sentada no meio-fio, com uma caixa de papelo aberta no
colo. Grant. Ento foi por isso que Renata ligou. Parei de
andar e observei seu perfil, srio e atento. Ele se virou para
mim e se levantou.

     Andamos um na direo do outro, nossos passos curtos
no mesmo ritmo, at nos encontrarmos no meio da ladeira
ngreme, Grant se assomando acima de mim. Estvamos
afastados demais para eu ver o contedo da caixa, que ele
segurava abaixo do queixo.

      Voc est bonita  disse ele.

      Obrigada.

     Eu teria retribudo o elogio, mas ele no estava bonito.
Pela lama fresca em suas botas e pela terra em seus joelhos,
dava para ver que Grant tinha trabalhado a manh inteira. E
tambm havia seu cheiro, no de flores, mas de um homem
sujo: uma mistura equilibrada de suor, fumaa e terra.

      Eu no troquei de roupa  falou ele, como se de
repente tivesse se dado conta de sua aparncia.  Devia ter
trocado.

      No faz diferena  respondi.

     Queria que as palavras soassem gentis, mas elas
pareceram desdenhosas. O rosto de Grant ficou inexpressivo
e senti uma onda de raiva me invadir (no de Grant, mas de
mim mesma, por nunca ter sido capaz de dominar as
sutilezas da elocuo). Dei um passo na direo dele,
ensaiando um pedido desajeitado de desculpas.

      Sei que no  disse ele.  S vim porque achei que voc
iria querer isto aqui... para a sua amiga.

     Ele baixou a caixa. Dentro dela, vi seis vasos de
cermica    de   junquilho,   as   flores    amarelas   altas   e
desabrochadas em cachos viosos. Uma doura inebriante
emanava delas.

     Enfiei a mo na caixa e peguei os vasos, tentando tirar
os seis ao mesmo tempo. Queria estar cercada daquela cor.
Grant baixou mais um pouco a caixa e, puxando-os com
cuidado, consegui erguer os seis. Afundei meu rosto nas
ptalas. Por um breve instante, eles ficaram equilibrados em
meus braos, mas ento os dois do meio escorregaram. Os
vasos se estilhaaram na calada, fazendo os bulbos sarem
da terra e os caules se vergarem para os lados. Grant se
ajoelhou e comeou a recolher as flores.

     Apertei os quatro vasos restantes contra o corpo,
baixando-os para que eu pudesse observar Grant por sobre
as ptalas. Ele aninhou os bulbos em suas mos fortes e
ajeitou as hastes, enroscando folhas longas e pontiagudas em
volta dos talos nas partes em que eles haviam sido
enfraquecidos pela queda.

      Onde quer que coloque estas?  perguntou ele,
erguendo os olhos.

     Eu me agachei, ajoelhando-me ao seu lado.
      Aqui  falei, fazendo um movimento com o queixo para
que ele pusesse as flores em cima dos vasos que eu estava
segurando.

     Ele separou os ramos e depositou os bulbos expostos
sobre a terra, aninhando as flores partidas entre as demais.
Suas mos se demoraram entre os caules, sua respirao
lenta e regular me dizendo que estava se preparando para ir
embora.

     Relaxei os braos e os vasos de flores deslizaram do meu
colo em cmera lenta, parando ao lado das minhas coxas na
calada ngreme. As mos de Grant pousaram sobre meus
joelhos. Eu as peguei, levei-as ao rosto e as apertei contra
meus lbios, minhas bochechas e minhas plpebras. Enlacei
as mos dele em volta da minha nuca e o puxei mais para
perto. Encostei minha testa na dele. Fechei os olhos e nossos
lbios se tocaram. Apesar de seu lbio superior me arranhar
um pouco, sua boca era carnuda e macia. Ele prendeu a
respirao e eu o beijei novamente, dessa vez com mais
intensidade, faminta. De joelhos, arrastei-me ladeira acima,
derrubando os vasos em meu desejo de estar mais perto de
Grant, de beij-lo com mais fora, por mais tempo, de
mostrar quanto tinha sentido sua falta.

     Quando enfim nos separamos, sem flego, um dos vasos
havia rolado ladeira abaixo, com suas flores retas e altas, de
um amarelo quase ofuscante sob o sol de inverno.

     Talvez eu estivesse enganada, pensei, observando os
ramos se balanarem na brisa. Talvez a essncia do
significado de cada flor estivesse mesmo em algum lugar
dentro de seu caule forte, no conjunto macio de suas ptalas.

     Tive certeza de que Annemarie ficaria satisfeita com os
junquilhos.
       SENTADA NA VARANDA, eu separava a pilha de
minsculas flores brancas de camomila aos meus ps. Uma
linha de 1,5 metro, com uma agulha em cada ponta, me
conectava a Elizabeth. Ns trabalhvamos rpido, perfurando
miolos amarelos esponjosos e empurrando as flores at o
meio da linha. De vez em quando eu parava, distrada por um
inseto ou por uma farpa, mas Elizabeth nunca interrompia
seus    movimentos.    Em uma      hora   nossa   tarefa estava
terminada e uma delicada fita coberta de ptalas se estendia
entre ns.

        Definio?  perguntei.
      Elizabeth estava debruada, amarrando um quadrado
de papel na ponta da linha. Vi de relance a palavra agosto e o
nmero 2, alm da expresso por favor repetida vrias vezes e
uma frase que me pareceu mentirosa: No consigo fazer isso
sem voc.

      Elizabeth enrolou o cordo florido.

       nimo diante das adversidades.

      Nada poderia ter definido de forma mais objetiva sua
postura. Desde que havia decidido se comunicar com a irm
por   meio   das   flores,   Elizabeth   estava    em    constante
movimento:     plantando     sementes,   regando    as    plantas,
conferindo o desenvolvimento de botes semiabertos e
esperando uma resposta  e at essa espera era um tipo de
ao, dinmica e inquieta.

       Venha comigo  chamou-me Elizabeth, subindo em
seu caminho e depositando as flores de camomila entre ns.

      Fomos at a casa de Catherine. Elizabeth deixou o
motor ligado ao saltar do veculo, enrolou o cordo florido em
volta da estaca de madeira da caixa de correio e colocou o
bilhete dentro dela. Voltando ao caminho, continuou
descendo a estrada, afastando-se do vinhedo.

       Aonde estamos indo?  perguntei.

       s compras.

      Por causa do vento, seus cabelos se agitavam em volta
do rosto e ela logo os prendeu com um elstico, controlando o
volante com os joelhos. Ento, me lanou um sorriso
travesso.

      Onde?  indaguei.

     Havia um armazm a menos de 2 quilmetros dali, onde
Elizabeth havia comprado minha capa de chuva e botas de
jardinagem, mas ficava para o outro lado.

      Na Chestnut Street, em So Francisco. L tem vrias
lojas para crianas, daquelas que vendem conjuntinhos de
moletom para recm-nascidos a 200 dlares, vestidos para
bebs de organza de seda... esse tipo de coisa. Um vestido
para a sua adoo vai me custar mais do que posso conseguir
por duas toneladas de uvas, mas se no fizer isso agora, vou
fazer quando? Ora, voc tem 10 anos! Na semana que vem vai
ser a minha garotinha, mas no vai continuar sendo
garotinha por muito mais tempo. Tenho que vesti-la enquanto
posso.  Ela sorriu para mim outra vez e seu sorriso era um
convite.

     Eu me aproximei dela, pressionando minha cabea
contra     seu   ombro   enquanto   seguamos   pela   estrada.
Elizabeth havia me ensinado a me sentar ereta e longe dela
no caminho, para que no fssemos multadas por no usar
cinto de segurana, mas seu sorriso me dizia que aquele dia
era uma exceo. Ela dirigia com apenas uma das mos no
volante e o outro brao em volta dos meus ombros,
apertando-me contra seu corpo. Ningum nunca tinha me
levado para comprar roupas novas e aquela me parecia a
maneira perfeita de comear minha vida como filha de
algum. Eu cantarolava junto com as msicas antigas do
rdio enquanto atravessvamos a ponte em direo  cidade,
tentando conciliar emoes conflitantes: queria que aquele
dia durasse para sempre, mas tambm queria que acabasse
logo, assim como os dois seguintes. Faltavam somente trs
dias para minha audincia com a juza.

     Na Chestnut Street, Elizabeth estacionou e eu a segui
por uma porta aberta. A loja estava vazia, exceto por uma
vendedora parada diante de um balco de vidro, arrumando
broches cravejados de diamantes num suporte de feltro em
formato de rvore.

      Em que posso ajud-la?  perguntou, seu sorriso me
recebendo com o que parecia ser um interesse sincero. 
Procurando algo em especial?

      Sim  respondeu Elizabeth.  Algo para Victoria.

      E quanto anos voc tem, querida? Sete? Oito?

      Dez  falei.

     A vendedora pareceu ficar sem graa, mas suas palavras
no me ofenderam.

      J me avisaram para nunca tentar adivinhar 
confessou.  Deixe-me mostrar o que temos no seu tamanho.

     Eu a segui at os fundos da loja, onde uma fileira de
vestidos estava pendurada em frente a um espelho com uma
barra de bal de madeira. Elizabeth agarrou a barra e fez um
agachamento exagerado, seus joelhos se dobrando em
ngulos agudos e os dedos de seus ps apontando para cima.
Seu corpo era magro e ossudo como o de uma bailarina
clssica, mas nem de longe to gracioso. Ns duas rimos.

     Examinei os vestidos um por um duas vezes.

      Se voc no gostar de nada, podemos ir a outras lojas
 disse Elizabeth atrs de mim.

     Mas esse no era o problema. Eu tinha gostado de todos
os vestidos, sem exceo. Minha mo se deteve sobre as fitas
de veludo de um modelo frente nica. Eu o peguei,
segurando-o na frente do corpo. A etiqueta indicava 8 anos,
mas mesmo assim ia at bem abaixo do meu joelho. A frente
azul-clara era separada da saia estampada por uma fita de
veludo marrom que se amarrava atrs. Mas foi a estampa da
saia que me seduziu: flores marrons de veludo em relevo
sobre um fundo azul. As ptalas concntricas me lembravam
mil-folhas ou crisntemos. Olhei para Elizabeth.

      Experimente  disse ela.

     Entrei no pequeno provador e tirei minhas roupas.
Parada diante do espelho com minha calcinha de algodo
branca e Elizabeth sentada atrs de mim, observei minha
imagem plida, minha pele clara e sem marcas, minha
cintura reta sobre quadris estreitos. Elizabeth analisou meu
corpo com tanto orgulho que imaginei que era assim que uma
me olharia para sua filha biolgica, toda formada dentro de
seu ventre.

      Levante os braos  disse ela.
        Passando o vestido pela minha cabea, ela amarrou as
fitas da parte de cima sob o meu cabelo e as de baixo logo
acima da cintura.

        O vestido me serviu perfeitamente. Olhei para o meu
reflexo com os braos esticados, rgidos, dos dois lados da
saia.

        Quando meu olhar cruzou com o de Elizabeth, seu rosto
estava to emocionado que no consegui saber se ela iria rir
ou chorar. Ela me puxou para junto de si, seus braos
passando      por   baixo   das   minhas   axilas,   suas   mos
espalmadas sobre o meu peito. Minha nuca se apertava
contra suas costelas.

         Olhe s para voc  falou.  Meu beb.

        E, de alguma forma, naquele momento, suas palavras
diziam a verdade. Tive a vaga sensao de ser uma criana
muito pequena, uma recm-nascida at, abraada com fora
e aninhada em seus braos. Era como se a infncia que eu
tivera pertencesse  outra pessoa, a uma garota que no
existia mais, que havia sido substituda pela que estava
refletida no espelho.

         Catherine tambm vai am-la  sussurrou Elizabeth. 
Voc vai ver.
     ANTES DO INCIO DA TEMPORADA de casamentos,
Renata me contratou em perodo integral. Ela me ofereceu
benefcios ou um bnus  no os dois. Eu estava com a sade
perfeita e cansada de depender de Grant para me levar e
trazer da fazenda de flores, ento optei pelo dinheiro.

     O baterista da banda de Natalya me vendeu seu carro.
Sua bateria nova  que parecia bem mais barulhenta do que
a anterior  no cabia no porta-malas, ento ele ficou com
meu bnus e me deu os documentos do veculo. Parecia uma
troca justa, embora eu no soubesse nada sobre preos de
automveis. No tinha carteira nem sabia dirigir. Grant
rebocou meu carro da Bloom at a fazenda na traseira de seu
caminho e, durante semanas, me proibiu de sair de l com
ele. Quando finalmente deixou, foi s para ir at a drogaria e
voltar. Ainda assim, fiquei apavorada. Levei outro ms inteiro
para estar pronta para dirigir sozinha at a cidade.

     Naquela primavera, passei as manhs trabalhando para
Renata e as tardes procurando as flores que faltavam em meu
dicionrio. Depois de fotografar tudo o que havia na fazenda
de Grant, passei para o Golden Gate Park e para a orla. O
norte da Califrnia era um grande jardim botnico, com flores
silvestres crescendo entre autoestradas movimentadas e
flores de camomila brotando de rachaduras nas caladas. s
vezes Grant me acompanhava; ele era bom em identificar
plantas, mas se cansava rpido de parques municipais de um
quarteiro e banhistas magricelas.

     Nos fins de semana, se terminasse a tempo o trabalho
com Renata, eu ia com Grant fazer trilha na floresta de
sequoias ao norte de So Francisco. Sempre ficvamos
sentados no estacionamento o tempo necessrio para ver
quais trilhas eram as mais concorridas antes de escolher qual
seguiramos. Sozinhos na floresta, Grant se contentava em
passar   horas    me     observando     fotografar     e   falava
detalhadamente sobre cada espcie de planta e sua relao
com as demais no ecossistema. Depois que terminava de me
contar o que sabia, ele se recostava no musgo que cobria o
tronco de uma sequoia e olhava o cu plido por entre os
galhos. O silncio pairava sobre ns e eu sempre esperava
que ele fosse mencionar Elizabeth, Catherine ou a noite em
que me acusou de ter mentido. Eu passava horas pensando
no que diria, em como explicaria a verdade sem fazer com que
ele se voltasse contra mim para sempre. Mas Grant no
trouxe o passado  tona, nem na floresta nem em nenhum
outro lugar. Ele parecia satisfeito em manter nossa vida
juntos restrita s flores e ao presente.

     Muitas noites eu dormia na torre de gua. Grant havia
comeado a levar a culinria a srio e o balco de sua
cozinha estava cheio de        livros de receitas ilustrados.
Enquanto eu me sentava  mesa e lia, ou olhava pela janela,
ou contava alguma histria sobre uma noiva antiptica,
Grant picava, temperava e mexia. Depois do jantar ele me
beijava  s uma vez  e esperava minha reao. s vezes eu
retribua, ento ele me puxava para junto de seu corpo e
ficvamos meia hora enroscados no vo da porta; outras
meus lbios permaneciam frios e impassveis. Eu mesma no
sabia como iria reagir a cada dia. No que dizia respeito ao
aprofundamento de nossa relao, eu sentia medo e desejo
em partes iguais e imprevisveis. Ao final de todas as noites,
ele saa para onde quer que fosse dormir e eu trancava a
porta em seguida.

     No final de maio, em uma noite no meio de semana,
aps meses desse ritual, Grant se inclinou para a frente como
se fosse me beijar, mas parou a centmetros dos meus lbios.
Ento, colocou as mos na base das minhas costas e meu
puxou para junto dele, para que nossos corpos se tocassem
por inteiro, mas no nossos rostos.

      Acho que est na hora  falou.
      De qu?  perguntei.

      De eu ter minha cama de volta.

     Estalei a lngua e olhei pela janela.

      Do que voc tem medo?  indagou ele, depois de eu
ficar um bom tempo calada.

     Refleti sobre sua pergunta. Sabia que ele tinha razo,
que era o medo que nos mantinha afastados. Mas o que
exatamente eu temia?

      No gosto de ser tocada  falei, repetindo as palavras
que Meredith dissera tanto tempo atrs.

     Mas, assim que as pronunciei, percebi como soavam
ridculas. Embora nossos corpos estivessem colados, eu no
me afastava dele.

      Ento no vou tocar voc  disse Grant.  A menos que
me pea.

      Nem mesmo quando eu estiver dormindo?

      A mesmo que no.

     Sabia que ele estava falando a verdade.

      Voc pode dormir na sua cama  falei.  Mas vou
passar a noite no sof. E  melhor eu no acordar com voc
do meu lado, seno pego meu carro e volto para casa
imediatamente.

      Isso no vai acontecer  disse Grant.  Eu prometo.
     Naquela noite eu fiquei acordada no sof, tentando no
pegar no sono antes de Grant, mas ele tambm no
conseguia dormir. Eu o ouvia se virar de um lado para o
outro no andar de cima, ajeitando as cobertas, derrubando
uma pilha de livros. Por fim, depois de um longo silncio,
quando eu estava certa de que ele havia adormecido, ouvi
uma batidinha de leve no teto. Ento um sussurro desceu
pelo vo da escada:

      Victoria?

      Sim?

      Boa noite.

      Boa noite  respondi, pressionando o rosto no tecido
cor de laranja para esconder um sorriso.

     Depois de uma estao inteira de junquilhos, Annemarie
era outra pessoa. Ela vinha todas as sextas pela manh para
buscar um buqu novo. Sua pele estava mais rosada e seu
corpo, finalmente liberado da capa com cinto, mostrava-se
curvilneo debaixo de suteres de algodo finos. Disse que
Bethany tinha ido passar um ms na Europa com Ray e
voltaria de l noiva. Falou com tanta certeza que era como se
j tivesse acontecido.

     Annemarie trouxe suas amigas, muitas delas com filhas
usando vestidos de babados e todas com casamentos em
crise. Elas se debruavam no balco enquanto as crianas
pegavam flores de baldes mais altos do que elas e corriam
pela loja. As mulheres discutiam os detalhes de seus
relacionamentos, tentando resumir seus problemas em uma
nica palavra. Eu havia explicado como era importante que
seus pedidos fossem especficos e elas levaram isso a srio.
As conversas eram ao mesmo tempo tristes, divertidas e
estranhamente esperanosas. O empenho com que tentavam
salvar seus casamentos era totalmente estranho para mim.
Eu no entendia por que elas no desistiam de uma vez.

     Eu sabia que, se fosse comigo, teria jogado tudo para o
alto: marido, filhos e outras mulheres com quem discutia o
assunto. Mas, pela primeira vez na vida, essa constatao
no me trouxe alvio. Comecei a notar como eu me mantinha
isolada. Havia coisas bvias, como viver em um closet com
seis cadeados, e outras mais sutis, como trabalhar  mesa de
frente para Renata, e no ao seu lado, ou ficar atrs da caixa
quando conversava com os clientes. Sempre que possvel, eu
separava meu corpo das pessoas ao meu redor com paredes,
mesas de madeira macia ou objetos de metal pesados.

     Mas, de alguma maneira, ao longo de seis meses
cautelosos, Grant havia rompido essa barreira. Eu no s
permitia que ele me tocasse como desejava isso e comecei a
me perguntar se no haveria alguma possibilidade de que eu
mudasse. Passei a ter esperanas de que meu desapego
pudesse ser superado, como a averso infantil a cebolas e
comida picante.

     No fim de maio, meu dicionrio estava quase completo.
Tirei fotos de muitas das plantas mais difceis de achar no
Conservatory of Flowers, o jardim botnico do Golden Gate
Park. Depois de revelar, montar e identificar cada uma delas,
coloquei os respectivos X no meu dicionrio e folheei as
pginas para ver quantas flores faltavam. S uma: a flor de
cerejeira. Fiquei irritada comigo mesma por aquele descuido.
Havia muitas cerejeiras na rea da baa de So Francisco;
dezenas de variedades s no Japanese Tea Garden. Mas o
perodo de florao era curto  durava apenas alguns dias, no
mximo semanas, dependendo do ano  e eu tinha ficado
distrada demais durante a primavera para capturar seu
breve instante de beleza.

     Grant saberia onde encontrar uma flor de cerejeira,
mesmo agora, muito depois da poca. Anotei o nome da nica
flor que faltava em um pedao de papel e o colei do lado de
fora da caixa cor de laranja. J estava na hora de entreg-la
para ele.

     Coloquei a caixa no banco de trs do carro e a prendi
com o cinto de segurana. Era domingo e cheguei  torre de
gua antes de Grant voltar do mercado dos fazendeiros. Usei
a chave sobressalente para entrar, abri o armrio da cozinha
e me servi de um po com passas. A caixa, de um laranja
berrante sobre a mesa de madeira gasta, ocupava mais
espao do que devia. Ela parecia chamativa e nova na
cozinha pequena, com utenslios antigos e discretos. Estava
prestes a lev-la para o andar de cima quando ouvi o
caminho de Grant parar no caminho de cascalho.

     Ele abriu a porta e foi direto para onde estava a caixa.

       o dicionrio?  perguntou.
     Assenti, entregando-lhe o pedao de papel com o nome
da flor que faltava.

      Mas ainda no est completo  falei.

     Grant deixou o pedao de papel cair no cho e abriu a
tampa. Olhou os cartes, admirando as fotografias uma de
cada vez. Virei uma delas para lhe mostrar o significado da
flor escrito no verso, ento a guardei de volta e fechei a tampa
em cima dos seus dedos.

      Voc pode olhar mais tarde  falei, pegando o papel do
cho e o agitando no ar  sua frente.  Agora, preciso que me
ajude a encontrar isto.

     Grant ergueu o pedao de papel e leu o nome da flor que
faltava. Balanou a cabea.

      Uma flor de cerejeira? Voc vai ter que esperar at
abril.

     Minha cmera bateu contra a mesa.

      Quase um ano inteiro? No posso esperar tanto tempo.

     Grant riu.

      O que voc quer que eu faa? Que transplante uma
cerejeira para a minha estufa? Mesmo assim, ela no daria
flores.

      Ento, o que eu posso fazer?

     Ele pensou por um instante, sabendo que eu no
desistiria to facilmente.
      Procure nos meus livros de botnica  sugeriu.

     Franzi o nariz e me inclinei para a frente at estar perto
o suficiente para beij-lo, mas no o fiz. Em vez disso,
esfreguei meu nariz em seu rosto com a barba por fazer e
mordi sua orelha.

      Por favor?

      Por favor, o qu?  perguntou ele.

      Por favor, sugira algo mais bonito do que uma
ilustrao de um livro tcnico.

     Grant olhou pela janela. Parecia enfrentar um debate
interior. Era quase como se tivesse uma flor de cerejeira
tempor no bolso e tentasse decidir se eu era importante e
confivel o bastante para receb-la. Por fim, assentiu.

      O.k.  falou.  Venha.

     Grant cruzou a porta. Coloquei a cmera em volta do
pescoo e acompanhei seus passos. Atravessamos o caminho
de cascalho e subimos os degraus da casa principal. Ele tirou
uma chave do bolso e abriu a porta dos fundos, que dava
para uma rea de servio. Uma blusa feminina num tom
claro de cor-de-rosa tremulava no varal. Grant me conduziu
at a cozinha, onde as cortinas estavam fechadas e os
balces, empoeirados e escuros. Todos os eletrodomsticos
estavam desligados das tomadas e o silncio total da
geladeira era perturbador.
     Atravessamos uma porta de vaivm para a sala de
jantar. A mesa tinha sido empurrada para o lado e havia um
saco de dormir estendido sobre o cho de madeira. Reconheci
o bluso de Grant e algumas meias emboladas ao lado dele.

      Isso  de quando voc me expulsou da minha prpria
casa  falou, sorrindo e apontando para a baguna.

      Voc no tem um quarto aqui?

     Grant fez que sim com a cabea e disse:

      Mas j faz uma dcada que no durmo nele. Para dizer
a verdade, s estive no andar de cima uma vez desde que
minha me morreu.

     As escadas se assomavam  minha esquerda, com um
corrimo de madeira grosso que fazia uma curva na lateral da
sala. Grant deu um passo na direo delas.

      Venha  chamou-me.  Quero lhe mostrar uma coisa.

     L em cima, havia um corredor longo, com portas
fechadas dos dois lados. Ele terminava diante de cinco
degraus. Ns os subimos e passamos curvados por uma porta
baixa.

     O aposento pequeno era mais quente do que o restante
da casa e cheirava a poeira e tinta seca. Antes mesmo de
localizar a janela triangular, tapada com madeira, eu soube
que estvamos no ateli de Catherine. Quando meus olhos se
ajustaram  penumbra, vislumbrei as paredes revestidas de
lambris, a mesa de desenho comprida e as prateleiras de
materiais de pintura. Na prateleira mais alta, havia uma
fileira de potes de vidro cheios at a metade com tinta roxa e
pincis presos em poas endurecidas cor de alfazema e
pervinca. Um cordo dava a volta no cmodo, e, presos a ele
com pregadores de madeira, estavam desenhos  flores
grandes, retratadas com traos elaborados em grafite e
carvo.

      Minha me era uma artista  disse Grant, indicando
suas obras com um gesto abrangente.  Ela passava horas
aqui em cima todos os dias. Durante a maior parte da minha
vida, desenhou apenas flores: raras, tropicais, de florao
curta, delicadas. Tinha medo de no ter a flor correta para
expressar o que queria dizer em determinado momento.

     Ele me levou at um arquivo de carvalho num canto e
abriu uma gaveta. Cada pasta estava etiquetada com o nome
de uma planta e todas continham um nico desenho. Grant
correu os dedos pelas pastas at chegar  do lamo-branco.
Pegou-a e a abriu: estava vazia. O desenho estava no quarto
azul, ainda embrulhado em uma fita de seda com o dia e hora
do nosso primeiro encontro.

     Grant guardou a pasta e vasculhou os arquivos at
encontrar o desenho de uma flor de cerejeira. Ele o colocou
sobre a mesa de desenho vazia e saiu pela porta.

     Eu me sentei, admirando o trabalho. Os traos eram
rpidos e confiantes; as sombras, profundas e complexas. A
flor enchia a pgina inteira e sua beleza era quase
insuportvel. Mordi o lbio.
     Grant voltou, observando minha expresso enquanto eu
observava o papel.

      Definio?  perguntou.

      Boa educao.

     Ele balanou a cabea.

      Efemeridade. A beleza e a transitoriedade da vida.

     Desta vez ele tinha razo, ento assenti.

     Grant ergueu um p de cabra que havia pegado e
arrancou a chapa de madeira da janela. A luz jorrou pelo
vidro quebrado, incidindo sobre o tampo da mesa como um
holofote. Ele posicionou o desenho sobre os retngulos
iluminados e se sentou na beira da mesa.



      Fotografe  falou, acariciando primeiro a cmera e
depois meu corpo.

     Ele me observou tirar a cmera do estojo e direcion-la
para a imagem. Eu a fotografei de todos os ngulos possveis:
de p, de cima de uma cadeira e ento parada em frente 
janela, bloqueando a luz forte. Ajustei a velocidade do
obturador e o foco. Inclinada sobre a mesa, sentia o olhar de
Grant sobre meus dedos, meu rosto e meus ps. Gastei um
filme inteiro. Ele no desviou os olhos enquanto eu colocava
um segundo rolo na mquina e depois um terceiro. Minha
pele se arrepiava sob o seu olhar, como se meu corpo se
estendesse para ele sem a permisso da minha mente.
     Quando terminei, guardei o desenho de volta na pasta.
No dia seguinte, revelaria as fotos e meu dicionrio estaria
completo. Apontei a cmera para onde Grant estava sentado
na mesa, imvel, e observei seu rosto pelo visor.

     A luz do sol iluminava seu perfil. Dando uma volta,
capturei seu rosto na luz e na sombra. A cmera clicava
enquanto eu andava ao seu redor, olhando para o topo de
sua cabea e seguindo a linha de seus cabelos at a gola da
camisa. Enrolei suas mangas para cima e fotografei seus
antebraos, o msculo firme e protuberante do seu punho,
seus dedos grossos e unhas cheias de terra. Tirei seus
sapatos e fotografei as solas dos seus ps. Quando o filme
acabou, tirei a cmera do pescoo.

     Desabotoei minha blusa e a tirei tambm.

     O arrepio desapareceu da pele dos meus braos e surgiu
na de Grant. Subi na mesa.

     Ele se sentou com as pernas cruzadas sob o corpo e se
virou para me encarar, ento espalmou as mos sobre a
minha barriga e as manteve ali. Seus dedos subiam e
desciam enquanto eu respirava fundo. Meus prprios dedos,
agarrados s beiradas da mesa, estavam brancos.

     Ele moveu as mos at a parte de trs do meu suti,
soltando-o   com   delicadeza,   um    fecho   de   cada   vez.
Desgrudando meus dedos do tampo da mesa, passou o suti
primeiro por um dos meus braos e depois pelo outro. Agarrei
as beiradas novamente, apertando-as como se tentasse
manter o equilbrio num barco agitado.

      Tem certeza?  perguntou ele.

     Fiz que sim com a cabea.

     Ele me deitou na mesa, segurando minha cabea
enquanto ela baixava sobre a superfcie dura. Tirou o
restante das minhas roupas e ento as suas.

     Deitando-se ao meu lado, Grant comeou a beijar meu
rosto. Virei a cabea para a janela, com medo de que sua
nudez me causasse repulsa. O nico adulto que eu tinha
visto nu foi Mame Ruby e a imagem daquele corpo molhado
e pelancudo me assombrara durante meses.

     Os dedos hbeis de Grant percorreram meu corpo. Ele
era to cauteloso comigo quanto seria com um boto delicado
e tentei me concentrar em seu toque, no calor que ele
provocava na minha pele, no entrelaamento dos nossos
corpos. Ele me desejava e eu sabia que j havia muito tempo
que sentia isso. Mas sob a janela estava o jardim de rosas e,
por mais que meu corpo reagisse ao seu toque, minha mente
parecia vagar por entre as plantas, quase 10 metros abaixo
dali. Grant se deitou sobre mim. O jardim estava em plena
florao, as rosas desabrochadas e pesadas. Contei e
categorizei cada um dos arbustos, comeando as rosas
vermelhas, subindo e descendo as fileiras: 16 tons, desde
vermelho-claro at o escarlate. A boca de Grant deslizou at
minha orelha, aberta e molhada. Havia 22 roseiras cor-de-
rosa, se eu contasse com as corais. Grant comeou a se
mover depressa, seu prprio prazer ofuscando seu cuidado, e
fechei os olhos para suportar a dor. Por trs de minhas
plpebras, vi as rosas brancas, que eu no havia contado.
Prendi a respirao at Grant sair de cima de mim.

     Virei de frente para a janela e Grant colou seu corpo s
minhas costas. Seu corao batia contra a minha espinha.
Contei as rosas brancas desabrochadas sob o sol poente, 37
ao todo, mais do que qualquer outra cor.

     Inspirei fundo, meus pulmes se enchendo de decepo.
     POR TRS DIAS FRENTICOS, deixamos mensagens
para Catherine: folhas pontiagudas de babosa, pesar, coladas
com fita adesiva  janela de sua cozinha, como uma cerca;
amores-perfeitos cor de sangue, pense em mim, amontoados
em um jarro de vidro minsculo na varanda; ramos de
cipreste, tristeza, entrelaados na grade de metal do porto
de ferro batido.

     Mas Catherine no dava sinal de t-las recebido e no
enviava nada para Elizabeth em troca.
    MINHAS ROUPAS MIGRARAM para a casa de Grant na
mala do meu carro. Meus sapatos foram em seguida, depois
meu cobertor marrom e, por fim, minha caixa azul. Era tudo
o que eu tinha. Ainda pagava o aluguel para Natalya no
primeiro dia de cada ms e, s vezes, tirava um cochilo no
meu carpete branco e felpudo depois do trabalho, mas 
medida que o vero avanava, eu passava cada vez menos
tempo no quarto azul.

    Meu dicionrio de flores estava pronto. A fotografia que
havia tirado do desenho de Catherine completou a listagem e
o dicionrio e o guia de Elizabeth se aposentaram para uma
existncia empoeirada no topo da estante de Grant. As caixas
de foto azul e laranja ficavam lado a lado na prateleira do
meio, a de Grant em ordem alfabtica de flores; a minha, de
significados. Duas ou trs vezes por semana um de ns
enfeitava a mesa de jantar com flores ou deixava um ramo de
goivinho-da-praia no travesseiro do outro, mas raramente
consultvamos as caixas. Tnhamos decorado cada carto e
j no discutamos sobre as definies como quando nos
conhecemos.

     Na verdade, no discutamos sobre nada. Minha vida
com Grant era pacfica e tranquila e eu poderia gostar disso
no fosse a certeza esmagadora de que tudo estava prestes a
acabar. O ritmo de nossa vida juntos me lembrava os meses
anteriores ao meu processo de adoo, quando Elizabeth e eu
sulcvamos    a   terra,   marcvamos    meu    calendrio   e
aproveitvamos nosso tempo juntas. Aquele vero com
Elizabeth tinha sido muito quente; o que eu estava passando
com Grant, tambm. O calor enchia a torre de gua, que no
tinha ar-condicionado, como se fosse um lquido e Grant e eu
ficvamos estirados em nossos respectivos andares  noite,
tentando respirar. A umidade pesava como as coisas que
evitvamos dizer um ao outro e mais de uma vez me
aproximei dele com a inteno de confessar meu passado.

     Mas no conseguia. Grant me amava. Seu amor era
tranquilo porm firme e a cada declarao sua eu me sentia
desfalecer tanto de prazer quanto de culpa. No merecia seu
amor. Se ele soubesse a verdade, me odiaria. Eu tinha mais
certeza disso do que j tivera de qualquer outra coisa na vida.
Meu carinho por ele s piorava a situao. Havamos nos
tornado cada vez mais ntimos, nos beijvamos a cada
encontro e despedida e at dormamos lado a lado. Ele
acariciava meu cabelo, meu rosto e meus seios  mesa de
jantar e em todos os trs pisos da torre de gua. Fazamos
amor com frequncia e at aprendi a gostar disso. Mas, logo
depois, quando nos deitvamos juntos, nus, seu rosto
demonstrava uma satisfao incontida que eu sabia no estar
refletida no meu. Eu sentia que meu eu verdadeiro e indigno
estava fora do alcance de suas mos vidas, escondido de seu
olhar apaixonado. Meus sentimentos por Grant tambm
pareciam ocultos e comecei a imaginar uma esfera em volta
do meu corao, to dura e lustrosa quanto a casca da avel,
impenetrvel.

     Grant no parecia notar meu distanciamento. Se em
algum momento sentiu que meu corao era um objeto
inalcanvel, jamais me falou.

     Ns nos separvamos e nos reunamos em um ritmo
previsvel. Durante a semana, nossos caminhos se cruzavam
por uma hora s noites. Nos sbados, passvamos a maior
parte do dia juntos, indo para o trabalho de manh no
mesmo carro e parando depois para comer, caminhar ou ficar
olhando as pipas na orla. Aos domingos, ficvamos cada um
em seu canto. Eu no o acompanhava ao mercado dos
fazendeiros e estava sempre na rua quando ele voltava,
almoando em um restaurante        em   frente      baa ou
atravessando a ponte sozinha. Mas eu sempre voltava  torre
de gua para o jantar, para aproveitar as refeies mais
criativas e elaboradas de Grant. Ele passava a tarde inteira
cozinhando. Quando eu entrava, j havia tira-gostos sobre a
mesa da cozinha. Ele descobriu que, se eu tivesse algo para
beliscar, no o atazanaria at a entrada estar pronta, o que
muitas vezes s acontecia bem depois das nove.

     Naquele vero, Grant abandonou os livros de receitas 
que carregou para o andar de cima e enfiou debaixo do sof 
e passou a criar cada refeio do zero. Disse-me que se sentia
menos pressionado se no ficasse comparando o resultado
com a foto que ilustrava a receita. E devia saber, tambm,
que seus pratos eram melhores do que qualquer coisa que
poderia fazer com base num livro, melhores do que qualquer
coisa que eu havia comido desde que sara da casa de
Elizabeth.

     No   segundo   domingo   de   julho,   aps   uma   longa
caminhada pela praia de Ocean Beach voltei para casa mais
faminta do que de costume, minha barriga embrulhada de
fome e nervosismo. Tinha passado em frente  Gathering
House e a viso das jovens  janela, nenhuma delas
conhecida, fez meu estmago doer. Suas vidas no seriam
como elas sonhavam. Eu compreendia isso, embora a minha
estivesse muito melhor do que eu teria esperado. Isto , se
houvesse me permitido esperar alguma coisa. Eu sabia que
era a exceo e acreditava que mesmo a minha boa sorte no
passava de um momento fugaz naquela vida que seria longa,
dura e solitria.
     Grant havia servido fatias de baguete recheadas de
alguma     coisa      cream   cheese,   talvez,   ou   algo   mais
extravagante , com ervas picadas, azeitonas e alcaparras. Os
tira-gostos estavam dispostos em fileiras numa travessa de
cermica quadrada. Comecei em uma ponta e fui subindo e
descendo as fileiras, enfiando as rodelas inteiras em minha
boca, uma a uma. Ergui os olhos antes de comer a ltima e
Grant estava me observando com um sorriso.

      Voc quer?  perguntei, apontando a nica que
restava.

      No. Voc vai precisar para esperar o prximo prato. A
costela assada ainda vai demorar 45 minutos.

     Comi a ltima rodela e resmunguei.

      No vou aguentar esperar tanto assim.

     Grant suspirou.

      Voc diz isso toda semana. E, depois de comer, sempre
fala que valeu a pena esperar.

      No falo nada  respondi, mas ele tinha razo.

     Meu estmago digeriu o cream cheese com um barulho
alto. Eu me debrucei sobre a mesa e fechei os olhos.

      Voc est bem?

     Assenti. Grant preparou o restante da refeio em
silncio enquanto eu cochilava na mesa. Quando abri os
olhos, a carne fumegante estava ao meu lado. Eu me apoiei
em um cotovelo s.

      Corta para mim?  pedi.

      Claro.

     Grant acariciou minha cabea, meu pescoo e meus
ombros, beijando minha testa antes de pegar a faca e fatiar a
carne. Ela estava vermelha no meio, do jeito que eu gostava, e
coberta por uma casca de algo picante. O molho era uma
mistura de cogumelos exticos, batatas-doces e nabos. Era a
coisa mais gostosa que eu j havia provado.

     Meu estmago, no entanto, no concordou com a
avaliao de minha boca sobre a comida. Bastaram apenas
algumas garfadas para que eu soubesse que ele no seria
capaz de segurar o jantar. Voando pelas escadas acima, eu
me tranquei no banheiro e expeli todo o contedo do meu
estmago na privada. Dei a descarga, abri a torneira da pia e
o chuveiro, esperando que o barulho da gua abafasse a srie
de barulhos de vmito que fiz em seguida.

     Grant bateu  porta, mas no abri. Ele foi embora e
voltou meia hora depois, mas continuei sem atender s suas
batidas fracas. No havia espao o bastante para eu me
deitar no cho do banheiro com o corpo esticado, ento
dobrei minhas costas contra a banheira de cermica. Corri os
dedos pelo piso de azulejos brancos hexagonais, desenhando
flores de seis ptalas nele. J passava das onze horas quando
sa do banheiro, as marcas das divisrias dos azulejos
profundas na pele do meu rosto e do meu ombro nu.

     Torci para que Grant estivesse dormindo, mas ele estava
sentado com as costas eretas no sof, as luzes da casa todas
apagadas.

      Foi a comida?  perguntou.

     Balancei a cabea em uma negativa. No sabia o que
era, mas definitivamente no tinha sido a comida.

      A costela estava incrvel.

     Eu me sentei ao seu lado, nossas coxas vestidas com o
mesmo brim escuro se tocando.

      O que foi ento?

      Estou doente  respondi, evitando seus olhos.

     Eu no acreditava nisso e ele tambm no. Quando
criana, eu vomitava por estar perto das pessoas: bastava eu
ser tocada ou ameaarem me tocar. Pais adotivos se
agigantando     diante    de    mim,     enfiando   meus   braos
desobedientes    em      um    casaco,   professores   arrancando
chapus da minha cabea, seus dedos se demorando por
tempo de mais no meu cabelo embaraado, todos eles
causavam convulses incontrolveis em meu estmago. Uma
vez, logo depois de me mudar para a casa de Elizabeth,
fizemos um piquenique no jardim na hora do jantar. Como
em todas as refeies daquele outono, eu tinha comido
demais e, incapaz de me mexer, deixara Elizabeth me pegar
no colo e me levar para dentro de casa. Ela mal havia me
colocado no cho da varanda quando vomitei em cima do
corrimo.

     Olhei para Grant. Ele vinha me tocando, intimamente,
havia meses. Sem me dar conta, eu j esperava que isso fosse
acontecer.

      Vou dormir no sof  falei.  No quero que voc me
toque.

      Eu no vou tocar  disse Grant, pegando minha mo e
colocando-me de p.  Suba comigo.

     Fiz o que ele pediu.
     NA MANH DA AUDINCIA de adoo, acordei ao
nascer do sol.

     Sentando-me na cama, me virei e recostei na parede fria
com o edredom puxado at o queixo. Uma luz preguiosa
entrava pela janela, com raios suaves iluminando minha
penteadeira e a porta aberta do armrio. Em vrios aspectos,
o quarto estava igual a quando eu havia entrado nele, um
ano antes: a mesma moblia, o mesmo edredom branco e as
mesmas pilhas de roupas, muitas das quais ainda estavam
grandes para mim. Porm,  minha volta, havia vrios sinais
da garota que eu me tornara: pilhas de livros emprestados da
biblioteca em cima da mesa, sobre jardinagem e botnica;
uma foto tirada por Carlos, minha e de Elizabeth com as
bochechas coladas uma na outra, rosadas por causa do
inverno; e uma lixeira cheia de desenhos de flores que eu
fizera para Elizabeth, mas no considerara bons o suficiente
para lhe entregar. Aquela era minha ltima manh naquele
quarto como uma criana em processo de adoo, ento olhei
ao redor dele, como sempre fazia  analisando os objetos
como se eles pertencessem  outra pessoa. Amanh, pensei.
Amanh me sentirei diferente. Vou acordar, olhar  minha
volta e ver um quarto meu  uma vida minha  e nunca mais
serei levada embora novamente.

     Descendo o corredor sem fazer barulho, tentei ouvir
Elizabeth. Embora fosse cedo, fiquei surpresa com o silncio
da casa e ao ver a porta de seu quarto fechada. Imaginava
que ela fosse estar to insone quanto eu. O dia anterior havia
sido meu aniversrio e, por mais que Elizabeth tivesse
preparado cupcakes e ns os tivssemos coberto com glac
roxo em forma de rosas grossas, a expectativa da minha
adoo ofuscara a festa. Depois do jantar, ficamos lambendo
a cobertura, distradas, nossos olhares se desviando para a
janela enquanto espervamos o cu escurecer para que o
novo dia comeasse. Deitada em minha cama sem conseguir
dormir, usando a longa camisola florida que Elizabeth me
dera de presente, eu me sentira mais agitada do que em
todas as vsperas de Natal da minha vida juntas. Talvez
Elizabeth tambm no tivesse conseguido dormir, pensei, e
continuasse na cama at tarde porque passara metade da
noite em claro.
     O vestido que tnhamos comprado estava dentro do
banheiro, pendurado num gancho atrs da porta em uma
capa de plstico. Eu lavei o rosto e escovei meus cabelos
antes de tir-lo do cabide.

     Foi difcil coloc-lo sem Elizabeth, mas eu estava
determinada. Queria ver a expresso em seu rosto quando ela
acordasse e me visse pronta, sentada  mesa da cozinha,
esperando. Queria que ela entendesse que eu estava pronta.
Sentando-me na beirada da banheira, pus o vestido ao
contrrio, puxei o zper para cima e ento girei a roupa at o
fecho estar alinhado com minha coluna. As fitas eram
grossas e difceis de amarrar. Depois de vrias tentativas
frustradas, me contentei com um n frouxo na nuca. Fiz o
mesmo em volta da cintura.

     Quando desci para a cozinha, o relgio em cima do fogo
marcava oito horas. Abri a geladeira, analisei as prateleiras
cheias e escolhi uma embalagem pequena de iogurte de
baunilha. Puxei o lacre e cutuquei uma camada de creme
grossa com a colher, mas no estava com fome. Comecei a
ficar nervosa. Elizabeth nunca tinha dormido at tarde,
nenhuma vez durante todo aquele ano que passei com ela.
Fiquei uma hora inteira sentada  mesa da cozinha, sem
desgrudar os olhos do relgio.

     s nove, subi as escadas e bati  porta do seu quarto. O
lao em volta do meu pescoo tinha afrouxado e a frente do
vestido estava cada demais, expondo minha caixa torcica
protuberante. Sabia que no estava to glamourosa quanto
parecera na loja. Quando Elizabeth no abriu nem falou
nada,   girei   a   maaneta.    A   porta   estava   destrancada.
Empurrando-a com cuidado, entrei no quarto.

     Os olhos de Elizabeth estavam abertos, fixos no teto. Ela
no os desviou dali quando atravessei o quarto e parei ao
lado da cama.

      So nove horas  falei.

     Elizabeth no respondeu.

      Nossa audincia com a juza  s onze. No devamos
estar indo, para nos apresentarmos na recepo e tudo o
mais?

     Ela continuou ignorando minha presena. Eu me
aproximei um passo e me inclinei para a frente, pensando
que ela talvez ainda estivesse dormindo, embora seus olhos
estivessem arregalados. Tive uma colega de quarto que
costumava dormir assim e todas as noites eu esperava que
ela pegasse no sono primeiro para poder fechar suas
plpebras. No gostava da sensao de ser observada.

     Comecei a balanar Elizabeth de leve. Ela no piscou.

      Elizabeth  chamei, num sussurro.   a Victoria.

     Pressionei meus dedos em seu pescoo. Sua pulsao
batia tranquila, como se marcasse os segundos at a minha
adoo. Levante-se, supliquei em silncio. A ideia de perder a
audincia, de ter que adi-la por mais um ms, uma semana
ou at mesmo um dia era incompreensvel. Comecei a sacudi-
la, agarrando seus ombros com as mos. Sua cabea
balanou frouxa sobre o pescoo.

      Pare com isso  disse ela enfim, sua voz quase
inaudvel.

      Voc no vai levantar?  perguntei com a voz falhando.
 Ns no vamos para a audincia?

     Lgrimas escorreram dos olhos de Elizabeth, que no
ergueu a mo para sec-las. Segui o trajeto delas com meu
olhar e vi que o travesseiro j estava molhado onde elas
caram.

      No consigo  disse ela.

      Do que voc est falando? Eu posso ajudar voc.

      No  falou Elizabeth.  No consigo.  Ento, ficou
muito tempo calada. Eu me inclinei para to perto dela que,
quando ela finalmente voltou a falar, seus lbios roaram
minha orelha.  Isto no  uma famlia  disse ela baixinho. 
S eu e voc, sozinhas nesta casa. No  uma famlia. No
posso fazer isso com voc.

     Eu me sentei ao p da cama. Elizabeth no se moveu,
no tornou a falar, mas eu fiquei sentada ali pelo resto da
manh, esperando.
     O ENJOO NO PASSOU, mas aprendi a escond-lo.
Vomitava no chuveiro todas as manhs at o ralo comear a
entupir. Depois disso, no tomava banho, ia correndo at
meu carro antes de Grant se levantar e dizia que era por
causa de Renata e de uma quantidade enlouquecedora de
casamentos de vero. O mal-estar me acompanhava o dia
inteiro. O perfume das flores no trabalho piorava a sensao,
mas o frio da cmara frigorfica trazia alvio.  tarde, eu
cochilava entre os baldes gelados.

     No sei quanto tempo eu poderia ter continuado assim
se Renata no tivesse me confrontado l dentro. A porta de
metal pesada se fechou com um clique alto e ela me acordou
na escurido, cutucando-me de leve com a ponta dos dedos.

      Voc acha que no sei da sua gravidez?  perguntou.
     Meu corao esmurrou sua casca dura como uma noz.
Gravidez. A palavra flutuou no ar entre ns, indesejada.
Minha vontade era de que ela pudesse sair deslizando por
baixo da porta at a rua e entrar no corpo de algum que a
quisesse. Havia muitas mulheres que sonhavam com a
maternidade, mas nem eu nem Renata ramos uma delas.

      No estou grvida  contestei, mas sem a fora com
que pretendia.

      Pode negar o quanto quiser, mas vou fazer um seguro-
sade para voc antes que este beb esteja para nascer e voc
acabe dando  luz na porta da minha loja.

     No me mexi. Renata ameaou me chutar outra vez,
mas acabou cutucando delicadamente meu abdome, que s
ento notei estar mais gordo.

      Levante da  ordenou  e v se sentar  mesa. A pilha
de papis que voc precisa assinar  to grande que vai levar
a tarde quase toda.

     Eu me levantei e sa da cmara frigorfica, passando
pelos papis empilhados em cima da mesa e saindo em
direo  calada. Depois de tentar vomitar sem sucesso na
sarjeta, comecei a correr. Renata me chamou vrias vezes,
cada vez mais alto, mas no olhei para trs.

     Quando cheguei  mercearia na esquina da Rua 17 com
a Potrero Avenue, estava exausta e sem flego. Sentei-me no
meio-fio, ofegante. Uma senhora com um saco cheio de
compras se deteve, colocando a mo sobre meu ombro e
perguntando-me se eu estava bem. Afastei sua mo com um
tapa e ela deixou suas compras carem. Em meio  comoo
das pessoas que se juntavam  nossa volta, entrei na loja.
Comprei uma embalagem com trs testes de gravidez e voltei
andando para o quarto azul, a caixa de papel leve parecendo
uma pedra na minha mochila.

     Natalya ainda estava dormindo com a porta do quarto
aberta. Havia meses que no a fechava mais, desde que eu
tinha praticamente deixado de morar ali, e sempre a batia
com fora quando eu chegava de surpresa. Depois de fech-la
sem fazer barulho, me tranquei no banheiro.

     Fiz xixi nos trs bastes e os alinhei na beirada da pia.
Era para demorar trs minutos, mas no demorou.

     Abrindo a janela do banheiro, eu os atirei para fora um
de cada vez. Eles quicaram e foram parar no telhado plano de
brita que ficava somente meio metro abaixo da janela, os
resultados ainda visveis. Sentei-me na tampa da privada e
apoiei a cabea nas mos. A ltima coisa que eu queria era
que Natalya soubesse; o fato de Renata saber j era ruim o
bastante. Se Mame Ruby descobrisse, iria se mudar para o
quarto azul para me dar ovos fritos dia e noite e colocar as
mos na minha barriga de cinco em cinco minutos.

     Fui at a cozinha e subi no balco. Natalya e sua banda
sempre iam para o telhado desse jeito, mas eu nunca havia
tentado. A janela sobre a pia da cozinha era pequena, mas
no impossvel de atravessar, nem mesmo com o meu corpo
em estado de dilatao.
     O telhado estava sujo, com guimbas de cigarro e uma
garrafa de vodca vazia. Engatinhando por cima delas, juntei
os trs testes de gravidez e os coloquei no meu bolso.
Levantei-me devagar, tonta por causa do esforo e da altura,
e olhei  minha volta.

     A vista era impressionante, tanto por eu nunca t-la
notado quanto pela paisagem em si. O telhado era longo  do
tamanho de um quarteiro inteiro  e cercado por um muro
de concreto baixo. Para alm dele, a cidade se estendia desde
o centro, passando pela Bay Bridge, at Berkeley: uma
ilustrao perfeita de si mesma, o movimento dos faris
traseiros nas autoestradas como um borro vermelho. Andei
at a beira do telhado e me sentei, respirando aquela beleza,
esquecendo por um instante que tudo na minha vida estava
prestes a mudar, mais uma vez.

     As pontas dos meus dedos correram desde o meu
pescoo at o meu umbigo. Meu corpo j no era meu. Ele
fora ocupado, invadido. No era o que eu queria, mas no
havia escolha; o beb cresceria dentro de mim. Eu no
poderia fazer um aborto. No poderia ir a uma clnica, tirar a
roupa e ficar nua na frente de um estranho. A ideia de me
submeter a uma anestesia, de perder a conscincia enquanto
um mdico fazia o que quisesse com meu corpo, era uma
ofensa fora de cogitao. Eu teria o beb e depois decidiria o
que fazer com ele.

     Um beb. Repeti as palavras vrias vezes, esperando por
alguma ternura ou emoo, mas no senti nada. Em meu
torpor, eu tinha apenas uma convico: Grant nunca poderia
saber. O entusiasmo em seus olhos, a viso imediata que ele
teria da famlia que formaramos, isso era mais do que eu
conseguiria suportar. Eu podia prever exatamente como
seria: eu, sentada  mesa de piquenique, esperando Grant se
sentar para que eu pudesse botar para fora as palavras que
mudariam nossas vidas. Eu comearia a chorar antes de
terminar de falar, mas mesmo assim ele entenderia. E iria
querer. O brilho em seus olhos seria a prova de sua devoo
ao nosso filho, enquanto minhas lgrimas seriam a prova da
minha incapacidade de ser me. A certeza de que eu iria
decepcion-lo (e a incerteza de como ou quando isso iria
acontecer) me impediria de compartilhar do seu entusiasmo,
me manteria isolada de suas declaraes de amor.

     Eu precisava ir embora, rpida e silenciosamente, antes
que Grant descobrisse o motivo de minha partida. Isso iria
mago-lo, mas no tanto quanto me ver fazer as malas e
afastar para sempre o filho dele, sem que ele pudesse fazer
nada a respeito. A vida que Grant desejava ter comigo no era
possvel.

     Era melhor que ele nunca soubesse como havamos
chegado perto.
    ERAM QUATRO DA TARDE e Elizabeth ainda no tinha
sado da cama. Eu estava sentada  mesa da cozinha, usando
o dedo para comer pasta de amendoim direto do pote. Pensei
em fazer um jantar para ela, canja de galinha ou chili, algo
com um cheiro atraente. Mas, at aquele momento, eu s
havia aprendido a fazer sobremesas: bolo de amoras, torta de
pssego e mousse de chocolate. No parecia certo comer
sobremesa antes de jantar, em especial naquele dia, em que
no tnhamos absolutamente nada para comemorar.

    Afastando a pasta de amendoim, comecei a vasculhar a
despensa quando fui surpreendida por uma batida  porta.
No precisei olhar pela janela para ver quem era. Tinha
ouvido aquela batida vezes suficientes para saber. Meredith.
Ela bateu mais forte. Em instantes giraria a maaneta e a
porta estava destrancada. Eu me agachei na despensa. O
som da porta da frente batendo me alcanou na escurido.
Os gros de feijo e arroz sobre as prateleiras chacoalharam
dentro de suas latas.

      Elizabeth?  chamou Meredith.  Victoria?

     Ela atravessou a sala de estar e entrou na cozinha. Seus
passos contornaram a mesa e pararam em frente  janela da
pia. Prendi a respirao, imaginando seus olhos correndo ao
longo   das   videiras   frondosas,   procurando   sinais   de
movimento. Ela no encontraria nenhum. Carlos tinha levado
Perla para acampar, como todos os anos. Finalmente, ouvi
Meredith dar meia-volta e subir at o andar de cima.

      Elizabeth?  chamou outra vez. E ento, baixinho: 
Elizabeth? Voc est bem?

     Subi as escadas sorrateiramente, parando no ltimo
degrau e me agachando atrs da parede, fora de vista.

      Estou descansando  sussurrou Elizabeth.  Eu s
precisava descansar um pouco.

      "Descansando"?  perguntou Meredith. Algo na voz de
Elizabeth a irritara e seu tom de voz deixou de soar
preocupado para se tornar acusador.  So quatro da tarde!
Voc perdeu a audincia. Deixou a mim e  juza l,  toa,
olhando uma para a cara da outra, nos perguntando onde
voc e Victoria...  Ela parou no meio da frase.  Onde est
Victoria?

      Ela estava aqui agora mesmo  falou Elizabeth, com a
voz fraca.
     Horas atrs, tive vontade de gritar. Tinha sado do lado
da sua cama ao meio-dia, quando j no tinha mais dvida
alguma de que faltaramos  audincia.

      Voc procurou na cozinha?  perguntou Elizabeth.

     Quando Meredith voltou a falar, pareceu estar mais
perto de mim.

      Sim, olhei. Mas vou olhar de novo.

     Eu me levantei e comecei a descer as escadas na ponta
dos ps, mas era tarde.

      Victoria  falou Meredith.  Volte aqui.

     Dei meia-volta e segui Meredith at meu quarto. Mais
cedo, tinha trocado o vestido por um short e uma blusa e ele
estava jogado sobre minha mesa. Meredith se sentou e
comeou a passar os dedos sobre as flores de veludo.
Arranquei o vestido dela e o amassei, formando uma bola,
que joguei debaixo da cama.

      O que est acontecendo?  exigiu saber Meredith, no
mesmo tom acusador que havia usado com Elizabeth.

     Dei de ombros.

      Nem pense que vai ficar parada a sem dizer nada.
Tudo estava indo s mil maravilhas, Elizabeth te ama, voc
est feliz... e de repente vocs no aparecem para a audincia
de adoo? O que voc fez?

      Eu no fiz nada!  gritei.
     Pela primeira vez na minha vida isso era verdade, mas
Meredith no tinha motivo para acreditar em mim.

      Elizabeth est cansada, voc ouviu o que ela disse 
continuei.  Deixe a gente em paz.

     Eu me enfiei na cama, puxei as cobertas e me virei para
a parede.

     Com um suspiro alto e impaciente, Meredith se
levantou.

      Tem alguma coisa errada  falou.  Ou voc fez algo
terrvel, ou Elizabeth no est em condies psicolgicas de
ser me. De qualquer forma, no sei mais se este  um bom
lugar para voc.

      No cabe a voc decidir o que  bom ou no para
Victoria  disse Elizabeth com um fiapo de voz.

     Eu me sentei na cama e olhei em sua direo. Ela se
segurava com fora ao batente da porta, como se fosse cair
sem o seu apoio. Um roupo cor-de-rosa claro envolvia seu
corpo. Seus cabelos caam em mechas embaraadas sobre os
ombros.

       exatamente a mim que cabe decidir isso  disse
Meredith, andando na direo de Elizabeth. Ela no era nem
mais alta, nem mais forte, mas pareceu enorme diante da
figura fragilizada de Elizabeth.  No caberia mais se voc
tivesse comparecido  audincia s 11 da manh. E, pode
acreditar, eu estava prestes a abrir mo da tutela desta
criana. Mas parece que no vai ser assim. O que ela fez?

      Ela no fez nada.

     Eu no conseguia ver o rosto de Meredith, no
conseguia ver se ela acreditava em Elizabeth.

      Se Victoria no fez nada, serei obrigada a lhe dar uma
advertncia por escrito por faltar a uma audincia marcada,
por suspeita de negligncia. Ela comeu alguma coisa hoje?

     Estiquei minha camisa para a frente, onde ainda havia
manchas de pasta de amendoim do meu lanche, mas
nenhuma das duas olhou para mim.

      No sei  disse Elizabeth.

     Meredith balanou a cabea.

      Foi o que pensei.  Ela se dirigiu para a porta do
quarto, passando por Elizabeth.  Vamos terminar isto na
sala. Victoria no precisa participar da conversa que teremos
agora.

     Eu no as segui at o andar de baixo. No queria ouvir.
Queria que tudo voltasse a ser como no dia anterior, quando
eu acreditava que Elizabeth iria me adotar. Rolando para a
beirada da cama, enfiei o brao embaixo dela at encontrar
meu vestido amarrotado. Eu o puxei para junto de mim na
cama, apertando-o contra o meu peito e escondendo o rosto
no veludo. O vestido ainda conservava o cheiro da loja, de
madeira nova e limpa-vidros, e me lembrei da sensao dos
braos de Elizabeth debaixo das minhas axilas e cruzados
com fora sobre meu peito, da expresso em seu rosto
quando nossos olhares se encontraram no espelho.

     Eu podia ouvir fragmentos de uma discusso vindos do
andar de baixo: Meredith, principalmente, com a voz
exaltada. O que ela tem  voc ou nada, falou num
determinado momento. No me venha com essa besteira de
que ela merece algo melhor. Isso  desculpa. Ser que
Elizabeth no sabia que ela era tudo o que eu queria? Que eu
jamais iria querer outra coisa? Encolhida debaixo do
edredom, o calor do vero me pareceu denso e sufocante. Eu
lutava para respirar.

     Eu tinha recebido uma chance, uma ltima chance, e de
alguma   maneira,       sem   querer,   estraguei   tudo.   Fiquei
esperando Meredith subir as escadas pisando firme e dizer as
palavras que eu nunca havia imaginado que fosse ouvir:
Elizabeth deu o aviso de desistncia. Arrume suas coisas.
     NA MANH DE DOMINGO, comi algumas bolachas
salgadas e esperei o enjoo passar. O que no aconteceu.
Entrei no carro mesmo assim e atravessei a cidade, parando
trs vezes no meio-fio para vomitar nos bueiros. O aumento
da populao mundial era um fenmeno que no conseguia
compreender enquanto parava uma vez aps outra.

     Grant no estava em casa, como eu j sabia. Ele estaria
na traseira do caminho, entregando flores cortadas para
filas de moradores da regio. Fazia apenas trs noites que eu
no aparecia, o que no era um tempo to longo para mim ou
para nossa relao, e eu o imaginava trabalhando, com
pressa, pensando na refeio extravagante que pretendia
preparar. Jamais passaria pela sua cabea que eu fosse
perder um jantar de domingo. Pelo menos eu tinha avisado a
ele, pensei, enquanto usava a chave reserva enferrujada para
entrar. No era minha culpa que Grant tivesse esquecido.

      Atenta para ouvir se o caminho chegasse, arrumei
minhas coisas depressa. Peguei tudo que era meu e vrias
coisas que no eram, incluindo a bolsa de viagem de Grant,
um saco de lona grande e verde-oliva, que se camuflaria bem
no meio do mato. Enfiei dentro dele roupas, livros, uma
lanterna, trs cobertores e toda a comida que havia no
armrio. Antes de fechar o zper, acrescentei uma faca, um
abridor de latas e o dinheiro que ele guardava dentro do
freezer.

      Entulhei minhas coisas no banco de trs do carro e
voltei para buscar minha caixa azul, o dicionrio de Elizabeth
e o guia de flores. No carro, prendi os trs no banco do
carona com o cinto de segurana e ento subi de volta a
escada em espiral at o segundo piso. Fui at a estante e
peguei a caixa cor de laranja de Grant. Abrindo-a, repassei as
fotos uma por uma, refletindo se deveria ou no lev-las. Eu
tinha feito aquilo, tudo ali dentro era meu. Mas a ideia de ter
uma    cpia   em   um    lugar   seguro    me   reconfortava,
especialmente quando os prximos meses da minha vida
seriam tudo menos seguros. Se alguma coisa acontecesse
com a caixa azul, eu sempre poderia voltar para pegar a cor
de laranja.

      Deixei a caixa no meio do cho e tirei um pequeno
quadrado de papel da minha mochila. Ele estava dobrado ao
meio e ficou em p sobre a caixa, como um marcador de lugar
num jantar formal. No meio do papel, eu havia colado uma
foto de uma rosa branca, do tamanho de uma moeda. Eu a
havia pegado de uma pilha de fotografias descartadas no
quarto azul e recortado a imagem com cuidado para que
sobrasse apenas a flor. Debaixo dela, onde deveria estar o
nome, escrevera uma s frase em tinta permanente.

     Uma rosa  uma rosa  uma rosa.

     Grant entenderia, mesmo que no aceitasse, que aquele
era o fim.
     EU IRIA VOLTAR PARA O QUARTO AZUL; teria o beb
entre suas paredes que lembravam gua. Sabia disso da
mesma forma que sabia que Grant estava me procurando 
no tinha nenhuma prova, mas tambm no tinha nenhuma
dvida. Ele no sabia onde ficava o quarto azul, mas eu tinha
certeza de que tinha informaes suficientes para conseguir
encontr-lo. At ele desistir, eu teria que ficar escondida.
Poderia levar meses ou um ano inteiro. Eu estava preparada
para esperar.

     Adolescentes embriagados no me assustavam mais,
ento voltei a morar no meu jardim na McKinley Square.
Agora tinha uma faca e experincia sexual. Eles no
poderiam fazer nada que j no houvesse sido feito antes e,
olhando meu reflexo na vitrine de uma loja de convenincia,
duvidava que algum fosse tentar. Indiferente tanto em
relao ao meu corpo em transformao quanto  minha
condio de sem-teto, eu no trocava de roupa, no
procurava tomar banho nem transitar pelos bairros mais
ricos. As semanas comearam a se mostrar na minha pele.

     Sentia falta de Renata e do meu trabalho, mas no podia
voltar para a Bloom. Seria o primeiro lugar onde Grant me
procuraria. Em vez disso, me escondi debaixo dos arbustos
de urze, que haviam crescido e se multiplicado na minha
ausncia. Suas sementes podiam ficar no solo por meses ou
anos  dcadas at  antes que vida nova brotasse delas. Eu
me sentia consolada ao me enroscar com a bolsa de viagem
de Grant entre os galhos daquela planta. Deixei o restante
das minhas coisas no carro, que estacionava em uma rua
diferente a cada dia. Se Grant o visse, iria reconhec-lo 
mesmo sem a placa e com a caixa azul bem escondida
debaixo dos meus pertences , ento eu o deixava afastado de
Potrero Hill, nos bairros de Bernal Heights ou Glen Park, e s
vezes at mais longe, em Hunters Point. J estava dormindo
no parque havia semanas quando me toquei de que poderia
passar as noites no carro. Mas no queria fazer isso. O cheiro
de terra, saturada pelo excesso de gua, se infiltrava em
meus sonhos e apaziguava meus pesadelos.

     Em meados de agosto, empoleirada no trepa-trepa da
McKinley Square, vi Grant. Ele se aproximava pela Vermont
Street, subindo a colina enquanto seus olhos percorriam os
sobrados modernos e as casas vitorianas. Parou e trocou
algumas palavras com um pintor que estava em cima de um
andaime inclinado. Tinta turquesa pingava de um pincel e
caa sobre um pano perto do sapato de Grant. Ele se agachou
e tocou a tinta fresca, ento falou algo para o pintor, que deu
de ombros. Grant estava trs quarteires mais abaixo e eu
no conseguia ouvi-lo, mas pude notar que ele no estava
sem flego mesmo depois daquela subida ngreme.

     Revirei os arbustos, fechei a bolsa e atravessei a rua
com ela, entrando na loja da esquina. Quando voltei a morar
na McKinley Square, falei para o dono da loja que estava
fugindo de uma famlia violenta. Pedi que ele me escondesse
caso meu irmo viesse me procurar. O homem tinha
recusado, mas depois de tanto tempo comprando todas as
minhas refeies em sua loja sempre vazia, eu sabia que ele
no teria coragem de me expulsar dali.

     O dono da loja ergueu os olhos quando entrei correndo
com minha bolsa pesada e rapidamente abriu a porta atrs
dele. Contornei o balco s pressas, atravessei a porta e subi
um lance de escadas. Ajoelhando-me, engatinhei at a janela
da frente do apartamento pequeno e pouco mobiliado. O cho
de madeira cheirava a cera lquida com aroma de limo e
parecia grudento contra as minhas canelas. As paredes eram
pintadas de amarelo-vivo. Aquele lugar no chamaria a
ateno de Grant.
     Agachando-me debaixo da janela, espiei por sobre o
parapeito. Grant j havia subido as escadas at o parque e
passado pelos balanos, cujos assentos vazios oscilavam ao
vento. Ele girou o corpo e eu me abaixei. Quando tornei a
levantar a cabea, ele estava parado no limiar do gramado,
onde os torres verdes e espessos se encontravam com a
vegetao rasteira e silvestre do bosque. Ele pressionou uma
bota contra o tronco de uma sequoia antes de atravessar a
camada macia de terra adubada e se ajoelhar diante da
verbena branca. Prendi a respirao enquanto Grant corria os
olhos pelo declive, com medo de que ele notasse o arbusto de
urze podado e a marca do meu corpo, com a barriga redonda,
debaixo dele.

     Mas ele no se deteve ali. Em vez disso, voltou-se para a
verbena e inclinou a cabea. Eu estava longe demais para ver
as ptalas delicadas em que ele afundou o nariz, longe
demais para escutar suas palavras sussurradas, mas sabia
que ele estava rezando.

     Pressionei a testa contra o vidro e senti meu corpo
sendo atrado em sua direo pela fora do meu desejo.
Sentia falta do seu cheiro doce e natural, da sua comida e do
seu toque. Do modo como pousava as palmas quadradas de
suas mos, que cheiravam a terra mesmo depois de serem
lavadas, sobre as minhas faces enquanto me olhava nos
olhos. Mas eu no podia ir ao seu encontro. Ele faria
promessas e eu repetiria suas palavras por querer acreditar
em sua viso de nossa vida juntos. Mas, com o tempo, ns
dois descobriramos que minhas palavras eram vazias. Eu
fracassaria. Esse era o nico resultado possvel.

     Fechando os olhos, eu me obriguei a me afastar da
janela. Meus ombros se curvaram para a frente, minha
barriga pressionada contra as coxas abertas. O sol aqueceu
minhas costas. Se eu soubesse rezar, teria acompanhado
Grant. Teria pedido por ele, por sua bondade, sua lealdade e
seu amor improvvel. Teria rezado para que ele desistisse,
virasse a pgina e recomeasse. Poderia at ter rezado por
seu perdo.

     Mas eu no sabia rezar.

     Em vez disso, fiquei como estava, encolhida no cho da
sala de estar de um estranho, esperando Grant desistir, se
esquecer de mim e ir para casa.
     OBSERVEI MEREDITH IR EMBORA em seu carro.
Depois de nos visitar semanalmente durante dois meses, ela
enfim decidira marcar uma nova audincia com a juza. Para
dali a seis meses.

     Elizabeth ps uma fatia extra de bacon em um
sanduche e o colocou na minha frente. Eu o peguei, dei uma
mordida e assenti. Ela no dera o aviso de desistncia, como
eu imaginei que faria, mas estava diferente de antes da
adoo frustrada: parecia muito nervosa e passava o tempo
todo se desculpando.

      Vai passar voando  disse ela , com a colheita, as
festas de fim de ano e tudo o mais.
     Voltei a assentir e engoli em seco, esfregando os olhos,
recusando-me a chorar. Desde que havamos perdido a
audincia, eu vinha repassando as cenas do ano anterior na
minha cabea sem parar, buscando pistas do que eu fizera de
errado. A lista era longa: cortar o ramo do cacto, agredir o
motorista do nibus escolar e mais de uma declarao de
dio. Mas Elizabeth parecia ter perdoado meus acessos de
raiva. Ela parecia entend-los. Cheguei  concluso de que o
motivo de sua indeciso repentina era meu crescente apego a
ela ou ento minhas lgrimas. Sentindo meus olhos se
encherem d'gua, fechei-os e me inclinei para a frente,
pressionando a testa contra a mesa.

      Sinto muito, de verdade  falou Elizabeth baixinho.

     Tinha dito isso centenas de vezes ao longo das ltimas
semanas e eu acreditava nela. Elizabeth parecia sentir muito.
No que eu no acreditava, no entanto, era que ela ainda
quisesse ser minha me. Piedade, eu sabia muito bem, era
diferente de amor. A julgar pelo que eu tinha ouvido de sua
conversa na sala de estar, Meredith deixara claro para
Elizabeth quais eram as minhas opes. Eu no tinha mais
ningum alm dela. Conclu que foi uma sensao de
obrigao   que impedira Elizabeth de dar o aviso de
desistncia. Depois de terminar o sanduche, limpei as mos
na cala jeans.

      Se j tiver acabado, me espere no trator  falou
Elizabeth.  Vou lavar a loua e encontro voc l.
     Do lado de fora, eu me encostei no pneu alto,
observando as videiras. Estava sendo um bom ano. Elizabeth
e eu tnhamos desbastado e adubado na medida certa; as
uvas que restavam estavam gordas e comeavam a ficar
doces. Eu passara o outono trabalhando ao lado dela no
vinhedo, escrevendo redaes de trs pargrafos sobre as
estaes, o solo e o cultivo de uvas; memorizando guias de
plantas e suas famlias. Nos fins de tarde, como no ano
anterior, acompanhava Elizabeth enquanto ela caminhava
pelo terreno provando as uvas.

     Conferi meu relgio. Tnhamos uma longa noite de
degustao pela frente e eu estava ansiosa para comear.
Mas Elizabeth no apareceu, nem depois de 5 minutos, nem
depois de 10. Decidi voltar para casa. Tomaria um copo de
leite e ficaria observando-a terminar de limpar a cozinha.

     Quando cheguei  varanda, ouvi sua voz, meio irritada,
meio suplicante. Ela estava ao telefone. Entendi na mesma
hora por que Elizabeth tinha me deixado esperando no trator
e, com a mesma rapidez, percebi que a culpa de eu no ter
sido adotada no era minha. Era de Catherine. Se ela tivesse
aparecido, se tivesse respondido com palavras ou flores, se
no tivesse deixado Elizabeth to sozinha, tudo teria sido
diferente. Elizabeth teria sado da cama, amarrado as fitas do
meu vestido e teramos nos encontrado com a juza,
acompanhadas de Grant e Catherine. Transbordando de
raiva, irrompi na cozinha como um furaco.

      Eu odeio essa mulher!  gritei.
     Elizabeth ergueu os olhos. Ela moveu a mo para tapar
o fone. Saltando para a frente, arranquei o aparelho dela.

      Voc destruiu a porra da minha vida!  gritei, batendo
o fone contra a base em seguida.

     A ligao foi cortada, mas o fone ricocheteou do gancho,
caiu no piso de madeira e ficou pendurado a poucos
centmetros do cho. Elizabeth colocou a cabea entre as
mos e se apoiou no balco. Ela no parecia surpresa nem
ofendida por minha exploso repentina. Esperei que dissesse
alguma coisa, mas ela ficou um bom tempo calada.

      Victoria, sei que voc est com raiva  falou por fim. 
E tem todo o direito de estar. Mas no fique com raiva de
Catherine. Fui eu que estraguei tudo. Ponha a culpa em mim.
Eu sou sua me... voc no sabia que  para isso que as
mes servem?

     Os cantos da sua boca se ergueram um pouco,
formando um sorriso irnico e cansado. Olhei-a nos olhos.

     Cerrando os punhos, dei as costas para ela, implorando
a mim mesma para que no a atacasse. Mesmo no auge da
minha raiva, eu entendia que, acima de tudo, queria
continuar com Elizabeth.

      No  respondi quando me senti calma o suficiente
para falar.  Voc no  minha me. Seria se Catherine no
tivesse destrudo minha vida.
       Enquanto subia as escadas, furiosa, levei um susto ao
vislumbrar um movimento na janela da frente. Um caminho
se aproximava depressa pela entrada de veculos. Reconheci o
perfil de Grant debruado sobre o volante. Freios cantaram e
cascalho subiu pelos ares enquanto ele estacionava em frente
 casa.

       Fui correndo para o segundo andar ao mesmo tempo em
que Grant subia a passos firmes os degraus da varanda.
Quando cheguei l em cima, encostei-me na parede, sumindo
de vista. Grant no bateu nem esperou que Elizabeth viesse
atender a porta.

        Voc tem que parar  falou ele, sem flego.

       Elizabeth atravessou a sala. Eu a imaginei parada
diante dele, somente a tela da porta separando seus corpos.

        Eu no vou parar  declarou ela.  Uma hora ela vai
aceitar meu perdo. Precisa aceitar.

        Ela no vai fazer isso. Voc no conhece mais minha
me.

        O qu? O que voc quer dizer com isso?

        Exatamente o que falei. Voc no a conhece.

        No estou entendendo  sussurrou Elizabeth, sua voz
quase inaudvel em meio a um som persistente de batidas.
Parecia ser o p de Grant na varanda ou os ns de seus
dedos contra a armao da tela. Era um barulho nervoso,
impaciente.
      S vim aqui para pedir que voc pare de ligar... por
favor.

     Um silncio pairou entre os dois.

      Voc no pode me mandar esquec-la. Ela  minha
irm.

      Talvez  disse Grant.

      Talvez?  A voz de Elizabeth subiu de tom de repente.

     Eu conseguia imaginar seu rosto vermelho, quente. Ser
que ela estava perseguindo a mulher errada? Ser que Grant
nem sequer era seu sobrinho?

      S estou dizendo que ela no  a irm que voc
conheceu. Por favor, acredite em mim.

      As pessoas mudam  falou Elizabeth.  O amor, no.
Laos familiares, no.

     Houve mais um perodo de silncio e desejei poder ver
seus rostos, saber se estavam com raiva, indiferentes ou 
beira das lgrimas.

      Sim  disse Grant finalmente.  O amor muda.

     Ouvi passos e soube que ele estava indo embora.
Quando tornei a escutar sua voz, ela vinha de longe.

      Minha me no para de encher potes de geleia com
fluido de isqueiro. Tem um monte deles enfileirados no
parapeito da janela da cozinha. Ela diz que vai incendiar seu
vinhedo.
      No.  Elizabeth no parecia chocada nem temerosa,
apenas incrdula.  Ela no faria isso. No importa quanto
ela tenha mudado em 15 anos. Catherine ama estas videiras
tanto quando eu. Sempre amou.

     A porta do caminho bateu.

      S achei que voc deveria saber  disse ele.

     O motor deu a partida com um rudo baixo, mas
continuou parado na entrada para carros. Imaginei os
olhares de Grant e Elizabeth se cruzando, analisando-se
mutuamente em busca da verdade.

     Por fim, Elizabeth chamou seu nome.

      Grant? Voc no precisa ir embora. Sobrou comida do
jantar e voc  bem-vindo.

     Rodas giraram no cascalho.

      No. Eu no deveria ter vindo e no vou voltar. Ela
nunca poder saber que estive aqui.
     ESPEREI UM SEGUNDO MS e depois um terceiro, s
por precauo, passando o dinheiro do aluguel por baixo da
porta de Natalya no dia do vencimento. No final de outubro,
os enjoos tinham melhorado. A nusea s voltava quando eu
no comia o bastante, o que era raro. Tinha dinheiro de sobra
para as refeies. O que tinha pegado de Grant e minhas
prprias economias eram suficientes para me deixar bem
alimentada durante toda a gravidez, mas eu sabia que no
precisaria esperar tanto.

     Quando as folhas comearam a cair, tive certeza de que
Grant havia desistido. Eu me imaginava olhando pelas
janelas da sua torre de gua e observando-o encaixotar os
livros de poetas romnticos e cobrir a caixa cor de laranja
com um pano escuro, os gestos calculados de um homem
com um passado a esquecer. Haveria muitas mulheres no
mercado de flores, mais bonitas, exticas e sensuais do que
eu jamais seria. Ele no demoraria a encontrar uma, se  que
isso j no tinha acontecido. Porm, ao mesmo tempo em que
tentava me convencer disso, a imagem de Grant me vinha 
mente, seu bluso com capuz cobrindo-lhe a testa. Eu nunca
o vira olhar para outra mulher que passasse pela sua
barraca, nenhuma vez.

     No dia que senti o primeiro chute do beb, voltei para o
quarto azul. Arrastei a bolsa de viagem pela cidade at meu
carro e segui para o apartamento. Fiz trs viagens para
carregar tudo para o andar de cima. A porta de Natalya
estava aberta e parei diante da sua cama, observando-a
dormir. Ela havia acabado de retocar a tintura do cabelo e a
fronha branca do seu travesseiro estava manchada com
listras cor-de-rosa. Cheirava a vinho doce e a cravos e no se
mexeu. Eu a sacudi para acord-la.

      Ele apareceu?  perguntei.

     Natalya cobriu os olhos com o cotovelo e suspirou.

      Sim. Algumas semanas atrs.

      O que voc disse?

      S que voc tinha sumido.

      Sumi mesmo.

      . Onde voc estava?
     Ignorei a pergunta.

      Voc disse a ele que eu ainda estava pagando o
aluguel?

     Ela se sentou na cama e balanou a cabea.

      Eu no tinha certeza se o dinheiro era mesmo seu.

     Ela estendeu o brao e botou a mo na minha barriga.
Nas ltimas semanas, eu tinha deixado de parecer gorda para
parecer indiscutivelmente grvida.

      Renata me contou.

     O beb chutou outra vez, suas mos e seus ps
pressionando meus rgos, raspando as paredes do meu
fgado, corao e bao. Tive nsias e corri para a cozinha,
vomitando na pia. Deixando-me cair no cho, senti o enjoo ir
e vir no ritmo dos movimentos do beb. Achava que o mal-
estar do incio da gravidez j tinha ficado para trs; tambm
achava que havia superado a vontade de vomitar sempre que
algum me tocava. Uma das minhas duas suposies estava
errada.

     Renata tinha contado para Natalya. No havia motivos
para acreditar que no havia contado para Grant. Escalei os
armrios da cozinha e vomitei uma segunda vez na pia.



     Havia um novo cartaz na vitrine da Bloom. Horrio de
atendimento   reduzido,    fechada   aos   domingos.   Quando
cheguei no comeo da tarde, a loja estava trancada e com as
luzes apagadas, embora o cartaz indicasse que deveria estar
aberta. Bati  porta e, quando Renata no veio atender, bati
outra vez. A chave estava no meu bolso, mas no a usei.
Sentei-me no meio-fio e fiquei esperando.

     Quinze minutos depois, Renata voltou, carregando a
embalagem prateada de um burrito para viagem. Observei a
luz se refletir do alumnio para os muros dos prdios pelos
quais ela passava. Eu me levantei, mas no olhei em sua
direo, nem mesmo quando ela parou bem na minha frente.
Mantive os olhos fixos nos meus prprios ps, ainda visveis
abaixo da minha barriga.

      Voc contou para ele?  perguntei.

      Ele no sabe?

     O tom de espanto e acusao em sua voz me fez recuar.
Eu me afastei do meio-fio, cambaleando em direo  rua.
Renata me segurou firme, colocando a mo no meu ombro.
Quando levantei a cabea, seus olhos pareciam mais gentis
do que suas palavras.

     Ela meneou a cabea para a minha barriga.

      Para quando  o beb?

     Dei de ombros. No sabia e no me importava. Ele
nasceria quando chegasse a hora. Eu no iria a um mdico e
no daria  luz num hospital. Renata parecia compreender
tudo isso sem que eu precisasse lhe dizer.
        Minha me vai ajudar voc. E no vai lhe cobrar nada.
Ela acha que essa  a misso dela no mundo.

       Eu conseguia ouvir aquelas palavras saindo da boca de
Mame Ruby, com seu sotaque mais carregado e suas mos
no meu corpo. Balancei a cabea.

        Ento, o que voc quer de mim?  perguntou Renata,
sem esconder a frustrao de suas palavras curtas e
pausadas.

        Quero trabalhar  falei.  E no quero que voc conte
para Grant. Nem que voltei, nem que estou grvida.

       Ela suspirou.

        Ele merece saber.

       Assenti.

        Eu sei disso.  Grant merecia um monte de coisas,
todas elas melhores do que eu.  Voc no vai contar para
ele?

       Renata balanou a cabea.

        No. Mas no vou mentir. No pode trabalhar comigo,
no com Grant me perguntando todos os sbados se voc
voltou para o emprego. Eu nunca soube mentir e no quero
aprender agora.

       Eu me encolhi no meio-fio e Renata se sentou ao meu
lado. Quando verifiquei minha pulsao debaixo da pulseira
do relgio, os batimentos eram quase imperceptveis. No
conseguiria outro emprego. Mesmo antes de engravidar, as
chances eram mnimas. Na minha condio atual e cada vez
mais evidente, seria impossvel. O dinheiro que havia
economizado acabaria. Eu no seria capaz de me alimentar
nem de comprar todas as coisas que tornam as crianas to
absurdamente caras.

      Ento, o que vou fazer?  Meu desespero se
transformou em raiva ao sair do meu corpo, mas Renata no
hesitou.

      Pergunte a Grant.

     Eu me levantei para ir embora.

      Espere um instante.

     Renata abriu a porta da Bloom e foi at a registradora.
Levantando a bandeja de dinheiro, retirou um envelope
vermelho lacrado, com meu nome escrito com capricho na
parte da frente e me entregou, junto com um mao de notas
de 20 dlares.

      Seu ltimo pagamento.

     No contei o dinheiro, mas era claramente mais do que
ela me devia. Depois que o guardei na mochila, ela me
entregou o envelope e seu burrito ainda embalado.

      Protena  falou.   o que minha me sempre diz.
Ajuda a formar o crebro do beb. Ou talvez sejam os ossos,
no me lembro.

     Eu agradeci, virando-me para descer a ladeira.
      Se precisar de qualquer coisa  disse ela enquanto eu
me afastava , sabe onde me encontrar.

     Passei o resto do dia no quarto azul, lutando contra
ondas de enjoo enquanto o beb se agitava dentro de mim.
Eu estava sentada de pernas cruzadas no cho branco e
felpudo, onde o envelope vermelho jazia como uma mancha
de sangue. No conseguia me decidir entre abri-lo ou enfi-lo
debaixo do tapete e me esquecer de sua existncia.

     Por fim, resolvi que precisava saber. Seria duro ler as
palavras de Grant, mas pior ainda seria passar a gravidez
toda sem saber se ele adivinhara o motivo da minha partida
repentina.

     Porm, quando abri o envelope, no era o que eu
esperava. Era um convite de casamento: Bethany e Ray, no
primeiro fim de semana de novembro, em Ocean Beach.
Faltavam menos de duas semanas para a cerimnia. Eu
estava convidada, escreveu Bethany no verso, mas ser que
eu tambm poderia cuidar das flores? O que ela mais queria
era constncia, seguida de paixo. O oposto da flor de
cerejeira, pensei, encolhendo-me diante da lembrana da
tarde no ateli de Catherine e de tudo que aquele momento
havia se tornado. Eu sugeriria madressilva, decidi, devoo. A
prpria resistncia da trepadeira sugeria uma constncia que
eu nunca havia experimentado, mas que eu torcia para que
Bethany tivesse.

     Ela havia includo seu nmero de telefone na mensagem
e pedido para que eu ligasse no final de agosto. A data tinha
passado havia muito tempo e ela provavelmente j havia
encontrado outra florista, mas eu tinha que tentar. Era
minha nica fonte de renda que eu tinha em vista no que
seria um longo e improdutivo inverno.

     Bethany atendeu no segundo toque e engasgou ao ouvir
minha voz.

      Victoria!  disse ela.  Eu tinha desistido de voc! J
encontrei outra florista, mas aquela mulher est prestes a
perder o trabalho, independentemente de eu ter pagado um
adiantamento.

     Ela e Ray me encontrariam no dia seguinte. Eu lhe
ensinei como chegar  minha casa.

      Espero que voc fique para o casamento  falou
Bethany antes de desligar.  Acho que seu buqu foi o
comeo de tudo, sabe?

      Vou ficar, sim  respondi. E levaria algo parecido com
cartes de visita.

     Perguntei a Natalya se poderia receber Bethany e Ray no
andar de baixo e ela concordou. Mais cedo na manh
seguinte, comprei uma mesa de carteado e trs cadeiras
dobrveis em um brech em South San Francisco. Elas
couberam no porta-malas do meu carro, mas tive que
amarrar a tampa com uma corda. Alm da moblia, comprei
um vaso de cristal cor-de-rosa com uma pequena lasca por 1
dlar e uma toalha de mesa de renda branca com forro de
plstico rosa por 3. Embrulhei o vaso na toalha e segui at
em casa pelas vias secundrias.

     Antes de Bethany e Ray chegarem, montei a mesa no
escritrio vazio. Depois de cobri-la com a toalha de renda,
coloquei o vaso de cristal no centro, cheio de flores do meu
jardim na McKinley Square. Ao lado do vaso, deixei minha
caixa de fotos azul. Conferi duas vezes a ordem alfabtica
enquanto esperava a porta se abrir.

     Isso finalmente aconteceu e Bethany surgiu no vo mais
bonita do que eu me lembrava. Ray era mais atraente do que
eu havia imaginado. Eles formariam um lindo casal de
noivos, pensei, carregando     longas   tiras ondulantes de
madressilvas pela areia branca.

     Bethany abriu os braos para me abraar e deixei, meu
ventre era uma bola entre ns duas. Ao olhar para baixo, ela
soltou um arquejo e colocou as mos na minha barriga.
Perguntei-me quantas vezes teria que aturar isso durante os
meses seguintes, tanto de pessoas conhecidas como de
completos estranhos. A gravidez parecia anular as leis sociais
tcitas de espao individual. Detestava a ideia quase tanto
quanto a sensao de outro ser humano crescendo dentro do
meu corpo.

      Meus parabns!  falou Bethany, me abraando outra
vez.  Para quando ?
     Era a segunda vez que me faziam essa pergunta em dois
dias e eu sabia que, quanto maior ficasse minha barriga,
mais iria ouvi-la. Contei os meses na minha cabea.

      Fevereiro  respondi.  Ou maro. Os mdicos no
sabem ao certo.

     Bethany me apresentou a Ray e ns trocamos um aperto
de mos. Gesticulando para a mesa e as cadeiras, convidei-os
a sentar. Acomodei-me de frente para eles, pedindo desculpas
por ter demorado tanto a ligar.

      Estamos simplesmente felizes por ter ligado  disse
Bethany, apertando o brao grosso do noivo.  Falei muito de
voc para Ray.

     Empurrei a caixa azul na direo deles. Ela brilhava sob
as luzes fluorescentes do escritrio.

      Posso fazer qualquer coisa que vocs quiserem para o
casamento. O mercado de flores tem quase tudo, mesmo que
esteja fora de estao.

     Bethany abriu a tampa e eu me encolhi, como se ela
estivesse tocando meu corpo outra vez.

     Ray pegou o primeiro carto. Nos anos seguintes, eu
veria muitos homens se mostrarem desconfortveis diante do
meu dicionrio de flores, as luzes fluorescentes lanando
uma sombra repulsiva em seus rostos nervosos. Mas Ray no
foi um deles. Seu fsico enganava; ele discutia emoes como
as amigas de Annemarie, com uma mistura de entusiasmo
loquaz e indeciso. Eles se detiveram num dos primeiros
cartes, accia, assim como Grant e eu, mas por motivos
totalmente diferentes.

      Amor secreto  disse ele.  Gostei.

      "Secreto"?  perguntou Bethany.  Por que secreto?

     Seu tom fingia ofensa, como se Ray estivesse sugerindo
que eles escondessem seu amor do mundo.

      Porque o que temos  secreto. Quando meus amigos
falam sobre suas namoradas ou esposas, reclamando ou
contando vantagem, fico quieto. O que ns temos... 
diferente. Quero que continue assim. Intocado. Secreto.

      Humm  disse Bethany.  Entendo.

     Ela virou o carto e observou a foto da accia, uma flor
sedosa, dourada e esfrica, que pendia de um caule delicado.
Havia mais de um p de accia na McKinley Square.
Esperava que eles estivessem em flor.

      O que voc pode fazer com isso?  perguntou-me ela.

      Depende do que mais vocs querem. A accia no 
uma flor para arranjos de centro de mesa. Eu provavelmente
a usaria para envolver a base de um buqu, deixando suas
mos meio escondidas.

      Gostei disso  falou Bethany. Ela se virou para Ray: 
O que mais?
     No fim das contas, eles se decidiram por rosas
marroquinas fcsia, lilases cor-de-rosa claros, dlias creme,
madressilvas e accias douradas. Eles teriam que trocar os
vestidos das madrinhas: a seda vinho no combinaria.
Bethany    ficou    aliviada   por   serem   de   uma   loja   de
departamentos, e no encomendados. As flores eram o mais
importante, disse ela, confiante, e Ray concordou.

     Quando eles se levantaram para ir embora, eu lhes disse
que entregaria as flores ao meio-dia e voltaria para o
casamento s duas.

      Posso ajeitar seu buqu no ltimo minuto  falei para
ela , se for preciso.

     Bethany me abraou outra vez.

      Seria maravilhoso  disse ela.  Meu maior medo  que
as rosas se desmanchem de repente, quando a marcha
nupcial comear a tocar, e tanto meu casamento quanto
minha boa sorte acabem indo por gua abaixo.

      No se preocupe  falei.  Flores no costumam entrar
em combusto espontnea.

     Olhei de Bethany para Ray enquanto falava. Ela sorriu.
Eu estava falando de Ray, no das flores, e ela entendeu.

      Eu sei  disse ela.

      Voc se importa se eu levar alguns cartes de visita?
Estou comeando meu negcio aqui  falei, meneando a
cabea para as paredes brancas.
      Claro que no!  respondeu Bethany.  Leve seus
cartes! Ah, sim! Esquecemos de dizer: leve tambm um
convidado.  Bethany indicou minha barriga e piscou.

     O beb deu um chute e eu voltei a ficar enjoada.

      Vou levar sim  falei.  Os cartes, no um convidado.
Obrigada.

     Bethany pareceu constrangida e Ray corou enquanto a
arrastava em direo  porta.

      Obrigada  disse ela.  De verdade. Nunca vou
conseguir agradecer o bastante.

     Parada diante da porta de vidro, observei os dois
subirem a ladeira at o carro. Ray passou o brao em volta da
cintura de Bethany. Sabia que ele a estava consolando,
garantindo-lhe que aquela jovem estranha e solitria com um
talento mgico para as flores estava feliz por ser me solteira.

     Eu no estava.
     COMPREI UM VESTIDO PRETO na Union Square e
quatro dzias de ris roxas de um balde na Market Street. O
vestido preto disfarava minha barriga, o que reduziria o
nmero de mos atrevidas. As ris seriam meus cartes de
visita. Recortei papel cor de alfazema em retngulos e fiz um
furo em cada um deles. De um lado, escrevi a palavra
Mensagem em uma caligrafia rebuscada, inspirada na de
Elizabeth. Do outro, Victoria Jones, Florista, com minha
prpria letra. Inclu o telefone de Natalya.

     Havia apenas um obstculo, que acabou se revelando
mais complicado do que eu imaginava. Ainda tinha o carto
de compras em atacado de Renata, mas no poderia comprar
minhas flores no mercado. Grant ia para l todos os dias,
exceto aos domingos. Eu no poderia comprar flores no
domingo para um casamento no sbado seguinte. Havia
planejado ir de carro at o mercado atacadista mais prximo,
em San Jose ou Santa Rosa, mas, quando comecei a
procurar, descobri que no havia mais nenhum em todo o
Norte     da   Califrnia.   Floristas   viajavam   centenas   de
quilmetros no meio da noite para comprar flores em So
Francisco.

     Cogitei comprar as flores no varejo, mas, depois de
calcular os custos, percebi que no teria lucro dessa forma.
Talvez at perdesse dinheiro. Ento, na sexta-feira anterior ao
casamento, fui de carro at a Gathering House, subi as
escadas de cimento e bati na porta pesada.

     Uma garota magra de cabelos loiros, quase brancos, me
deixou entrar.

      Algum aqui precisa de trabalho?  perguntei.

     A loira desceu o corredor e no voltou. Um grupo de
garotas no sof me encarava com expresses desconfiadas.

      Eu morei aqui  falei.  Agora sou florista. Tenho um
casamento amanh e preciso de ajuda para comprar as
flores.

     Algumas das garotas de levantaram e cruzaram a sala
para se juntarem a mim  mesa de jantar.

     A ttulo de entrevista, fiz trs perguntas s garotas,
escutando suas respostas uma de cada vez. Diante da
primeira  "Voc tem um despertador?"  todas fizeram que
sim com a cabea, muito srias. A segunda  "Voc sabe
chegar  Rua 6 com a Brannan de nibus?"  eliminou uma
ruiva baixinha e gorducha que estava sentada  ponta da
mesa. Ela disse que no andava de nibus de jeito nenhum.
Eu a despachei com um peteleco no ar.

     Perguntei s duas meninas restantes para que elas
precisavam do dinheiro. A primeira, uma latino-americana
chamada Lilia, desfiou uma longa lista de desejos, alguns
essenciais, outros suprfluos. Seus marcadores de texto
estavam secando, o hidratante estava acabando e ela no
tinha nenhum sapato que combinasse com a roupa que seu
namorado lhe dera de presente. A ltima coisa a mencionar
foi o aluguel, como se s depois tivesse se lembrado dele.
Gostei do nome dela, mas no de suas respostas.

     Eu no conseguia ver os olhos da ltima garota por
baixo de sua franja comprida. Quando ela a tirava de cima do
rosto, deixava a mo na testa. Mas sua resposta foi simples e
exatamente a que eu queria ouvir. Se no pagasse o aluguel,
seria despejada. Sua voz se embargou ao dizer isso e ela
tentou esconder o rosto no suter de tric, at que apenas
seu nariz ficasse visvel acima da gola rol. Eu precisava de
algum desesperado o suficiente para ouvir o despertador s
trs e meia da manh e realmente sair da cama; aquela
garota no me decepcionaria. Eu lhe disse para me encontrar
no ponto de nibus da Brannan, a um quarteiro do mercado
de flores, s cinco da manh do dia seguinte.
     Ela se atrasou. No a ponto de eu no conseguir
terminar os arranjos a tempo, mas o bastante para me deixar
aflita. Eu no tinha um plano B e preferiria deixar Bethany
esperando no altar sem um buqu do que correr o risco de
encontrar Grant. Todas as vezes que eu pensava nele, meu
corpo doa e o beb se agitava. Mas a garota chegou, correndo
e sem flego, 15 minutos depois da hora combinada. Ela
havia dormido no nibus e perdido o ponto, mas trabalharia
rpido para compensar. Eu lhe entreguei meu carto de
compras em atacado, um mao de notas e uma lista de flores.

     Enquanto a garota estava l dentro, eu patrulhava o
lado de fora do galpo, com medo de que ela tentasse fugir
com o dinheiro. Estava preocupada com as vrias sadas de
emergncia e esperava que tivessem alarmes. Porm, meia
hora depois, ela apareceu com os braos cheios de flores.
Entregou-as para mim junto com o troco e ento voltou ao
mercado para buscar a segunda metade. Quando voltou, ns
duas guardamos as flores no meu carro e seguimos de volta
para Potrero Hill em silncio.

     Eu havia coberto o cho do andar de baixo com um
plstico grosso. Natalya tinha dito que eu poderia fazer o que
quisesse ali durante o dia, desde que no atrapalhasse os
ensaios de sua banda  noite. Os vasos que tinha comprado
em uma promoo estavam alinhados no centro da sala, j
cheios d'gua, com um rolo de fita e alfinetes ao lado.

     Comeamos a trabalhar sentadas no cho. Enquanto a
menina observava, eu lhe ensinei a tirar os espinhos das
rosas, a aparar folhas e a cortar os caules na diagonal. Ela
preparou    as   flores   enquanto   eu   fazia   os   arranjos.
Trabalhamos at eu comear a sentir cibras nas pernas,
meu corpo pesado sobre o cho. Fui ao andar de cima para
me alongar e buscar as accias e madressilvas que tinha
colhido. Eu as guardara na prateleira do meio da geladeira,
perto de uma embalagem de rolinhos de canela e de um galo
de leite. Juntei tudo e levei para o andar de baixo,
estendendo a caixa de doce para a garota.

      Obrigada  disse ela, pegando dois rolinhos.  Meu
nome  Marlena, caso voc tenha esquecido.

     Eu havia me esquecido. Marlena tinha pouca coisa de
memorvel. Tudo nela era comum e at isso era escondido
por seus cabelos longos e suas roupas folgadas. Ela balanou
a cabea e soprou com fora para cima, fazendo sua franja se
dividir e se assentar dos lados de seus olhos. Seu rosto, que
eu finalmente conseguia enxergar, era redondo, com a pele
lisa e sem marcas. Usava um bluso de l imenso que ia
quase at seus joelhos e a deixava parecida com uma criana
que tivesse se perdido dos pais. Quando terminou de comer,
sua franja voltou a cair sobre o rosto; ela no a afastou.

      O meu  Victoria  falei. Entreguei-lhe uma ris alta de
um vaso ao lado da mesa. Ela leu o carto.

      Voc tem sorte  falou.   uma empresria com um
beb a caminho. Duvido que muitas de ns consigamos ter
tanto sucesso quanto voc.
     No lhe contei sobre os meses que havia passado na
McKinley Square, ou sobre o pavor que sentia todas as vezes
que me lembrava de que a massa inquieta crescendo dentro
de mim se tornaria uma criana: um ser vivo que gritaria e
sentiria fome.

      Algumas vo ter, outras no  falei.   sempre a
mesma histria.

     Acabei de comer meu rolinho de canela e voltei a
trabalhar. Horas se passaram e, de vez em quando, Marlena
fazia uma pergunta ou elogiava meus arranjos, mas eu
trabalhava em silncio ao seu lado. Minha mente estava
repleta de lembranas de Renata, da minha primeira manh
com ela no mercado de flores, aprendendo a fazer as
compras, e de como, mais tarde naquele mesmo dia, sentada
 sua mesa longa, ela aprovava cada buqu que eu montava
com um aceno de cabea.

     Quando terminamos, Marlena me ajudou a colocar as
flores no carro e peguei meu dinheiro.

      De quanto voc precisa?  perguntei.

     Marlena estava preparada para aquela pergunta.

      Sessenta dlares  respondeu.  Para pagar o aluguel
no dia primeiro. Ento poderei ficar mais um ms.

     Eu contei trs notas de vinte e, depois de hesitar um
pouco, lhe dei uma quarta.
      Tome 80  falei.  Ligue para o telefone que est no
carto todas as segundas-feiras. Eu lhe direi quando tiver
mais trabalho.

      Obrigada  disse ela.

     Eu poderia ter levado Marlena em casa, afinal, o
casamento ficava a poucos quarteires da Gathering House,
mas estava cansada de companhia. Esperei que ela dobrasse
a esquina antes de entrar no carro e seguir at a praia.

     O   casamento     foi     perfeito.   As   rosas   no   se
desmancharam; as madressilvas ondularam ao vento, mas
no se enroscaram. Depois da cerimnia, parei na entrada do
estacionamento e entreguei uma ris para cada convidado.
Ningum tocou minha barriga. No fui  festa.

     No tinha contado a Natalya sobre meu negcio, ento
raramente saa de casa e sempre atendia o telefone.
"Mensagem", falava, num tom que era uma mistura de
pergunta e afirmao. Os amigos de Natalya lhe deixavam
recados e eu colava bilhetes na porta de seu quarto. Os
clientes se apresentavam, explicavam seus eventos e eu fazia
uma srie de perguntas para identificar seus desejos ou os
convidava a irem at o escritrio no andar de baixo para uma
consulta. Os amigos de Bethany tinham dinheiro e nenhum
deles jamais perguntou o preo de uma flor. Eu cobrava mais
quando precisava de dinheiro e menos quando o negcio
comeou a prosperar.
     Enquanto esperava o telefone tocar e minha agenda ficar
cheia, fiz mais dois pares de caixas. No gostava da ideia de
estranhos sentando-se  mesa e remexendo em minha caixa
azul. Alm disso, precisava de uma verso organizada por
flores, como a de Grant. Peguei os negativos que havia
guardado e revelei novas fotografias, montando-as em
cartolina branca e guardando-as em caixas de sapato que
catava no lixo. Deixei um jogo sobre a mesa do andar de
baixo e     dei o outro para Marlena, pedindo que ela
memorizasse cada carto. Levei a caixa azul de volta para o
meu quarto, mantendo-a em segurana atrs da fileira de
cadeados.

     Fui chamada para fazer um ch de beb em Los Altos
Hills, um aniversrio de 1 ano num flat na California Avenue
e um ch de panela no Marina District, bem em frente ao
meu restaurante favorito. Depois, tive trs festas de fim de
ano e uma de Ano-novo na casa de Bethany e Ray. Aonde
quer que fosse, eu levava um balde de ris com meu carto
anexado. Em janeiro, Marlena j havia ganhado dinheiro
suficiente para o depsito de garantia de seu aluguel e eu
tinha 16 casamentos agendados para o vero.

     No aceitei nenhum servio para o ms de maro e meus
compromissos para fevereiro estavam me deixando nervosa.
Havia quatro gales de plstico com dictamos brancos nos
cantos do meu quarto azul. Nascimento. Sem luz, as plantas
jamais floresceriam. Eu mantinha a luz apagada e tentava
adiar o inevitvel.
     Mas, apesar do meu pavor, o beb continuava a crescer
dentro de mim. No final de janeiro, minha barriga estava to
grande que precisei empurrar o banco do carro o mais para
trs possvel. Mesmo assim, ela ficava a poucos centmetros
do volante. Quando o beb esticava um cotovelo ou um p,
parecia que estava tentando assumir a direo do carro. Eu
usava roupas masculinas, camisas e bluses grandes e
longos demais e calas de elstico bem abaixo da barriga. De
vez em quando passava por gorda, mas durante quase todo o
tempo ainda era alvo de mos curiosas.

     No ltimo ms de gestao, encontrei meus clientes o
mnimo possvel e entregava as flores bem antes de os
convidados chegarem, deixando os baldes de ris para trs.
Minha aparncia cada vez mais largada destoava das
mulheres bem-vestidas e eu percebia, por mais que elas
fingissem o contrrio, que isso as deixava desconfortveis.

     Mame Ruby comeou a aparecer com frequncia, sem
se esforar muito para inventar desculpas. Natalya parecia
magra, disse-me da primeira vez, ento preparou uma receita
de tofu ao forno. Nem Natalya, que no estava nada magra,
nem eu comemos. Tofu era uma das poucas comidas que eu
no conseguia engolir. Quando Natalya viajou em sua
primeira turn de um ms  sua banda havia conquistado um
leque mais amplo de fs  joguei fora a comida junto com a
travessa de vidro pesada. Sozinha no apartamento, passei a
espiar pela janela antes de sair e, se Mame Ruby estivesse
na calada, voltava para o quarto azul e trancava todos os
seis cadeados.

     Eu sabia que Renata havia contado  me sobre minha
gravidez. Natalya jamais a teria convidado tantas vezes  sua
casa e Renata, apesar de ter me despedido, se importava com
meu bem-estar  como inexplicavelmente havia se importado
desde que nos conhecramos. De manh bem cedo, enquanto
fazia arranjos no andar de baixo, eu a via passar em sua
caminhonete, a caminho da loja. Nossos olhares se cruzavam
e ela acenava  s vezes eu acenava de volta , mas nunca
parava e eu nunca me levantava.

     Preparando-me para a chegada do beb, eu havia feito
um enxoval mnimo, com o que era indispensvel para recm-
nascidos: cobertores, uma mamadeira, leite em p, pijamas e
um gorro. No conseguia pensar em mais nada. Mergulhada
em um verdadeiro torpor, comprei tudo isso sem a menor
expectativa ou ansiedade. No estava com medo do parto.
Mulheres davam  luz desde o comeo dos tempos. Mes
morriam,   bebs    morriam;    mes    sobreviviam,   bebs
sobreviviam. Mes criavam seus filhos ou os abandonavam,
meninos ou meninas, saudveis ou deficientes. Eu pensava
em todos os resultados possveis e nenhum me parecia mais
suportvel do que os outros.

     No dia 25 de fevereiro, acordei encharcada e a dor
comeou logo em seguida.

     Natalya ainda estava em turn e me senti grata por isso.
Tinha imaginado que precisaria morder os travesseiros para
abafar os sons do parto, mas no houve necessidade. Era
sbado, os prdios comerciais vizinhos estavam fechados e
nosso apartamento estava vazio. Abri a boca ao sentir a
primeira contrao e um rosnado grave saiu de algum lugar
dentro de mim. No reconheci minha voz nem a dor intensa
em meu corpo. Quando ela passou, fechei os olhos e me
imaginei flutuando em um mar azul-escuro.

     Flutuei por um minuto, talvez dois, antes de a dor
voltar, mais forte do que antes. Virando-me de lado, senti as
paredes da minha barriga ficarem duras como ao, fechando-
se ao redor do beb e empurrando-o para baixo. O carpete
felpudo se soltou em tufos molhados entre os meus dedos e,
quando a dor passou, esmurrei punhos furiosos contra as
partes esburacadas.

     O cheiro dos dictamos brancos e da terra mida parecia
chamar o beb, e tudo o que eu queria era sair dali. Seria
diferente no cimento frio da calada, pensei, em meio ao
trfego e ao barulho da rua. O beb entenderia que o mundo
no o receberia de braos abertos, que no havia nada de
tenro ou convidativo nele. Eu andaria at a Mission Street,
compraria um donut e o beb se embriagaria com a cobertura
de chocolate e decidiria continuar sem nascer. Sentada em
um banco de plstico duro, a dor pararia; tinha que parar.

     Arrastando-me para fora do quarto azul, tentei me
levantar. Mas no consegui. As contraes eram uma fora
arrebatadora, que me puxava para baixo. Engatinhei at o
banco alto em frente ao balco da cozinha e apoiei o pescoo
em sua barra de metal baixa. Talvez ele se quebrasse, pensei
com algum otimismo. Talvez minha cabea sasse rolando,
decepada, e tudo aquilo acabasse. Abri a boca e mordi o
metal  medida que a contrao seguinte tomava conta de
mim.

       Quando a dor passou, tive sede. Deslizando ao longo da
parede at o banheiro, debrucei-me sobre a pia, abri a
torneira e levei punhados d'gua  boca. No era o suficiente.
Abri o chuveiro e entrei na banheira, o fluxo constante
enchendo minha boca e descendo pela garganta. Virei-me e
deixei a gua encharcar minhas roupas e escorrer pelo meu
corpo. Fiquei nessa posio, com o topo da cabea apoiado na
parede, sentindo a presso na base das minhas costas, at a
gua quente acabar e eu ficar ali, tremendo, com as roupas
molhadas.

       Saindo do chuveiro, inclinei-me sobre a pia e comecei a
xingar, minha voz grave e furiosa. Eu odiaria aquela criana
por isso. Todas as mes devem desprezar seus filhos em
segredo pela dor imperdovel do parto. Naquele momento,
compreendi minha prpria me to claramente como se
tivssemos acabado de ser apresentadas. Eu a imaginei
saindo s escondidas do hospital, sozinha, com o corpo
partido em dois, abandonando seu beb bem embrulhado, o
beb que havia substitudo seu corpo antes perfeito, sua
existncia livre de dor. A agonia e o sacrifcio eram
imperdoveis. Eu no merecia perdo. Olhando-me no
espelho, tentei imaginar o rosto da minha me.
     A dor lancinante da contrao seguinte me fez dobrar o
corpo, pressionando a testa contra a torneira de metal curva.
Quando levantei a cabea e tornei a encarar meu reflexo, no
foi o rosto da minha me imaginria que vi, mas o de
Elizabeth. Seus olhos brilhavam como costumavam brilhar
durante a colheita, selvagens e cheios de expectativa.

     Eu queria, mais do que tudo, estar com ela.
     GRITEI POR Elizabeth.

     Minha voz soava nervosa, desesperada, na verdade. Era
cedo, mas uma lua prematura se erguia sobre o trailer de
Perla, fazendo a estrutura retangular baixa lanar uma
sombra escura colina acima, at onde eu estava. Elizabeth
respondeu ao meu chamado na mesma hora, virando-se e
correndo pela sombra. Ela entrou e saiu da escurido at
chegar  minha frente. O luar iluminava uns poucos cabelos
grisalhos em suas tmporas. Nas sombras, seu rosto era um
conjunto de ngulos e linhas acentuados por dois olhos
redondos e carinhosos.

      Aqui  falei. Meu corao batia audivelmente.

     Estendi uma nica uva, esfreguei-a contra minha blusa
mida e tornei a estend-la.
     Elizabeth pegou a uva e olhou para mim. Sua boca se
abriu e fechou. Ela mordeu uma vez, mastigou, cuspiu os
caroos, engoliu e mordeu de novo. Sua expresso mudou. A
tenso se dissipou e o acar da fruta pareceu adocicar sua
pele. Seu rosto assumiu um tom rosado e vioso e, sem um
s instante de hesitao, ela me tomou em seus braos fortes.
Minha grande faanha se espalhou pelo ar  nossa volta at
ns duas estarmos envolvidas, protegidas por uma bolha de
alegria. Eu me apertei contra seu corpo, orgulhosa, radiante,
passando meus braos em volta de sua cintura, com meus
ps imveis e meu corao disparado.

     Segurando-me com os braos estendidos, ela fitou meus
olhos.

      Sim  disse ela.  Finalmente.

     J estvamos havia quase uma semana procurando a
primeira uva madura da estao. Um aumento repentino na
temperatura havia causado um pico to sbito na doura dos
frutos que era impossvel avaliar com preciso as milhares de
plantas. Elizabeth comeou a me dar ordens freneticamente,
como se eu fosse uma extenso de sua lngua. Acres
permaneceram      intocados    enquanto    ns    duas    nos
separvamos e percorramos fileira por fileira, chupando o
miolo das uvas, mastigando suas cascas e cuspindo as
sementes. Elizabeth me deu uma vara pontuda e em cada
videira cujo fruto eu provava, riscava um O ou um X, seus
smbolos para sol e sombra, seguidos pela proporo de
acares e taninos. Comecei pela fileira ao lado da estrada: O
71:5; passei para trs dos trailers: X 68:3; e ento subi a
colina sobre a adega: O 72:6; Elizabeth estava a vrios acres
de distncia, mas de vez em quando voltava para refazer
meus passos, provando cada segunda ou terceira fileira e
comparando seus resultados s minhas anotaes.

     Ela no precisava ter questionado minha habilidade e
agora sabia disso. Beijou minha testa e me inclinei em
direo ao seu corpo na ponta dos ps. Pela primeira vez em
meses, me sentia querida, amada. Elizabeth se sentou na
encosta da colina e me puxou para junto dela. Ficamos ali,
em silncio, observando a lua subir no cu.

     A concentrao que a proximidade da colheita exigia de
ns havia nos feito relaxar com relao ao alerta de Grant.
No tnhamos tempo para pensar em Catherine e sua
ameaa. Agora, cercadas por uvas maduras, com nossas
veias pulsando de amor uma pela outra e pelo vinhedo, as
palavras dele nos voltaram  mente. Senti uma onda de
nervosismo.

      Voc est preocupada?  perguntei.

     Elizabeth ficou calada, pensativa. Antes de falar, virou-
se para afastar minha franja de cima dos meus olhos,
acariciando a lateral do meu rosto. Ento, fez que sim com a
cabea.

      Com Catherine, sim. No com o vinhedo.

      Por qu?
      Minha irm no est bem. Grant no falou muito, mas
no era preciso. Ele estava apavorado. Voc entenderia se
tivesse visto o rosto dele e se tivesse conhecido minha me.

      O que voc quer dizer?

     No conseguia entender o que a me morta de Elizabeth
tinha a ver com a situao atual de Catherine, ou com o
medo no rosto de Grant.

      Minha me era doente mental  falou Elizabeth.  Eu
nem a vi durante seus ltimos anos de vida. Tinha muito
medo. Ela no se lembrava de mim ou ento se lembrava de
alguma coisa terrvel que eu fizera e me culpava por sua
doena. Era terrvel, mas eu no deveria t-la deixado
sozinha, no deveria ter deixado o fardo nas costas de
Catherine.

      O que voc poderia ter feito?  perguntei.

      Poderia ter cuidado dela. Agora  tarde demais. Faz
quase 10 anos que ela morreu. Mas ainda posso cuidar de
minha irm, mesmo que ela no queira. J falei com Grant
sobre isso e ele concorda que seja uma boa ideia.

      O qu?  Eu estava chocada.

     Elizabeth e eu vnhamos provando uvas 12 horas por
dia durante uma semana. No conseguia imaginar quando
ela tivera tempo de falar com Grant.
      Ele precisa de ns, Victoria, e Catherine tambm. A
casa deles  quase to grande quanto a nossa, haver espao
suficiente para todos ns.

     Balancei a cabea lentamente, aumentando a velocidade
 medida que assimilava o que Elizabeth estava sugerindo.
Meu cabelo se agitava ao redor das minhas orelhas e batia
em meu nariz. Ela queria que fssemos morar com Catherine.
Queria que eu vivesse com a mulher que tinha destrudo
minha vida e ajudasse a cuidar dela.

      No  falei, levantando-me com um salto e me
afastando dela.  Voc pode ir, mas eu no vou.

     Quando encarei Elizabeth, ela desviou o olhar e minhas
palavras ficaram suspensas no ar entre ns.
     EU QUERIA ELIZABETH.

     Queria que ela me abraasse como no vinhedo, que
limpasse meu rosto e meus ombros suados com o mesmo
toque gentil e cuidadoso com que havia lavado minhas mos
perfuradas pelos espinhos. Queria que ela me enfaixasse com
gaze, me carregasse at a mesa de caf da manh e me
dissesse para no subir em rvores.

     Mas ela estava fora de alcance.

     E, mesmo que tivesse alguma maneira de cham-la, ela
no viria.

     De repente, vomitei na pia. Tentei respirar, mas no
houve tempo para isso. As contraes me atingiram como
uma onda imensa e tive certeza de que iria me afogar. Peguei
o telefone e disquei o nmero da Bloom. Renata atendeu. Por
trs dos meus arquejos desesperados, percebi que ela havia
compreendido. Ela bateu o telefone com fora.

     Minutos depois, estava na sala de estar. Eu havia
engatinhado de volta para o quarto azul e meus ps saam da
portinhola.

      Que bom que voc ligou  disse Renata.

     Deitada de lado, puxei meus ps para dentro do quarto
at ficar toda encolhida. Quando Renata tentou olhar para
dentro, fechei a porta na sua cara.

      Ligue para sua me  falei.  Ela tem que vir tirar esse
beb de dentro de mim.

      J fiz isso  respondeu Renata  e ela estava aqui por
perto. Provavelmente de propsito. Ela tem um sexto sentido
para essas coisas. Vai chegar a qualquer momento.

     Gritei e rolei de barriga para baixo, ficando de quatro.

     Eu no a ouvi chegar, mas de repente Mame Ruby
estava ali, tirando minha roupa. Suas mos estavam por todo
o meu corpo, dentro e fora dele, mas eu no me importava.
Ela tiraria o beb. Eu estava preparada para tudo o que ela
precisasse fazer. Se tivesse sacado uma faca e me cortado em
duas no ato, eu no teria sequer desviado o olhar.

     Ela esticou o brao e levou um copo de papel com um
canudo aos meus lbios. Bebi algo doce e gelado. Em
seguida, ela limpou os cantos da minha boca com um pano.
      Por favor  pedi , por favor. No importa o que voc
precise fazer. S tire essa coisa de dentro de mim.

      Isso  voc quem vai fazer  disse ela.   a nica
pessoa que pode dar  luz esse beb.

     O quarto azul estava em chamas. A gua no deveria ser
inflamvel, mas l estava eu, me afogando e pegando fogo ao
mesmo tempo. No conseguia respirar nem enxergar. No
havia ar ali dentro; no havia sada.

      Por favor  repeti, minha voz falhando.

     Mame Ruby se agachou, seus olhos na altura dos
meus, nossas testas se tocando. Colocou meus braos em
volta dos seus ombros e, mudando de posio, tirei os joelhos
do cho e me apoiei em meus ps, como se ela pudesse me
tirar daquela gua fervente, mas ela no se moveu. Ns
estvamos agachadas e ela estava ouvindo.

      O beb est vindo  falou.  Voc vai trazer essa
criana ao mundo.  a nica que pode fazer isso.

     Foi nesse exato momento que entendi o que ela estava
me dizendo. Comecei a chorar, meus gritos cheios de
remorso. Dessa vez, no havia escapatria. Eu no poderia
virar as costas e ir embora sem assumir o que tinha feito.
Havia somente uma sada e era dolorosa.

     Finalmente, meu corpo se rendeu. Parei de lutar e o
beb comeou a se mover, de forma lenta e excruciante, em
direo aos braos ansiosos de Mame Ruby.
     ERA UMA MENINA. NASCEU ao meio-dia, apenas seis
horas depois de a minha bolsa estourar. Pareceram seis dias
e, se Mame Ruby tivesse me dito que foram seis anos, eu
teria acreditado. Sa do parto com uma sensao de paz e
triunfo e o sorriso que me saudou no espelho do banheiro
horas depois no pertencia  criana revoltada e rancorosa
que catava baldes de cardo de valas  beira da estrada. Era
um sorriso de mulher, de me.

     Mame Ruby disse que foi um parto perfeito, que o beb
era perfeito e acrescentou que eu seria uma me perfeita. Ela
deu banho na nenm com um pano mido, enquanto Renata
foi comprar fraldas, ento colocou o embrulho quente nos
meus braos pela primeira vez. Eu esperava que ela estivesse
dormindo, mas no estava. Seus olhos abertos apreendiam
minha expresso cansada, meus cabelos curtos, minha pele
branca. Seu rosto se contorceu no que parecia um sorriso
torto e, em sua expresso sem palavras, eu vi gratido, alvio
e confiana. Queria, desesperadamente, no desapont-la.

      Mame Ruby levantou minha blusa, aninhou meu seio
em sua mo e pressionou contra minha pele o rosto da beb,
que abriu a boca e comeou a mamar.

       Perfeito  repetiu Mame Ruby.

      Ela era perfeita. Soube disso no instante em que saiu do
meu    corpo,   branca,   molhada    e   chorando.   Alm   dos
indispensveis 10 dedos nas mos e nos ps, do corao
pulsante, dos pulmes que inspiravam e expiravam, minha
filha sabia gritar. Ela sabia se fazer ouvir. Sabia estender a
mo e se agarrar ao peito. Sabia o que precisava fazer para
sobreviver. No sei como tanta perfeio pde se desenvolver
num corpo to imperfeito quanto o meu, mas, quando olhei
para seu rosto, vi claramente que tinha sido possvel.



       Ela tem nome?  perguntou Renata ao voltar.

       No sei  respondi, acariciando a orelha coberta de
penugem da beb enquanto ela mamava. No tinha pensado
no assunto.  Ainda no a conheo.

      Mas conheceria. Eu iria ficar com ela, cri-la e am-la,
mesmo que ela tivesse que me ensinar como. Segurando nos
braos minha filha recm-nascida, senti como se tudo no
mundo que at ento estivera fora do meu alcance agora
fosse possvel.

      Essa sensao permaneceu comigo por exatamente uma
semana.

      Mame Ruby ficou conosco at quase meia-noite e
voltou bem cedo na manh seguinte. Durante as oito horas
que   passei   sozinha   com   a   beb,   fiquei   ouvindo   sua
respirao, contando as batidas do seu corao e observando
seus dedos se abrirem e se fecharem. Cheirei sua pele, sua
saliva e o sebo branco que havia resistido ao banho de
Mame Ruby e se aninhado nos vincos de seus braos e suas
pernas. De tanto alisar cada centmetro de seu corpo, meus
prprios dedos ficaram sujos daquela secreo.

      Mame Ruby me dissera que a beb dormiria por seis
horas ou mais na primeira noite, exausta por causa do parto.
 o primeiro presente que uma criana d  me, falou-me
antes de ir embora, mas no o ltimo. Aceite-o e durma
tambm. Tentei, mas minha mente estava maravilhada
demais com aquela criana, que no existia no mundo
apenas um dia antes e cuja vida havia nascido do meu
prprio corpo. Ao observar minha filha dormir, compreendi
que ela estava segura e sabia disso. Senti uma onda de
adrenalina diante daquela simples conquista. Na manh
seguinte, quando ouvi Mame Ruby encaixar uma chave na
fechadura do andar de baixo, no tinha pregado o olho nem
por um instante.
     Ela carregou sua enorme bolsa at o andar de cima e a
abriu diante da porta do quarto azul. A beb estava acordada
e mamando. Quando largou o peito, Mame Ruby auscultou
seu corao e a colocou em um cesto de pano com uma mola
de metal que, de algum modo, tambm era uma balana.
Ficou surpresa ao ver quanto peso minha filha havia ganhado
 o que, segundo ela, era incomum durante as primeiras 24
horas. A beb choramingou e comeou a sugar o ar. Mame
Ruby pressionou sua cabea contra meu outro seio, ento
puxou-o de leve com o indicador para ver se minha filha
estava pegando o peito corretamente.

      Coma bastante, garotona  falou.

     Ns duas ficamos observando a beb mamar, com seus
olhos fechados e suas tmporas pulsando. Aquela era a
ltima coisa que eu esperaria fazer na vida: amamentar.
Porm, Mame Ruby insistiu que era o melhor para ns duas,
que assim ela cresceria saudvel, ns estabeleceramos um
vnculo e meu corpo recuperaria sua forma. Mame Ruby
estava orgulhosa e me falava isso duas ou trs vezes por
hora. Nem todas as mes tinham a pacincia ou a abnegao
necessria, disse, mas ela sabia que eu teria. No a havia
desapontado.

     Eu tambm estava orgulhosa. Orgulhosa por estar
produzindo tudo de que minha filha precisava e por suportar
a presso incansvel da sua mandbula, a sensao do
lquido passando de dentro do meu corpo para o dela. A beb
mamou por mais de uma hora, mas no me importei.
Amamentar    me   dava   tempo   para   analisar   seu   rosto,
memorizar seus clios curtos e retos; sua sobrancelha sem
pelos; os minsculos pontinhos brancos que salpicavam seu
nariz e suas bochechas. Quando seus olhos se abriam
ligeiramente, eu analisava a ris cinza-escura, buscando
sinais dos tons de castanho ou azul que assumiriam mais
tarde. Perguntei-me se ela se pareceria comigo ou com Grant,
ou se puxaria a um dos avs, que eu nunca havia conhecido.
Ainda no via nada de familiar nela.

     Mame Ruby preparou ovos mexidos enquanto lia em
voz alta um livro sobre como cuidar de recm-nascidos.
Depois me fez perguntas sobre o texto, ao mesmo tempo em
que me dava de comer com pequenas garfadas. Escutei cada
palavra e repeti as respostas ipsis litteris. Quando a beb
adormeceu, Mame Ruby parou de ler e se recusou a
prosseguir, mesmo quando eu implorei.

      Durma, Victoria  falou, fechando o livro.   a coisa
mais importante. Os hormnios ps-parto podem distorcer a
realidade se no forem inibidos por generosas doses de sono.

     Ela estendeu os braos para que eu lhe entregasse a
beb. Embora o sono j estivesse me dominando, hesitei em
lhe passar minha filha. Eu temia que a separao fosse
irreversvel. O prazer que o contato com ela me oferecia era
novo e incerto; tinha medo de que, se abrisse mo dela, no
fosse capaz de suportar seu toque quando a pegasse de volta.
     Mame     Ruby,    no   entanto,   no   entendia   minha
hesitao. Ela pegou a criana e a tirou de mim e, antes que
eu pudesse protestar, j estava dormindo.



     Mame Ruby no foi a nica a me visitar naquela
primeira semana. No dia seguinte ao parto, Renata comprou
um colcho de penas para o quarto azul e um moiss para a
beb, carregando-os at o segundo piso em duas viagens. Ela
voltava todas as tardes com almoo para ns duas. Eu ficava
deitada no meu colcho novo com a porta aberta, a beb
adormecida com a bochecha apertada contra meu seio nu,
enquanto eu comia macarro instantneo ou sanduches com
as mos. Renata ficava empoleirada em um banco alto.
Conversvamos pouco. Nem eu nem ela conseguamos nos
comunicar diante da minha nudez, mas nosso silncio se
tornou menos incmodo com o passar dos dias. A beb
mamava, dormia e voltava a mamar. Se estivesse colada ao
meu corpo, pele com pele, ela ficava feliz.

     Na tera-feira, enquanto Renata e eu comamos no
silncio com o qual j estvamos habituadas, Marlena bateu
 porta. Eu havia parado de atender o telefone e tnhamos
um jantar de aniversrio para o dia seguinte. Renata a deixou
entrar e ela ficou maravilhada com a beb. Marlena segurou,
embalou e acalmou minha filha com uma naturalidade que
fez Renata erguer as sobrancelhas e balanar a cabea. Pedi
que Renata pegasse um dinheiro na minha mochila para dar
a Marlena. Ela teria que cuidar das flores para o jantar
sozinha.

      No  disse Renata.  Ela fica aqui. Eu cuido das
flores.

     Renata pegou o dinheiro e minha agenda de eventos,
onde eu havia anotado a lista de compras e o endereo do
restaurante. Folheou a agenda: eu no tinha nenhum outro
compromisso pelos prximos 30 dias.

      Voltarei amanh com o almoo  falou.  E ento trarei
os arranjos para voc aprovar.

     Ela    se   virou   para   Marlena   e   apertou   sua   mo
desajeitadamente debaixo da beb, que dormia em seus
braos.

      Meu nome  Renata  apresentou-se.  Fique aqui o
mximo que puder hoje e volte amanh tambm. Eu lhe
pagarei a mesma coisa que voc costuma ganhar por hora.

      S para segurar a beb?  perguntou Marlena.

     Renata assentiu.

      Pode deixar  prometeu a garota.  Obrigada.  Ela
girou o corpo em cmera lenta e a beb suspirou em seu sono
profundo.

      Obrigada  falei para Renata.  Estou precisando de
um cochilo.
        Havia dias que eu no dormia de verdade, sempre alerta
s necessidades da beb. No fim das contas, parecia que eu
tinha o gene maternal, pensei, lembrando-me das palavras
que Renata dissera enquanto seguamos para o nosso
primeiro jantar juntas.

        Ela se aproximou do colcho onde eu estava deitada,
com minha mo esticada para fora da porta at a sala de
estar. Parou diante de mim como se procurasse um jeito de
me abraar, mas ento desistiu e cutucou minha mo
carinhosamente com o dedo do p. Eu o agarrei e ela sorriu.

         At amanh  falou.

         O.k.

        As botas de Renata desceram as escadas com um rudo
baixo. O batente de metal da porta chacoalhou quando ela
saiu.

         Qual  o nome dela?  perguntou Marlena, beijando a
testa adormecida da beb.

        Ela se sentou em um dos bancos altos, mas a beb se
agitou. Ento, Marlena se levantou outra vez e comeou a
andar de um lado para outro na sala, balanando-se devagar.

         No sei  respondi.  Ainda estou pensando.

        Na verdade, ainda no tinha nem considerado o
assunto, mas sabia que precisava comear a pensar. Embora
no estivesse fazendo nada alm de amamentar, trocar
fraldas e ninar minha filha, no parecia haver espao, mental
ou fsico, para nada mais. Marlena foi at a cozinha, a beb
se aninhando em seu peito e apertando a bochecha rosada
contra seu ombro. Ento, comeou a cozinhar com uma das
mos. Sem a menor dificuldade. Eu no sabia cozinhar e
definitivamente no seria capaz de faz-lo com uma s mo e
um beb no ombro.

      Onde voc aprendeu?  perguntei.

      A cozinhar?

     Fiz que sim com a cabea.

      E a cuidar de bebs  acrescentei.

      Meu ltimo lar adotivo tinha uma creche. A mulher
ficou comigo porque eu estudava em casa e ajudava com as
crianas. No me importava. Era melhor do que ir para a
escola.

      Voc estudou em casa?  perguntei.

     A lembrana da lista de tarefas na porta da geladeira de
Elizabeth me veio  mente; conferi meu relgio por reflexo.

      Sim  disse ela , nos ltimos anos. Estava to
atrasada que o juizado achou que isso pudesse ajudar a me
recuperar, mas s me atrasei mais ainda. Quando fiz 18
anos, desisti da escola e me mudei para a Gathering House.

      Eu tambm estudei em casa  falei.
     Era uma da tarde. Elizabeth estaria acabando de secar e
guardar o ltimo prato enquanto me obrigava a repetir a lio
pela dcima vez.

     Algo ferveu no fogo e Marlena acrescentou sal. Fiquei
surpresa que ela tivesse encontrado algo para cozinhar nos
armrios vazios. A beb acordou com um sobressalto e
Marlena a passou para o outro ombro, inclinando-a de um
jeito que pudesse ver o que estava cozinhado. Depois
murmurou algo baixinho, uma orao ou um poema, no
consegui identificar. A beb fechou os olhos.

      Voc  melhor com crianas do que com flores  falei.

      Estou aprendendo  respondeu ela, sem parecer
ofendida.

        respondi, observando-a trabalhar.  Eu tambm.

     Enquanto Marlena picava, a cabea da beb balanava
de leve.

      Voc deveria dormir  disse-me ela.  Enquanto a beb
est tranquila. Logo, logo ela vai sentir fome de novo.

     Assenti.

      O.k.  falei.  Me acorde se ela precisar de alguma
coisa.

      Pode deixar.  Marlene se voltou para o fogo.

     Fechei a porta, esperando o sono chegar. A cantiga de
ninar singela de Marlena flutuava pela fresta e a melodia me
era familiar. Enquanto eu flutuava rumo  inconscincia,
perguntei-me se algum teria cantado para mim quando eu
era beb, algum que no me amava, que me devolveria para
adoo.

     Na manh de sbado, uma semana depois do parto,
Mame Ruby chegou e comeou sua rotina. Fez um monte de
perguntas sobre meus sangramentos, clicas e apetite.
Buscou provas de que eu havia jantado na noite anterior e
auscultou o corao da beb antes de p-la na balana de
pano.

      Duzentos e vinte gramas  anunciou Mame Ruby. 
Voc est se saindo muito bem!

     Ela desembrulhou a beb e trocou a fralda. Enquanto
fazia isso, o cordo umbilical, que eu nunca havia tocado e
tentava no olhar, se soltou.

      Parabns, meu anjo  sussurrou Mame Ruby junto ao
rosto adormecido de minha filha, que arqueou as costas e
estendeu os braos, com os olhos ainda fechados.

     Mame Ruby limpou o umbigo da beb com o contedo
de um frasco sem rtulo. Ento a enrolou novamente,
devolvendo-a para mim.

      Nenhuma infeco, comendo e dormindo bem e
ganhando peso  disse ela.  Voc est tendo alguma ajuda?

      Renata trouxe comida  falei.  E Marlena esteve aqui
por alguns dias.
         timo.  Andando pelo cmodo, ela recolheu seus
livros, cobertores, toalhas, frascos e tubos.

         J vai?  perguntei, surpresa. Estava acostumada a t-
la comigo durante a maior parte da manh.

         Voc no precisa mais de mim, Victoria  disse,
sentando-se ao meu lado no sof e passando o brao em volta
dos meus ombros. Ela me puxou at meu rosto estar colado
ao seu peito.  Olhe s para voc.  me. Acredite, existem
muitas mulheres l fora que precisam mais de mim do que
voc.

        Assenti e no protestei.

        Ela se levantou e deu uma ltima volta pela sala. Seu
olhar se deteve nas latas de leite em p que eu havia
comprado antes de dar  luz.

         Vou doar isto aqui  falou, enfiando as latas em sua
bolsa j cheia.  Voc no vai precisar delas. Voltarei no
sbado que vem e dois sbados depois tambm, s para
conferir quanto peso ela vai ter ganhado. Ligue se precisar de
alguma coisa.

        Tornei a assentir e a observei descer as escadas com
passos leves. Ela no havia deixado o nmero de seu telefone.

        Voc  me, repeti para mim mesma. Esperava que as
palavras me tranquilizassem, mas, em vez disso, senti algo
familiar tremer dentro de mim. O tremor comeava no fundo
do meu estmago e ganhava velocidade  medida que subia
rumo ao espao cavernoso que antes abrigava a beb.

    Pnico.

    Tentei respirar para afastar aquela sensao.
     EU ME ARREPENDI do meu ultimato.

     Voc tem que escolher: ou eu, ou sua irm. Foi isso que
minhas palavras exigiram. Elizabeth no correu atrs de
mim, o que deixou clara sua escolha.

     Passei a noite inteira e boa parte da manh tramando.
Meu desejo era simples: ficar com Elizabeth, s com ela. Mas
no conseguia pensar em uma maneira de convenc-la. No
podia fazer birra ou implorar. Eu conheo voc?, perguntaria
ela com uma expresso divertida nos olhos, enquanto eu
implorava para comer a massa dos seus muffins. No poderia
me esconder. Elizabeth me encontraria, como sempre. No
poderia me amarrar aos ps da cama e me recusar a sair; ela
cortaria as cordas e me carregaria dali.
     Havia apenas uma possibilidade: colocar Elizabeth
contra a irm. Ela precisava ver quem Catherine era de
verdade: uma mulher egosta e rancorosa que no merecia
sua ateno.

     E ento, de repente, encontrei a soluo. As batidas do
meu corao se tornaram ensurdecedoras enquanto eu me
mantinha deitada, imvel, revirando a ideia em minha
cabea, pensando nos possveis contratempos. No havia
nenhum. Da mesma forma que Catherine tinha frustrado
minha adoo, ela me oferecera os meios de que precisava
para continuar com Elizabeth, s com ela. Eu ganharia a
batalha que Catherine iniciara inadvertidamente, antes
mesmo de ela saber que fizera isso.

     Eu me levantei devagar. Tirei minha camisola e vesti
uma cala jeans e uma blusa. No banheiro, esfreguei meu
rosto com gua gelada e sabonete com mais fora do que o
normal, minhas unhas traando linhas na espuma branca.
Olhando meu reflexo no espelho, procurei sinais de medo,
ansiedade ou apreenso pelo que estava por vir. Mas meus
olhos   estavam   inexpressivos   e   meu   queixo   firme   de
determinao. Havia apenas uma maneira de eu conseguir o
que queria. No havia como ignorar isso.

     Elizabeth estava na cozinha lavando a loua. Havia uma
tigela de mingau de aveia frio sobre a mesa.

      Os trabalhadores j chegaram  disse Elizabeth,
meneando a cabea na direo da colina onde estivramos na
noite anterior.  Tome seu caf e calce os sapatos antes que
eu deixe voc para trs.  Ela se virou para a pia.

      Eu no vou  respondi.

     Os ombros de Elizabeth se curvaram e pude ver que ela
no estava surpresa, mas decepcionada.

     Abri a despensa e tirei uma bolsa de lona vazia de um
gancho.

     Estava quente na varanda, embora ainda fosse cedo.
Desci a passos lentos a longa entrada para carros, em direo
 estrada. Mais uma vez, Elizabeth no foi atrs de mim.
Desejei que estivesse mais fresco; desejei ter preparado uma
sacola com comida. Estaria com calor e faminta ao me sentar
na vala em frente  fazenda de flores. Mas eu esperaria. O
tempo que fosse necessrio para Grant sair, mesmo que
tivesse de passar a noite na beira da estrada. Em algum
momento, o caminho dele passaria sacolejando pelo porto
aberto, deixando a casa vulnervel.

     Quando isso acontecesse, eu entraria escondida para
buscar o que precisava.
    RENATA NO VEIO NO DOMINGO. Nem Marlena. Fiquei
no quarto azul pelo que me pareceu o dia quase inteiro,
amamentando a beb e dormindo, mas quando sa, com a
bexiga cheia e o estmago vazio, ainda eram 10 da manh.

    Apoiando-me no banco da cozinha, fiquei em dvida
entre tomar um banho ou preparar algo para comer. A beb
estava dormindo no quarto azul e eu estava faminta, mas o
cheiro do meu prprio corpo, uma mistura de leite materno
com leo de beb com aroma de damasco, estava me fazendo
perder o apetite. Decidi tomar uma ducha.

    Fechei e tranquei a porta do banheiro por hbito,
tirando a roupa e entrando debaixo da gua quente. Meus
olhos se fecharam e, embora me sentisse culpada, aproveitei
aquele breve instante de solido. Quando peguei o sabonete,
ouvi um grito agudo. Mesmo abafado pela porta trancada, o
som era muito alto. Continuei a ensaboar meu corpo. S um
minuto, pensei. S uma ducha rpida e j volto. Espere.

     Mas ela no podia esperar. Seu choro subiu tanto de
tom quanto de volume, entrecortado por soluos baixos e
desesperados. Comecei a passar xampu a toda velocidade e
deixei a gua entrar nos meus ouvidos, tentando bloquear o
som. No funcionou. Eu tinha a estranha sensao de que
poderia ter descido as escadas, sado do prdio e atravessado
a cidade, mas ainda assim conseguiria ouvi-la; era como se
seu choro estivesse conectado ao meu corpo por algo mais do
que ondas sonoras. Ela precisava de mim, me desejava como
se estivesse faminta, e a fome se transferia do seu corpo para
o meu.

     Rendendo-me ao som, sa do banho, com espuma
agarrada ao cabelo e escorrendo como rios brancos pelas
minhas pernas. Atravessei correndo a sala de estar e estiquei
os braos para dentro do quarto azul, pegando a beb que
estava tensa, aos berros. Apertei seu rosto contra meu seio
ensaboado. Ela abriu a boca, soluou, engasgou e chupou o
bico, repetindo todo o processo duas ou trs vezes antes de se
acalmar o suficiente para mamar. No chuveiro, a gua caa
na banheira de cermica vazia e escorria pelo ralo.

     Deslizei pela parede e me sentei na poa que se formara
aos meus ps. Se tivesse uma toalha limpa, poderia ter ido
busc-la. Mas no havia nenhuma e no haveria por um bom
tempo. Eu no era Marlena. No conseguiria segurar a beb,
carregar um saco de roupa suja ladeira acima e colocar
moedas de 25 centavos em mquinas sacolejantes enquanto
tinha uma boca faminta agarrada a meu seio exposto. Queria
ter pensado em lavar as roupas antes que a beb tivesse
nascido.

     Queria ter pensado em um monte de coisas, mas agora
era tarde. Eu deveria ter comprado fraldas, mantimentos e
roupas de beb. Deveria ter juntado os panfletos de todos os
restaurantes do bairro e decorado o nmero de um servio de
entrega em domiclio. Deveria ter procurado uma creche, uma
bab ou as duas coisas. Deveria ter comprado uma pilha de
livros sobre como cuidar de bebs e lido cada um deles.
Deveria ter escolhido um nome.

     No podia fazer nada disso agora.

     A beb e eu usaramos toalhas sujas, dormiramos em
lenis sujos e usaramos roupas sujas. A ideia de fazer
qualquer outra coisa que no fosse amamentar e tentar
nutrir meu prprio corpo era insuportvel demais para que
eu sequer a cogitasse.

     Ns sobrevivemos  segunda,  tera e  quarta-feira,
sozinhas exceto por uma breve visita de Renata para nos
deixar     comida.   Era   primavera;    as   vendas   estavam
aumentando e Renata no havia colocado ningum no meu
lugar. Marlena me ligou para dizer que tiraria o ms para
visitar parentes no sul da Califrnia. Disse que voltaria a
tempo para os compromissos de abril. O telefone no voltou a
tocar.
     Na quinta-feira, a beb comeu o dia inteiro. Ela acordou
pela primeira vez pouco depois das seis da manh e mamou
sem parar, adormecendo a cada meia hora. Se eu tentasse
tir-la do peito, ela acordava sobressaltada com um grito
ensurdecedor. S dormia com o rosto colado na minha pele
nua e, quando eu tentava solt-la, por mais que seu sono
parecesse profundo, ela chorava por mais leite.

     Eu me resignei com minha prpria fome e passei a
manh    ouvindo   os   sons   da   primavera     invadirem   o
apartamento pela janela aberta da cozinha. Pssaros, freios
de carros, um avio, o sinal de uma escola. Acariciava o
ombro macio da beb enquanto ela dormia, dizendo a mim
mesma que passar fome era um sacrifcio razovel para ter
uma criana to bonita quanto ela. Porm, com o avanar do
dia, a fome passou do meu estmago para o meu crebro.
Comecei a ter alucinaes, no visuais, mas olfativas:
almndegas imaginrias, um molho fervente e algo de
chocolate preto assando.

     Pelo meio da tarde, eu estava convencida de que havia
uma refeio de vrios pratos na cozinha. Sa do quarto azul
com a beb ainda presa ao meu seio. Quando vi o fogo
desligado, sem nada sobre ele e com o forno vazio, quase
chorei. Coloquei a beb sobre o balco e a acariciei
distraidamente, enquanto procurava algo para comer. No
fundo do armrio, encontrei uma lata de sopa. A beb
resmungou e comeou a chorar. O som enfraqueceu os
msculos da minha mo at eu no ter mais foras para girar
o abridor. Desistindo na metade da lata, empurrei a tampa
para trs com uma colher e bebi a sopa fria, sem nem
respirar. Quando acabou, atirei a embalagem de alumnio na
pia. O barulho alto assustou a beb e ela parou de chorar por
tempo suficiente para que eu apertasse seu rosto contra meu
peito. Eu a carreguei de volta para o quarto azul, sem
satisfazer minha fome.

     A sexta-feira comeou como a quinta, exceto pelo fato de
eu estar 24 horas mais exausta e to faminta quanto a beb
insacivel. Comi amendoins na cama enquanto ela mamava.
Mame Ruby tinha me alertado de que a beb teria fases de
crescimento e eu me consolei com essa ideia. Aquilo deveria
estar acabando. No tinha muito mais para lhe dar, pensei,
colocando o dedo debaixo do pedao de pele flcida que
costumava ser um seio firme e farto.

     Ao meio-dia, afastei a beb adormecida do meu peito e vi
que seus lbios estavam vermelhos. Meus mamilos estavam
secos e tinham rachado por causa da suco constante. Alm
do leite, ela estava engolindo meu sangue. No era de se
espantar que eu estivesse exausta. Logo no restaria nada de
mim. Eu a deitei com cuidado na cama, rezando para que
continuasse dormindo pelo menos dessa vez. Ainda havia
uma bandeja da comida que Marlena fizera no congelador.

     Mas a beb acordou assim que a larguei, erguendo o
queixo na direo do meu mamilo ferido. Suspirei. No era
possvel que ainda estivesse com fome, mas peguei-a de volta
e deixei que tentasse tirar mais leite do meu peito murcho.
     Ela sugou apenas duas ou trs vezes antes de voltar a
dormir, seu queixo caindo, despertou novamente quando
tentei larg-la. Ento soltou um barulho gorgolejante de
suco e fez um bico com os lbios.

     Levei-a de volta ao seio com mais fora do que
pretendia.

      Se est com fome, ento coma  falei, frustrada.  No
pegue no sono.

     Ela fez uma careta e se agarrou ao peito.

     Suspirei, arrependendo-me por ter sido impaciente.

      Muito bem, garotona  falei, experimentando as
palavras de Mame Ruby.

     Elas soaram foradas e falsas. Acariciei os cabelos da
beb, um tufo preto e ralo que crescia sobre sua orelha.

     Quando ela adormeceu outra vez, levantei-me devagar e
a levei at o moiss. Talvez ela achasse aquele espao
pequeno e acolchoado confortvel, pensei, baixando-a um
centmetro de cada vez. Consegui deit-la ali, mas antes
mesmo de retirar meus braos, ela voltou a chorar.

     Fiquei parada diante dela, ouvindo seu choro. Precisava
comer. A cada hora que continuava com o estmago vazio,
perdia um pouco mais de contato com a realidade, mas no
conseguia suportar o som de seus gritos. Boas mes no
deixavam seus bebs chorarem. Boas mes colocavam as
necessidades dos filhos em primeiro lugar  e eu queria, mais
do que tudo, ser uma boa me. Se ao menos dessa vez
pudesse fazer alguma coisa da maneira certa por outra
pessoa, isso compensaria toda a mgoa que eu havia
causado.

     Apanhando-a de volta, andei de um lado para outro da
sala. Meus mamilos precisavam de um descanso. Cantarolei,
balancei o corpo e me movi como tinha visto Marlena fazer,
mas a beb no se acalmava. Ela virava o rosto sem parar e
comeou a sugar o oxignio frio, buscando alimento. Sentei-
me no sof e apertei uma almofada macia e redonda contra a
sua bochecha. No consegui engan-la. Ela comeou a chorar
mais alto, chupando o ar, engasgando e estendendo os braos
curtos por sobre a cabea. No era possvel que estivesse com
fome, repeti para mim mesma; ela no precisava comer.

     O rosto da beb ficou vermelho como o sangue que
ainda escorria do meu mamilo. Andei at o cesto e a coloquei
l dentro.

     Na cozinha, esmurrei o balco de azulejos. Estava
faminta; a beb, no. Precisava cuidar de mim mesma.
Precisava que ela esperasse s uma hora, enquanto eu
forrava o estmago e meus mamilos descansavam. Do outro
lado da sala, eu podia ver seu rosto, agora quase roxo de
desespero. Ela me queria; no entendia que meu corpo no
era o mesmo que o seu.

     Sa da sala, afastando-me do barulho, e parei diante da
janela de Natalya. No poderia dar o peito a ela. No depois
de amamentar por quase 36 horas seguidas. Ela havia
sugado todo o leite do meu corpo e ento passado para algo
mais profundo, mais precioso, algo conectado ao meu corao
ou ao sistema nervoso. No estaria satisfeita at me devorar
por completo, at ter sugado cada fluido, pensamento e
emoo. Eu me tornaria uma casca vazia, desorientada, e ela
ainda estaria com fome.

      No, decidi, ela no poderia mamar mais. Mame Ruby
s voltaria no dia seguinte e no havia nem sinal de Renata.
Eu sairia para comprar leite em p e s lhe daria mamadeira
at que meus mamilos se curassem. Resolvi deix-la no cesto
e ir e voltar correndo at a mercearia. Lev-la at l seria
arriscado demais. Algum poderia ouvir seu choro faminto e
angustiado e perceber minha incompetncia. Algum poderia
tir-la de mim.

      Peguei minha carteira e desci correndo as escadas antes
que mudasse de ideia. Subi a ladeira e desci do outro lado,
sem parar a fim de deixar carros ou pedestres passarem.
Ultrapassei todos  minha frente. Meu corpo, ainda se
recuperando do parto, parecia estar se rasgando ao meio.
Sentia uma queimao que comeava no meio das minhas
pernas e se espalhava pela minha espinha acima at a nuca,
mas no parei de correr. Dizia a mim mesma que estaria de
volta antes de a beb notar minha ausncia. Eu lhe daria
uma    mamadeira    nos   meus   braos   e,   aps   dias   de
amamentao, ela finalmente ficaria satisfeita.

      O sinal estava fechado para pedestres no cruzamento
movimentado da Rua 17 com a Potrero Avenue. Parei de
correr e esperei. Recuperando o flego, observei carros e
pedestres seguindo apressados em todas as direes. Ouvi
um motorista buzinar e soltar um palavro; um adolescente
em uma bicicleta Schwinn cor de laranja cantar algo alto e
alegremente; e um cachorro em uma coleira curta rosnar
para um pombo atrevido. Mas no ouvi minha filha. Embora
estivesse a quarteires do apartamento, fiquei chocada.
Nossa separao tinha sido simples e surpreendentemente
completa.

     Meus   batimentos    cardacos   voltaram   ao   normal.
Observei a luz ficar verde, depois vermelha, depois verde
outra vez. O mundo seguia seu ritmo frentico, indiferente 
beb que chorava a seis quarteires dali,  beb que eu tinha
dado  luz mas cujos gritos j no ouvia mais. O bairro
continuava existindo como na semana anterior e na quinzena
antes dela, como se absolutamente nada tivesse mudado. O
fato de minha vida ter virado de cabea para baixo no
importava a ningum e, ali fora, naquela calada, longe da
fonte do tumulto, meu pnico pareceu injustificvel. A beb
estava bem. Estava alimentada e podia esperar.

     Quando o sinal voltou a ficar verde para pedestres,
atravessei a rua e caminhei lentamente at a mercearia.
Comprei seis latas de leite em p, um saquinho de mix de
castanhas e frutas secas, uma garrafa de suco de laranja e
um sanduche de peru da padaria. No longo caminho de volta
para casa, devorei punhados do mix. Meus seios incharam e
comearam a vazar. Eu a deixaria mamar uma ltima vez,
pensei, a ternura preenchendo o espao que eu havia criado
entre ns duas.

       Entrei e subi as escadas. O apartamento estava
silencioso e parecia vazio e, por um momento, foi fcil
imaginar que eu estava voltando para casa depois de fazer
uma entrega de flores, que iria tomar um banho e tirar uma
soneca, sozinha. Meus passos no faziam barulho no carpete,
mas a beb acordou assim mesmo, como se pudesse sentir
minha presena. Ela comeou a chorar.

       Eu a tirei do cesto e ns nos acomodamos no sof; ela
tentava mamar atravs do algodo fino e encharcado da
minha camiseta. Levantei a blusa e ela comeou a sugar.
Suas    mos    enrugadas   apertaram   meu   dedo   esticado
enquanto ela se agarrava ao seio, como se o fato de meu
mamilo estar em sua boca no bastasse para provar que eu
estava de volta. Enquanto ela mamava, comi o sanduche.
Uma fatia fina de peru caiu em cima de sua tmpora, subindo
e descendo ao ritmo de suas mamadas frenticas. Eu inclinei
a cabea, comendo o peru diretamente do seu rosto e
beijando-a ao mesmo tempo. Ela abriu os olhos e me
encarou. Onde esperava raiva ou medo, vi apenas alvio.

       Jamais a deixaria novamente.
        J ERA NOITE QUANDO voltei  casa de Elizabeth.

        Ao ver o brilho fraco das janelas do segundo piso,
imaginei-a sentada  minha mesa, com livros escolares
grossos abertos  sua frente, esperando. Eu nunca tinha
perdido um jantar sequer; ela devia estar preocupada. Depois
de esconder a bolsa de lona pesada debaixo da escada da
varanda dos fundos, entrei. A tela da porta rangeu quando a
abri.

         Victoria?  chamou Elizabeth do andar de cima.

         Sou eu  respondi.  Estou em casa.
     MAME RUBY VOLTOU NO SBADO, conforme havia
prometido. Ela se sentou no cho  porta do quarto azul.
Virei o rosto para o outro lado. A gravidade do que eu havia
feito me atormentava e tinha certeza de que Mame Ruby
saberia. Uma mulher que vinha at outro bairro para fazer
um parto antes mesmo de ser chamada saberia quando um
beb estava em perigo. Esperei a acusao.

      Victoria, me d a beb  disse ela, confirmando meus
medos.  Vamos, me d a criana.

     Enfiei meu dedo mindinho entre o mamilo e a gengiva da
beb como Mame Ruby havia me ensinado. Ela parou de
sugar. Tentei limpar o sangue seco do seu lbio esfregando o
polegar em sua boca, mas no consegui. Passei-a por sobre
meu ombro, sem me virar.

     Mame Ruby a apanhou com um suspiro.

      Oh, garotona  disse ela.  Que saudades de voc.

     Esperei Mame Ruby se levantar e ir embora, levando
minha filha junto, mas ouvi apenas o som da balana.

      Ganhou 340 gramas!  falou Mame Ruby com a voz
exultante.  Voc est comendo sua me viva?

      Quase isso  murmurei.

     Minhas palavras foram absorvidas pelas paredes, sem
que ela as ouvisse.

      Saia da, Victoria  ordenou ela.  Vou fazer uma
massagem nos seus ps ou preparar um queijo quente para
voc. Deve estar exausta depois de cuidar to bem desta
criana.

     Eu no me mexi. No merecia seus elogios.

     Mame Ruby esticou a mo para dentro do quarto e
comeou a acariciar minha testa.

      No me obrigue a entrar neste quarto  falou , porque
voc sabe que vou fazer isso.

     Sim, eu sabia. O leite em p que eu tinha comprado
estava aos meus ps, ainda dentro da sacola, a prova do meu
crime. Chutei a lata mais para o canto, girei o corpo e me
arrastei pela portinhola, meus ps saindo primeiro. Sentei-me
no sof e esperei que Mame Ruby enxergasse a verdade. Mas
ela no olhou para meu rosto. Em vez disso, levantou minha
blusa e esfregou o contedo de um tubo lils nos meus
mamilos rachados. A sensao era refrescante e aliviou a
ardncia.

      Fique com isso  falou Mame Ruby, fechando a palma
da minha mo em volta do tubo. Ela ergueu meu queixo e
fitou meus olhos cheios de culpa, abatidos.  Voc est
dormindo?  perguntou.

     Pensei na noite anterior. Depois que terminei de comer o
sanduche, a beb e eu fomos direto para o quarto azul, onde
ela se agarrou novamente ao meu corpo e fechou os olhos.
Ento mamou, engoliu e dormiu em um ritmo excruciante. E
deixei que fizesse isso, aceitando a dor como punio. No
dormi.

      Estou  menti.  Muito bem.

      timo. Sua filha est cada vez mais saudvel. Estou
muito orgulhosa de voc.

     Olhei pela janela e no respondi.

      Est com fome?  perguntou Mame Ruby.  Precisa
de mais ajuda? Quer que eu prepare alguma coisa antes de ir
embora?

     Eu estava faminta, mas no conseguiria suportar outro
elogio. Balancei a cabea.

     Mame Ruby me devolveu a beb e guardou a balana.
      Ento est bem  falou.

     Ela encarava meu rosto, buscando alguma pista.
Estiquei o pescoo para o outro lado. No queria que ela me
visse.

     Ela se levantou para ir embora e eu me pus de p para
acompanh-la. De repente, no temia mais que olhasse meu
rosto e visse meu erro; era mais apavorante pensar que ela
sairia como se nada tivesse acontecido, ignorando o que eu
fizera, sem tomar nenhuma atitude para me impedir de
repetir aquilo. Mas Mame Ruby apenas sorriu e se inclinou
para me beijar antes de partir.

     Eu queria contar para ela, limpar minha conscincia e
implorar por seu perdo, mas no sabia como.

       difcil  foi tudo o que consegui dizer, meu sussurro
direcionado s suas costas enquanto ela descia as escadas.
No foi o suficiente.

      Eu sei, meu amor  respondeu Mame Ruby.  Mas
voc est conseguindo. Existe uma me dentro de voc, uma
boa me.  Ela terminou de descer os degraus.

     No, no existe, pensei com amargura. Eu queria lhe
dizer que nunca tinha amado ningum e pedir que me
explicasse como se podia esperar que uma mulher incapaz de
amar fosse me, uma boa me. Porm, ao mesmo tempo em
que pensava nessas palavras, sabia que elas no eram
verdadeiras. Eu havia amado, mais de uma vez. S no tinha
reconhecido isso antes de fazer tudo ao meu alcance para
estragar as coisas.

     Ao chegar ao p da escada, Mame Ruby se deteve e
virou-se para trs. Parecia pequena e ignorante e minha
confiana nela parecia inapropriada. Ela no passava de uma
velha intrometida, pensei. Uma espcie de chave girou dentro
de mim e senti a criana revoltada que eu costumava ser
voltar  tona. Tudo o que eu queria era que Mame Ruby
fosse embora.

      E nome?  perguntou.  Essa garotona j tem algum?

     Balancei a cabea.

      No.

      Logo, logo ele lhe vir  mente.

      No, no vir  respondi com rispidez.

     No entanto, Mame Ruby j havia sado.

     Depois que ela foi embora, aconcheguei a beb no
moiss e, por um pequeno milagre, ela dormiu como um anjo
durante a tarde quase toda. Tomei um banho quente e
demorado. Meu corpo estava tomado por um desespero
palpvel  uma sensao formigante, de dormncia  e
esfreguei meus braos e pernas como se aquele nervosismo
fosse externo e pudesse escorrer pelo ralo abaixo. Quando sa
do banho, minha pele estava cor-de-rosa e manchada de
arranhes vermelhos. O desespero havia se recolhido para
alguma parte mais profunda e secreta de mim. Fingi estar
limpa   e   revigorada,   ignorando   seu   zumbido    grave   e
persistente. Depois de vestir calas largas e um bluso,
esfreguei o creme do tubo lils nas partes irritadas dos meus
braos e pernas.

     Peguei um copo de suco de laranja e me sentei no cho,
olhando para dentro do moiss. Quando a beb acordasse e
terminasse de comer, iramos dar um passeio. Eu carregaria
o cesto at o andar de baixo, sairia de casa e o ar fresco faria
bem a ns duas. Talvez a levasse at a McKinley Square para
lhe dar uma aula sobre a linguagem das flores. Ela no
reagiria, mas tenho certeza de que entenderia. Tinha o tipo de
olhos que, quando abertos, me davam a impresso de
entender tudo o que eu falava e grande parte do que no era
dito. Eram profundos e misteriosos, como se ela ainda
estivesse conectada ao lugar de onde viera.

     Quanto mais a beb dormia, mais o desespero diminua,
at eu quase conseguir me convencer de que havia superado
sua presso. Talvez minha breve escapulida at a mercearia
no tivesse causado nenhum dano permanente e eu fosse,
como insistia Mame Ruby, capacitada para aquela tarefa.
No era realista pensar que eu poderia me afastar sem
traumas da maneira como tinha vivido por 19 anos. Haveria
contratempos. Eu tinha passado a vida inteira sendo
rancorosa e solitria e no poderia, da noite para o dia, me
tornar amorosa e dedicada.

     Deitando-me no cho ao lado da beb, aspirei o cheiro
de palha mida do cesto. Estava prestes a dormir. Mas, antes
que pudesse fechar os olhos, a respirao ritmada de minha
filha foi substituda pelo som familiar da sua boca aberta,
procurando meu peito.



     Olhei para dentro do moiss e ela me fitou de volta, com
os olhos arregalados e a boca se mexendo. Tinha me dado
uma chance de dormir, mas eu a desperdiara. Ficaria horas,
talvez dias, sem ter outra. Eu a peguei. Meus olhos se
encheram de lgrimas que escorreram quando sua boca se
fechou. Sequei o rosto com as costas da mo. A suco
implacvel no meu peito resgatou o desespero de onde quer
que ele houvesse se escondido; seu assobio era como o rugido
de uma concha, um reflexo de algo mais grandioso.

     A beb mamou por uma eternidade. Passando-a de um
lado para o outro, eu conferia meu relgio. Uma hora inteira
havia passado e ela ainda estava apenas na metade da
mamada. Meu suspiro se tornou um gemido quando ela se
agarrou outra vez ao seio.

     Quando ela finalmente dormiu, tentei substituir o
mamilo, ainda rgido entre seus lbios, pelo meu dedo
mindinho, mas ela abriu os olhos cansados e comeou a
grunhir, reclamando.

      Bem, para mim chega  falei.  Preciso de um
descanso.

     Coloquei-a no sof e me espreguicei. Seus grunhidos se
tornaram uma srie de resmungos baixinhos. Suspirei. Sabia
o que ela queria e como lhe dar. Tinha a impresso de que
aquilo deveria ser muito simples. Talvez fosse para outras
mes, mas no para mim. Eu havia suportado seu toque por
horas, dias, semanas a fio; s precisava de alguns instantes
sozinha. Quando fui at a cozinha, ela comeou a chorar com
mais intensidade. O som me atraiu de volta.

     Sentei-me e a peguei nos braos.

      S mais cinco minutos  falei , depois vamos sair.
Voc no precisa mamar mais.

     Mas quando a devolvi ao moiss, ela chorou como se eu
estivesse mandando-a por um rio abaixo, como se nunca
mais fosse me ver novamente.

      O que voc quer?  perguntei, o desespero em minha
voz beirando a raiva.

     Tentei balanar o moiss como Marlena havia feito, mas
assim que comecei ela quicou l dentro e chorou mais ainda.

      No  possvel que voc esteja com fome  falei em tom
de splica, aproximando-me da sua orelha pequena para que
ela pudesse me ouvir, apesar do barulho de seu choro.

     Ela virou o rosto na direo do meu e tentou se agarrar
ao meu nariz. Um som histrico escapou do meu corpo; uma
bufada que poderia ser confundida com um riso por algum
observador alheio  minha exploso iminente.

      Est bem  disse.  Tome.
     Levantei a blusa e forcei seu rosto contra meu peito. Ela
lutou para abrir a boca contra a presso da minha mo.
Quando finalmente conseguiu, parou de chorar e comeou a
sugar.

      Esta  a ltima vez.  melhor aproveitar.

     Minhas palavras eram ameaadoras e eu as escutava
como se viessem de outra pessoa.

     Ainda amamentando, segurei a beb com uma das mos
e entrei engatinhando no quarto azul, estendendo a outra
para apanhar a sacola onde estava o leite em p. Seis latas se
espalharam no cho. Quando fui pegar uma, a beb deixou
escapar meu mamilo e comeou seu choro angustiado.

      Estou bem aqui  falei, atravessando a sala e a
colocando sobre o balco da cozinha, mas minhas palavras
no serviram de consolo para nenhuma de ns duas.

     A beb se contorcia no balco enquanto eu despejava o
contedo da lata em uma mamadeira e enroscava a tampa.
Encostando o bico de plstico contra seus lbios, esperei que
ela abrisse a boca. Quando isso no aconteceu, afastei seus
lbios com os dedos e enfiei o bico  fora. Ela engasgou.

     Respirei fundo e tentei me acalmar. Carregando a beb e
a mamadeira para o sof, sentei-me e a ajeitei com a cabea
aninhada na dobra do meu cotovelo. Dei um beijo no espao
entre suas sobrancelhas. Ela tentou chupar meu nariz outra
vez e enfiei a mamadeira em sua boca aberta. Ela mamou
uma vez e depois virou o rosto, o lquido escorrendo pelo
canto de sua boca. Comeou a gritar.

      Ento voc no est com fome  falei, depositando a
garrafa com fora demais ao meu lado e fazendo um jato fino
do lquido espirrar pelo bico.  Se no quer comer isso, no
est com fome.

     Eu a devolvi ao moiss com cuidado. Iria deix-la chorar
por dois ou trs minutos, s para provar que estava falando
srio. Quando a pegasse de volta, ela aceitaria a mamadeira.
Teria que aceitar.

     Mas no. Eu a deixei chorar por mais cinco minutos e
depois por mais 10. Tentei com ela nos meus braos. Tentei
com ela deitada no cesto. Tentei deit-la no meu colcho de
penas e estender a mamadeira para dentro do quarto, mas
ainda assim ela se recusava a mamar. Acabei desistindo e
fechando a porta. A beb ficou chorando na escurido do
quarto azul, sozinha.

     Deitando-me no cho da sala de estar, meus olhos se
fecharam involuntariamente. O barulho do choro se tornou
distante e desagradvel, no mais insuportvel. Por um longo
tempo, me esqueci da origem daquele som ou do motivo pelo
qual eu havia tentado interromp-lo. Ele passava pelo meu
corpo sem me tocar. A nvoa da minha exausto era
impenetrvel.

     S depois que o choro parou, eu acordei, sobressaltada.
Senti uma onda de pavor, achando que tinha matado a beb.
Talvez horas sem comida e um quarto sem luz fossem
suficientes para matar um recm-nascido. Sabia to pouco a
respeito deles, de crianas, de seres humanos. Parecia uma
piada de mau-gosto me deixar sozinha com um beb,
responsvel por outra vida. Escancarei a porta do quarto
azul, mas, antes mesmo que eu pudesse estender a mo para
sentir seu pulso, ela comeou a chorar.

     Fui invadida pela emoo, pelo alvio, mas tambm por
uma decepo inegvel, seguida imediatamente de vergonha.
Apertei a beb contra meu corpo, beijando sua testa numa
tentativa de mascarar o desespero que j no conseguia
esconder. Enfiei a mamadeira em sua boca. Ela aprenderia a
tomar o leite em p. Amamentar era demais para mim. Eu
jamais conseguiria manter aquele ritmo e, se quisesse ficar
com a beb, precisava encontrar uma maneira de ser me
com a qual pudesse lidar. Dessa vez minha filha tentou
mamar, mas seus lbios estavam fracos de fome e o plstico
era duro e indiferente.

     O bico deveria estar com defeito. Era a explicao mais
lgica para sua recusa teimosa. Das centenas de mamadeiras
que havia na loja, eu tinha comprado a mais barata. Atirei-a
em direo  cozinha e ela ricocheteou na parede, caindo no
cho. A beb comeou a chorar.

     Eu a acomodei no moiss e me afastei. Meus seios
estavam cheios e pingavam no carpete manchado, mas eu
no lhe daria meu leite. Era demais para mim. Compraria
uma mamadeira nova e ela a tomaria. Meu pnico ento iria
passar.

     Desci a escada dois degraus de cada vez, o choro da
beb ficando mais alto  medida que a distncia entre ns
duas aumentava. Correndo para a calada, corri pelo
quarteiro mais rpido do que nunca. Atravessei as ruas sem
o menor cuidado, voando na mesma direo de quando havia
comprado o leite em p no dia anterior. Mas, quando cheguei
 Vermont Street, em vez de dobrar para a direita, virei para a
esquerda. No pensei para onde estava indo e s parei de
correr quando cheguei aos degraus da McKinley Square.
Enterrando meus ps pesados na grama cortada, mergulhei
na verbena branca, rolando para dentro da minha caverna
debaixo da urze e fechando os olhos. Eu me daria cinco
minutos. Apenas cincos minutos no parque e, quando
voltasse para a beb, conseguiria lidar com a situao. Cobri
minha cabea com o brao, procurando na escurido pelo
cobertor de l marrom que no estava ali. O sono tornou a
me puxar para suas profundezas e me senti protegida,
amparada, consolada. No havia nada alm da escurido, da
solido e das ptalas brancas da verbena rezando por mim e
pela criana da qual eu no me permitiria lembrar.
     QUANDO ENTREI NO QUARTO, Elizabeth disse que
sentira minha falta .

     Ela no perguntou onde eu estivera e eu no lhe dei
nenhuma explicao. Enfiei-me na cama, escondendo minha
cabea com as cobertas e me virando de lado, dando as
costas para a mesa  qual ela estava sentada.

      Eu amo voc, Victoria  disse ela, baixinho.  Espero
que saiba disso.

     Na primeira vez que Elizabeth havia declarado seu amor,
eu acreditara nela. Agora suas palavras corriam pelo meu
corao como gua sobre uma pedra. Ouvi a cadeira se
arrastar contra o piso de madeira e senti o colcho se
afundar quando ela se sentou na beira da cama. Elizabeth
ps a mo sobre meu ombro.

      O que ela fez?

     Fiz a pergunta de modo repentino e espontneo e senti o
corpo de Elizabeth se encolher. Ela ficou um bom tempo
calada. Por fim, deitou-se de costas ao meu lado.

      Certa vez amei um homem  limitou-se a dizer.  Faz
muito tempo. Ele era ingls e veio para c fazer um estgio
em   uma   das   maiores   vincolas   da   regio,   a   poucos
quilmetros daqui. Eu nunca me sentira to feliz na vida. E
ento Catherine, minha irm, minha melhor amiga, o roubou
de mim.

     Elizabeth rolou de lado e pousou seu brao sobre o meu
corpo. Fiquei tensa, mas no reclamei, esperando que ela
continuasse.

      Um ano depois, Grant nasceu. Durante anos, no
conseguia olhar para meu sobrinho sem pensar no pai dele,
sem relembrar tudo o que eu tinha perdido. Mas o pai dele
havia ido embora; nem sei se chegou a saber que Catherine
estava grvida. Ela criou Grant totalmente sozinha.

     Elizabeth se aproximou at suas pernas dobradas se
encaixarem no espao entre meus joelhos. Quando voltou a
falar, seu rosto estava to apertado contra o cobertor sobre
minha cabea que precisei me esforar para ouvi-la.
      Eu tive uma chance de perdo-la  sussurrou.  Uma
vez, quando Grant ainda era um beb, Catherine veio falar
comigo no mercado de flores. Pediu desculpas, chorando, e
me falou quanto sentia minha falta. Era a minha chance de
traz-la de volta para a minha vida, mas, em vez disso, eu a
rechacei. No deveria ter feito isso. Eu lhe disse coisas
horrveis, que no me deixam dormir  noite.

     Ela mereceu, pensei. Catherine merecia tudo o que
Elizabeth tinha dito e mais. A ideia de que Elizabeth estava
prestes a se mudar para a casa da mulher que a havia trado
enchia meu peito de raiva. Respirei fundo, instando-me a ter
pacincia.

     Esperei Elizabeth falar pelo que pareceram horas, tensa
sob seu toque carinhoso. Mas ela ficou quieta, sua histria
havia terminado. Quando comecei a temer que tivesse pegado
no sono, ela se levantou e saiu do quarto na ponta dos ps.
Ouvi a pia do banheiro se abrir e se fechar, o som da
descarga, da porta do quarto bater e ento o silncio foi total.
Sa da cama.

     No andar de baixo, atravessei de fininho a cozinha e sa
pela porta dos fundos. O saco de lona estava debaixo dos
degraus, onde eu o havia escondido, cheio e pesado. Eu o
peguei, segurando-o contra o peito. Dentro dele, os potes de
vidro retiniram, se reacomodando.

     Mais cedo, agachada dentro da vala, eu havia decidido
exatamente para onde iria e segui depressa em direo 
estrada. No havia luar, mas as estrelas iluminavam a
propriedade enquanto eu caminhava para a extremidade
noroeste do terreno. Ali, espremidas entre o concreto do
mercado de fazendeiros e a estrada, as videiras ficavam
empoeiradas e estavam quase sempre secas. No outono, as
uvas continuavam amargas muito depois de os outros acres
j terem amadurecido.

     Abri a tampa do primeiro pote de geleia. Fluido de
isqueiro transbordou e desceu contornando a rosca na borda
do vidro. Lentamente, derramei-o no tronco da videira,
segurando o pote longe do meu corpo para que o lquido no
escorresse e pingasse sobre meus ps descalos. Quando o
primeiro pote se esvaziou, abri o segundo, descendo a fileira.
Aquilo parecia no ter fim e comecei a andar depressa, sem
tomar cuidado, o fluido de isqueiro saindo de minhas mos
num jato frentico e molhando as plantas. Quando cheguei
ao fim da fila, refiz meus passos, apanhando os jarros vazios
que se acumulavam no cho.

     No primeiro degrau da varanda  no mesmo lugar em
que eu e Elizabeth havamos nos sentado uma vez, fazendo
um cordo de flores de camomila  alinhei os potes de geleia,
um depois do outro, e ento retornei  cozinha para pegar
fsforos.

     Comecei a voltar em direo  estrada, procurando a
trilha molhada. Ela terminava  beira da entrada para carros.
Dei um passo para trs. Segurando um punhado de palitos
de fsforos, risquei-os contra a faixa spera e larga da caixa.
Um deles se acendeu e os demais o acompanharam depressa.
A chama descia em direo s pontas dos meus dedos.
Esperei o calor ficar primeiro desagradvel, depois doloroso
antes de atir-la no cho.

     Depois de uma pausa, ouviu-se um barulho como o de
um rio turbulento, seguido por uma srie veloz de estalos
altos. Ento veio o calor. Dei meia-volta e corri em direo 
casa, como havia planejado, para buscar uma panela d'gua.
No entanto, o fogo foi mais rpido do que eu. Ao olhar por
sobre o ombro, vi as chamas fugindo de mim, seguindo uma
trilha invisvel por entre o mato e as videiras. Esperava que o
fogo fosse se limitar aos troncos das plantas que eu havia
encharcado, que fosse crepitar ali at eu correr de volta para
buscar a gua, mas ele no esperou.

     Saltei os degraus de trs em trs e entrei correndo na
cozinha. Depois de colocar os fsforos de volta no lugar, gritei
por Elizabeth. Ela se levantou imediatamente. Eu a ouvi
entrar no meu quarto com passos firmes, chamando meu
nome.

      Aqui embaixo!  berrei.

     Eu estava  beira da pia, enchendo uma panela de sopa
com gua. Os canos da casa velha faziam barulho e a gua
descia lentamente, em ondas sussurrantes.

     Agarrando a panela cheia, atravessei a cozinha no
mesmo instante em que Elizabeth descia as escadas. Ento
nos viramos, ombro a ombro, nosso olhar atrado pela luz.
     O cu estava roxo. As estrelas haviam desaparecido.
Diante dos nossos olhos, o fogo mergulhou na vala do
acostamento,   mais   de   400   metros   de   cardo   seco   se
incendiando de uma s vez. A muralha de chamas que se
ergueu parecia subir at a metade do cu. As propriedades ao
redor desapareceram atrs dela, deixando Elizabeth e eu
completamente sozinhas.

     Como eletricidade em cabos de fora, o fogo se espalhou
em linhas retas por todo o vinhedo.
        ACORDEI COM O NASCER DO SOL. Meu corpo estava
dolorido, minha bochecha marcada pela vegetao. Havia
dormido por seis horas, talvez sete. Sentando-me, eu me
ajeitei e sa das duas poas circulares que havia debaixo da
urze.

        A   cidade   estava   despertando.   Motores   voltavam
ruidosamente  vida, os sons de freios e do canto dos
pssaros enchiam o ar. Na rua junto ao parque, uma menina
em idade escolar saa de um nibus. Estava sozinha e andava
a passos rpidos, com um buqu de flores nas mos. No
conseguia ver o que ela carregava.

        Suspirei. Queria mais do que tudo ser aquela garota,
voltar a ser criana e carregar crcus, pilriteiro ou delfnios,
em vez de baldes de cardo. Queria vasculhar todo o norte da
baa de So Francisco at encontrar Elizabeth e pedir
desculpas, implorar por seu perdo. Queria recomear minha
vida, tomar um rumo que no me levasse quele momento, a
acordar sozinha em um parque municipal, com minha filha
largada num apartamento vazio. Cada deciso que eu havia
tomado me conduzira at ali e eu queria mudar tudo: o dio,
a culpa e a violncia. Queria almoar com a menina revoltada
que tinha sido aos 10 anos para alert-la sobre essa manh e
dar-lhe as flores que a conduziriam por um caminho
diferente.

     Mas eu no podia voltar atrs. Havia apenas o agora:
esse jardim no meio da cidade e minha filha, que me
esperava. A ideia me encheu de pavor. Eu no sabia o que
iria encontrar quando voltasse ao apartamento. No sabia se
ela ainda estaria gritando, ou se o tempo, a solido e a fome
teriam afogado minha filha to completamente quanto uma
mar enchente.

     Eu havia fracassado com ela. Menos de trs semanas
depois de dar  luz e fazer promessas para ns duas, eu
havia fracassado por duas vezes consecutivas. O ciclo
continuaria.   Promessas   e   decepes,   mes   e   filhas,
indefinidamente.
     MEUS BRAOS COMEARAM a tremer intensamente, a
gua da panela espirrando em Elizabeth. Os respingos frios a
tiraram de sua letargia. Ela correu para o telefone na cozinha
enquanto eu saa em disparada pela porta da frente,
tropeando nos potes de geleia enquanto descia voando os
degraus.

     A gua na panela no seria suficiente para salvar uma
videira sequer. Ao olhar para o incndio, tive certeza disso.
Ainda assim, eu tinha que tentar. Acres queimavam e o calor
era atordoante. Tudo o que Elizabeth cultivara a vida inteira
seria destrudo se eu no agisse. S lhe restaria a terra
calcinada. Elizabeth ficaria sozinha e sem lar. Eu tinha que
apagar o fogo, ou jamais conseguiria olhar no seu rosto
novamente.
     A meio caminho da estrada, joguei a gua em uma fila
de videiras em chamas. Se houve algum chiado, se pelo
menos uma labareda se rendeu, eu no pude escutar nem
ver. De perto, o rugido do fogo era ensurdecedor e a fumaa
tinha um cheiro adocicado. O aroma me fazia lembrar das
mas carameladas de Elizabeth e percebi que sua doura
vinha das uvas perfeitamente maduras torrando.

     Da varanda, Elizabeth me chamou. Eu me virei. O fogo
se refletia em seus olhos vidrados, impotentes. Ela cobriu a
boca com uma das mos e pousou a outra sobre o corao.
Eu lhe dei as costas, a atrocidade do meu erro to pesada
quanto a fumaa nos meus pulmes. No importava que
minha inteno no fosse causar aquele dano todo. Assim
como jamais importaria que eu tivesse feito aquilo para ficar
com ela, porque a amava. Eu precisava apagar o incndio. Se
fracassasse, perderia tudo.

     Sem que essa fosse uma deciso consciente, arranquei
minha camisola e comecei a golpear as chamas com ela,
tentando abaf-las. O algodo fino, respingado de fluido de
isqueiro, explodiu em minhas mos. Elizabeth correu na
minha direo, desesperada. Gritou para que eu me afastasse
do fogo, mas continuei girando a camisola em chamas em
volta da cabea alucinadamente. Fascas saam voando do
tecido queimado e Elizabeth precisou se agachar para evit-
las enquanto corria at mim.

      Voc est louca?  berrou.  Volte para casa.
     Eu me aproximei mais do fogo, o calor intenso e
ameaador. Uma fagulha perdida chamuscou meu cabelo,
subindo por um cacho e fundindo-se com meu couro
cabeludo. Elizabeth deu um tapa na minha testa e a dor do
golpe foi boa, merecida.

      Vou apagar o fogo!  gritei.  Me deixe em paz!

      Com o qu?  exigiu saber Elizabeth.  Com suas
prprias mos? Os bombeiros j esto vindo. Voc vai morrer
se ficar aqui, balanando as mos no ar como uma idiota.

     Ainda assim, no recuei. As chamas saltaram para mais
perto de onde eu estava.

      Victoria...  Elizabeth havia parado de gritar e seus
olhos arregalados se encheram d'gua. Eu me esforcei para
ouvir suas palavras em meio ao rugido do fogo.  No vou
perder meu vinhedo e minha filha na mesma noite. No vou.
 Quando continuei sem me mexer, ela se lanou para cima
de mim, agarrando-me pelos ombros e me sacudindo.  Est
me ouvindo?  berrou.  No vou!

     Eu me desvencilhei de suas mos e ela segurou um dos
meus braos, puxando-me em direo  casa. Enquanto eu
lutava, Elizabeth puxou com mais fora e senti meu ombro se
deslocar com um estalo. Ela deu um grito agudo e me soltou.
Desabando no cho, puxei os joelhos para junto do meu peito
nu. O fogo me cercou como um cobertor e ouvi o som distante
da porta do trailer batendo atravessar o calor. Elizabeth
gritou para que eu me levantasse, puxou meus ps e me
chutou nas costelas. Quando tentou me carregar, soltei um
urro e a mordi como um animal selvagem.

    Por fim, ela me deixou em paz.
     QUANDO VOLTEI, A BEB estava acordada no moiss.
Seus olhos arregalados piscavam para o teto e ela no chorou
quando me viu. Peguei sua mamadeira na cozinha, despejei o
leite velho na pia e preparei mais. Parei diante da beb e
encostei a mamadeira em seus lbios. Ela abriu a boca, mas
no sugou. Apertei o bico e observei o lquido escorrer em um
filete pela sua lngua. Ela engoliu duas vezes antes de
adormecer no cesto.

     Tomei um banho e comi uma tigela de cereais no
telhado. Sempre que passava pelo moiss, parava para
analisar o rosto da beb. Se ela abrisse os olhos, eu colocava
a mamadeira em seus lbios. Ela aprendeu a sugar, lenta e
serenamente, sem a ferocidade ansiosa com que costumava
devorar meu seio. Levou um dia inteiro para terminar uma
mamadeira de leite em p. No chorou. No deu sequer um
resmungo.

     Antes de ir para cama, troquei sua fralda encharcada,
mas no a tirei do moiss. Ela parecia confortvel ali e tive
medo de quebrar a paz frgil que havamos alcanado, de que
meu pnico voltasse ao som de seu primeiro grito. Em vez
disso, movi o cesto para o sof, onde nos acomodamos em
um   quadrado    iluminado   pelo   luar.   Ofereci-lhe   uma
mamadeira fresca e seus lbios formaram um crculo perfeito
em torno do plstico mbar. Bolhas minsculas correram ao
longo da mamadeira enquanto ela sugava gua, ferro, clcio e
protena por buraquinhos microscpicos. Nunca tinha visto
seus olhos to arregalados, dois crculos concntricos e
pequenos tringulos brancos analisando meu rosto. Quando
terminou, o bico de borracha escapou da sua boca e ela
estendeu os dedinhos em direo ao meu rosto. Baixei a
cabea at meu nariz estar a poucos centmetros de suas
mos. Ela abriu e fechou os dedos no espao entre ns duas,
apertando com fora.

     Antes de eu perceber que estava chorando, uma lgrima
pingou da ponta do meu queixo na bochecha da beb. Ela
deslizou em um filete at a beirada da sua boca e seus lbios
vermelhos fizeram um bico de surpresa. Eu ri e as lgrimas
escorreram mais depressa. O perdo evidente em seus olhos e
seu amor sem censuras me aterrorizavam. Assim como
Grant, minha filha merecia muito mais do que eu poderia lhe
dar. Queria que ela carregasse ramos de pilriteiro, que risse
com facilidade e amasse sem medo. Mas eu no podia lhe
oferecer nada disso, no podia lhe ensinar o que no sabia.
Seria apenas uma questo de tempo at meu veneno macular
sua perfeio. Ele transpiraria do meu corpo e ela o sorveria
com a prontido de uma criana faminta. Eu tinha magoado
todas   as     pessoas   que   conhecera   na   vida;   queria,
desesperadamente, salv-la dos perigos de ser minha filha.

     Eu a levaria para Grant pela manh.

     Ele preservaria sua bondade e lhe ensinaria tudo o que
ela precisava saber. Renata tinha razo: Grant merecia
conhecer a filha. Ele merecia sua doura, sua beleza e sua
lealdade inabalvel.

     Quando afastei meu rosto, os olhos da beb estavam
fechados. Deixei o cesto no sof e me tranquei no quarto azul.

     A noite cheirava a musgo, folhas secas e terra mida em
meu apartamento de argamassa e concreto, a quarteires e
quarteires de distncia de qualquer coisa verde ou em
crescimento.

     Pela manh, sa do apartamento apressada. Depois de
dar  beb o resto da mamadeira da noite anterior, eu a levei
no moiss at meu carro. Ela passou a viagem toda acordada.
Tinha dormido a noite inteira ou, mesmo que no tivesse, no
havia chorado. Eu dormira profundamente e sem sonhar,
mas acordei com a prontido agitada das pessoas exaustas.
Meu corpo doa, meus seios cheios pareciam estar em
chamas e eu sentia calor na manh fria. Baixei as janelas e a
beb fez uma careta ao sentir o vento forte.

     Seguindo a rodovia em direo ao norte, atravessei a
ponte e peguei a primeira sada ladeada por rvores. No
tinha tempo para ir at um dos viosos parques estaduais,
mas no faria diferena. A primavera havia sido chuvosa. Eu
encontraria aquilo de que precisava em qualquer floresta
densa e pouco iluminada. Parei em um estacionamento com
vista para a baa e para a ponte Golden Gate, cor de ferrugem
e reluzente sob o sol do comeo da manh. O lugar j estava
cheio de pessoas que iam fazer trilha, caladas com botas e
enchendo de gua garrafas de plstico de cores vivas.

     Pegando o moiss por suas alas entrelaadas, comecei
a descer uma trilha. Ela se bifurcou uma vez, depois outra.
Escolhi o caminho menos ensolarado e tremi ao caminhar
pela vegetao rasteira e fria. Pessoas passavam e se
derretiam com minha filha at eu sair da trilha principal e
pegar um caminho com uma placa que dizia: rea de
reflorestamento. Proibida a entrada. Passei o cesto por cima
da corrente fina e sumi de vista em meio a um crculo de
sequoias.

     A beb no deu um pio quando a deitei no cho da
floresta, o pedao careca de sua nuca pressionando-se contra
o hmus macio. Ela olhou para as sequoias, seus olhos azuis
de viso embaada analisando as rvores altas, os retalhos de
luz, o cu cinzento e talvez at o que havia alm dele. No
duvidei disso.

     Peguei uma esptula larga e chata que havia enfiado no
bolso de trs da cala jeans e comecei a raspar o musgo verde
e esponjoso dos troncos das sequoias. O musgo caiu no cho
em tiras longas e peludas e o dispus com esmero sobre o
fundo e as laterais do moiss, certificando-me de que os
pedaos mais macios e perfumados ficassem ao redor da
cabea da beb.

     Quando o cesto estava todo coberto, guardei a esptula
de   volta   no   bolso,   apanhei   minha   filha,   que   havia
adormecido, e a deitei com cuidado sobre a camada de
musgo.

     Amor materno.

     Era tudo o que eu podia lhe dar. Esperava que algum
dia ela compreendesse.

     A chave reserva de Grant estava no mesmo lugar de
sempre, dentro do regador de lato enferrujado na varanda.
Destranquei a porta e carreguei o moiss coberto de musgo
at a cozinha, colocando-o ao lado da escada em espiral do
canto. De onde a beb estava deitada, podia ver os trs
andares, o que ela pareceu achar muito divertido. Ela
continuou a observar em silncio, com os olhos apertados,
enquanto eu zanzava pela cozinha, acendendo o fogo com
um fsforo e enchendo uma chaleira com gua. Fazia quase
um ano que eu no preparava um ch ali, mas tudo
continuava exatamente como antes.

     Sentei-me  mesa enquanto esperava a gua ferver. A
beb estava to quieta que era fcil esquec-la ou imaginar
que eu tinha voltado apenas para surpreender Grant com
uma xcara de ch sobre a mesa lascada. Sentia falta dele.
Sentada em sua torre de gua, olhando pela janela para sua
fazenda de flores, era impossvel ignorar esse fato. E logo
sentiria falta da beb. Afastei esse pensamento e me mantive
concentrada nas flores que se estendiam pelos campos.

     A beb fez um som entre um suspiro e um grasnido
assim que a gua comeou a ferver. O vapor embaou a
janela da cozinha. Perguntei-me se ela poderia tomar ch de
hortel. Talvez fizesse bem para seu estmago, a acalmasse, e
eu havia trazido a mamadeira quase vazia, porm me
esquecera da lata de leite. Derramando o lquido espesso pelo
ralo, enxaguei a mamadeira e a enchi at a metade de gua
fervente, completando com gua da bica. Joguei um saquinho
de ch dentro e enrosquei a tampa. O nariz da beb se
enrugou de surpresa quando sentiu o gosto do ch, mas seus
lbios sugaram o bico, famintos e sem reclamar. O vapor da
gua ainda fervente se assentou sobre ns. A umidade no ar
deixou o musgo mais verde.

     Equilibrei a mamadeira na lateral do moiss para que a
beb pudesse mamar enquanto eu enchia uma panela de
sopa com gua e acendia outra boca do fogo. Queria que o
musgo   sobrevivesse   o   mximo   possvel.   Enquanto   ela
mamava, a torre de gua se enchia de vapor quente e
ondulante. Carreguei o cesto pelos dois lances de escada at
a cama de Grant. Ela j estava dormindo quando cheguei ao
topo  um sono profundo, sossegado, que me deixou
preocupada com minha escolha para sua alimentao.
Largando o moiss no meio do colcho de espuma, deitei-me
ao seu lado, baixando o rosto at poder sentir sua respirao
rpida contra meu lbio superior.

     Fiquei ali  nossos narizes quase se tocando, nossas
respiraes em harmonia  at o sol estar perigosamente alto
no cu e Grant poder chegar a qualquer momento. Fechando
os olhos, afastei meu rosto. A beb emitiu um barulhinho de
suco que era o mesmo de quando meu mamilo se soltava
de sua boca e a lembrana fez meus seios doerem. Arranquei
um pequeno pedao de musgo da beirada do moiss e o
esfreguei em sua bochecha e seu queixo, enfiando-o na dobra
de seu pescoo. O musgo pulsou ao ritmo das batidas de seu
corao.

     Afastando-me com esforo, desci as escadas. A panela
no fogo estava quase vazia. Depois de ench-la at a borda,
eu a devolvi ao fogo e atravessei silenciosamente a porta.

     Meu carro seguiu derrapando pela longa entrada de
terra e continuei em direo  rodovia sem olhar para trs. O
que comeara como uma dor vaga e difusa havia se
centralizado no meu seio esquerdo. Quando eu tocava o
mamilo, a dor atravessava minha carne e descia pela minha
espinha. Comecei a suar. As janelas estavam abertas e liguei
o ar-condicionado tambm, mas ainda sentia calor. Olhando
pelo retrovisor, vi o banco vazio em que antes a beb estivera.
No havia nada alm de um rastro fino de terra e um cacho
da espessura de um fio de cabelo de musgo verde vivo.

     Liguei o rdio e passei pelas estaes at encontrar
alguma coisa alta e vibrante, com muitos pratos ressoando e
uma voz incompreensvel. Lembrou-me a banda de Natalya.
Acelerei, passei voando pela ponte e pelos cruzamentos, sem
deixar que os sinais vermelhos ou amarelos me retardassem.
Precisava do quarto azul. Precisava me deitar, fechar os olhos
e dormir. No sairia dali durante uma semana, se  que
voltaria a sair algum dia.

     Estacionei em frente ao apartamento cantando pneus, o
para-choque colado ao do carro de Natalya. O porta-malas
dela estava aberto. Caixas e malas se empilhavam na
calada. Era difcil saber se ela estava chegando ou partindo.
Sa do carro sem fazer barulho, na esperana de conseguir
entrar s escondidas no quarto azul e trancar todos os
cadeados sem que ela notasse.

     Atravessei de fininho o escritrio vazio e quase trombei
com Natalya ao p da escada. Ela no me deu passagem.
Levantei a cabea e pude notar pela sua expresso que meu
rosto parecia to quente quanto eu o sentia.

      Voc est bem?  perguntou ela. Assenti e tentei
passar, mas ela continuou parada.  Sua cara est mais rosa
do que meu cabelo.
     Ela tocou minha testa e puxou a mo de volta, como se
tivesse se queimado. Passei por ela  fora, mas tropecei e ca
no ltimo degrau. Nem tentei me levantar, subindo a escada
de quatro. Natalya me seguiu. Deixando-me cair no quarto
azul, fechei a porta atrs de mim.

     Natalya bateu.

      Tenho que ir  disse ela, num sussurro, cheia de
medo.  Nossa turn foi prorrogada... vou ficar fora seis
meses, no mnimo. S passei aqui para pegar algumas coisas
e falar que voc pode usar meu quarto, se quiser.

     No respondi.

      Tenho mesmo que ir  repetiu ela.

      Ento v logo  consegui dizer.

     Algo atingiu a porta com um baque alto, provavelmente
o p de Natalya.

      No quero voltar daqui a seis meses e sentir o cheiro
do seu cadver apodrecendo  falou, chutando a porta mais
uma vez.

     A prxima coisa que ouvi foi o som dos seus sapatos
descendo a escada a passos firmes e a porta do carro
batendo. O motor do veculo roncou e deu a partida. Ento
ela foi embora.

     Ser que ela ligaria para a me?, perguntei-me. Ser que
perceberia que a beb tinha sumido e me denunciaria para as
autoridades? Se Natalya fosse ligar para algum, eu esperava
que fosse para a polcia; preferiria ir para a cadeia a enfrentar
Mame Ruby e sua decepo.

     Deitei-me sobre meu lado esquerdo no colcho de penas,
meu seio era uma esfera dura apoiada contra ele. Meu corpo,
que no parecia me pertencer, tremia incontrolavelmente. Eu
estava morrendo de frio. Vesti todos os agasalhos que tinha e
me enfiei debaixo do cobertor marrom. Mas nem isso me
aqueceu, ento deitei embaixo do colcho. Fiquei ali, mal
conseguindo respirar, meu corpo e mente uma tempestade de
gelo sob uma nuvem carregada. O frio que sentia se tornou
negro e vertiginoso e tive o pensamento fugaz e reconfortante
de que o sono em que estava entrando seria eterno, um
estado do qual talvez jamais retornasse.

     Muito ao longe, sirenes ressoavam, ficando cada vez
mais altas e mais prximas, at parecerem vir do quarto de
Natalya. Lampejos de luz passaram por baixo de minha porta.
Em seguida, to de repente quanto haviam surgido, as luzes
se apagaram.

     Por um breve instante, o quarto ficou escuro e silencioso
como a morte. Ento a porta foi arrombada e ouvi o som de
ps subindo as escadas.
     EU ESTAVA DEITADA EM UMA ambulncia, presa com
correias a uma maca de pano branca. No conseguia me
lembrar de como havia chegado ali. Ainda estava apenas de
calcinha e algum havia coberto meu peito com uma camisola
hospitalar.

     Ao meu lado, Elizabeth soluava.

      Voc  a me dela?  perguntou uma voz.

     Abri um olho. Um rapaz de uniforme azul-escuro estava
sentado perto da minha cabea. Pela janela, luzes passavam
depressa e se refletiam em seu rosto suado.

      Sim  respondeu Elizabeth, ainda chorando.  Quero
dizer, no. Ainda no.
      Ela est sob a tutela do Estado?  perguntou ele.

     Elizabeth assentiu.

        Ento   voc      precisa   notificar   as   autoridades
imediatamente. Ou eu terei que fazer isso.

     O homem falava como se pedisse desculpas e Elizabeth
comeou a chorar ainda mais. Ele lhe entregou um telefone
preto pesado, conectado  lateral da ambulncia por um fio
espiralado igual ao do aparelho da cozinha de Elizabeth.
Tornei a fechar os olhos. Seguimos noite adentro pelo que
pareceram horas e Elizabeth chorou o tempo todo.

     Quando a ambulncia parou, mos enfiaram a camisola
hospitalar debaixo dos meus braos. Portas se abriram. Senti
uma lufada de ar gelado e, quando abri os olhos, vi Meredith
 minha espera. Ela ainda estava de pijama, com uma capa
de chuva jogada por cima.

     Quando passamos, ela se inclinou para a frente,
estendendo a mo para puxar Elizabeth para longe de mim.

      Eu assumo daqui em diante  falou.

      No me toque  disse Elizabeth.  Nem ouse me tocar.

      Espere no saguo.

      No vou sair de perto dela!

      Espere no saguo ou vou mandar a segurana
expulsar voc  disse Meredith.
     Enquanto eu era levada, observei por cima dos dedos do
meu p Meredith deixar Elizabeth para trs, parada no
corredor, em choque. Ela entrou em um quarto atrs de mim.

     Uma enfermeira examinou meu corpo, registrando
minhas leses. Eu tinha queimaduras no couro cabeludo e
em volta da barriga, onde o elstico da calcinha de algodo
havia derretido. O brao deslocado pendia frouxo ao lado do
meu corpo e minhas costas estavam machucadas nas partes
em que Elizabeth me chutara. Meredith anotou os achados
da enfermeira num bloco.

     Elizabeth tinha me machucado. No da maneira como
Meredith achava, mas, mesmo assim, tinha me machucado.
As marcas eram provas incontestveis disso. Os ferimentos
seriam fotografados e registrados em meu arquivo. Ningum
jamais acreditaria na histria de Elizabeth, que ela estava
tentando evitar que eu corresse para o meio de um incndio
devastador. Ainda que fosse verdade.

     E de repente vi nas marcas do meu corpo uma rota de
fuga irrefutvel, um caminho para longe dos olhos de
Elizabeth, repletos de dor; uma forma de escapar da culpa,
do arrependimento e do vinhedo incendiado. Eu no podia
encarar o sofrimento que causara  Elizabeth. Jamais
poderia. No era apenas o incndio, mas tambm um ano
inteiro de transgresses, muitas delas pequenas, outras
imperdoveis. O fato de se tornar minha me havia
transformado Elizabeth. Um ano depois de eu ter me mudado
para sua casa, ela era uma mulher diferente, mais suave,
suscetvel ao sofrimento. Se eu continuasse em sua vida, ela
apenas continuaria a sofrer. E no merecia isso. De jeito
nenhum.

     A enfermeira saiu para o corredor. Meredith fechou a
porta do pequeno quarto e ficamos sozinhas.

      Ela bateu em voc?  perguntou.

     Mordi o lbio com tanta fora que cheguei a cort-lo.
Quando engoli, foi uma mistura de sangue e saliva. Meredith
me encarava. Respirei fundo. Corri os olhos pelos buracos do
isolamento acstico antes de baix-los para responder 
pergunta da nica maneira possvel, da maneira como
Meredith esperava.

      Sim  falei.

     Ela saiu do quarto.

     Uma palavra e estava acabado. Elizabeth talvez tentasse
me visitar, mas eu me recusaria a v-la. Meredith e as
enfermeiras,   acreditando    que    ela   era    perigosa,    me
protegeriam.

     Naquela noite sonhei com fogo pela primeira vez.
Elizabeth pairava acima de mim, chorando. O som era quase
inumano. Eu tentava ir em sua direo, mas os dedos dos
meus ps estavam presos ao cho, como se minha carne
tivesse se fundido  terra. Ento ela comeava a gritar, suas
palavras   embaralhadas      pela   agonia.      Meu   corpo   se
carbonizava antes de eu entender que ela estava declarando
insistentemente seu amor por mim. Aquilo era pior do que
seu pranto.

    Acordei queimando, meu corpo molhado de suor.
     PASSEI TRS DIAS NO HOSPITAL, recuperando-me de
uma mastite. Os paramdicos me encontraram com uma
temperatura de 40,5 graus. A febre s baixou depois de 48
horas ininterruptas de antibiticos intravenosos, o que, como
debatiam os mdicos enquanto eu adormecia e recobrava a
conscincia, eles nunca tinham visto na vida. A mastite era
uma infeco comum em lactantes; dolorosa, mas localizada
e de tratamento simples. Em mim, havia se tornado uma
infeco quase generalizada. A pele fervia em meus seios,
mas tambm nos braos, no pescoo e na parte interna das
minhas coxas. Os mdicos disseram que no havia registros
de casos como o meu.

     Quando a febre cedeu, o anseio pela minha filha
substituiu o calor intenso. Meu rosto, meu peito e meus
membros ardiam de saudade. Com medo de que os mdicos
comeassem a fazer perguntas sobre uma me sozinha no
hospital, sem beb  vista e sem nenhum visitante, fugi antes
de receber alta, arrancando o tubo intravenoso e descendo s
escondidas pela escada de servio.

     Peguei um txi at o apartamento vazio e chamei um
chaveiro para trocar as fechaduras. Se Natalya voltasse, faria
uma cpia para ela. At que isso acontecesse, no queria ver
Mame Ruby ou Renata, que haviam criado o hbito de
entrar sem bater quando passavam para ver a beb. Eu no
tinha coragem de lhes contar o que fizera.

     Naquela    mesma     tarde,   Mame     Ruby   apareceu.
Esmurrou a porta at eu ter certeza de que o vidro iria se
quebrar. Espiei pela janela do quarto de Natalya, ento voltei
 cozinha para tirar o telefone do gancho antes de engatinhar
para dentro do quarto azul e fechar a porta.  noite foi a vez
de Renata, que bateu com mais fora ainda e atirou uma
pedrinha contra a janela do segundo andar. No dei sinal de
que havia retornado. Na manh seguinte, batidas mais
suaves me acordaram de um sono profundo e eu soube que
Marlena estava de volta. Era hora de retomar o trabalho. Eu
lhe contaria a verdade.

     Desci as escadas cambaleando, meus olhos apertados
contra a luz forte. Marlena entrou como um furaco.

      Ela deve estar enorme!  exclamou.  Como se chama?
     Ela subiu a escada correndo e eu a segui devagar.
Quando cheguei ao topo, Marlena estava girando na sala,
absorvendo o fato de o apartamento estar vazio. Ela me
encarou e seus olhos continham uma s pergunta.

      No sei  falei, respondendo  pergunta que ela havia
feito, mas no a que pairava no ar.  O nome dela. No
escolhi nenhum.

     Os olhos de Marlena no se desgrudaram do meu corpo,
ainda sustentando a pergunta: Onde ela est?

     Comecei a chorar. Marlena se aproximou de mim,
colocando sua mo macia no meu ombro. Eu queria lhe
contar tudo. Queria que soubesse que a beb estava em
segurana, que seria amada e talvez at feliz.

     Passaram-se minutos at eu conseguir falar e, quando
consegui, contei a histria de forma simples, sem floreios. Eu
a deixei com o pai, que iria cri-la. No era capaz de ser a
me que queria. A falta que sentia dela era incapacitante,
mas eu havia tomado a melhor deciso para minha filha.

      Por favor  acrescentei depois de terminar.  No quero
mais falar sobre ela.

     Atravessei a sala para pegar uma caixa de lenos de
papel e minha agenda. Escrevi uma lista pequena em uma
folha pautada e a dobrei, colocando-a na mo de Marlena
com dinheiro suficiente para as compras.

      Nos vemos amanh  falei.
     Sem esperar que ela fosse embora, engatinhei para
dentro do quarto azul e tranquei a porta.

     Embalada    pela   verdade   que   acabara   de   contar,
adormeci.

     No foram as batidas suaves de Marlena que me
acordaram na manh seguinte, mas as pancadas vigorosas
de Renata. Cobri minha cabea com um travesseiro, mas sua
voz me alcanava atravs das penas.

      No vou sair daqui, Victoria  gritou.  Acabei de ver
Marlena no mercado de flores e sei que voc est a dentro. Se
no abrir, vou ficar esperando Marlena chegar e me deixar
entrar.

     No havia mais como evitar. Eu tinha que enfrent-la.
Desci as escadas, destranquei as portas duplas de vidro e
entreabri uma delas.

      O que foi?  perguntei com rispidez.

      Eu a vi  disse Renata.  Hoje de manh, no mercado.
Achei que voc tivesse ido embora com a beb, sem contar a
ningum para onde estava indo, e ento l estava ela, nos
braos dele.

     Meus olhos se encheram de lgrimas e ergui os ombros,
como se perguntasse o que ela queria de mim.

      Voc contou para ele?  perguntou Renata.  Voc lhe
deu a beb?
         No contei nada para ele  falei.  E no quero que
voc me conte nada. Nunca.  Engoli em seco.

        Renata ento se acalmou.

         Ela parecia feliz  disse.  Grant parecia cansado,
mas...

         Por favor  pedi, enquanto encostava a porta.  No
quero saber. No vou aguentar.

        Fechei e tranquei a porta. Renata e eu ficamos uma de
cada lado do vidro, em silncio. As portas no eram grossas o
suficiente para impedir a conversa, mas nenhuma de ns
falou nada. Renata me olhou nos olhos e permiti que o
fizesse. Esperava que ela pudesse ver a saudade, a solido e o
desespero. J era difcil o bastante abrir mo de minha filha.
Seria     mais   ainda   com    Renata   me   trazendo   notcias
constantes. Ela precisava entender que, para mim, a nica
maneira de sobreviver  minha deciso era tentar esquec-la.

        Marlena chegou no meu carro, com o porta-malas
aberto, e as flores escapando dele. Quando j havia
descarregado     metade    da   mercadoria,   parou   para   nos
examinar.

         Est tudo bem?  perguntou.

        Renata me encarou e desviei o rosto. Ela no respondeu.
Comeou a subir a colina em direo  Bloom, seus braos
pendendo, derrotados, dos lados do corpo.
    MENSAGEM, MEU NEGCIO de arranjos de flores,
cresceu exponencialmente nos meses seguintes. Eu s
aceitava pagamento em dinheiro e  vista, e esse estilo
informal atraiu um squito de clientes devotos. Eu no
anunciava. Depois de poucos baldes de ris com cartes de
visita, o nmero do meu telefone se espalhou mais rpido do
que se eu tivesse pagado para colocar um outdoor luminoso
na entrada da Bay Bridge. Natalya no voltou da turn, ento
fiquei com o apartamento e mandei um envelope cheio de
notas de 100 dlares para o proprietrio no dia 1 de junho.
Marlena continuou trabalhando como minha assistente,
organizando a agenda, atendendo telefonemas, preenchendo
pedidos de compra e fazendo entregas. Eu supervisionava a
confeco dos arranjos e me reunia com clientes nas cadeiras
dobrveis no escritrio vazio, as caixas de sapato abertas sob
as fortes luzes fluorescentes.

     Minhas consultas pr-nupciais eram to requisitadas
quanto meus arranjos. Os casais tratavam seus encontros
comigo como se fossem visitas a uma cartomante ou a um
padre. Muitas vezes passavam horas me contando o que
esperavam para seu relacionamento e os desafios que tiveram
de enfrentar. Eu registrava apenas algumas de suas palavras,
fazendo    anotaes       em   uma   folha   de    papel   de   arroz
transparente, que, quando eles terminavam de falar, lhes
entregava enrolada e amarrada com uma fita. Embora
consultassem essa lista ao escolher as flores e elaborar seus
votos matrimoniais, os casais acreditavam que eu previa
como seria sua vida conjugal. Bethany e Ray estavam felizes.
Inmeros outros casais me enviavam cartes-postais da lua
de mel, descrevendo seus relacionamentos com palavras
como      paz,   paixo,    realizao   e    uma     infinidade   de
caractersticas inspiradas pelas flores.

     O rpido crescimento da Mensagem  aliado a uma
enxurrada de profissionais oferecendo consultoria sobre a
linguagem das flores para as inmeras noivas que Marlena e
eu recusvamos  causou uma mudana sutil porm
concreta na indstria florista da baa de So Francisco.
Marlena me informava que penias, calndulas e lavandas
ficavam sobrando nos baldes de plstico no mercado de flores
enquanto tulipas, lilases e flores-da-paixo se esgotavam
antes do nascer do sol. Pela primeira vez, havia junquilhos 
venda bem depois de seu perodo de florao natural ter
acabado. No final de julho, noivas ousadas carregavam vasos
de cermica cheios de flores de morango ou arranjos
perfumados de erva-doce sem que ningum questionasse seu
bom    gosto.   Pelo   contrrio:   ficavam     admirados   com a
simplicidade dos seus desejos.

      Se   continuasse     assim,    percebi,    diminuiramos   a
quantidade de raiva, sofrimento e desconfiana na Terra.
Fazendeiros arrancariam plantaes inteiras de dedaleiras
para cultivar mil-folhas, as delicadas pencas de flores cor-de-
rosa, amarelas e creme oferecendo cura para os coraes
partidos. O preo da slvia, dos rannculos e dos goivinhos-
da-praia aumentaria progressivamente. Ameixeiras seriam
plantadas apenas para que seus cachos de flores delicadas
fossem colhidos e os girassis sairiam de moda para sempre,
desaparecendo das floriculturas, dos armarinhos e da
decorao das cozinhas. O cardo seria eliminado de forma
compulsiva de terrenos baldios e jardins abandonados.

      Nas tardes de vero, enquanto eu trabalhava na estufa
que havia construdo em cima do telhado com canos de PVC e
lona de plstico, cuidando de centenas de pequenos vasos de
cermica em prateleiras de arame, eu tentava encontrar
consolo nessa pequena e intangvel contribuio para o
mundo. Dizia a mim mesma que algum, em algum lugar,
estaria menos revoltado e sofrido por causa do sucesso
desenfreado   da   Mensagem.   Amizades   se   fortaleceriam;
casamentos durariam mais. Mas eu no acreditava nisso.
No poderia ganhar o mrito por uma contribuio abstrata
ao mundo quando havia causado apenas dor em todos os
relacionamentos concretos que tivera na vida: com Elizabeth,
por meio de um incndio criminoso e de uma acusao falsa;
com Grant, por abandon-lo e lhe deixar com uma criana
sem nome e desamparada.

    E ainda havia minha filha. O fato de t-la abandonado
no saa de minha mente nem por um instante. Eu poderia
ter me mudado para o antigo quarto de Natalya, mas
continuei dormindo no quarto azul, enroscada sozinha no
espao que um dia havamos ocupado juntas. Todas as
manhs, ao acordar, eu contava sua idade  os meses e os
dias. Sentada diante de noivas tagarelas, tentava me lembrar
de suas sobrancelhas quase sem pelos, curvadas para mim,
questionadoras, de seus lbios se abrindo e se fechando,
ritmados. No apartamento vazio, sua ausncia comeou a
parecer to real quanto ela costumava ser, agitando a lona
plstica da estufa, esgueirando-se como uma luz por baixo da
porta do quarto azul. No tamborilar da chuva sobre o telhado
plano, eu ouvia sua suco faminta. A cada 29 dias, um
quadrado de luar iluminava o futon no qual havamos
passado nossa ltima noite juntas e, todos os meses, eu
esperava que ele a trouxesse de volta para mim. Em vez
disso, o luar iluminava minha solido e eu me sentava ereta
sob seu brilho plido, lembrando-me de como ela era e
imaginando como teria ficado. Sentia minha filha mudando,
crescendo e se desenvolvendo a cada dia, sem mim, a
quilmetros dali. Ansiava por estar com ela, testemunhar sua
transformao.

     Contudo, por mais que quisesse reencontr-la, eu no
iria at ela. O desejo que sentia de estar perto de minha filha
me parecia egosta. Deix-la com Grant tinha sido o gesto
mais amoroso de que j fora capaz e eu no estava
arrependida. Sem mim, ela estaria segura. Grant a amaria
como havia me amado, com uma devoo incondicional e um
zelo afetuoso. Era tudo que eu queria para ela.

     Eu s tinha um arrependimento e ele no tinha nada a
ver com minha filha. Em uma vida de transgresses, muitas
violentas e a maioria injusta, eu s me arrependia do
incndio. Um monte de potes de geleia, um punhado de
fsforos e falta de juzo haviam criado um inferno que
continuou ardendo muito depois de sua ltima chama ter se
apagado. Ele se espalhou pela mentira que havia me afastado
de Elizabeth, provocou brigas durante oito anos de estadia
em abrigos e ressurgiu em minha falta de confiana em
Grant. Eu me recusara a acreditar que ele me amava ou que
continuaria a me amar se soubesse a verdade.

     Grant acreditava que sua me tinha provocado o
incndio que arruinara a vida de ns dois. Embora ele no
falasse no assunto, eu sabia que no a havia perdoado. Mas
sua me no era a culpada. Foi por minha culpa que o
vinhedo pegou fogo; por minha culpa Elizabeth no foi at
Catherine; por minha culpa Grant passou o ano seguinte
sozinho, tomando conta de sua me doente. Eu no sabia os
detalhes da degenerao de Catherine, mas eles ficavam
claros na maneira como Grant me amava, delicada e
isoladamente. Ele havia precisado de Elizabeth tanto quanto
eu.

      Agora era tarde demais. O vinhedo havia se incendiado.
Grant passara toda a vida sozinho, exceto pelos seis meses
que ficara comigo. Eu havia perdido a nica mulher que um
dia tentara ser minha me e era tarde para voltar atrs, tarde
para resgatar minha infncia. Porm, por mais que fosse
tarde, este era o pensamento que me atormentava: eu queria
voltar para Elizabeth. Queria, mais do que tudo, ser sua filha.

      Em meados de agosto, exausta por causa de uma
agenda repleta de casamentos de vero e por causa de
pensamentos implacveis sobre minha filha, Elizabeth e
Grant, eu me recolhi no quarto azul. Pela primeira vez desde
que havia aberto a Mensagem, tranquei todos os seis
cadeados e, em vez de atender os clientes, fui dormir.
Marlena me deu cobertura. O apito da chaleira se infiltrava
em meus sonhos quando ela preparava ch para os clientes,
mas eu no saa do quarto. Os cadeados me impediam de
pegar meu carro e ir direto para a torre de gua, subir
correndo ao terceiro andar e reclamar minha beb de volta.
Em minhas fantasias, ela ainda estava deitada no moiss,
indefesa, com os olhos erguidos para o teto. Na realidade, j
estava com 6 meses, j devia conseguir se sentar, agarrar as
coisas e talvez at engatinhar pelo cho.
     Passei quase uma semana no quarto azul. Marlena no
me perturbou, mas todas as manhs passava uma folha de
papel por baixo da porta. Era a cpia de nossa programao
de setembro, cada vez mais cheia  medida que os dias se
passavam. Tinha esperado que a procura diminusse com a
queda da temperatura, mas, em vez disso, parecamos ter
cada vez mais pedidos. Por fim, a ansiedade diante do
acmulo de trabalho venceu minha depresso. Peguei uma
banana de uma tigela de frutas que Marlena havia enchido e
fui at o andar de baixo.

     Ela estava sentada  mesa, mordendo a ponta de uma
caneta. Sorriu ao me ver.

      Estava prestes a ir  Gathering House para contratar
outra assistente  falou.

     Balancei a cabea.

      Estou aqui. O que temos primeiro?

     Ela analisou o calendrio.

      Nada de muito importante at sexta-feira. Mas depois
vamos ter que trabalhar 16 dias seguidos.

     Resmunguei, mas no fundo me senti aliviada. As flores
eram minha vlvula de escape. Com elas em minhas mos,
talvez conseguisse sobreviver ao outono. E talvez, com o
passar dos meses, as coisas se tornassem mais fceis. Era o
que eu vinha esperando, mas, at ento, no tinha sido
assim. Na verdade, parecia estar acontecendo o oposto: a
cada dia que passava, eu me sentia mais desolada e as
consequncias de minhas decises me pareciam menos
suportveis. Virei-me para subir a escada de novo.

      Vai voltar para a sua caverna?  perguntou Marlena.
Ela soava desapontada.

      O que mais posso fazer?

     Marlena suspirou.

      No sei.  Ela fez uma pausa e me virei para encar-la.
Parecia que ela sabia, mas estava com dificuldade para
encontrar as palavras.  Abriu uma lanchonete nova perto da
Bloom  disse por fim.  Pensei que poderamos comer
alguma coisa l e depois dar um passeio de carro.

      Um passeio?

      .  Ela olhou pelas janelas em direo  rua.  Para
v-la.

     Marlena estava falando de minha filha. Mas, por uma
frao de segundo, antes que eu me desse conta disso, achei
que estivesse se referindo  Elizabeth e essa me pareceu
exatamente a coisa certa a fazer. Eu sabia onde ela morava e
como chegar l. Era tarde demais para eu ser uma criana
em sua casa, mas no para pedir perdo pelo que havia feito.

     Quando no respondi de imediato, Marlena me encarou,
seu rosto esperanoso.

     Balancei a cabea. Eu lhe pedira para nunca falar sobre
a beb e, at ento, ela havia respeitado minha vontade.
      Por favor, no faa isso  pedi.

     Seu queixo caiu sobre o peito e por um instante ela
pareceu no ter pescoo, como uma recm-nascida.

      Nos vemos na sexta  conclu, virando-me para subir
as escadas.

     Passei a noite inteira imaginando-me em meu carro,
indo ao encontro de Elizabeth. Visualizei a entrada de
veculos, longa e empoeirada, as uvas de fim de vero
pesadas nas videiras. O sol da tarde faria a casa de fazenda
branca, com sua pintura descascada, projetar uma sombra
retangular e os degraus da varanda rangeriam quando eu os
subisse. Elizabeth estaria sentada  mesa da cozinha, com os
braos cruzados, olhando para a porta, como se estivesse 
minha espera.

     A viso se desfez quando percebi que tudo isso poderia
no existir mais. No s os acres de videiras, mas tambm a
mesa da cozinha, a porta de tela e toda a casa. Durante todo
o tempo que passara com Grant, eu nunca havia lhe
perguntado sobre a extenso do dano causado pelo fogo.
Tambm no descera a estrada alm dos portes da fazenda
de flores. Na poca, no queria saber.

     Eu no poderia ir at l. No suportaria ver aquilo, nem
mesmo para pedir perdo a Elizabeth.

     Mas, depois que a ideia surgiu, eu no conseguia afast-
la da minha mente. Se pudesse me desculpar, ento talvez
conseguisse enfim esquecer. Talvez eu parasse de sonhar com
fogo e pudesse levar uma vida tranquila, ainda que solitria,
sabendo que Elizabeth compreendia meu remorso. Encolhida
no quarto azul, eu pensava sobre como fazer isso. Escrever
uma carta seria bem simples. Depois que aprendi o endereo,
nunca mais o esqueci. Porm, o medo de que Elizabeth
aparecesse  minha porta me impedia de colocar o endereo
do remetente no envelope e, sem isso, ela no teria como
responder. Embora eu soubesse que no poderia viver
olhando pela janela a cada instante, temendo que sua velha
caminhonete     cinza   parasse   no   acostamento,   queria
desesperadamente saber sua resposta. Talvez isso at
aliviasse um pouco meus anos de culpa.

     Quando o sol nasceu, eu soube o que precisava fazer:
escreveria para Elizabeth e usaria o endereo da Bloom.
Renata me traria qualquer carta que chegasse. Entreabrindo
a porta do quarto azul, tentei escutar algum sinal de
Marlena. O apartamento estava silencioso. Fui at o andar de
baixo, sentei-me  mesa como o faria durante uma reunio
com clientes e peguei uma folha de papel de arroz e uma
caneta hidrogrfica azul. Minha mo tremia enquanto a
caneta pairava sobre o papel.

     Escrevi primeiro a data no canto superior direito,
conforme Elizabeth me ensinara. Sem parar de tremer,
escrevi seu nome. No me lembrava do que deveria vir em
seguida, se dois pontos ou vrgula. Depois de uma pausa,
coloquei os dois.
     Olhei para o que havia escrito. O nervosismo deixara
minha letra um garrancho, muito longe da perfeio que
Elizabeth sempre exigia. Amassei o papel e o joguei no cho,
recomeando do zero.

     Uma hora depois, peguei a ltima folha de papel. Bolas
amassadas cobriam o cho ao meu redor. Essa tentativa, por
pior que ficasse, teria que servir. A presso diante da nica
folha restante fez minha mo tremer mais ainda; minha
caligrafia parecia a de uma criana muito jovem, insegura
quanto   ao     formato   de   cada    letra.   Elizabeth   ficaria
decepcionada.     Continuei    assim      mesmo,     lentamente,
determinada. Por fim, consegui escrever uma s linha:

     Eu causei o incndio. Lamento por isso. Nunca deixei de
lamentar.

     Assinei meu nome. A carta era breve e tive medo de que
Elizabeth a achasse rude e falsa, porm eu no tinha mais
nada a dizer. Dobrei o papel, coloquei-no num envelope e o
fechei, escrevendo o endereo e o selando. Os selos que eu
havia comprado na primavera anterior eram ilustrados por
um narciso-amarelo  recomeos , amarelo e branco sobre
um fundo vermelho, com letras douradas celebrando o Ano-
novo Chins. Elizabeth perceberia.

     Seguindo a passos rpidos at o final do quarteiro,
puxei a pesada alavanca de metal da caixa de correio e joguei
a carta pela fresta antes que mudasse de ideia.
    CERTA TARDE DE OUTUBRO, eu estava sentada no
escritrio vazio, conferindo, por hbito, a ordem alfabtica
dos meus cartes enquanto esperava um casal chegar. Os
dois s se casariam em abril, mas haviam insistido para que
nos reunssemos logo. A noiva queria que absolutamente
tudo  desde a cor da decorao at a letra da msica de sua
primeira dana  combinasse com as flores que escolheria. Ao
longo do vero, eu tinha trabalhado com inmeras noivas,
mas combinar msica e flores era novidade at para mim.
No estava nada ansiosa pela reunio.

    Conferi as horas. Quinze para as cinco. Faltavam 15
minutos para os clientes chegarem. Estava na hora de
preparar o ch. Eu s bebia um ch de crisntemo que
comprava no bairro de Chinatown, as flores desenrolando-se,
suspensas, no lquido escuro. Era um toque agradvel para
as   minhas   sesses,   algo   que   os   clientes   j   estavam
acostumados a esperar.

     Na cozinha, fervi uma chaleira e tomei uma xcara antes
de descer a escada. A noiva havia chegado e estava sentada
na soleira em frente s portas de vidro. Sozinha, olhava de
um lado para o outro da rua. Eu conseguia notar a
impacincia em suas costas empertigadas. O noivo chegaria
atrasado ou no iria. Mau sinal para um casamento  e
noivas sabem disso. Havia meses eu decidira que, em longo
prazo, o sucesso de meu negcio dependia de fazer as flores
para casais cujas unies seriam duradouras; j havia
recusado mais de um casal por falta de pontualidade ou por
testemunhar discusses agressivas sobre os cartes.

     Larguei a bandeja e fui em direo  porta. Parei de
repente, pressionando as palmas das mos no vidro. Do lado
de fora, pneus cantaram. Ento uma caminhonete velha e
cinza passou sacolejando, com Elizabeth atrs do volante. No
sinal de trnsito da esquina ngreme, o veculo deu r antes
de fazer a curva e desaparecer colina acima. Eu me virei e
subi as escadas correndo, entrando no antigo quarto de
Natalya, onde me agachei debaixo da janela para esperar a
caminhonete passar de volta.

     Menos de cinco minutos depois, ela passou. Elizabeth
desceu a colina com mais facilidade do que a subira e no
instante seguinte j havia virado a esquina, desaparecendo
de vista. Desci as escadas de dois em dois degraus e sa. A
noiva sentada no meio-fio se levantou quando me viu.

      Perdo  apressou-se em dizer.  Ele j vai chegar.

     Mas ele no chegaria. Havia algo de ensaiado em seu
pedido de desculpas, como se houvesse meses ou anos que
ela usava as mesmas palavras para justificar a ausncia do
noivo.

      No  falei , ele no vai chegar.

     Talvez fosse o ch de crisntemos, mas de repente quis
que aquela mulher soubesse a verdade. Ela abriu a boca
como se fosse protestar, mas minha expresso a deteve.

      Voc no vai fazer nossas flores, no ?

     Ento, me deu as costas, sabendo qual seria a resposta.
Ela tentaria Renata em seguida; era o que sempre faziam.
Renata tinha o nico dicionrio de flores idntico ao meu. Eu
pedira que Marlena fizesse uma cpia para ela poucos meses
antes, quando comeamos a ter mais trabalho do que
poderamos dar conta. Todos os dias, eu encaminhava
clientes para a Bloom.

     Comecei a subir a colina e vi Renata descendo. Nos
encontramos no meio, como eu e Grant havamos feito antes,
na tarde em que ele me trouxera o junquilho. Ela trazia um
envelope cor-de-rosa claro. Meus dedos tremiam quando o
peguei. Sentei-me no meio-fio e coloquei o envelope no colo.
Renata se sentou ao meu lado.
      Quem  ela?  perguntou.

     O envelope parecia quente e o deixei na calada entre
ns duas. Analisei as linhas das palmas vazias das minhas
mos, como se buscasse nelas a resposta  sua pergunta.

      Elizabeth  respondi baixinho.

     Ficamos caladas. Renata no fez mais perguntas,
porm, quando ergui os olhos, seu rosto ainda estava
franzido numa expresso interrogativa, como se eu no
tivesse respondido nada. Tornei a baixar os olhos para
minhas mos.

      Ela quis me adotar quando eu tinha 10 anos.

     Renata fez um barulho de estalo com a lngua. Com uma
de suas unhas curtas, puxou uma lasca de metal presa no
concreto, mas ela no se soltou.

      E ento?  insistiu.  O que voc fez?

     Era uma pergunta que Meredith teria feito, mas, vinda
de Renata, demonstrava mais interesse do que acusao.

      Provoquei um incndio.

     Era a primeira vez que eu dizia aquelas palavras em voz
alta e a imagem que elas produziram me deram um n na
garganta. Fechei os olhos com fora.

      Minha pequena piromanaca  disse Renata, passando
um brao carinhoso em volta dos meus ombros e me
puxando para junto dela.  Por que ser que isso no me
surpreende?

     Virei-me para analis-la. Ela no sorria, mas seus olhos
estavam cheios de ternura.

      Ento?  perguntei.  Por que no est surpresa?

     Renata tirou uma mecha de cabelo de cima dos meus
olhos, as pontas de seus dedos acariciando minha testa. Sua
pele era macia. Eu me recostei nela, pressionando a orelha
em seu ombro, e quando ela falou, as palavras soaram
abafadas.

      Voc se lembra da manh em que nos conhecemos?
Quando voc parou em frente  minha loja, procurando
emprego, e ento voltou horas depois com uma prova do que
podia fazer? Voc me entregou aquelas flores como se fossem
um pedido de desculpas, embora no tivesse feito nada de
errado e o buqu estivesse mais prximo da perfeio do que
qualquer outro que eu j tivesse visto. Naquele mesmo
instante, eu soube que voc se sentia indigna, que acreditava
ter defeitos imperdoveis.

     Eu me lembrava bem daquela manh. De como tive
medo de que ela descobrisse a verdade sobre minha condio
de sem-teto, a verdade sobre minha histria.

      Ento por que voc me contratou?  perguntei.
     Renata passou a mo pelo meu rosto. Quando chegou
ao queixo, inclinou minha cabea para cima, fazendo com
que eu a olhasse nos olhos.

      Voc acha mesmo que  o nico ser humano que tem
defeitos imperdoveis? Que foi magoado quase a ponto de
entrar em colapso?

     Ela me encarou intensamente. Quando desviou o olhar,
soube que compreendia que sim, que eu acreditava ser a
nica.

      Eu poderia ter contratado outra pessoa. Algum
menos imperfeito ou que pelo menos soubesse esconder
melhor seus defeitos. Mas ningum teria seu talento com as
flores, Victoria.  um verdadeiro dom. Quando trabalha com
elas, tudo em voc muda. Seu queixo relaxa. Seus olhos
ficam vidrados de concentrao. Seus dedos manipulam as
flores com um respeito to delicado que  impossvel acreditar
que voc seja capaz de cometer qualquer ato de violncia.
Nunca vou me esquecer do primeiro dia que vi isso. Enquanto
observava voc fazer arranjos com os girassis na mesa dos
fundos, parecia que eu estava olhando para uma garota
completamente diferente.

     Eu conhecia a garota de quem ela estava falando. Era a
mesma que eu tinha vislumbrado no espelho do provador
com Elizabeth, depois de quase um ano em sua casa. Talvez
ela tivesse sobrevivido em algum lugar dentro de mim,
preservada como uma flor seca  frgil e doce.
Renata pegou o envelope e o agitou no ar entre ns.

 Posso?  perguntou ela.
     AO SOM DO MARTELO DA JUZA, soprei os botes
brancos e delicados que havia enfileirado sobre a mesa. Eles
se espalharam pelo cho do tribunal. Elizabeth se levantou.

     As flores estavam diante do meu lugar quando cheguei,
o emaranhado de cravos-de-amor  amor eterno  refletindo-
se no tampo envernizado da mesa, esferas macias flutuando
nas profundezas da madeira lustrosa. Elas pareciam rgidas e
secas contra as pontas dos meus dedos, como se Elizabeth as
tivesse comprado para nossa primeira sesso, antes de a
audincia precisar ser retomada em uma segunda e uma
terceira   data.   Cravos-de-amor   no   murchavam      nem
mofavam. Com o tempo, se tornavam cada vez mais
quebradios, mas, fora isso, no mudavam. No havia motivo
para Elizabeth comprar um buqu novo.
     Enquanto ela se postava diante da juza, negando
sistematicamente uma longa lista de acusaes, eu partia os
caules marrons e sem flores em pedacinhos, arranjando-as
como um ninho de pssaro no centro da mesa. Houve uma
pausa e o tribunal ficou em silncio. O pedido de Elizabeth
ecoou em meus ouvidos: Gostaria de solicitar que Victoria
seja devolvida  minha custdia e que a deciso seja aplicada
imediatamente. No tive coragem de levantar a cabea, com
medo de que meus olhos revelassem meu desejo. Mas quando
a juza voltou a falar foi apenas para pedir que Elizabeth
retornasse ao seu lugar. Pelo jeito, seu pedido no merecia
uma resposta. Ela se sentou.

      mesa comprida, Meredith estava sentada entre mim e
Elizabeth, com um advogado de cada lado. O meu era um
homem baixo e gordo. Parecia desconfortvel em seu terno,
inclinando-se para a frente enquanto a juza falava e puxando
a camisa para afast-la da nuca. Seu bloco de anotaes
estava em branco e ele no parecia ter uma caneta. Ficava
conferindo as horas em seu relgio por baixo da mesa. Estava
louco para ir embora.

     Eu   tambm    estava.    Sem   prestar   muita   ateno
enquanto Meredith e a juza debatiam que tipo de abrigo
atenderia s minhas necessidades, eu mexia na coleo de
caules partidos em cima da mesa, dispondo-a no formato de
um peixe com trs barbatanas, uma coroa pontiaguda e, por
fim, um corao assimtrico. Os gravetos quebradios me
distraam do fato de estar to perto de Elizabeth, a menos de
cinco braos de distncia. A juza definiu o abrigo de acordo
com a disponibilidade de vaga. Meredith anotou a deciso nos
meus arquivos, atravessando o tribunal em direo 
bancada da juza com uma pilha grossa de papis nas mos.
A juza fez uma pausa, orientou Meredith a acrescentar meu
nome a todas as listas de espera por abrigos provisrios e
ento assinou a primeira folha da pilha. Oito anos depois,
quando eu fosse emancipada, ainda estaria sozinha. Mesmo
que no dissessem exatamente isso, suas palavras haviam
selado meu futuro.

     A juza pigarreou. Meredith voltou ao seu lugar. No
silncio que se seguiu, compreendi que esperavam que eu
erguesse os olhos, mas no o fiz. Com um dedo, abri um
buraco no corao de gravetos que havia criado, alargando-o
at enxergar meu rosto refletido no tampo da mesa. Fiquei
surpresa ao ver como parecia velha e revoltada. Ainda assim,
no levantei a cabea.

      Victoria  falou a juza.  Voc tem algo a dizer?

     No respondi. Do outro lado do meu advogado, a
promotora tamborilava suas unhas longas e pintadas contra
a mesa, salincias ovais e vermelhas pressionadas contra
mos enrugadas. Ela queria que eu testemunhasse contra
Elizabeth num processo criminal, mas me recusei.

     Levantei-me devagar. Tirei do bolso punhados de cravos,
botes amarronzados que eu havia arrancado de um buqu
na loja de presentes do hospital. Dois meses aps a noite do
incndio, eu ainda estava no hospital, transferida da unidade
de queimados para a ala psiquitrica at Meredith conseguir
encontrar um abrigo para mim.

      Passei por baixo da mesa e atravessei o tribunal.

       Quero que voc reflita sobre as consequncias de se
recusar a testemunhar  disse a juza quando parei diante
dela.  No  s uma questo de lutar pelos seus direitos e
por justia. Trata-se de proteger outras crianas.

      Os adultos naquele tribunal acreditavam que Elizabeth
era uma ameaa. A ideia era to absurda que eu quase ca na
gargalhada. Mas sabia que, se eu risse, logo comearia a
chorar e ento talvez nunca mais conseguisse parar.

      Em vez disso, empilhei os cravos sobre a bancada. Meu
corao est partido. Era a primeira vez que dava uma flor a
algum que no entendia seu significado. O gesto parecia
subversivo e estranhamente poderoso. Quando me virei para
ir   embora,   Elizabeth   se   levantou,   compreendendo   a
mensagem das flores. Nossos corpos ficaram frente a frente e,
naquele breve e silencioso instante, a energia entre ns duas
era to quente quanto o fogo que havia nos separado.

      Comecei a correr. A juza bateu o martelo. Meredith me
chamou de volta. Escancarando as portas do tribunal, desci
correndo seis lances de escada, irrompendo porta afora por
uma sada de emergncia. Parei sob a luz forte da tarde. No
importava para onde eu fugisse. Meredith me alcanaria. Ela
me levaria de volta para o hospital, me colocaria num abrigo
ou me internaria num reformatrio. Durante oito anos, eu
seria transferida de uma instituio para outra, sempre que
ela viesse me buscar. Ento, no meu aniversrio de 18 anos,
seria emancipada e estaria sozinha.

     Estremeci. Embora o cu estivesse claro e azul, era um
dia frio de dezembro. Deitei-me no cho ali mesmo,
pressionando o rosto contra o cimento quente.

     Queria ir para casa.
     DEZ ANOS TINHAM SE PASSADO E, mesmo assim,
Elizabeth me queria.

     Sua carta, dobrada em um pequeno quadrado e enfiada
no meu suti, se apertava contra a minha pele enquanto eu
trabalhava ao lado de Marlena naquela noite. Eu decepcionei
voc, escrevera ela. Tambm nunca deixei de lamentar. E
ento, no fim do bilhete, logo acima de seu nome: Por favor,
por favor, venha para casa. Duas ou trs vezes por hora eu
pegava o papel e relia as frases curtas, at memorizar no s
as palavras, mas o formato exato de cada letra. Marlena no
perguntou nada, apenas trabalhou com mais afinco para
compensar minha distrao.

     Eu iria encontrar Elizabeth. Havia tomado essa deciso
no instante em que li sua carta, sentada no meio-fio ao lado
de Renata. Tinha me levantado com a inteno de ir
imediatamente para o meu carro, cruzar a ponte e seguir at
o vinhedo. Mas ento vi Marlena trabalhando, entrei para
ajeitar um buqu e depois peguei outro. Horas se passaram.
Tnhamos uma festa de aniversrio no dia seguinte e logo
depois dois casamentos. Agora era oficial: o outono havia se
tornado to agitado quanto os meses de vero, cheio de
noivas exigentes e supersticiosas que prefeririam se casar em
um dos ltimos domingos da estao do que recorrer a outra
florista. Para mim, elas eram as piores. No tinham condies
de oferecer mais dinheiro do que as outras noivas pelos
meses de vero e planejar cerimnias extravagantes com
elegncia e gratido, mas eram ricas o bastante para
frequentar os mesmos crculos e sofrer com as constantes
comparaes. Noivas de outono eram inseguras e os homens
com os quais se casavam eram permissivos demais. No ms
anterior, trs noivas diferentes tinham nos ligado para
consultas de ltima hora, nas quais tudo o que havamos
planejado foi descartado e tivemos que recomear do zero na
vspera da cerimnia.

     Mas no eram apenas os prazos apertados que faziam
com eu me demorasse ao lado de Marlena. A emoo de saber
que Elizabeth ainda me queria tinha aliviado no s a dor da
ltima dcada, mas tambm a saudade que sentia de minha
filha. Enquanto no fosse ao seu encontro, a promessa
contida na carta de Elizabeth permaneceria intacta. Se
batesse  sua porta, correria o risco de deparar com uma
mulher diferente daquela de que me lembrava  mais velha,
sem dvida, e talvez mais triste ou revoltada  e isso me
parecia um risco grande demais.

     Naquela noite, dormi um sono agitado, acordando de
poucas em poucas horas, louca para pegar o carro e ir at a
casa de Elizabeth. Pela manh, no entanto, a atrao do
vinhedo havia diminudo. Resolvi esperar uma semana, duas
no mximo, e ento iria v-la, totalmente preparada para
qualquer coisa que pudesse encontrar.

     J havia tomado banho e trocado de roupa quando o
telefone tocou. Caroline. Estava esperando sua ligao.
Durante nossa consulta, ela no soubera dizer o que
esperava de uma florista ou do casamento. Alm disso, ficava
chorosa sempre que eu fazia uma pergunta que ela no
soubesse responder  ou seja, sempre que perguntava
qualquer coisa mais complicada do que seu nome ou a data
do casamento. Deveria ter recusado o servio, mas gostava do
noivo, Mark, e acho que foi por isso que aceitei a tarefa. Ele a
provocava    de   um    jeito   que   parecia   de   certa   forma
encorajador, em vez de depreciativo.

     Atendi no primeiro toque. Quando estava tentando me
decidir se lhe pedia para vir ou mentia, dizendo que estava
ocupada, atravessei o quarto e a vi sentada no meio-fio do
outro lado da rua, com Mark ao seu lado. Ela ergueu os olhos
para mim. Seus punhos estavam cerrados, mas ela abriu
uma das mos lentamente para acenar. Abri a janela e
desliguei o telefone.
      O.k., me d um minuto  pedi, assim como Natalya
fizera quando bati  sua porta pela primeira vez.

     E, assim como Natalya, no me apressei. Fui at a
cozinha e preparei uma xcara de ch, ovos cozidos e
torradas. Se fssemos recomear os buqus do zero  e eu
no tinha dvidas de que iramos , provavelmente passaria
as 24 horas seguintes trabalhando sem parar. Comi o lanche
e bebi dois copos de leite com calma antes de descer as
escadas.

     Caroline me abraou quando abri a porta. Ela devia ter
quase 30 anos, mas usava o cabelo preso em duas tranas
longas, o que a deixava com uma aparncia muito mais
jovem. Quando se sentou  mesa diante de mim, vi que seus
olhos azuis estavam marejados.

      O casamento  amanh  falou, como se eu tivesse me
esquecido disso.  E acho que confundi tudo.  Ela arquejou e
bateu no peito com a mo espalmada.

     Mark se sentou ao seu lado e deu um tapinha em suas
costas com o punho fechado. Caroline riu e soluou.

      Ela est tentando conter as lgrimas  disse ele.  Se
chorar assim to perto do casamento, sem dvida vai
aparecer tudo nas fotografias.

     Caroline tornou a rir e uma lgrima escapou pelo canto
do olho. Ela a secou com uma unha manicurada e beijou
Mark.
      Ele no entende quanto  importante  falou.  No
conhece Alejandra e Luis, ento no sabe o que aconteceu na
lua de mel deles.

     Assenti como se me lembrasse desse casal e das flores
que tinha escolhido para ele.

      Ento, em que posso ser til?  perguntei com o
mximo de pacincia que consegui reunir.

      Sabe aquela velha pergunta, se voc s pudesse comer
cinco comidas pelo resto da vida, quais seriam?  Fiz que sim,
embora ningum nunca tivesse me perguntado aquilo.  Bem,
no consigo tirar isso da cabea. Escolher flores para um
casamento  como escolher as cinco caractersticas que voc
quer que ele tenha para o resto da vida. Como escolher uma
coisa dessas?

      Ela fala para o resto da vida como se o casamento
fosse uma doena incurvel  disse Mark.

      Voc sabe do que estou falando  atalhou ela,
examinando as mos.

     Eu no prestava muita ateno  conversa dos dois,
pensando nas cinco comidas que escolheria. Donuts, sem
dvida. Ser que eu precisava ser especfica ou poderiam ser
sortidos? Sortidos, decidi, com nfase no de maple.

     Caroline e Mark discutiam entre rosas vermelhas e
tulipas brancas: amor versus declarao de amor.
      Mas se voc me amar e no me disser, como vou
saber?  perguntou ela.

      Ah, voc vai saber  disse Mark, erguendo as
sobrancelhas e correndo os dedos do joelho at o topo da
coxa dela.

     Olhei pela janela. Donuts, frango assado, cheesecake e
sopa de abbora bem picante. Faltava uma. Deveria ser fruta,
legume ou verdura, se eu quisesse sobreviver mais de um ano
com essa dieta imaginria, mas no conseguia pensar em
nada de que gostasse tanto para comer todos os dias.
Tamborilei   os   dedos   na   mesa   e   olhei   para   o   cu
estranhamente azul para a estao.

     Foi ento que descobri exatamente o que seria e soube
que precisava ir, naquele mesmo instante, ao encontro de
Elizabeth. As uvas estavam maduras. Eu vinha contando os
dias quentes de outono  12 seguidos  e, ao ver os raios de
sol entrarem na sala escura, repletos de gros de poeira, tive
certeza de que as uvas estavam prontas para serem colhidas.
Tambm tive certeza de que Elizabeth ainda no as havia
descoberto. No posso dizer como sabia disso, mas eu sabia:
da mesma forma que, pelo que tinha ouvido falar, algumas
mes e filhas, um dia conectadas por um cordo umbilical,
sabiam antes de serem avisadas que a outra estava doente ou
em perigo. Eu me levantei. Caroline e Mark j haviam
passado para heliotrpio versus gernio silvestre, sem que eu
tivesse ouvido quem ganhara o debate entre tulipas e rosas.
      Por que voc est se limitando tanto?  perguntei, com
mais rispidez do que pretendia.  Nunca lhe falei que era
preciso se limitar a um determinado nmero de flores para o
buqu.

      Mas onde j se viu uma noiva carregando um buqu
com 50 tipos diferentes de flores?  perguntou ela.

      Ento, crie uma tendncia  respondi. Caroline era do
tipo que gostaria de fazer isso. Peguei meu bloco de anotaes
e uma caneta.  Olhe nas caixas, consulte os cartes um por
um e anote todas as caractersticas que quer em seu
casamento. Ento ns juntaremos tudo o que pudermos no
ltimo minuto  falei.  Mas desista de combinar as flores
com os vestidos das madrinhas.

      Os vestidos so amarelo-esverdeados  disse Caroline,
encabulada, como se os tivesse comprado prevendo aquele
exato momento.  Vo combinar com qualquer coisa.

     Eu j estava na metade da escada. Precisava ligar para
Marlena. Ela seria capaz de fazer o pedido sem mim e o faria
depressa e com profissionalismo. Seus arranjos no eram
bonitos  ela no havia progredido muito ao longo dos meses
, mas sabia de cor as flores e suas definies e no
confundiria duas espcies diferentes de gernio. A reputao
da Mensagem dependia do contedo do buqu, no do mrito
artstico dos arranjos, e no quesito contedo Marlena era
impecvel.
        Ela atendeu no primeiro toque e percebi que tambm
estava esperando esse telefonema.

         Venha para c  pedi.

        Marlena resmungou. Desliguei sem lhe dizer que no
estaria quando ela chegasse, ou que Caroline e Mark estavam
no processo de compor aquele que possivelmente seria o
buqu mais complexo da histria dos casamentos de So
Francisco. No havia razo para assust-la.

        Peguei minhas chaves e desci os degraus de dois em
dois.

         Marlena est a caminho  disse para Caroline e Mark
ao passar pela mesa para sair.

        Conduzi meu carro pelas estradas como havia feito
tantas vezes: com Grant, sozinha e, da ltima vez que
passara por ali, com a beb. Ao me aproximar da fazenda de
flores, apertei a palma da mo contra a tmpora esquerda
para bloquear minha viso perifrica. No vi a casa, a torre
de gua ou as plantaes. Podia ter reunido coragem para
encontrar Elizabeth, mas no suportava a ideia de ver Grant
ou minha filha no mesmo dia.

        Parei no acostamento do outro lado da entrada da
fazenda de Elizabeth. Um nibus escolar passou, seguido por
uma caminhonete marrom lotada de gente. Quando a estrada
ficou vazia, sa do carro em direo  tranquilidade do campo
e olhei para o outro lado.
      primeira vista, o vinhedo estava exatamente como eu
me lembrava dele. O longo caminho de entrada, a casa de
fazenda no meio, as videiras se estendendo em fileiras
paralelas  estrada. Eu me recostei no carro, buscando sinais
do dano que havia causado. O vinhedo tinha sido replantado,
a terra calcinada fora revolvida e as cinzas desapareceram
havia tempos; at mesmo o cardo retornara  vala, to alto e
seco quanto na noite do incndio. Somente a espessura das
videiras revelava a histria do fogo: no quadrante sudoeste da
propriedade, seus troncos tinham a metade da grossura
daqueles em frente  entrada de veculos. As folhas das
plantas mais jovens eram de um verde mais brilhoso e a
quantidade de frutos em seus galhos, perceptivelmente
maior. Eu me perguntei se as uvas das videiras novas j
teriam chegado ao padro de qualidade exigido por Elizabeth.

     Atravessei a estrada. A casa parecia idntica, mas a
fileira de barraces havia desaparecido  destruda pelo fogo,
imaginei. O trailer de Carlos tambm no estava mais l,
porm eu duvidava que o metal houvesse derretido. Era mais
provvel que ele tivesse encontrado outro emprego ou ido
embora e Elizabeth tenha resolvido se livrar do trailer. Sem os
anexos deteriorados, a casa parecia mais uma pousada do
que um vinhedo produtivo. A pintura branca era reluzente e
impecvel e havia um par de cadeiras de balano de madeira
vermelha na varanda. Atrs da cortina rendada da janela da
cozinha, a luz estava acesa.
      Detendo-me no ltimo degrau, ouvi um som baixo, como
uma lufada de vento, seguido pelo barulho distante de gua
se derramando. Elizabeth estava no jardim. Com as costas
pressionadas contra as tbuas brancas das paredes externas,
contornei sorrateiramente a casa. Encontrei-a agachada no
cho, descala, a poucos passos de onde eu estava. Havia
lama em seus calcanhares e, quando ela se inclinou para a
frente, vi que as curvas de seus ps estavam limpas e
rosadas.

       De novo?  perguntou, erguendo um anel de arame
com um cabo de madeira gasto.

      Afastei-me da parede para ter uma viso melhor do
jardim. No caminho em frente s rosas, havia uma bacia
cheia at a metade com gua e sabo, para fazer bolhas, com
espirais iridescentes se refletindo no lquido grosso. Um beb
de olhos redondos tentava pegar o anel de metal com uma
das mos, enquanto apertava a borda da bacia com a outra.
Ele estava sentado no cho usando apenas uma fralda de
pano enquanto seu corpo nu se balanava, a barriga saliente
oscilando sobre o bumbum instvel. Elizabeth colocou sua
mo    livre   atrs   das   costas   dele   para   ampar-lo   e,
aproveitando esse momento de distrao, o beb conseguiu
agarrar o anel e pux-lo, ainda cheio de sabo, para dentro
da boca. Comeou a mord-lo furiosamente.

       No, no, garotinha  falou Elizabeth, puxando sem
sucesso o cabo de madeira.  Isso  para fazer bolhas, no 
um mordedor.
     A beb no reagiu  repreenso. Depois de uma pausa,
Elizabeth fez ccegas na sua barriga nua at ela rir,
desprendendo a mandbula do aro de metal. Elizabeth limpou
os restos de sabo da boca da beb com o polegar.

      Agora observe  disse Elizabeth.

     Ela mergulhou o aro na soluo e soprou-o. Bolhas
choveram sobre a beb, deixando crculos molhados em seus
ombros e testa ao estourarem.

     Seu cabelo tinha crescido; cachos escuros cobriam a
metade de cima das suas orelhas e se enroscavam para cima
na nuca. Sua pele cor de creme estava mais morena,
provavelmente por causa das horas que passava no jardim, e
dois dentes de baixo haviam nascido na gengiva lisa na qual,
meses antes, eu passara o dedo. Eu poderia no t-la
reconhecido se no fossem seus olhos  aqueles olhos
redondos, profundos, azul-acinzentados , que se voltaram
para mim e encararam meu rosto, interrogativos, como na
manh em que eu a deixara no cesto forrado de musgo.

     Recuando em silncio, eu me virei e sa correndo em
direo  estrada.
     SENTADA ENTRE AS PLANTAS que estavam ali havia
dcadas, eu examinava as poucas flores desabrochadas.
Grant havia podado as rosas. Meio centmetro abaixo de cada
extremidade cortada, um boto gordo brotava do caule, o
ponto de partida para uma nova flor. Como todos os anos,
Grant teria rosas para o Dia de Ao de Graas.

     Depois de 25 anos sozinho, Grant havia reatado com
Elizabeth. Chocada, fui imediatamente para a fazenda de
flores. Parei o carro na estrada e  como j havia jogado a
chave fora  escalei o porto de Grant. Em vez de bater 
porta da torre de gua, me refugiei no jardim de rosas. O
sorriso tmido de minha filha brincava atrs das minhas
plpebras; sua alegria, rodopiando como a gua cheia de
sabo na bacia, me preenchia. Ela estava com Elizabeth e
estava feliz. Eu supunha, pela naturalidade da interao
entre as duas, que o vinhedo era seu lar permanente. Essa
ideia fez com que eu sentisse a solido de Grant com a
mesma pungncia com que experimentara a felicidade de
minha filha.

     Uma hora se passou. Ainda em xtase por conta da
viso inesperada de minha garotinha, ouvi as botas de Grant
se aproximarem por trs de mim. Senti meu corao
reverberar, exatamente como quando nos conhecemos no
mercado de flores, e puxei os joelhos at o peito como se
quisesse abafar o som. Grant alinhou suas botas com as
minhas e se sentou ao meu lado, seus ombros tocando os
meus. Ele enfiou algo atrs da minha orelha que retirei em
seguida. Uma rosa branca. Ergui a flor contra o sol e sua
sombra se projetou sobre ns dois. Ficamos um bom tempo
sentados ali, em silncio.

     Por fim me afastei, virando-me em sua direo. Fazia
mais de um ano que no via Grant e ele parecia ter
envelhecido mais do que esse tempo. Rugas finas sulcavam
sua testa sria, mas seu cheiro forte de terra continuava o
mesmo. Voltei  posio de antes at nossos ombros se
tocarem novamente.

      Como ela ?  perguntei.

      Linda  respondeu ele. Sua voz soava tranquila,
ponderada.  Geralmente tmida a princpio. Mas depois,
quando estende os braos e agarra as nossas orelhas com
suas mozinhas gordas... no h nada que se compare a isso
no mundo.  Ele se interrompeu por um instante, arrancando
uma ptala da rosa que eu segurava e apertando-a contra os
lbios.  Tambm adora flores. Gosta de arranc-las, cheir-
las e  at capaz de com-las se voc no ficar de olho.

      Srio? Ela ama as flores como ns?

     Grant assentiu.

      Voc tem que ver como ela sorri quando comeo a falar
os nomes das orqudeas na estufa: oncidium, dendrobium,
bulbophyllum e epidendrum, fazendo ccegas no seu rosto
com cada uma delas. No vou ficar surpreso se a primeira
palavra que ela disser for "orqudea".

     Visualizei    o   rosto    redondo     de   minha   filha,   suas
bochechas coradas por conta do calor da estufa, apertado
contra o peito de Grant para evitar as ccegas das flores.

      Estou tentando ensinar a ela a cincia por trs das
plantas  disse Grant. O sorriso que tomou seus lbios era
cheio de recordaes.  Mas, at agora, no deu muito certo.
Ela pega no sono quando comeo a tagarelar sobre a histria
da famlia Betulaceae ou sobre como o musgo cresce sem
razes.

     O musgo cresce sem razes. Suas palavras me deixaram
sem flego. Durante uma vida inteira estudando a biologia
das plantas, eu nunca havia pensado nisso. Agora parecia o
nico     fato   que   eu      precisava,   desesperadamente,      ter
compreendido.

      Qual o nome dela?  perguntei.
      Hazel.  Avel. Reconciliao. Grant puxou uma raiz
teimosa de capim-colcho, evitando meus olhos.  Achei que
algum dia ela traria voc de volta para mim.

     Naquele momento, ela havia nos reunido. A raiz do
capim-colcho se soltou. Grant seguiu o broto seco at o seu
prximo ponto de encontro com a terra.

      Voc est zangado?  perguntei.

     Grant demorou um bom tempo para responder. Outra
raiz se soltou e ele puxou a planta inteira, enroscando o longo
cordo de capim em volta do seu indicador grosso.

      Devia.

     Ele tornou a ficar calado, lanando o olhar ao longo da
sua propriedade.

      Ensaiei minha raiva 100 vezes desde que encontrei
Hazel. Voc merece ouvir.

      Sei que mereo  concordei.  V em frente.

     Eu o encarei, mas ele no me olhou de volta. No iria
dizer as palavras que havia ensaiado. Embora tivesse todo o
direito, no estava com raiva e no queria me fazer sofrer.
No era da sua natureza.

     Algum tempo depois, Grant balanou a cabea, bufando.

      Voc fez o que precisava fazer  falou.  E eu fiz o que
precisava fazer.
       Entendi que suas palavras significavam que eu tinha
razo quando supus que minha filha morava no vinhedo.
Grant a deixara com Elizabeth.

        Jantar?  ofereceu ele de repente, virando-se para
mim.

        Voc vai cozinhar?  perguntei.

       Ele assentiu e me levantei.

       Comecei a andar em direo  torre de gua, mas Grant
pegou minha mo e me levou at a varanda da casa principal.
Deixei que ele me conduzisse, notando pela primeira vez que
a casa havia sido pintada e as janelas trocadas.

       A mesa da sala de jantar estava posta, o tampo de
madeira envernizado exposto, exceto por dois descansos de
mesa em uma ponta, guardanapos de pano dobrados,
talheres de prata polidos e pratos finos de porcelana branca
com flores azuis nas bordas. Eu me sentei e Grant serviu
gua num copo de cristal de uma jarra antes de desaparecer
atrs da porta de vaivm que conduzia  cozinha. Ele voltou
com um frango assado inteiro em uma bandeja de prata.

        Costuma cozinhar tudo isso s para voc?  perguntei.

        s vezes. Quando no consigo tir-la da cabea. Mas
hoje cozinhei para voc. Assim que a vi pular o porto, acendi
o forno.

       Ele cortou as duas coxas com uma faca e as colocou no
meu prato antes de fatiar o peito. Voltou  cozinha para pegar
uma tigela de molho e uma travessa longa de legumes
assados: beterrabas, batatas e pimentes de cores vibrantes.
Enquanto me servia, terminei de comer a primeira coxa.
Larguei o osso limpo em cima de uma poa de molho e Grant
se sentou em uma cadeira de frente para a minha.

     Eu tinha tantas perguntas. Queria que ele descrevesse
cada dia desde que ele encontrou a beb no cesto forrado de
musgo. Queria saber como ele se sentiu quando fitou os
olhos da filha pela primeira vez, se sentiu amor ou medo, e
como ela acabou indo morar com Elizabeth.

     Queria fazer perguntas, mas em vez disso devorei o
frango como se no tivesse feito uma nica refeio desde a
ltima vez que Grant cozinhara para mim. Comi as duas
coxas, as duas asas e ento parti para o peito. O sabor da
carne se misturava em minha memria com o sabor de
Grant, de seus beijos depois de cozinhar, da maneira como
me tocava, somente quando eu pedia, no ateli e em todos os
trs andares da torre de gua. Eu o abandonara, abdicara de
seu toque, sua comida, e nada jamais o havia substitudo.
Quando levantei a cabea, ele me observava comer, como
tantas outras vezes, e percebi, pela expresso em seus olhos,
que nada havia me substitudo tampouco.

     Quando terminei, o frango na bandeja de prata era uma
esttua de ossos. Olhei para o prato de Grant. Era difcil
saber se ele tinha comido alguma coisa. Eu esperava que sim.
Esperava que no tivesse devorado a ave inteira. Mas quando
ele me perguntou se eu queria ver o quarto de Hazel e tentei
me levantar, senti o peso da comida dentro de mim. Deixei
Grant praticamente me carregar at o andar de cima. Ele
abriu a ltima porta do longo corredor e me ajudou a sentar
na beira de uma cama de solteiro. Eu me deitei. Grant
levantou minha cabea e colocou um travesseiro debaixo
dela. Ento, passou em frente a uma cadeira de balano e
pegou um lbum de fotografias cor-de-rosa de uma estante.

      Elizabeth fez isto para ela  falou, abrindo o livro.

     A primeira pgina continha um desenho de uma flor de
aveleira feito por Catherine. Tinha sido arrancado de seu
arquivo, plastificado e preso ao lbum com cantoneiras
douradas. O nome de minha filha, Hazel Jones-Hastings,
estava escrito abaixo dele, com a caligrafia elegante de
Elizabeth, junto com a data de seu aniversrio, 1 de maro,
que no era o dia certo. Ele virou a pgina.

     Em uma foto emoldurada, Hazel estava deitada em seu
cesto forrado de musgo, exatamente como eu a havia deixado.
Senti meu estmago embrulhar e meus olhos se encherem
d'gua ao recordar meu amor por ela naquele momento,
devastador e incapacitante. Na pgina seguinte, a cabea de
Hazel estava pressionada contra o peito de Grant em um
canguru, com um chapu branco mole amarrado debaixo de
seu queixo. Ela estava dormindo. Havia duas ou trs fotos de
cada ms de sua vida: o primeiro sorriso, o primeiro dente e a
primeira refeio, tudo capturado com uma ateno cheia de
carinho.
     Fechei o lbum e o entreguei a Grant. Era tudo o que eu
queria saber.

      Este  o quarto dela?  perguntei.

      Quando ela vem me visitar. Geralmente nos sbados 
tarde, ou depois que eu volto do mercado dos fazendeiros aos
domingos.

     Ele correu a mo ao longo da grade de um bero vazio
enquanto devolvia o lbum  prateleira. Quando se deitou ao
meu lado, senti seu corpo quente tocar meu brao.

     Olhei ao redor do quarto. As ilustraes de flores de
Catherine, quadrados de 30 centmetros em grafite, estavam
penduradas em molduras cor-de-rosa com passe-partout
brancos e grossos. As molduras combinavam com os mveis:
um bero, uma cadeira de balano, uma mesa de cabeceira e
uma estante, tudo cor-de-rosa estampado com margaridas
brancas.

      A casa est bonita  falei.  Voc fez tanta coisa em um
ano...

     Grant balanou a cabea.

      Um ano e meio  corrigiu-me.  Comecei um dia depois
de lhe mostrar o ateli da minha me. Nas tardes em que
voc fazia hora extra, eu vinha correndo para casa para
arrancar papel de parede, refazer o acabamento dos pisos.
Queria que fosse uma surpresa. Esperava que algum dia
morssemos aqui juntos.
     Eu tinha ido embora sem me despedir, sem ao menos
contar para Grant que estava grvida. E ele havia passado
todo esse tempo construindo um lar para mim, sem saber se
eu voltaria ou quando.

      Sinto muito  falei.

     Um silncio pairou entre ns e lembrei-me dos primeiros
meses da minha gravidez, quando fui dormir pela segunda
vez na McKinley Square, enjoada, suja e desgrenhada. A
imagem me causou desconforto. Na poca, estava to
chocada que no sentia medo de nada: todo o meu senso de
autopreservao havia desaparecido.

      Tambm sinto muito  disse Grant.

     Descolei meu corpo do seu e o olhei nos olhos. Ele
estava falando sobre a nossa filha, o quarto dela vazio ao
nosso redor.

      Voc entregou Hazel?  perguntei.

     No era uma acusao e, pela primeira vez na vida, o
tom da minha voz expressava exatamente o que eu queria
dizer, que minha curiosidade era inocente e avassaladora.

     Grant assentiu.

      No queria fazer isso. Eu a amei assim que a vi. Meu
amor por ela era to grande que me esqueci de comer, de
dormir e de cuidar das flores durante todo o ms de maro.

     Ento tinha sido o mesmo para Grant que fora para
mim, pensei: demais.
     Ele se virou para mim, seu corpo grosso apertado contra
o meu e a parede.

      Queria tanto faz-la feliz  disse ele.  Mas no parava
de cometer erros. Dava comida de mais para ela, me esquecia
de trocar sua fralda ou ento a deixava muito tempo no sol
enquanto eu trabalhava. Ela nunca chorava, mas a culpa no
me deixava dormir  noite. Achava que estava decepcionando
minha filha e a voc tambm. No conseguia ser o pai que
queria, no sozinho, no sem voc. E tinha medo, mesmo
quando escolhi o nome dela, de que voc nunca mais
voltasse.

     Grant ergueu sua mo pesada e a passou pelo meu
cabelo. Pressionou o rosto contra minha cabea e senti sua
barba por fazer espetar minha pele.

      Eu a levei at Elizabeth  disse ele.  Foi a nica coisa
em que consegui pensar. Quando apareci na sua varanda
com a beb no cesto, ela chorou e nos levou at a cozinha.
Fiquei duas semanas na casa dela e, quando fui embora, no
trouxe Hazel comigo. Ela sorriu pela primeira vez nos braos
de Elizabeth. No suportei a ideia de separ-las.

     Grant me envolveu com seus braos e apoiou o rosto na
minha orelha.

      Talvez tenha sido apenas minha desculpa para
abandon-la  sussurrou.  Mas era impossvel para mim.

     Passei o brao por baixo de seu peito. Quando ele me
abraou forte, retribu o gesto.
      Eu sei  respondi.

     Tambm tinha sido impossvel para mim e ele sabia
disso sem que eu precisasse falar. Ficamos abraados como
se estivssemos nos afogando, sem que nenhum dos dois
buscasse a segurana do litoral, e continuamos assim por um
bom tempo, sem falar, apenas respirando.

      Voc contou a Elizabeth sobre mim?  perguntei.

     Grant assentiu.

      Ela queria saber de tudo. Achava que poderia relatar
todos os momentos de cada dia que voc tinha vivido desde a
ltima vez que se viram no tribunal e sempre ficava
decepcionada porque eu no conseguia.

     Grant me contou sobre as vezes em que ficava sentado 
mesa de Elizabeth, um rosbife assando no forno, com Hazel
adormecida em seus braos. Por que voc no perguntou?,
insistia ela quando Grant no sabia o que eu havia feito no
meu aniversrio de 16 anos, se eu tinha cursado o ensino
mdio ou o que mais gostava de comer no caf da manh.

      Ela riu quando contei que voc no gostava de lrios e
me disse que voc tambm no era muito f de cactos.

     Afastei o rosto do peito de Grant para encar-lo. O canto
de sua boca se curvou para cima e eu soube que ele tinha
ouvido a histria toda.

      Ela lhe contou tudo?  perguntei.
     Grant assentiu. Deixei minha cabea cair de volta,
pronunciando as palavras seguintes junto ao seu peito.

      At sobre o incndio?

     Ele fez que sim de novo, pressionando o queixo contra
minha testa. Por fim, fiz a pergunta que vinha guardando
dentro de mim havia tanto tempo.

      Como voc pde no saber a verdade?

     Grant no respondeu de imediato. Quando o fez, suas
palavras saram com um longo suspiro.

      Minha me est morta.

     Imaginei que, com essa afirmao, ele pretendia colocar
um ponto final s minhas perguntas, ento no o pressionei.
Mas, depois de uma pausa, ele prosseguiu.

       tarde demais para perguntar a ela. Mas acho que ela
acreditava ter causado o incndio. quela altura, no me
reconhecia durante a maior parte do tempo. J se esquecia
de comer, se recusava a tomar o remdio. Na noite do
incndio, eu a encontrei no ateli, observando o fogo.
Lgrimas escorriam pelo seu rosto. Ela teve um acesso de
tosse e ento comeou a sufocar, como se tivesse fumaa nos
pulmes. Eu me aproximei dela, coloquei meus braos em
volta dos seus ombros. Ela parecia to pequena. Eu devia ter
crescido uns 30 centmetros desde a ltima vez que me
aninhara em seus braos. Entre soluos, ela murmurava a
mesma frase, sem parar: Eu no queria fazer isso.
     Imaginei o cu roxo, as silhuetas de Catherine e de
Grant na janela, e senti de novo o desespero que havia
experimentado diante do calor do fogo. Catherine tambm o
sentira. Naquele momento, fomos iguais, as duas devastadas
pela nossa compreenso limitada da realidade.

      E depois?  perguntei.

      Ela passou um ano desenhando jacintos. Usava lpis,
carvo, tinta, pastel. Por fim, comeou a pintar em todo tipo
de superfcie, desde telas enormes at pequenos selos: caules
roxos altos com centenas de flores minsculas. Todos para
mim, dizia. Nenhuma era boa o suficiente para Elizabeth.
Todos os dias, ela tentava outra vez.

     Jacinto. Por favor, me perdoe. Eu me lembrei dos potes
de tinta roxa na prateleira mais alta do ateli de Catherine.

      Foi um bom ano  disse Grant.  Um dos melhores que
tivemos. Ela voltou a tomar o remdio e tentava comer.
Sempre que eu passava pelo terreno embaixo de sua janela
quebrada, ela gritava l do alto que me amava. s vezes,
quando passo em frente  casa, ainda olho para cima,
esperando v-la.

     Catherine     jamais   abandonara   Grant,   nem   mesmo
quando ficou doente. Sozinha, sem ajuda de ningum, ela
havia conseguido fazer o que nem eu nem ele tnhamos sido
capazes: manter e criar um filho. O respeito que me invadiu
foi profundo e inesperado. Olhei para Grant para ver se ele
tambm o sentia. Seus olhos, vidrados e arregalados,
estavam fixos nos desenhos da me.

     Ela amava voc  falei.

    Ele passou a ponta da lngua pelo lbio superior e
concordou:

     Eu sei.

    Havia um qu de surpresa em sua voz e eu no sabia se
era pelo fato de a me o haver amado tanto ou por finalmente
entender quanto esse sentimento era profundo. Ela estava
longe de ter sido uma me perfeita. Mas Grant, agora um
adulto, era forte, carinhoso, alm de um fazendeiro bem-
sucedido. Ningum poderia dizer que ela no o criara bem 
ou pelo menos bem o suficiente. Senti uma onda de gratido
por aquela mulher que nunca conheci; a mulher que tinha
criado o homem que eu amava.

     Como ela morreu?  perguntei.

     Um dia ela no levantou da cama. Quando fui v-la,
no estava respirando. Os mdicos disseram que foi a
combinao de lcool e dos remdios controlados. Ela sabia
que no devia beber, mas costumava levar uma garrafa
escondida para a cama. No fim das contas, seu corpo no
aguentou.

     Lamento.
        Era verdade. Lamentava por Grant e por no poder
conhec-la. Lamentava que Hazel jamais fosse conhecer a
av.

        Abracei Grant uma ltima vez. Puxando meu brao de
baixo dele, beijei sua testa.

         Voc tem sido bom para Hazel  falei, com a voz
trmula.  Bom demais. Obrigada.

        Passei por cima do seu corpo e me levantei.

         No v embora  pediu ele.  Fique aqui comigo. Por
favor. Farei o jantar para voc todas as noites.

        Examinei os desenhos na parede: crcus, prmula e
margaridas  flores para uma menina. Eu no conseguia
encarar Grant, no conseguia pensar em sua comida. Se
olhasse apenas mais uma vez nos seus olhos ou sentisse o
cheiro de qualquer coisa no forno, seria impossvel partir.

         Preciso ir  falei.  Por favor, no me pea para ficar.
Eu me importo muito com minha filha para atrapalhar sua
vida agora que ela est feliz, bem cuidada e amada.

        Grant se levantou. Passou os braos em volta da minha
cintura e me puxou para junto dele.

         Mas ela no tem a me  disse.  Nada pode substituir
isso.

        Suspirei. Seu tom no era acusatrio, intimidador nem
persuasivo.
     Suas palavras eram verdadeiras.

     Desci as escadas e Grant me seguiu. Ele me ultrapassou
na sala de jantar e abriu a porta da frente. Atravessei-a
depressa.

      Venha para o Dia de Ao de Graas  convidou-me. 
Teremos rosas.

     Comecei a andar em direo  estrada, a passos lentos e
pesados. Por mais que tivesse recusado o convite de Grant
para ficar, na verdade no queria ir embora. Depois de ouvir
as risadinhas de minha filha, depois de ver outra vez
Elizabeth desempenhando o papel de me  sua voz to firme
e carinhosa quanto eu me lembrava , no conseguia me
obrigar a partir. No queria atravessar a ponte de volta e me
esconder no quarto azul. Acima de tudo, percebi com
surpresa, no queria ficar sozinha.

     Esperei ouvir o clique da porta da frente se fechando.
Ento, dei meia-volta e entrei agachada na estufa mais
prxima.

     Precisava de flores.
     O BUQU QUE TINHA FEITO na fazenda de Grant se
balanava   entre   meus    joelhos   enquanto   eu   dirigia,
percorrendo o curto caminho de volta at a casa de Elizabeth.

     Estacionei em frente  propriedade e subi a longa
entrada de veculos. Uma suave luz alaranjada brilhava na
janela da cozinha. quela altura da estao, eu esperava
encontrar Elizabeth j fazendo as degustaes noturnas pelo
vinhedo, com Hazel em seu colo, mas parecia que elas ainda
estavam terminando de preparar o jantar. Eu me perguntava
como ela conseguia cuidar do vinhedo com a beb e se a
qualidade da colheita ficaria prejudicada. No conseguia
imagin-la permitindo que isso acontecesse.
     Eu me detive na varanda, espiando pela janela da frente.
Hazel estava sentada  mesa da cozinha, numa cadeira de
beb, presa pelo cinto de segurana. Elizabeth tinha lhe dado
banho e trocado sua roupa desde quando eu a vira no jardim.
Seu cabelo molhado, mais escuro e cacheado do que antes,
estava partido para o lado e preso com um prendedor. Um
babador verde amarrado atrs do seu pescoo estava
respingado de algo branco e cremoso e ela lambeu o resto do
que tinha comido das pontas dos dedos. Elizabeth estava de
costas para mim, lavando a loua. Quando ouvi a gua pia
sendo fechada, fui para trs da porta de entrada.

     Inclinando a cabea, mergulhei o nariz no buqu que
criara. Havia flor de linho, de aveleira e no-te-esqueas-de-
mim. Rosas brancas e cor-de-rosa, helenium e pervinca,
prmula e montes e montes de campnula. Botei musgo
aveludado entre os caules bem amarrados, de modo quase
imperceptvel, e salpicara o arranjo com as ptalas roxas e
brancas das slvias mexicanas da fazenda de Grant. O buqu
era enorme, mas ainda assim nem de longe era o suficiente.
Respirando fundo, bati.

     Elizabeth passou em frente  janela e abriu a porta.
Hazel estava encaixada em seu quadril, com a bochecha
apoiada no ombro de Elizabeth. Estendi as flores.

     Um sorriso se espalhou no rosto de Elizabeth. Em sua
expresso, vi reconhecimento e alegria, mas no a surpresa
que esperava. Quando ela me olhou dos ps  cabea, eu me
senti como uma filha voltando de uma colnia de frias para
junto da me que se preocupara desnecessariamente. S que,
em vez de frias, tinha sido minha adolescncia inteira,
minha emancipao, minha experincia como sem-teto e
como me solteira. Alm disso, no se poderia dizer que a
preocupao de Elizabeth tinha sido desnecessria. Mas,
naquele instante, os anos que haviam se passado desde que
eu sara de sua casa pareceram curtos e distantes.

     Abrindo a tela, ela estendeu o brao por cima do buqu,
passando-o em volta do meu pescoo. Eu me apoiei no ombro
que Hazel tinha deixado livre e ficamos ali, em um abrao
desajeitado, at a beb comear a escorregar do quadril de
Elizabeth. Ela a empurrou de volta para cima e me afastei
para olhar as duas. O rosto de Hazel estava escondido;
Elizabeth secava lgrimas dos cantos dos olhos.

      Victoria!  exclamou. Em seguida, fechou a mo em
volta dos meus dedos e seguramos o buqu juntas. Por fim,
ela o pegou.  Senti sua falta.

      Eu tambm  falei.

     Ela ento segurou a tela aberta e meneou a cabea,
convidando-me a entrar.

      Voc j jantou? Sobrou um pouco de sopa de lentilhas
e fiz sorvete de baunilha hoje  tarde.

      Acabei de comer  respondi.  Mas aceito o sorvete.

     Hazel ergueu a cabea do ombro de Elizabeth e bateu
palmas.
      Voc j comeu o seu, garotinha  disse Elizabeth,
beijando o topo da cabea da menina e entrando na cozinha.

     Ela ps Hazel no cho e a beb se agarrou s suas
pernas. Debruando-se do freezer at o balco sem dar um
passo, Elizabeth conseguiu pegar um pote de sorvete, uma
tigela e uma colher.

      Subindo  disse ela quando acabou de encher a tigela.
Hazel estendeu as mos para cima e Elizabeth se abaixou
para apanh-la com um s brao.  Vamos sentar  mesa
com sua me.

     Meu corao disparou diante da maneira casual como
Elizabeth se referiu  minha maternidade, mas Hazel,  claro,
no estranhou.

     Lavei as mos na pia e me sentei. Elizabeth arrastou a
cadeira alta de modo que ela ficasse de frente para mim, mas,
quando se inclinou para colocar a beb l dentro, Hazel
gritou e se agarrou  nuca de Elizabeth.

      No, obrigada, tia Elizabeth  brincou ela com calma,
interrompendo o grito de Hazel.

     Ento tirou a cadeira de beb do caminho e arrastou
uma cadeira normal para o seu lugar, sentando-se com Hazel
apertada contra seu corpo.

      Ela vai se acostumar com voc  declarou.  Precisa de
um tempinho para se acostumar.

      Grant me disse.
        Voc esteve com ele?

       Assenti.

        Agora h pouco. Vim aqui antes, mas quando vi voc
no jardim com Hazel, fiquei to surpresa que sa correndo.

        Fico feliz que tenha voltado.

        Eu tambm.

       Elizabeth empurrou a tigela de sorvete pela mesa e
nossos olhares se cruzaram. Eu estava de volta. Talvez no
fosse tarde demais, afinal.

       Tomei uma colherada gelada e cremosa. Quando ergui
os olhos, Hazel tinha se virado para mim. Ela me espiava
timidamente, com os lbios finos entreabertos. Voltei a
encher a colher, levando-a em cmera lenta at a boca, mas
no ltimo instante, girei-a na direo de sua lngua. Ela
engoliu, abriu um sorriso e escondeu o rosto no peito de
Elizabeth.    Ento,   levantando    a   cabea,   abriu   a   boca
novamente. Peguei uma segunda colherada de sorvete e a
enfiei entre seus lbios.

       O olhar de Elizabeth oscilava entre o rosto da beb e o
meu.

        Como voc tem passado?  perguntou.

        Bem  respondi, evitando seu olhar.

       Ela balanou a cabea.
      Nada disso. Quero saber exatamente como voc tem
passado, desde que nos vimos pela ltima vez no tribunal.
Quero saber tudo. Pode comear me dizendo para onde foi
quando fugiu de l.

      No cheguei longe. Meredith me pegou e me mandou
para um abrigo, como tinha prometido.

      Foi terrvel?

     Havia pavor em seus olhos ao fazer essa pergunta e eu
soube que ela esperava que eu confirmasse seus piores
pesadelos sobre como minha vida tinha sido ao longo da
ltima dcada.

      Para as outras garotas, sim  falei com sarcasmo,
lembrando-me da adolescente que eu tinha sido e todo o mal
que causara.  Para mim, s foi terrvel porque eu no estava
aqui com voc.

     Os olhos de Elizabeth se encheram de lgrimas, Hazel
bateu na mesa com punhos impacientes. Eu lhe dei outra
colherada e ela esticou os braos, como se quisesse que eu a
pegasse. Olhei para Elizabeth.

     Ela assentiu, encorajando-me.

      V em frente.

     Com as mos trmulas, segurei Hazel por baixo dos
braos, erguendo-a e puxando-a para mim. Ela era mais
pesada do que eu imaginava. Quando a coloquei no meu colo,
ela balanou o bumbum contra o meu abdome e enfiou a
cabea debaixo do meu queixo. Afundei o rosto no cabelo em
sua nuca. Seu cheiro era como o de Elizabeth: leo de
cozinha, canela e     sabonete de    limo. Respirei fundo,
envolvendo sua cintura com meus braos.

     Hazel enfiou a mo na tigela, mergulhando os dedos no
creme derretido. Elizabeth e eu ficamos observando-a comer,
o sorvete pingando em seu vestido de linho sem babador. Sua
testa, concentrada, parecia to sria quanto a do pai.

      Onde voc mora?  perguntou Elizabeth.

      Tenho um apartamento. E um negcio, tambm. Fao
arranjos de flores para casamentos, aniversrios, eventos em
geral.

      Grant diz que voc  incrvel. Ele me falou que as
mulheres fazem filas de dobrar o quarteiro, que esperam
meses para comprar suas flores.

     Dei de ombros.

      Tudo o que sei aprendi aqui  reconheci.

     Olhei em    volta, lembrando-me      da   tarde     em   que
Elizabeth cortou um lrio ao meio em cima de uma tbua
naquela mesma mesa. Tudo era exatamente como eu me
recordava  a mesa e as cadeiras, o balco limpo e a pia
funda de porcelana branca. A nica coisa nova era uma
pintura, uma reproduo de um jacinto roxo, do tamanho de
uma caixa de fsforos, que pairava numa moldura de vidro
azul apoiada no parapeito da janela, ao lado da fileira de
garrafinhas azuis.

      Foi Catherine que lhe deu?  perguntei, indicando a
pintura com a cabea.

     Elizabeth fez que no.

      Foi Grant. Catherine morreu antes de pintar um
jacinto que achasse bom o suficiente para mim. Mas este era
o favorito de Grant e ele me deu de presente.

       lindo.

     Elizabeth assentiu.

      Tambm adoro.

     Ela se levantou e trouxe a pintura at a mesa,
colocando-a entre ns duas. Eu analisei a maneira como as
flores   se   juntavam   em   volta   do   caule,   suas   ptalas
pontiagudas se encaixando como peas de um quebra-
cabea. Algo na configurao delas me fazia acreditar que o
perdo deveria vir naturalmente, mas que, naquela famlia,
no tinha sido assim. Pensei nas dcadas de mal-entendidos,
desde as rosas amarelas at o incndio, nas tentativas
frustradas de perdoar e ser perdoado.

      Tudo mudou  disse Elizabeth, como se lesse meus
pensamentos.  Grant e eu, depois de tantos anos, voltamos a
ser uma famlia. Espero que voc volte a fazer parte dela. J
sentimos saudades de mais de voc, no , Hazel?
     Minha filha estava concentrada na tigela, j vazia quela
altura. Ela a virou de cabea para baixo, pegando-a de volta e
analisando o crculo cremoso que deixara em cima da mesa.
Com seus dedos, espalhou o creme em crculos, uma pintura
abstrata e aucarada sobre a madeira.

     A mo de Elizabeth se aproximou da minha em cima da
mesa. Ela a ofereceu para mim e, ao faz-lo, tive a sensao
de que estava me oferecendo um caminho de volta quela
famlia, na qual eu era amada  como filha, como mulher e
como me. Peguei sua mo. Hazel enfiou a dela, grudenta e
quente, entre nossas palmas.

     Porm, mesmo com o perdo to claro nas palavras de
Elizabeth, eu ainda tinha uma pergunta:

      O que aconteceu com o vinhedo?

     O pavor que senti foi o mesmo que percebi na voz de
Elizabeth quando me perguntou sobre minha adolescncia
nos abrigos. Ns duas tnhamos imaginado o pior.

      Ns o replantamos. O prejuzo foi considervel, mas
nada em comparao ao fato de ter perdido voc. Durante
anos, as videiras novas foram finas e as ervas daninhas
grossas. Eu s saa de casa no outono, para fazer a
degustao, e mesmo assim porque Carlos quase derrubava
minha porta todas as noites.

     O trailer no estava mais l. Carlos tambm no.
      Ele voltou para o Mxico h um ano, depois que Perla
foi para a faculdade  explicou Elizabeth.  Os pais dele
estavam velhos e doentes. Eu tinha finalmente aprendido a
lidar com minha dor e a cuidar do meu vinhedo. No
precisava mais dele.

     Ento a perda de minha filha tambm teria ficado mais
fcil, se eu tivesse esperado tempo suficiente. Mas uma
dcada  tempo de mais para esperar. Eu pressionei o nariz
contra   os   cabelos   encaracolados   de   Hazel,   aspirando
novamente seu cheiro doce.

      As uvas devem estar quase boas  falei.

      Provavelmente. H trs dias que no confiro.  mais
difcil agora  ela inclinou a cabea para Hazel , mas vale a
pena.

      Quer minha ajuda?  perguntei, indicando o vinhedo
com um gesto.

      Quero  respondeu Elizabeth, sorrindo.  Vamos.

     Ento pegou um pano de prato mido do escorredor e
limpou as mos e o rosto de Hazel enquanto ela se contorcia.

     Do lado de fora, subimos no trator vermelho. Elizabeth
foi na frente e eu a segui depois de lhe passar Hazel. A
menina se sentou no colo dela, estendendo os braos para
tocar o volante, mas, quando o motor deu partida, se virou
para enterrar o rosto no peito de Elizabeth, pressionando a
orelha contra sua axila para abafar o som. Fomos sacolejando
pela estrada, passando por onde o trailer costumava ficar, at
a colina em que eu havia encontrado a uva madura, no ano
em que causei o incndio. Elizabeth desligou o motor.

     O vinhedo estava silencioso. Hazel se afastou de
Elizabeth, olhando por sobre as videiras em direo  casa.
Seus olhos sonolentos acompanharam a linha do telhado at
as janelas do andar de cima. Quando me viu, levou um susto,
como se tivesse se esquecido de que eu estava ali, mas ento
abriu um sorriso lento, tmido, radiante. Estendendo os
braos na minha direo, soltou um gritinho de prazer. O
som agudo abriu uma rachadura fina na casca de noz que
envolvia meu corao, to perfeitamente quanto teria partido
uma delicada taa de cristal.

     Eu a puxei para mim. Descemos do trator e nos
agachamos junto s videiras. Hazel apertou o rosto contra
um cacho de uvas e me juntei a ela. Peguei uma fruta, cortei-
a com o dente e dei um pedacinho para minha filha. Ela j
havia sido iniciada nesse ritual. Juntas, mascamos a casca e
degustamos o miolo macio, passando-o de uma bochecha
para a outra.

     Eu sorri. 75/7. As uvas estavam maduras.
     COLOQUEI MINHA CAIXA AZUL na estante, no espao
vazio ao lado da caixa cor de laranja de Grant. As duas se
encaixaram perfeitamente entre um livro de botnica e uma
antologia de poesia, no espao que costumavam ocupar no
ano anterior, quando Grant e eu moramos juntos na torre de
gua.

     Era Dia de Ao de Graas. Eu tinha passado a manh
ajudando Grant, picando legumes e verduras, espremendo
batatas e colhendo rosas para a mesa. Elizabeth chegaria a
qualquer momento. Hazel tambm. Grant queria que tudo
estivesse perfeito. Quando eu o deixara na cozinha, ele estava
andando de um lado para outro em frente ao molho,
conferindo com tanta frequncia a temperatura do forno que
fazia o ar quente quase todo sair. O peru s ficaria pronto 
noite, mas eu no me importava. No iria a lugar nenhum.

     Havia deixado o vinhedo apenas duas vezes desde a
noite em que degustara as uvas com minha filha. Uma para
ajudar Marlena com um casamento de 500 convidados 
nosso maior evento at ento  e outra, no dia anterior, para
fazer minhas malas. Depois de esvaziar o apartamento, fui 
Gathering House e ofereci moradia grtis para quem quisesse
trabalhar como assistente de florista. Duas garotas se
ofereceram e eu as contratei imediatamente, levando-as para
meu apartamento. Marlena estava esperando, ansiosa, e
fiquei observando enquanto ela mostrava o local para as
garotas e depois explicava a programao. Elas escutaram em
silncio enquanto Marlena descrevia as vrias tarefas pelas
quais seriam responsveis. Virei-me para ir embora, confiante
de que no precisariam de mim num futuro prximo, porm
Marlena me puxou de lado com uma expresso de desespero
nos olhos.

      Mas elas no conhecem as flores  sussurrou.

      Voc tambm no conhecia  lembrei-lhe, mas isso
no pareceu tranquiliz-la.

     Prometi que voltaria em breve. S precisava de um
pouco mais de tempo.

     Puxando a bolsa de viagem pesada de Grant at o
terceiro andar, pensei na promessa que fizera  Marlena. Eu
adorava a Mensagem, a expresso nos rostos das noivas
quando lhes entregava sua lista de flores, os cartes de
agradecimento que chegavam todos os dias pelo correio.
Marlena e eu estvamos construindo algo. Bethany e Ray j
haviam nos contratado para seu primeiro, quinto e dcimo
aniversrio de casamento. Bethany me dava os crditos por
se sentir to realizada em seu relacionamento; eu lhe dava os
crditos pelo crescente sucesso do meu negcio. No iria
decepcion-la. Tambm no iria decepcionar Marlena.

     Algum dia, eu seria capaz de ter as duas coisas ao
mesmo tempo: um trabalho e uma famlia. Iria para So
Francisco pelas manhs e voltaria para casa na hora do
jantar, como qualquer outra me que trabalha fora. Buscaria
Hazel na casa de Elizabeth, a colocaria em sua cadeirinha no
carro, voltaria com ela para a fazenda de flores e nos
sentaramos  longa mesa de refeies. Grant faria a comida,
que cortaramos para Hazel em pedacinhos bem pequenos e
conversaramos   sobre   o   nosso   dia,   admirados   com o
crescimento de nossos negcios, de nossa filha, de nosso
amor. Nos dias de folga, levaramos Hazel  praia, Grant
carregando-a nos ombros at ela ter idade suficiente para
correr com segurana  beira-mar, suas pegadas na areia
crescendo a cada ms.

     Um dia, eu conseguiria fazer tudo isso.

     Mas ainda no.

     Por ora, eu sabia que reunir minha famlia exigiria todas
as minhas foras e toda a minha ateno. Por mais que
estivesse preocupada, Marlena entendia isso. A tarefa que
tinha  minha frente era descomunal. Eu precisava aceitar o
amor de Grant e de Elizabeth, alm de conquistar o de minha
filha. Jamais poderia, sob circunstncia alguma, abandon-
los outra vez.

         A ideia me enchia tanto de alegria quanto de pavor.

         Eu j havia morado com Grant antes e fracassado.
Assim como j havia morado com Elizabeth e com Hazel. E
sempre fracassara.

         Dessa vez, disse a mim mesma, correndo os olhos pelo
antigo quarto de Grant, seria diferente. Eu faria as coisas
mais devagar, entraria em nossa famlia no convencional de
um modo com o qual pudesse lidar. Minha experincia com a
amamentao me ensinara os perigos de mergulhar de
cabea em algo e se arriscar a um colapso. Era por isso que
eu tinha decidido viver sozinha na torre de gua por um
tempo. Hazel continuaria com Elizabeth, visitando-nos cada
vez mais frequentemente e por perodos mais longos. Quando
meu medo se transformasse em confiana  em minha
famlia, mas especialmente em mim mesma , eu me mudaria
para a casa principal com Grant e Hazel iria morar conosco.
Elizabeth estaria ali perto para nos apoiar. E a torre de gua,
Grant prometeu, sempre seria minha para uma escapulida,
um momento de solido. Era tudo de que eu precisava para
ficar.

         Abri   a   bolsa   e   comecei   a   tirar   minhas   coisas,
empilhando calas jeans, camisetas e sapatos pelos cantos,
pendurando blusas e cintos em uma fileira de pregos
enferrujados na parede. L fora, o porto se abriu com um
rangido. Fui at a janela e vi Elizabeth entrar com um
carrinho de beb, voltando para fechar o trinco. Os
sapatinhos de verniz de Hazel despontavam sob um chapu
de lona largo, puxado para baixo para proteger seu rosto do
sol.

       Encontrei meu nico vestido dentro da bolsa e o peguei.
Despi-me s pressas e troquei de roupa. Era um vestido de
algodo preto abotoado na frente, com um cinto fino do
mesmo tecido. Calcei minha sandlia rasteira vermelho-
escura e coloquei um colar de cristal que Elizabeth me dera,
um que Hazel gostava de pegar.

       Penteando meus cabelos curtos com os dedos, voltei 
janela. Elizabeth j estava no primeiro degrau da varanda,
onde parou o carrinho e abriu a capota. Hazel apertou os
olhos contra a luz do sol. Seu olhar subiu pela torre de gua
e acenei pela janela do terceiro piso. Ela sorriu e esticou os
braos para cima, como se quisesse que eu a tirasse do
carrinho.

       Elizabeth viu seu gesto e se inclinou para peg-la. Com
a beb no quadril, enfiou a mo debaixo do banco do carrinho
e tirou algo dali, erguendo-o para que eu visse.

       Uma mochila em forma de joaninha. Sabia que dentro
dela havia o pijama de Hazel, fraldas e uma muda de roupa.
O rosto de Elizabeth estava repleto de alegria e de uma
coragem obstinada; no tinha dvidas de que o meu tambm.
Olhar para minha filha me enchia de um amor que eu antes
achava ser incapaz de sentir e pensei no que Grant tinha dito
na tarde em que reapareci em seu jardim de rosas. Se fosse
verdade que o musgo no tinha razes e que o amor materno
poderia crescer espontaneamente, vindo do nada, talvez eu
tivesse me enganado ao me julgar incapaz de criar minha
filha. Talvez os indiferentes, os rejeitados, os mal-amados
pudessem aprender a dar amor com tanta abundncia
quanto qualquer outra pessoa.

     Minha filha estava prestes a passar sua primeira noite
comigo. Ns leramos um pouco e nos sentaramos na cadeira
de balano. Depois, tentaramos dormir. Talvez ela ficasse
assustada. Talvez eu me sentisse assoberbada, mas iramos
tentar novamente na semana seguinte e na outra. Com o
tempo, nos acostumaramos uma  outra e eu aprenderia a
am-la como uma me ama sua filha, de forma imperfeita e
sem razes.




                                                  Fim...
              O dicionrio de flores de Victoria




                              A



    Abacaxi (Ananas comosus). . . Voc  perfeito(a)

    Abutilo (Abutilon). . . Meditao

    Accia (Acacia). . . Amor secreto

    Aafro (Crocus sativus). . . Evite excessos

    Aafro-do-prado (Colchicum autumnale). . . Meus
melhores dias j passaram

    Acanto (Acanthus). . . Astcia

    Acnito (Aconitum). . . Cavalheirismo

    Aucena (Hippeastrum). . . Orgulho

    Agapanto (Agapanthus). . . Carta de amor

    lamo-branco (Populus alba). . . Tempo

    lamo-negro (Populus nigra). . . Coragem

    Alecrim (Rosmarinus officinalis). . . Recordao

    Alerce (Larix decidua). . . Audcia

    Alface (Lactuca sativa). . . Indiferena

    Allium (Allium). . . Prosperidade
     Alquequenje (Physalis alkekengi). . . Farsa

     Amaranto (Amaranthus). . . Imortalidade

     Ameixa-preta (Prunus domestica) . . . Mantenha suas
promessas

     Amendoeira,     flor   de   (Amygdalus      communis).   .   .
Indiscrio

     Amora-preta (Rubus). . . Inveja

     Amor-perfeito (Viola). . . Pense em mim

     Anmona (Anemone). . . Desamparo

     Anglica (Polianthes tuberosa). . . Prazeres perigosos

     Anglica do litoral ibrico (Angelica pachycarpa). . .
Inspirao

     Armria (Armeria). . . Solidariedade

     Arquilgia (Aquilegia). . . Abandono

     rvore-de-judas (Cercis). . . Traio

     ster (Aster). . . Pacincia

     ster monte-cassino (Aster). . . Pacincia

     ster-italiana (Aster amellus). . . Adeus

     Astromlia (Alstroemeria). . . Devoo

     Ave-do-paraso (Strelitzia reginae). . . Esplendor

     Aveia (Avena sativa). . . O poder de seduo da msica
    Avel (Corylus). . . Reconciliao

    Avenca (Adiantum capillus veneris). . . Discrio

    Azaleia (Rhododendron). . . Paixo frgil e passageira

    Azedinha (Rumex acetosa). . . Amor de pai e me

    Azevinho (Ilex). . . Previdncia




                              B



    Babosa (Aloe vera). . . Pesar

    Batata (Solanum tuberosum). . . Benevolncia

    Begnia (Begonia). . . Cautela

    Bico-de-papagaio (Euphorbia pulcherrima). . . Mantenha
o bom humor

    Boca-de-leo (Antirrhinum majus). . . Presuno

    Bouvrdia (Bouvardia). . . Entusiasmo

    Brinco-de-princesa (Fuchsia). . . Amor humilde

    Buganvile (Bougainvillea spectabilis). . . Paixo

    Buqu-de-noiva (Spiraea). . . Vitria
                              C



     Cactos (Opuntia). . . Amor ardente

     Calndula (Calendula). . . Luto

     Cambar (Lantana). . . Rigor

     Camlia (Camellia). . . Meu destino est em suas mos

     Camomila (Matricaria recutita). . . nimo diante das
adversidades

     Campainha-de-inverno (Galanthus) . . . Consolao e
esperana

     Campnula (Campanula). . . Gratido

     Campnula-branca      (Campanula     medium)        .       .   .
Constncia

     Capuchinha (Tropaeolum majus). . . Patriotismo

     Caqui (Diospyros kaki). . . Enterre-me em meio ao
esplendor da natureza

     Cardo (Cirsium). . . Misantropia

     Castanha-portuguesa (Castanea sativa). . . Faa-me
justia

     Cauda-de-raposa      (Amaranthus      caudatus).        .       .
Desamparado(a), porm no indefeso(a)

     Celidnia (Chelidonium majus). . . Alegrias viro
     Cereflio (Anthriscus). . . Sinceridade

     Cerejeira, flor de (Prunus cerasus). . . Efemeridade

     Chicria (Cichorium intybus). . . Frugalidade

     Choro-das-praias (Carpobrotus chilensis). . . O seu
olhar me petrifica

     Ciclame (Cyclamen). . . Vaga esperana

     Cicuta-negra (Ammi majus). . . Fantasia

     Cinco-em-rama (Potentilla). . . Filha amada

     Cipreste (Cupressus). . . Luto

     Ciziro (Lathyrus latifolius). . . Prazer duradouro

     Clemtis (Clematis). . . Pobreza

     Coentro (Coriandrum sativum). . . Valor oculto

     Copo-de-leite (Zantedeschia aethiopica). . . Modstia

     Corepsis (Coreopsis). . . Sempre alegre

     Corniso (Cornus). . . Amor intocado pela adversidade

     Cosmos (Cosmos bipinnatus). . . Alegria na vida e no
amor

     Couve (Brassica oleracea). . . Lucro

     Cranberry (Vaccinium). . . Cura para dor de cotovelo

     Cravina (Dianthus). . . Amor puro

     Cravina barbatus (Dianthus barbatus). . . Bravura
     Cravina-branca (Dianthus). . . Apresse-se

     Cravo amarelo (Dianthus caryophyllus). . . Desprezo

     Cravo branco (Dianthus caryophyllus) . . . Meigo(a) e
encantador(a)

     Cravo listrado (Dianthus caryophyllus). . . No posso
ficar com voc

     Cravo     rosa   (Dianthus    caryophyllus).    .   .   Nunca
esquecerei voc

     Cravo vermelho (Dianthus caryophyllus). . . Meu corao
est partido

     Cravo-da-ndia (Syzygium aromaticum). . . Eu o(a) amei,
mas voc no percebeu

     Cravo-de-amor (Gypsophila paniculata). . . Amor eterno

     Crisntemo (Chrysanthemum). . . Verdade

     Crista-de-galo (Celosia). . . Afetao

     Crcus (Crocus). . . Alegria juvenil




                               D



     Dafne (Daphne). . . Gosto de voc como voc 

     Dlia (Dahlia). . . Dignidade

     Dedaleira (Digitalis purpurea). . . Falsidade
     Delfnio (Delphinium). . . Leviandade

     Dente-de-leo (Taraxacum). . . Orculo do campo

     Dictamo-branco (Dictamnus albus). . . Nascimento

     Dracena (Dracaena). . . Voc est prestes a cair em uma
armadilha




                               E



     Edelvais (Leontopodium alpinum). . . Nobre coragem

     Epilbio (Epilobium). . . Pretenso

     Equincea (Echinacea purpurea). . . Fora e sade

     Erva-de-so-joo     (Hypericum       perforatum).   .   .
Superstio

     Erva-doce (Foeniculum vulgare). . . Fora

     Erva-dos-burros (Oenothera biennis). . . Inconstncia

     Ervilha-de-cheiro (Lathyrus odoratus). . . Prazeres
delicados

     Escabiosa (Scabiosa). . . Amor malfadado

     Escada-de-jac (Polemonium). . . Desa

     Escovinha (Centaurea cyanus). . . Felicidade na vida de
solteiro(a)
     Espirradeira (Nerium oleander). . . Cuidado

     Esporinha (Consolida). . . Leveza

     Estrela-de-belm (Ornithogalum umbellatum). . . Pureza

     Eucalipto (Eucalyptus). . . Proteo

     Eufrbia (Euphorbia). . . Persistncia




                                F



     Figueira (Ficus carica). . . Discusso

     Filipndula (Filipendula ulmaria). . . Inutilidade

     Flor-da-paixo (Passiflora). . . F

     Flor-de-cera (Hoya). . . Suscetibilidade

     Flor-de-mel (Lobularia maritima). . . Valor alm da
beleza

     Flox (Phlox). . . Nossas almas esto unidas

     Framboesa (Rubus). . . Remorso

     Frsia (Freesia). . . Amizade duradoura




                                G
     Gardnia (Gardenia). . . Requinte

     Genciana (Gentiana). . . Valor intrnseco

     Gengibre (Zingiber). . . Resistncia

     Gernio

     cheiroso (Pelargonium). . . Amizade verdadeira

     silvestre (Pelargonium). . . Devoo inabalvel

     vermelho (Pelargonium). . . Estupidez

     Grbera (Gerbera). . . Animao

     Giesta (Cytisus). . . Humildade

     Girassol (Helianthus annuus). . . Falsa riqueza

     Gladolo (Gladiolus). . . Voc parte meu corao

     Glicnia (Wisteria). . . Seja bem-vindo(a)

     Glria-da-manh (Ipomoea). . . Faceirice

     Goivinho-da-praia (Malcolmia maritima). . . Voc sempre
ser lindo(a) para mim

     Goivo-amarelo     (Cheiranthus).       .   .   Fidelidade   na
adversidade

     Gramneas (Poaceae). . . Submisso

     Groselheira (Ribes). . . Voc me mata com seu olhar de
desdm
                            H



Hamamlis (Hamamelis). . . Fascnio

Helenium (Helenium). . . Lgrimas

Heliotrpio (Heliotropium). . . Amor devoto

Hemerocale (Hemerocallis). . . Faceirice

Hera (Hedera helix). . . Fidelidade

Hibisco (Hibiscus). . . Beleza delicada

Hortel-pimenta (Mentha). . . Sensao de ternura

Hortnsia (Hydrangea). . . Apatia




                             I



Ibris (Iberis). . . Indiferena

ris (Iris). . . Mensagem




                             J



Jacinto

azul (Hyacinthus orientalis). . . Constncia
     branco (Hyacinthus orientalis). . . Beleza

     roxo (Hyacinthus orientalis). . . Por favor, me perdoe

     Jacinto-dos-campos (Hyacinthoides non-scripta). . .
Constncia

     Jasmim-carolina      (Gelsemium      sempervirens).      .   .
Separao

     Jasmim-de-madagascar (Stephanotis floribunda). . .
Felicidade no casamento

     Jasmim-neve (Jasminum multiflorum). . . Unio

     Jasmineiro-bastardo (Solanum jasminoides). . . Voc 
delicioso(a)

     Jasmineiro-branco (Jasminum officinale). . . Afabilidade

     Junquilho (Narcissus jonquilla). . . Desejo




                                L



     Laburnun (Laburnum anagyroides). . . Beleza meditativa

     Laranja (Citrus sinensis). . . Generosidade

     Laranjeira, flor de (Citrus sinensis). . . Sua pureza  to
grande quanto seu encanto

     Lavanda (Lavandula). . . Desconfiana

     Liatris (Liatris). . . Tentarei novamente
     Lils (Syringa). . . Primeiros sentimentos de amor

     Limo (Citrus limon). . . Deleite

     Limoeiro, flor de (Citrus limon). . . Discrio

     Linho (Linum usitatissimum). . . Sinto a sua ternura

     Lquen (Parmelia). . . Depresso

     Lrio (Lilium). . . Majestade

     Lrio-do-bosque (Trillium). . . Beleza modesta

     Lrio-do-vale   (Convallaria    majalis).   .   .   Retorno   da
felicidade

     Lisianto (Eustoma). . . Reconhecimento

     Loblia (Lobelia). . . Malevolncia

     Ltus (Nelumbo nucifera). . . Pureza

     Loureiro (Laurus nobilis). . . Glria e sucesso

     Louro (Laurus nobilis). . . No mudarei nem morto(a)

     Lupino (Lupinus). . . Imaginao




                                M



     Ma (Malus domestica). . . Tentao

     Macieira, flor de (Malus domestica). . . Predileo
     Macieira silvestre, flor de (Malus hupehensis). . . Mal-
humorado

     Madressilva (Lonicera). . . Devoo

     Magnlia (Magnolia). . . Dignidade

     Malmequer-dos-brejos (Caltha palustris). . . Desejo de
riqueza

     Malva-rosa (Alcea). . . Ambio

     Manjerico (Ocimum basilicum). . . dio

     Manjerona (Origanum). . . Vergonha

     Margarida (Bellis). . . Inocncia

     Margarida-amarela (Rudbeckia). . . Justia

     Maria-sem-vergonha (Impatiens). . . Impacincia

     Marmelo (Cydonia oblonga). . . Tentao

     Matricria-cheirosa    (Tanacetum     parthenium).   .   .
Ternura

     Mil-folhas (Achillea millefolium). . . Cura para um
corao partido

     Milho (Zea mays). . . Fortuna

     Mimosa (Mimosa). . . Sensibilidade

     Molucela (Moluccella laevis). . . Boa sorte

     Morango (Fragaria). . . Perfeio
     Morrio-dos-passarinhos        (Stellaria).   .   .   Seja   bem-
vindo(a)

     Mostarda (Brassica). . . Estou magoado

     Murta (Myrtus). . . Amor

     Musgo (Bryopsida). . . Amor materno




                                N



     Nabo (Brassica rapa). . . Caridade

     No-me-esqueas (Myosotis). . . No se esquea de mim

     Narciso (Narcissus). . . Autoestima

     Narciso-amarelo (Narcissus). . . Recomeos

     Nigela (Nigella damascena). . . Perplexidade

     Ninfeia (Nymphaea). . . Pureza de corao




                                O



     Oliva (Olea europaea). . . Paz

     Organo (Origanum vulgare). . . Alegria

     Orqudeas (Orchidaceae). . . Beleza refinada
                                P



     Papoula (Papaver). . . Extravagncia fora do comum

     Pau-incenso (Pittosporum undulatum). . . Fingimento

     Penia (Paeonia). . . Raiva

     Pera (Pyrus). . . Afeto

     Pereira, flor da (Pyrus). . . Conforto

     Pervinca (Vinca minor). . . Boas lembranas

     Pssego (Prunus persica). . . Seus encantos so
inigualveis

     Pessegueiro, flor do (Prunus persica). . . Sou seu(sua)
prisioneiro(a)

     Petnia (Petunia). . . Sua presena me acalma

     Pilriteiro (Crataegus monogyna). . . Esperana

     Pimpinela-escarlate (Anagallis arvensis). . . Mudana

     Primavera-dos-jardins (Primula elatior). . . Confiana

     Prmula (Primula vulgaris). . . Infncia

     Prmula silvestre (Primula veris). . . Reflexo

     Prtea (Protea). . . Coragem

     Pulmonria (Pulmonaria). . . Voc  minha vida
                                R



    Rannculo (Ranunculus asiaticus). . . Voc irradia
charme

    Rannculo-amarelo (Ranunculus acris). . . Ingratido

    Resed (Reseda odorata). . . Suas qualidades superam
seus encantos

    Rododendro (Rhododendron). . . Cuidado

    Rom (Punica granatum). . . Insensatez

    Rom, flor de (Punica granatum). . . Elegncia madura

    Rosa

    amarela (Rosa). . . Infidelidade

    borgonha (Rosa). . . Beleza inconsciente

    branca (Rosa). . . Um corao inexperiente no amor

    cor de laranja (Rosa). . . Fascinao

    cor de pssego (Rosa). . . Modstia

    cor-de-rosa (Rosa). . . Graa

    marroquina (Rosa). . . Confisso de amor

    roxa (Rosa). . . Encantamento

    vermelha (Rosa). . . Amor

    Rosa mosqueta (Rosa rubiginosa). . . Simplicidade
Ruibarbo (Rheum). . . Conselho




                            S



Sabugueiro (Sambucus). . . Compaixo

Salsinha (Petroselinum crispum). . . Festividade

Slvia (Salvia officinalis). . . Boa sade e vida longa

Samambaia (Polypodiophyta). . . Sinceridade

Sapato-de-vnus (Cypripedium). . . Beleza caprichosa

Saxfraga (Saxifraga). . . Afeto

Sedum (Sedum). . . Tranquilidade

Sino-dourado (Forsythia). . . Expectativa




                            T



Tanaceto (Tanacetum). . . Eu declaro guerra contra voc

Tango (Solidago). . . Incentivo cauteloso

Tlia (Tilia). . . Amor conjugal

Tomilho (Thymus). . . Diligncia

Traqulio (Trachelium). . . Beleza negligenciada
     Trevo-branco (Trifolium repens). . . Pense em mim

     Trigo (Triticum). . . Prosperidade

     Trombeta-chinesa            amarelo-alaranjado   (Campsis
radicans) . . . Fama

     Tulipa (Tulipa). . . Declarao de amor




                                   U



     Urtiga (Urtica). . . Crueldade

     Urze (Erica). . . Solido

     Urze-do-mato (Calluna vulgaris). . . Proteo




                                   V



     Verbasco (Verbascum). . . Tome coragem

     Verbena (Verbena) . . . Reze por mim

     Vernica (Vernica). . . Fidelidade

     Vcia (Vicia). . . Voc  meu arrimo

     Videira (Vitis vinifera). . . Abundncia
Violeta (Viola). . . Dignidade modesta

Violeta-da-lua (Lunaria annua). . . Honestidade

Visco (Viscum). . . Eu supero todos os obstculos




                          Z



Znia (Zinnia). . . Lamento sua ausncia
     Vanessa Diffenbaugh nasceu em So Francisco. Aps
estudar pedagogia e escrita criativa na Universidade de
Stanford,   lecionou   arte   e   redao   para   jovens   de
comunidades pobres. Ela e seu marido, PK, tm trs filhos:
Tre'von, de 18 anos, Chela, de 4, e Miles, de 3. Atualmente,
mora com a famlia em Cambridge.
